entrevista

Entrevista com Tarso de Melo

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Montegem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: David Wigg entrevista Freddie Mercury, 1986.

a série das entrevistas feitas por muá strikes again. para ver as outras clique aqui. sem muita enrolação desta vez, passo logo a palavra ao tarso de melo.

sergio maciel

 

* * *

SM – Num ensaio publicado na revista Germina, o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

TM – Ao menos para mim, é inevitável, enquanto lemos e escrevemos poemas, ficar à sombra da imensa questão “por que poesia?”, mas acredito que qualquer resposta que eu dê será sempre precária, porque as diversas formas históricas como a poesia apareceu sempre foram, de alguma maneira, respostas novas para essa questão e, principalmente, renovações da própria questão. E não penso o “por que poesia?” apenas com relação à escrita pessoal dos poemas, penso-o muito mais até pela necessidade que em mim sempre foi grande e é crescente de ler poemas, de saber o que dizem os poetas pelo mundo, pelo tempo, nas línguas que desconheço completamente. E eu acho que isso até mesmo facilita o convívio com a questão “por que poesia?”, porque não vejo diante dela a possibilidade de responder que não serve para nada, que não tem função alguma. Parto da constatação positiva – a poesia serve para algo, sim – e multiplico suas possibilidades: a poesia serve para algoS, sim. A poesia serve. No mínimo: me serve e serviu a autores e leitores durante todos esses séculos de poesia. Em certa medida, porque registra uma certa experiência histórica, comunica-a com um possível leitor próximo e com o mais inimaginável leitor do futuro, mas também porque responde às grandes questões que a vida nos coloca em momentos diversos, expande tais questões muitas vezes e se projeta para experiências distantes, talvez até ganhando mais força. Enfim, essa minha resposta confusa para “por que poesia?” é também em grande medida minha resposta para “o que é poesia?”. E conheço poucas coisas tão úteis quanto a poesia.

SM – Retiro um trecho aqui da entrevista que fiz com o poeta Ismar Tirelli e lanço a pergunta a você: “Diante da notícia constante do horror, não da vivência, porque a vivência do horror talvez ainda custe um bocado a chegar até nós, uma articulação sintática perfeita faz senso ainda? Este é o momento em que deveríamos ser o mais claro possível ou que deveríamos tentar plasmar na página a confusão de não conseguir abarcar o acontecimento? Ou seja, que diabos seria um poema escrito agora? Ele é dizível? Ele é legível? Se ele possui a menor conexão com a experiência vivida – e eu acho que tem, porque ele não é apenas um joguete lógico nas mãos dos racionalistas de plantão –, se ele ainda tem que ver com a vida, então, como deve ser agora?”

TM – Sempre me chamou atenção que alguns dos poemas mais tristes com que me deparava eram construídos rigorosamente, até mesmo “friamente”, ou seja, sem deixar que o sentimento bruto que inspirou o poema implicasse uma brutalização da forma, por assim dizer. E não há aí, em tese, um problema no poema, uma falha, uma acusação de falsidade ou fingimento. Pelo contrário, porque às vezes é no controle da forma que o poeta consegue intensificar a mediação que pretende criar entre um determinado objeto e o leitor de seu poema. João Cabral, por exemplo, em seus poemas sobre as touradas, sempre me fez pensar nisso. Hoje, no entanto, se fazemos poemas em meio ao horror (social, político, pessoal, que seja), como ademais muitos poetas sempre fizeram, a única certeza que me parece existir é que a poesia tem infinitas formas de lidar com isso, de impactar e de deixar-se impactar. Algum juízo sobre essa relação entre articulação sintática e realidade, a meu ver, só dará conta das formas como historicamente tal relação se deu, mas jamais antecipará ou bloqueará as possibilidades que os próprios poetas podem abrir. Surpreendentemente, como costumam fazer.

SM – Repito aqui uma pergunta que você costumou fazer no seu blog: indique um poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

TM – Eu gosto de muitas coisas, muitas mesmo, entre o tanto de livro que tem saído (e consigo ler, claro), mas posso destacar com facilidade, nos últimos tempos, o poema “Conheço vocês pelo cheiro”, do Ricardo Aleixo (está no mais recente livro dele, “Impossível como nunca ter tido um rosto”, de 2015). Por que o destaco em meio a tantos bons poemas e poetas? Porque é um poema que me parece reunir, com precisão, o melhor domínio da linguagem e uma aguda crítica social. É comum, infelizmente, ver essas duas faces andando separadas, mas o Aleixo, não apenas neste poema, encontra uma associação das mais eficientes entre a forma dura do poema e a porrada que pretende transmitir.

Conheço vocês pelo cheiro
(Ricardo Aleixo)

Conheço vocês
pelo cheiro,

pelas roupas,
pelos carros,

pelos aneis e,
é claro,

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro

que algum
ancestral remoto

lhes deixou
como herança.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

e pelos cifrões
que adornam

esses olhos que
mal piscam

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro

e a tudo que
nega a vida:

o hospício, a
cela, a fronteira.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

de peste e horror
que espalham

por onde andam
– conheço-os

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

deus é um
pai tão sacana

que cobra por
seus milagres.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

mal disfarçado
de enxofre

que gruda em
tudo que tocam

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

é com ódio
que replicam

ao riso, ao gozo,
à poesia.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro.

Cheiro um e
cheirei todos

vocês que só
sobrevivem

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

fazem até das
próprias filhas

moeda forte,
ouro puro.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

de cadáver
putrefato que,

no entanto,
ainda caminha

por seu amor
ao dinheiro.
SM – Você tem uma definição pessoal sobre o que é poesia? Se sim, como a partir dela você concebe seus poemas, seu ato de escrita e o próprio papel (e aqui quero focar na questão política e estética) de sua poesia?

TM – A minha definição de poesia se aproxima cada vez mais de uma antidefinição: cada poema, à sua maneira, define e redefine o que é poesia. Não subscrevo nenhuma definição teórica do que seja poesia como válida universalmente. As melhores definições que conheço são grandes provocações à aventura da poesia – de sua escrita e principalmente de sua leitura. Na história da poesia encontramos as mais radicais reinvenções do que a poesia pode ser do ponto de vista formal e também do conteúdo. Em alguma medida, nesses momentos de insurgência de um poeta contra o que lhe diziam ou impunham que poesia deve ser é que encontramos alguns dos principais feitos dos poetas. E aí, para mim, é indiscernível o aspecto estético do aspecto político, não apenas pelo inconformismo inerente à criação, mas também pela resistência implicada na manutenção da ideia de que a poesia é um uso da linguagem indispensável do ponto de vista existencial, cognitivo, social etc. Meus poemas, por fim, são marcados por essa indefinição proposital do poético, ainda que, do ponto de vista particular (até aqui, ao menos), eles pareçam se mover num espaço bem mais delimitado do que minha resposta leva a crer.

SM – Isto não é lá bem uma pergunta, é mais como um pedido. Eu gostaria que você fizesse um panorama da poesia que lhe é contemporânea, porque me interessa saber como você encara e define “a poesia (e os poetas) da tua geração, do teu tempo”, os teus pares. Me interessa saber, também, quais poéticas estão te atraindo e ocupando teu tempo. Chamo à roda, para expor os próprios caminhos de leitura, o Tarso crítico.

TM – Me sinto cada diz mais distante da figura do “crítico de literatura”, no sentido acadêmico que ganhou preponderância nos últimos tempos. Por várias razões, inclusive de ter feito um caminho muito particular na leitura de poesia, ditada mais por necessidades imediatas e paixões momentâneas do que pela sistematicidade que se espera de um crítico ou teórico da literatura. Não tenho formação em Letras. Brinco que tenho formação em sebos e mesas de bar, lendo na medida da fome e da sede que me acometem a cada época (e isso só piora…). E isso vale também, claro, para a forma como leio a poesia que se lança por aqui a cada dia. Leio tudo o que posso, mas sei que é bem pouco diante do tanto de livros que saem no país todo. Tenho acesso, portanto, a uma fatia desse panorama e, com relação a essa fatia, posso dizer que minha avaliação é positiva, quero dizer, grande parte do que leio me agrada muito. Mais do que “me agrada”: percebo que temos poetas, das mais variadas idades e regiões do país, reagindo de formas muito ricas ao estágio que vivemos, dentro da poesia, mas principalmente da nossa sociedade. Poetas que conseguem trazer para a página a tensão renovada da nossa época, aquela sobre a qual nenhum poeta do passado poderia ter falado especificamente (ainda que muito tenham a dizer sobre ela à distância, como Drummond diz tanto ainda sobre nosso tempo), o que indica mais uma vez a necessidade desses poetas que têm surgido. Enfim, não subscrevo os juízos negativos que alguns têm difundido a respeito da poesia do nosso tempo, mesmo dos poetas mais jovens. Não gosto de tudo, claro, talvez me apegue muito a bem pouco, mas há poetas realmente excepcionais lançando livros neste momento. Prefiro não nomeá-los, mas a Escamandro, por exemplo, tem sido o ponto de encontro deles.

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poesia, tradução

uma tradução medoñenta pra pink dog, por nóspornós

Elizabeth Bishop com índios em visita à Amzônia

Elizabeth Bishop em visita à Amazônia – com índios que gritam num silêncio ensurdecedor EU NÃO SOU SEU ZOOLÓGICO.

 

claro que a poema podia estar e está nos icebergs imaginários. mas essa poema só quer ficar dançada num beatboompá do rap sem qualquer música e arranha lá no fundo mais que rima —rhythm and poetry. essa poema só quer dançar a tradução mais analfabeta, dançar co’cês tudim. todos coloridin todos índios todos pretos coloridos pretos e aqueles pretos e os quase todos pretos de tão pobres.

         nina rizzi

***

Cã-de-rosa

[Fortaleza]

O sol é encarnadoescaldante, o céu azul puro cirrus.
Cangas & biquínis vestem a praia de todos coloridos.
Nua, entre o passo bêbo e a corrida, você cruza a avenida.

Ó, nunca vi uma cadela tão peladinha!
Peladinha, cor-de-beiços, imberbe cã-de-rosa…
Assustada, a reca recua – olha ispritada.

Claro que tão espumando de gastura, com medo de raiva.
Tá é abirobado não, mãh! – é um caso de sarna
avie lá os zóim enribado. Onde estão seus bebêzim?

(A mãe, escarraga a enfermeira, com as tetas cheias, amojadas)
Em que favela você os escondeu, puta pobre, cadela, rapariga
enquanto implora? vive de seus zói picardia e sebo nas canela?

Você não sabia? Saiu no Barra Pesada, em todos os jornais, que é                        [que fazem
para resolver esse tipo de problema; como você acha que lidam com                         [a ruma
de mendigos? Assuvia feito Iara e rebola tudim na maré cheia, até                         [chegar na Barra.

Podiscrê: verminoso, chambregado, zuruó, aleijados, descatitados
todos vão nadando pelo esgoto que escorrega nas periferias escuras.

Se fazem isso com quem implora desmilinguido
cus de cana e noiados e pebados, tomados pela cirrose e fome e                        [neurose
o que não fariam por uma doente de quatro, cãs, cadelas?

Nas barbearias, bares, livrarias, calçadas e esquinas
a piada é o arengue com os mendigos
– ao invés de dar esmolas, dão coletes salva-vidas.

Mas você, cã-de-rosa, não seria capaz
de remar com suas pernas nem sequer boiar.
Avie: uma idéia prática, a delicada

solução é se mascarar.
Esta noite você não precisa se dar ao luxo de ser essa bosta-
merda monstruosa. Será única, cã-de-rosa mascarada micareta.
Logo invém quarta de cinzas, mas oxe! todo dia é carnaval, feriado                        [nacional.
Você pode sambar? Como vai se fantasiar, papangu?

Todos dizem que o Carnaval é um festejo coisado
– as rádios, os crentes, os descontentes, esse povo fêi que bota
buneco em tudo o que é pra gente. Conversa fiada, mininu.

O Carnaval é só o mi disbuiado, é porreta!

Arribe! uma cadela depilada e tão rosinha assim nuazinha não                        [pega bem.
Sai do mei! se fantasie, se mascare e dance o Carnaval!

Iiiiiiêêêiiiiii!!!

Fortaleza, 2017.

 

PINK DOG

[Rio de Janeiro]

The sun is blazing and the sky is blue.
Umbrellas clothe the beach in every hue.
Naked, you trot across the avenue.

Oh, never have I seen a dog so bare!
Naked and pink, without a single hair…
Startled, the passersby draw back and stare.

Of course they’re mortally afraid of rabies.
You are not mad; you have a case of scabies
but look intelligent. Where are your babies?

(A nursing mother, by those hanging teats.)
In what slum have you hidden them, poor bitch,
while you go begging, living by your wits?

Didn’t you know? It’s been in all the papers,
to solve this problem, how they deal with beggars?
They take and throw them in the tidal rivers.

Yes, idiots, paralytics, parasites
go bobbing int the ebbing sewage, nights
out in the suburbs, where there are no lights.

If they do this to anyone who begs,
drugged, drunk, or sober, with or without legs,
what would they do to sick, four-legged dogs?

In the cafés and on the sidewalk corners
the joke is going round that all the beggars
who can afford them now wear life preservers.

In your condition you would not be able
even to float, much less to dog-paddle.
Now look, the practical, the sensible

solution is to wear a fantasía.
Tonight you simply can’t afford to be a-
n eyesore… But no one will ever see a

dog in máscara this time of year.
Ash Wednesday’ll come but Carnival is here.
What sambas can you dance? What will you wear?

They say that Carnival’s degenerating
— radios, Americans, or something,
have ruined it completely. They’re just talking.

Carnival is always wonderful!
A depilated dog would not look well.
Dress up! Dress up and dance at Carnival!

1979

[Elizabeth Bishop, New Poems, 1979]

 

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poesia, tradução

Prufrock, Sayão, Pedrosa, por André Capilé

“O verso mais interessante já escrito em nosso idioma se obtém ou tomando uma forma muito simples, como o pentâmetro jâmbico, e constantemente se afastando dela, ou partindo da ausência de forma e constantemente se aproximando de uma forma muito simples. É esse contraste entre fixidez e fluxo, essa discreta fuga da monotonia, que constitui a própria vida do verso. […] Podemos, pois, apresentar a seguinte formulação: o fantasma de algum metro simples deve sempre esconder-se atrás do cortinado, até mesmo no verso mais ‘livre’” [T. S. Eliot em tradução do Paulo Henriques Britto].

Sendo “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” um dos poemas mais traduzidos do modernismo anglófono, haveria, ainda, motivações razoáveis em repetir, mais uma vez, a empreitada?

Empreendendo uma pesquisa sobre verso livre no Brasil, acompanhando de perto as reflexões de Paulo Henriques Britto, encontrei-me instigado a mexer com esse poema. Ao ler alguns prosodistas estadunidenses sobre o tema, e suas obsessões contabilistas — já não me lembro se Fussel ou Beyers —, apontavam que no desenvolvimento formal da “love song” era possível encontrar um pouco mais de 50% dos versos marcados pelo regime do pentâmetro — a tal “forma muito simples” que ora se aproxima, ora se afasta, dita por Eliot.

Quando me dirigi às versões que encontrei, embora tenha lido algumas prodigiosamente realizadas no âmbito do ritmo, de modo geral esse regime de medida era sumariamente negligenciado. As respostas que comumente são dadas ao pentâmetro, em língua portuguesa, são endereçadas ao decassílabo ou ao dodecassílabo. Vide, por exemplo, essa inversão com a brilhante tradução de Bishop ao poema do Vinícius no âmbito da forma, em que ela converte em pentâmetros os dodecassílabos dele — Scandolara trata disso aqui: https://escamandro.wordpress.com/2012/07/11/elizabeth-bishop-tradutora/

Tentei, o melhor possível, responder a esses pentâmetros encontrados na “love song”. Mas ainda outro incômodo comparecia: a negligência dos esquemas de rimas que Eliot disseminava ao longo de todo o poema. A tradução a que a maioria das pessoas tem acesso é a de Ivan Junqueira, justamente ela é a que mais se afasta dessas proposições.

O pentâmetro, ali, é a enzima que mobiliza o que Eliot chama de “metro fantasma”, um elemento persecutório que martela o ouvido, habituado ou não, na insistência de uma familiaridade rítmico-sonora. Pensemos, por exemplo, no “poema sujo” do Gullar. Acredito ser incontornável a audição, aqui e ali, do fantasma de arte menor das redondilhas maiores jogando com o ritmo físico da mancha gráfica. Mas esse assunto é outro.

Ainda com as rimas o caso é o mesmo. Cada turno estrófico em que Eliot emprega um esquema de rimas, ainda que irregular, joga o tempo todo com o monumento da tradição como se o traísse pela brecha do ridículo. É o “admirabilíssimo ão”, é o “mundo mundo vasto mundo” da anglofonia. Elementos, no fim das contas, que são incontornáveis, a meu ver.

Traduzi esse poema para entrar numa coleção intitulada “Herbert Richers” da Edições Macondo. É uma versão brasileira. A melhor possível. Obviamente me vali das traduções realizadas, e postadas, aqui na escamandro. Muitas vezes uma ótima idéia, rimada com geléia, já havia sido realizada. E, naturalmente, impunha outra tomada de caminho.

As opções, de modo geral, ficam bem claras e não creio que careceriam de maiores apontamentos. Mas uma questão incomoda a muita gente boa: a tradução do nome do J. Alfred Prufrock por J. Pinto Sayão. Não vou me alongar, mas pensando um bocado na figura da personagem, fantasiando uma etimologia para Prufrock, chegou-se em “prurience” e “frock”, a justa “lascívia” da “batina”. Sayão garante um certo ar de aristocracia. E aí está. Mas devo, mesmo, esse nome ao Paulo Henriques Britto. O mérito não é nada meu.

O que me pertence, no fim, é a glosa roubada da canção. Em J. Geraldo Pedrosa, um nome mais comum, fora o início, que é tentativa de dar cabo a outras possibilidades de abertura, há toda um despojo pra jogar, mais uma vez, com a quase impossível tarefa de traduzir “as moças que vem, as moças que vão, falando sem parar pelo salão”.

 

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978. É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Estão no prelo: chabu e troco da passagem — ambos saírão pela editora TextoTerritório. Publicará muimbu pela Edições Macondo agora em abril. Tem publicado textos esparsos em revistas e sites de literatura.

* * *

A CANÇÃO DE AMOR DE J. PINTO SAYÃO

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse ai mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma per cio che giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’ odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.

Então vamos, você e eu,
Quando o fim da tarde é espalhado contra o céu
Como um paciente eterizado sobre a mesa;
Vamos, por certas ruas meio ermas,
Resmungando da noite o refúgio
no pernoite inquieto em hotéis vagabundos;
E as ostras com serragem nos botecos:
Ruas que seguem como uma discussão tediosa
Cuja intenção insidiosa
É conduzir você à questão crucial . . .

“Qual é?” Ah, não me inquira
Vamos logo fazer nossa visita.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

A bruma ocre que esfrega o dorso em volta das vidraças,
O fumo ocre que esfrega o focinho nas vidraças
Lambeu os beiços nas esquinas do crepúsculo,
Pôs-se na poça a chafurdar o charco,
Deixou cair nas costas a fuligem que vem das chaminés,
Deslizou pela laje, deu um salto súbito,
E vendo que era uma branda noite de outubro,
Por inteiro enrolou-se em volta da casa, e dormiu.

E muito certamente haverá tempo
Pra que flua pela rua a parda fumaça
Esfregando o dorso pelas vidraças;
E sim, haverá tempo, haverá tempo
De preparar um rosto que outro rosto encare;
Haverá tempo para matar e criar,
Tempo de mãos, para os trabalhos e os dias,
Que erguem e lançam questões no seu prato;
Tempo para você, tempo pra mim,
E tempo ainda de mil e uma indecisões,
Também de inúmeras visões e revisões,
Antes da hora de torradas com chazinho.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

E muito certamente haverá tempo
Para se perguntar: “Devo eu ousar?” e, “Eu devo ousar?”
Tempo de dar meia volta e descer as escadas,
Com o meu cocuruto calvo como um alvo —
(E dirão: “Como o cabelo dele está ficando ralo!”)
Meu paletó, colarinho engomado, o queixo firme,
Alfineto a gravata, mui discreta e chique,
(E dirão: “Como as pernas e braços dele estão magrinhos. ”)
E eu devo ousar
Perturbar o universo?
Em um minuto temos tempo
Pra decisões e revisões que num segundo verão seu reverso.

A todos conheci, já sei de tudo: —
Sei bem as noites, as manhãs, as tardes,
Tenho a vida medida em colheres de chá;
E sei, num fim de outono, as vozes moribundas
Que vem de um salão remoto, sob música.
Como então eu presumiria?

Conheci de todos, os olhares, os olhares todos —
Olhos te acertam numa frase lapidar,
E quando eu estiver formulado, estrebuchando em um alfinete
E eu estiver espetado e contorcido na parede,
Como então deveria eu começar
A escarrar o bagaço da vida diária?
E como eu presumiria?

E também sei de braços, todos eles —
Brancos e nus os braços portam braceletes
(Mas a lâmpada alumbra a penugem castanha!)
Vem do perfume das saias
O que me faz divagar?
Esses braços pousados numa mesa, ou envoltos em um xale.
E como eu presumiria?
E eu começaria como?

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Diria: Caminhei no crepúsculo por vielas estreitas,
Vendo a fumaça subir dos cachimbos
De homens sós, em camisetas, nas janelas? . . .

Eu deveria ter sido um par de garras molambentas
Escrutando o fundo de mares silentes.

.      .      .      .      .      .      .      .      .

E a tarde dorme, anoitecendo, tão pacífica!
Apalpada por longos dedos,
Dormente . . . fatigada . . . ou achacadiça,
Estirada no chão, aqui, ao lado de mim e você.
Eu deveria, após o chá, sorvete e quiche,
Ousar levar esse momento a uma crise?
Apesar de choro e jejum, choro e oração,
E de ter visto minha cabeça (um pouco calva) ser carregada
[ sobre uma travessa,
Não sou profeta —, isso em nada interessa;
Vi meu momento de glória piscar,
Vi o eterno lacaio vestir-me o casaco, e assobiar;
Em resumo: eu tive medo.

Valeria a pena, depois de tudo?
Depois das xícaras, geléia e chá,
Em meio à porcelana, em meio às nossas falas,
Teria valido a pena,
Cortar, com um sorriso, o falatório;
Ter premido o universo numa bola
Que rola ao crucial questionamento;
Dizer: “Sou Lázaro, venho dos mortos,
Vos direi tudo, Eu tudo Vos direi na volta” —
Se alguém, pousando a testa na almofada,
Balbuciasse: “Não disse bem isso; contudo
Falei mas não assim, em absoluto”.

Valeria a pena, depois de tudo,
Teria valido a pena,
Depois do por do sol, os fundos de quintais e as ruas polvilhadas,
Depois do chá das cinco, da novela das seis, do giro no salão
[ com a saia rendada —
É isto, e então: mais nada? —
É impossível dizer justo o que quis dizer!
Como se houvesse projetado uma lanterna mágica, na tela,
[ uma sessão de nervos:
Teria valido a pena
Se alguém, ao ajeitar uma almofada ou retirar um xale,
E voltando-se em direção à janela, dissesse:
“Não é nada disso;
Não foi nada disso que eu quis dizer.”

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Não! Não sou, nem quis ser, Príncipe Hamlet;
Sou um lorde cortesão, que servirá
De figurante com andar solene, iniciada uma ou outra cena,
Aconselhar o príncipe: uma ferramenta simples, sem dúvida;
Respeitoso, contente de ser útil,
E meticuloso, e cauto, e prudente;
Um fraseado pomposo, mas um pouco obtuso;
Às vezes parece um tanto ridículo —
Às vezes, de fato, o BUFO.

Envelheci . . . Ah, eu envelheci . . .
Dobrar as bainhas das calças eu consegui.

Partirei pelo meio o meu cabelo? Me atreverei comer um pêssego?
Vestirei calça branca de flanela, e vou andar sobre a areia.
De uma pra outra, ouvi cantar sereias.

Não devo crer que cantarão pra mim.

Nas ondas do mar, cavalgando, as vi
No recuo das vagas, penteando crinas claras
Que o vento rufla, em preto & branco, as águas.

Cingem-nos as Ondinas com grinaldas de algas pardas e rubras
Nas câmaras do oceano persistimos
Até que humanas vozes nos despertam, e sucumbimos.

§

A cantilena de J. Geraldo Pedrosa

Poderia começar tudo de novo —
como enxugar o gelo ou alisar um ovo —
dizendo simplesmente: “as moças vão e vem”.
Contudo, seguem os segundos sem demora.
E se pergunta: “o que é que vem agora?”
Agora já passou mais um segundo,
— talvez eu te visite em mais um turno,
ó mundo que me deu só um amor.
E o tempo é pra perder — não é terrível
poupar a vida temendo o ridículo?
Saber que o mel, dessa canção, é um horror?
Então, vou me montar, passar o rímel;
espera mais um pouco, e já saímos
— é hora de largarmos os relógios.
E aí? Vamos agora, só nós dois,
quando espalhado contra o céu o sol se pôs
como um paciente eterizado ali na maca;
certo, as ruas estão meio desertas,
mas não reclame muito, se o refúgio inquieta
a noite, se o pernoite é num motel barato,
ou se os botecos dão-nos ostras com borralho:
feito papo furado a via ruma
por intenções movidas com astúcia
conduzindo-o à questão excruciante. . .
“Qual é?” Ah, nem me venha com seus arremedos:
a vida é muito curta pra ter medo
e as moças vão e vêm, num toma lá dá cá
(feito uma aparição no meio do tumulto
— as pétalas no charco, e os galhos brunos).
e as falas principais são das atrizes —
quando começam, não há quem as pare:
garotas que azulejam Portinari,
não deixam por riscar mais uma prise.
a vida é pura, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
O drama inicial foi bem dinâmico —
quando começa a dança, ele vai ver:
garotas que se clicam por Monet,
deixam de ser motivo (e desce pano).
A vida é rara, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
Cansou de artista plástico um minuto —
o assunto é borrachudo, como um cheque:
talvez seja melhor samba de breque,
e o que sobra do tom é bem cascudo.
A vida é bamba, e as bossas vão durar
pelo salão… enquanto tocam sem parar.

Padrão
tradução

Primeiro diálogo entre Petrúquio e Catarina, por Matheus Mavericco

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Esse aqui é um dos diálogos mais engraçados que já devo ter lido. Acho que não será necessário sequer introduzi-lo. Você já conhece a situação: Catarina é a megera e Petrúquio… Bem. Petrúquio é um Joselito da vida, se é que me entendem. Mais cedo ou mais tardes eles tinham que se topar, e quando se topassem, pensa na cena que não ia dar! Pois é. Deu nessa.

Não tive acesso a muitas traduções desta passagem. Na verdade, tive acesso somente à tradução do Millôr, que é talvez a mais célebre. O Millôr de um modo geral foi um gênio quando o assunto era traduzir trocadilhos. No início de Hamlet, por exemplo, o Cláudio pergunta pro Hamlet porque motivo ele, Hamlet, tava todo emburrado daquele jeito, fazendo cara feia. Pergunta idiota, tolerância zero. Teu pai morreu há pouco tempo (The memory be green). Quer o quê? Que eu fique alegre, solte foguete? Pois é. Hamlet diz, à parte: “A little more than kin, and less than kind”. Sacou? kin, kind. Cláudio agora era mais do que um tio, mas era less than kind. kind tem muitos sentidos: Cláudio era parente de Hamlet mas os dois eram personalidades muito distintas, Cláudio não era alguém normal (o cara tava se engraçando pra esposa do irmão) e Cláudio não era alguém que tinha um pingo de consideração. Millôr consegue se sair muito bem com seu “Me perfilha como primo, pois não primo como filho.” (Lembre-se que “primo”, como no original em inglês, cousin, tinha, à época, um sentido bem mais amplo que também abarcava a figura dos sobrinhos.) Lawrence Flores Pereira, que lançou recentemente sua tão aguardada versão da peça, também se sai com felicidade, traduzindo para “Quase da mesma cepa, mas não do mesmo corpo.”

Este é só um exemplo. Literalmente duas linhas depois teremos outro trocadilho, desta vez envolvendo sun e son. Enfim. Estar atento a coisas assim é fundamental na hora de traduzir, muito pra tentar manter a graça do original. O problema é que nem sempre você consegue uma tradução que bata de maneira exata com o letra-por-letra do original. O que fazer? Fugir, justamente, da letra do original para, de modo paradoxal, se aproximar dela. (Aliás é isso mesmo que o Millôr diz a respeito desse primeiro diálogo.) Quer dizer: não dá pra traduzir um trocadilho achando que na base da nota de rodapé tudo vai se resolver. É preciso mostrar agudeza e graça. Eis a questão.

Existem trocadilhos dos mais variados tipos ao longo desse diálogo entre Petrúquio e Catarina, alguns (a maioria) um tanto quanto ridículos. Veja-se quando saímos de should be para a sugestão de uma abelha (bee), para o zumbido da abelha (buzz), para buzzard (um tipo de ave), daí para turtle (outro tipo de ave) e por aí vamos. Tudo meio idiota, mas com um grau de raciocínio rápido, um jogo de farpas frenético que leva a plateia ao delírio. Tentei corresponder a tudo isso, claro que dentro das minhas capacidades e nem sempre correspondendo às áreas semânticas do original. Assim, na parte das abelhas, por exemplo, não consegui fazer a transição para a zona semântica das aves, ficando só na área das abelhas mesmo. Não sei dizer se fui bem sucedido nisto, mas posso dizer, pelo menos, que fiquei muito feliz com a parte do “favo de mel”, que faz referência direta à novela da Globo baseada, de resto, em A megera domada.

O texto utilizado e as notas consultadas foram as disponíveis nesse site aqui.

 

matheus mavericco

* * *

 

[Enter KATHARINA]

PETRUCHIO
Good morrow, Kate; for that’s your name, I hear.

KATHARINA
Well have you heard, but something hard of hearing:
They call me Katharina that do talk of me.

PETRUCHIO
You lie, in faith; for you are call’d plain Kate,
And bonny Kate and sometimes Kate the curst;
But Kate, the prettiest Kate in Christendom
Kate of Kate Hall, my super-dainty Kate,
For dainties are all Kates, and therefore, Kate,
Take this of me, Kate of my consolation;
Hearing thy mildness praised in every town,
Thy virtues spoke of, and thy beauty sounded,
Yet not so deeply as to thee belongs,
Myself am moved to woo thee for my wife.

KATHARINA
Moved! in good time: let him that moved you hither
Remove you hence: I knew you at the first
You were a moveable.

PETRUCHIO
Why, what’s a moveable?

KATHARINA
A join’d-stool.

PETRUCHIO
Thou hast hit it: come, sit on me.

KATHARINA
Asses are made to bear, and so are you.

PETRUCHIO
Women are made to bear, and so are you.

KATHARINA
No such jade as you, if me you mean.

PETRUCHIO
Alas! good Kate, I will not burden thee;
For, knowing thee to be but young and light–

KATHARINA
Too light for such a swain as you to catch;
And yet as heavy as my weight should be.

PETRUCHIO
Should be! should–buzz!

KATHARINA
Well ta’en, and like a buzzard.

PETRUCHIO
O slow-wing’d turtle! shall a buzzard take thee?

KATHARINA
Ay, for a turtle, as he takes a buzzard.

PETRUCHIO
Come, come, you wasp; i’ faith, you are too angry.

KATHARINA
If I be waspish, best beware my sting.

PETRUCHIO
My remedy is then, to pluck it out.

KATHARINA
Ay, if the fool could find it where it lies,

PETRUCHIO
Who knows not where a wasp does
wear his sting? In his tail.

KATHARINA
In his tongue.

PETRUCHIO
Whose tongue?

KATHARINA
Yours, if you talk of tails: and so farewell.

PETRUCHIO
What, with my tongue in your tail? nay, come again,
Good Kate; I am a gentleman.

KATHARINA
That I’ll try.

[She strikes him]

PETRUCHIO
I swear I’ll cuff you, if you strike again.

KATHARINA
So may you lose your arms:
If you strike me, you are no gentleman;
And if no gentleman, why then no arms.

PETRUCHIO
A herald, Kate? O, put me in thy books!

KATHARINA
What is your crest? a coxcomb?

PETRUCHIO
A combless cock, so Kate will be my hen.

KATHARINA
No cock of mine; you crow too like a craven.

PETRUCHIO
Nay, come, Kate, come; you must not look so sour.

KATHARINA
It is my fashion, when I see a crab.

PETRUCHIO
Why, here’s no crab; and therefore look not sour.

KATHARINA
There is, there is.

PETRUCHIO
Then show it me.

KATHARINA
Had I a glass, I would.

PETRUCHIO
What, you mean my face?

KATHARINA
Well aim’d of such a young one.

PETRUCHIO
Now, by Saint George, I am too young for you.

KATHARINA
Yet you are wither’d.

PETRUCHIO
‘Tis with cares.

KATHARINA
I care not.

PETRUCHIO
Nay, hear you, Kate: in sooth you scape not so.

KATHARINA
I chafe you, if I tarry: let me go.

PETRUCHIO
No, not a whit: I find you passing gentle.
‘Twas told me you were rough and coy and sullen,
And now I find report a very liar;
For thou are pleasant, gamesome, passing courteous,
But slow in speech, yet sweet as spring-time flowers:
Thou canst not frown, thou canst not look askance,
Nor bite the lip, as angry wenches will,
Nor hast thou pleasure to be cross in talk,
But thou with mildness entertain’st thy wooers,
With gentle conference, soft and affable.
Why does the world report that Kate doth limp?
O slanderous world! Kate like the hazel-twig
Is straight and slender and as brown in hue
As hazel nuts and sweeter than the kernels.
O, let me see thee walk: thou dost not halt.

KATHARINA
Go, fool, and whom thou keep’st command.

PETRUCHIO
Did ever Dian so become a grove
As Kate this chamber with her princely gait?
O, be thou Dian, and let her be Kate;
And then let Kate be chaste and Dian sportful!

KATHARINA
Where did you study all this goodly speech?

PETRUCHIO
It is extempore, from my mother-wit.

KATHARINA
A witty mother! witless else her son.

PETRUCHIO
Am I not wise?

KATHARINA
Yes; keep you warm.

PETRUCHIO
Marry, so I mean, sweet Katharina, in thy bed:
And therefore, setting all this chat aside,
Thus in plain terms: your father hath consented
That you shall be my wife; your dowry ‘greed on;
And, Will you, nill you, I will marry you.
Now, Kate, I am a husband for your turn;
For, by this light, whereby I see thy beauty,
Thy beauty, that doth make me like thee well,
Thou must be married to no man but me;
For I am he am born to tame you Kate,
And bring you from a wild Kate to a Kate
Conformable as other household Kates.
Here comes your father: never make denial;
I must and will have Katharina to my wife.

[Re-enter BAPTISTA, GREMIO, and TRANIO]

[Entra CATARINA]

PETRÚQUIO
Bom dia… Cata. Dizem que é seu nome.

CATARINA
Grande coisa que um surdo escute absurdos.
Aos que falam comigo, é Catarina.

PETRÚQUIO
Não, é mentira: você é a pacata,
A cara Cata às vezes caricata,
De toda a Cristandade a recatada.
Cata da Catalunha, que é catálogo
De encantos em cascata, tem catarse,
Cata, e aplaca, ó!, minha catástrofe;
Ouvi de seu carinho em cada canto,
Sua virtude e graça proclamada;
Porém, pois que no fundo não são tuas,
Eu fui movido a pedir tua mão.

CATARINA
Movido! Estou tão comovida: mova-se
Daqui então: imaginei que fosse
Igual um móvel.

PETRÚQUIO
Como assim um móvel?

CATARINA
Tamborete.

PETRÚQUIO
Também. Vem cá sentar.

CATARINA
Asnos que nem você são pra levar.

PETRÚQUIO
Seja embaixo ou no bucho, a mulher leva.

CATARINA
Mas não um pangaré que nem você.

PETRÚQUIO
Tá bom, Cata, não vou te aporrinhar.
Você é gente fina e jeitosinha ―

CATARINA
De um jeito muito fino pra vocês,
Gente abelhuda, pois que eu não afino.

PETRÚQUIO
Sou abelha sim, meu favo de mel.

CATARINA
Faça-me o favor.

PETRÚQUIO
Ó rainha! E se eu for mero zangão?

CATARINA
Pra me zangar assim, só se for mesmo.

PETRÚQUIO
Vamos, minha vespinha… Quanto doce!

CATARINA
Olha que acaba é enfiando a mão
Num vespeiro…

PETRÚQUIO
Eu enfio com prazer.

CATARINA
Vá se ferrar!

PETRÚQUIO
Me aferro em ti. Pois veja:
Onde fica o ferrão? No rabo.

CATARINA
Não. Na língua.

PETRÚQUIO
Que língua?

CATARINA
A sua, aberração. Adeus.

PETRÚQUIO
Minha língua no seu rabo? Vem cá,
Cata; sou cavalheiro ―

CATARINA
Ah é? Vejamos.

[Ela bate nele]

PETRÚQUIO
Bate de novo e quebro você toda.

CATARINA
Não se abrase de raiva:
Se me bater, não é mais cavalheiro,
E se já não é mais, não tem brasão.

PETRÚQUIO
Heráldica? Me põe nos exemplares!

CATARINA
E seu emblema, qual é? Uma crista?

PETRÚQUIO
Por quê uma crista? Quer ser minha franga?

CATARINA
Pra vir cantar de galo… Abaixa a crista!

PETRÚQUIO
Vamos lá, Cata, não seja nojenta.

CATARINA
É comum sentir nojo ao ver-se um verme.

PETRÚQUIO
Não tem verme aqui. Chega de nojeira.

CATARINA
Tem sim.

PETRÚQUIO
Me mostre.

CATARINA
Então me dê um espelho.

PETRÚQUIO
Oh. Verme. Ver-me. A minha cara.

CATARINA
Sim. A burrice é sua cara.

PETRÚQUIO
Mas, por São Jorge, você não me encara…

CATARINA
Assim, todo acabado.

PETRÚQUIO
Me acabo por você.

CATARINA
Sim, acabei de ver.

PETRÚQUIO
Olha bem, Cata: você não escapa.

CATARINA
Te irrito tanto, se eu ficar; me solte.

PETRÚQUIO
Nem um pouquinho; eu te acho tão gentil!…
Disseram: ela é rude, grossa, arisca,
Mas vejo que mentiram para mim;
Você é alegre, jovial, cortês,
Demora pra falar, mas é uma flor.
Não faz cara fechada ou olha torto,
Não morde o beiço, igual as mais nervosas,
Nem contradiz os outros a contento;
Com doçura entretém os pretendentes
Com prosa gentil, meiga e adorável.
Por quê é que o mundo diz que Cata é manca?
Mundo infame! Tal como o galho esguio
Da aveleira é você, Cata, e marrom
Como as avelãs, doce feito amêndoa.
Quero te ver andando. Sem mancar.

CATARINA
Vai dar ordem a teus criados, besta.

PETRÚQUIO
Diana adornará um bosque tal como
Cata, em passo fidalgo, este aposento?
Seja você Diana, e ela, Cata,
E Cata seja casta e Diana, afável.

CATARINA
Onde aprendeu esse discurso todo?

PETRÚQUIO
Vem do saber materno, extemporâneo.

CATARINA
Sei, sei… Mãe com juízo; o filho, sem.

PETRÚQUIO
Eu, sem juízo?

CATARINA
Sim, é bom tomar.

PETRÚQUIO
Posso tomar, sim, mas você, que tome!…
Enfim; já chega, chega desse papo,
Vou ser franco: seu pai já consentiu
Até com o dote: caso com você.
Cata, eu sou o marido que lhe cabe.
Pela luz que me mostra o teu encanto,
O encanto que me faz gostar de ti,
Juro: você só tem eu pra casar,
Pois sou quem vai domar você, ó Cata:
Cato a Cata selvagem, que me acata
E fica quieta igual Cata doméstica.
Ali vem seu pai: nada de negar;
Que eu devo e vou casar com Catarina.

[Reentram BATISTA, GRÊMIO e TRÂNIO (disfarçado de Lucêncio)]

Padrão
entrevista

Entrevista com Ismar Tirelli Neto (parte 1) + 2 poemas inéditos

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Montagem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: Ann Guilbert & Renee Taylor.

esta é a quarta parte da série de entrevistas que blábláblá…vocês já sabem. para ler as outras, clique aqui, aqui & aqui. diferentemente das demais entrevistas, feitas virtualmente, esta se deu num contato de horas – uma tarde inteira e um pedaço da noite – de conversa entre mim e ismar, em seu apartamento, a dezembro do ano passado. a conversa foi longa e ainda estou em processo de transcrição. obviamente, nem tudo que foi dito é digno de luz – afinal, somo humanos e falamos merda. por isso, esta entrevista, como eu já disse ser distinta das outras, será trazida a público aos pedaços, conforme eu for transcrevendo e selecionando os pedaços que julgar mais relevantes. esta é a parte 1 da nossa conversa.

eu havia pensado em fazer algumas considerações, mas acredito que a melhor fala já foi feita por júlia de carvalho hansen, em sua primeira coluna na revista pessoa (clique aqui): “Todos os dias me apavora o crescimento do mal estar entre os viventes. O sinto como o sabor do tempo, um travo que não sai da boca, amargor trocado e proferido na saliva & na respiração dos convívios. Sei com isto que mora aí o tema poético deste tempo (e de todos os tempos? onde existir humanidade?), mas eu mesma sou incapaz agora de escrever versos com este mal estar. Não tenho saúde, tenho carregado um escanfandro lírico no lugar de cabeça — diante do peso dos acontecimentos tenho escrito poemas de amor. Entre notícias, conversas, opiniões e posts de facebook me revejo tentando observar a realidade sem me acovardar diante dos ferozes que renascem todos os dias e certo sempre está que a poesia é a respiração do tempo. A poesia é capaz de capturar os instantâneos do mal. Então convidei para publicarem nesta primeira coluna três poetas que conheço neste momento escrevendo lúcidos & irrefreáveis poema. Com o ar intragável deste tempo eles assopram círculos de fumaça, transformam carbono em oxigênio, fazem rir e doer”.

sem mais, com a palavra: ismar tirelli neto, senhoras e senhores.

 

sergio maciel

 

* * *

SM – Recentemente, falávamos sobre uma espécie de “vazio fúnebre” que, talvez, a morte de alguns dos ícones do século xx poderia causar, algo quase como um “período de desamparo”; para além disso, falávamos também sobre uma tendência nossa (e quiçá dos nossos pares) a uma certa incapacidade de concentração diante dos acontecimentos. Como você vem lidando com isso?

ITN – Eu tenho reparado que isso tem sido um ponto de encontro.

SM – Das poéticas?

ITN – Não só das poéticas, mas das vivências também – se é que uma coisa pode ser separada da outra. Mas esse é o pátio onde as pessoas estão indo fumar, sabe? Entreolhando-se e pensando: “Meu deus!”. As possibilidades de refúgio estão cada vez menores. E é terrível, inclusive, estarmos recuperando, sem querer, esse repertório vocabular que é do campo do “refúgio”, do “abrigo”, do “salvífico”, do “balsâmico”. Essas coisas talvez pareçam da ordem do narcotizante. Ao mesmo tempo, eu acho também terrivelmente irresponsável ficar nesse local de total objetivade e lucidez. Ter, o tempo todo, esse olhar que não pisca diante de um mundo que está claramente caindo aos pedaços. Diante de dois mundos.

SM – Retomamos aqui o “mundo caduco” do Drummond.

ITN – Exato. E é por isso que eu irei à minha cova cantando loas a esse poema, acho ainda a coisa mais bonita cometida nos últimos tempos. Mas é exatamente isso: o trabalho sem alegria para um mundo caduco.

SM – Você falava há pouco sobre a questão do desejo, sobre uma ideia de que ele nos é tomado. Ou seja, tem a questão de que quando se vai produzir algo, no campo do artístico, rola uma espécie de privação do prazer e que o ato de criação artística se torna, diante do mundo, uma mera autosalvação.

ITN – Eu tenho também essa terrível impressão de que cada vez mais o “ato criativo”, entre várias aspas, já não se trata quase daquilo que se passa no poema mas apenas do fato de ele existir, porque é tão improvável escrever atualmente, sabe? É tão improvável criar. A sensação de exaustão, de cansaço, de abatimento geral é tão grande que já não se trata mais de escrever um poema bom. Trata-se de escrever, apenas. E eu tenho a impressão de que em situações de emergência isso é o máximo que se pode pedir. Eu me sinto aquém inclusive disso.

SM – Aquém da escrita?

ITN – É. Eu não estou conseguindo. É aquilo que eu já te falei: se eu consegui escrever três poemas em 2016 foi muito. Ao mesmo tempo, como falar sobre essas coisas sem adotar o discurso vaidoso do autor em crise? Porque não é um autor em crise, é um mundo. A crise é comunal, possui isso de democrático. Todo mundo está na merda. Todo mundo está infeliz em algum sentido e isto é muito claro. Então, eu tenho visto cada vez mais pessoas que, assim como eu, têm essa impressão horrível de que passaram o ano inteiro com a janta no fogo, de que não fizeram mais nada. E quando fazem, pelo menos comigo é assim, é tão pequeno, tão nada. De alguma forma, na hora aquilo faz senso, mas no cômputo geral o fato é que se passou um ano e eu consegui tão somente não me endividar. Eu consegui não me endividar e consegui não ser enviado para um manicômio.

SM – Fato que em 2016 é um grande feito a ser comemorado.

ITN – Exato. Mas ao mesmo tempo é duro pensar que isto é tudo que eu tenho para contar de bom, sabe? Essa sensação de progressiva exiguidade no campo do possível. Eu vejo que não se trata apenas de mim, mas é um lugar no qual as pessoas estão se encontrando, falando e tendo esses breves momentos de saúde. Mesmo que se trate de uma aliança contra o mundo, isso não deixa de ser uma aliança. Há algo que sempre me ocorre: seria preferível formar alianças a favor de qualquer coisa, mas se as coisas não se circunstanciam de modo a favorecer estas alianças, aquelas que sobram são as contrárias a algo. É o que se tem. E talvez seja mais saudável isto a uma vivência completamente desvinculada da ideia do Outro, da ideia do companheiro, da ideia do comparsa. Da ideia da comunhão, entende?

SM – De algum modo, e eu acho isso particularmente curioso, esse ponto de encontro nos conduz a uma “suposta compreensão” daquilo que falava Adorno sobre a impossibilidade de se escrever poesia após Auschwitz. Parecemos concordar que é forçosamente difícil escrever quando nos deparamos com as notícias de Aleppo, por exemplo. O ato da escrita, ao menos para mim, em alguma medida está se figurando como uma espécie de benesse.

ITN – A questão é: como você consegue dar conta do seu dia após ler uma notícia como essas de Aleppo? Ao mesmo tempo, eu tenho a impressão de que um desafio muito grande está sendo colocado na mesa e eu vejo, entre os nossos, pessoas que estão ombreadas com esse desafio. Mesmo no horror, mesmo no pasmo elas ainda estão conseguindo articular algo. E aí nós temos, por exemplo, o Ricardo Domeneck, o Guilherme Gontijo, sabe? São pessoas que mantêm uma produção contínua e que não silenciam diante de todas essas catástrofes que estão o tempo inteiro colocando a nossa própria noção de articulação em risco. Agora, falando de um lugar de pessoalismo abjeto, eu não me sinto facultado a escrever, apesar de estar ciente do desafio que se coloca, e nós temos precedente histórico. As pessoas não pararam de escrever, de criar, elas só reformularam isso para tentar dar conta do horror cada vez mais integrado à própria construção do poema, daquilo que se pode dizer, articular. Todas essas questões poderiam estar sendo rediscutidas e revitalizadas agora. Diante da notícia constante do horror, não da vivência, porque a vivência do horror talvez ainda custe um bocado a chegar até nós, uma articulação sintática perfeita faz senso ainda? Este é o momento em que deveríamos ser o mais claro possível ou que deveríamos tentar plasmar na página a confusão de não conseguir abarcar o acontecimento? Ou seja, que diabos seria um poema escrito agora? Ele é dizível? Ele é legível? Se ele possui a menor conexão com a experiência vivida – e eu acho que tem, porque ele não é apenas um joguete lógico nas mãos dos racionalistas de plantão –, se ele ainda tem que ver com a vida, então, como deve ser agora? São essas questões, acho, que deveriam estar voltando à mesa. Inclusive porque seria saudável uma admissão coletiva de que os tempos estão ficando cada vez mais sombrios, sim. Mas não se trata de uma admissão histriônica do tipo “ai meu deus são os piores tempos”. Não se trata disso, claro. Eu acho que é interessante tentar encontrar um tom que nos permita falar sobre essas coisas com preocupação, mas não com alarde.

SM – Pensando em tudo isso que você acabou de dizer, questionando o que seria o próprio poema e como seria produzí-lo agora, eu preciso repetir aqui a mesma pergunta que tenho feitos a outros tantos poetas: como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje? Você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos? Trocando em miúdos, qual é, para você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

ITN – Como você tem lidado com isso? No seu trabalho, você está se vendo indo para um lugar que é o da articulação e da clareza ou da inarticulação e fúria?

SM – Supostamente, eu não deveria ser aquele que responde as perguntas aqui (risos). Mas eu acho que não sei dizer para onde estou indo enquanto pessoa que escreve poemas. Talvez esse meu surto repentino, essa minha vontade de querer ouvir meus pares diga algo sobre para onde eu estou indo. Desse modo, talvez seja possível dizer que estou, mesmo não deliberadamente, tentando aclarar as coisas. Mas eu realmente não sei. Acho que a grande pergunta que espero responder em mim é a seguinte: “que diabos nós fazemos com aquilo que sabemos fazer, ou seja, com a escrita?” sabe? De que modo nossa prática acha meios de fazer-se possível a cada dia? Para onde estamos conduzindo nossos caminhos? O que nossas leituras estão fazendo, performando? Penso no nosso papel como tradutor, por exemplo, me interessa muito saber qual é o sentido, que coisa significa eu pegar o Sêneca, que está inscríto temporalmente há 2000 anos, e torná-lo relevante agora? Fazê-lo ter senso, sabe?

ITN – Sim. Que coisas nós estamos selecionando, que coisas nós estamos tentando colocar à mostra, sabe? Acho isso muito importante e eu acho também que isso ainda não foi colocado em questão. Eu ainda tenho a certeza de que a atenção é um ato político: a que tipo de coisas você atenta, o que você circula. Acho que todas essas coisas são de uma densidade incrível e penso, ainda, que isso seja, talvez, intocável. Não há horror que venha esvaziar a densidade política da atenção. Da atenção e da curadoria, ainda que este termo parece esnobe. Como você seleciona guinar aquilo que resta de energia do seu dia? A questão é: eu tenho 15% de energia de vida, mas ainda assim eu vou me dedicar a traduzir um autor de vivência homoafetiva do final dos anos 70 porque tem me siderado o fato de que temos pouquíssima informação traduzida da vivência gay no mundo depois dos casos de mais sucesso de escândalo, tipo Tennessee Williams, Jean Genet, Pasolini &c. Então, de alguma forma, eu ainda acho que esses atos, por mais ínfimos que sejam, são uma maneira não boçal de empregar tempo e energia.

 

§

Um novo começo

Prometi a mim mesmo que me absteria do annilingus até consertar os dentes
Que fazer, no entanto, ante a beleza de um corpo que retesa e rompe em outro
Aos trinta anos, uma vontade vesgando, tarda a derrocar
Aos trinta anos
Ó modesta choça de palavras que tanto sonhei pôr de pé não a construí
Nem coisa que fosse ela própria o salto
Cultivei sim ao longo desta temporada em que pouco ou nada fiz senão
Trabalhar e enterrar parentes:
Língua, dedos
A comunicação de certas torções
Os domingos cavados sob os pés dizer adeusinho
Cantar como a Dietrich os rapazes à sala dos fundos
Por mais de uma vez em tempos recentes a República viu-se ameaçada
E minha boca a ocupar-se de estranhos
A História desgarrava-se de nós que numa República ameaçada nos ocupávamos
Que nos ocupávamos de estranhos com as bocas as ruas a se povoarem de
Língua, dedos
Não, eu jamais lá estive
Prometi a mim mesmo que só voltaria a escrever poemas quando
Aprendesse os leões
Contra todas as expectativas, julgo estar no caminho certo

 

§

Palavras às vésperas de uma guerra

Antes do biombo havia a casa
Estes poucos metros quadrados a estacada verdade do sono
Alguém em obscena função remoçando
Todos os sulcos satisfeitos

Vivíamos à insciência destes móveis
Reproduções estantes
Xícaras esmaltadas de negro todas
As nações

Era impossível prever
Todas as nações
Em todo caso, inteiriças, ultimadas
As coisas ultimadas conosco

(to be continued…)

Padrão
poesia

Um poema inédito de Ricardo Escudeiro

foto-de-ricardo-escudeiro-por-ana-elisa-ribeiro

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP) é autor dos livros de poemas rachar átomos e depois (Editora Patuá, 2016) e tempo espaço re tratos (Editora Patuá, 2014). Possui publicações em mídias digitais e impressas: Mallarmargens-revista de poesia e arte contemporânea, Germina-Revista de Literatura & Arte, Jornal RelevO, LiteraturaBr, Revista SAMIZDAT, Revista 7faces, Revista Pausa, Flanzine (Portugal), Revista Mortal. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique. Participou das antologias 29 de abril: o verso da violência (Editora Patuá, 2015), Patuscada: antologia inaugural (Editora Patuá, 2016), Golpe: antologia-manifesto (Punks Pôneis, 2016) e Poemas para ler nas ocupa (Editora Estranhos Atratores, 2016). Foi poeta convidado no Espaço Literatura da 13ª Feira Cultural Preta, em 2014. Contatos: ricardo.escudeiro.sabino@gmail.com; escudeiro@usp.br, (11) 99816-4265, (11) 2677-6124.

* * *

cenotáfio

Sad wings that heaven sent
Wipes out in rage
All guns, all guns blazing
(In: “Painkiller”, Judas Priest, 1990)

nem bem se estabelece
tipo o comecinho mesmo sabe
e lá no fundo alguém já dá uma chiada

ali olha lá
parece que é um em panorâmica

chegamos ao plano
e podemos mal observar a imagem de um piloto
na verdade da cabeça de um piloto
atormentada pelas imagens

ah sim
nem é o capacete que atrapalha
ou a máscara de oxigênio

dos rostos que pilotos não veem mas bem sabem a cara de hora exata
de indiscutível milagre das vísceras interrompido
esparramado
sem nem bem uma mirada nesses olhos esses olhos cor de gente quando explode
sabem bem
restos e pormenores técnicos da expressividade
e o plano se abre

e será que é panorâmico
e quê será esse plantio desgraçado
o piloto coitado rachando solos
empenhado em uma sobrevivência que não é dele
e o plano se abre

e é pavoroso
e há alarde e é só isso mesmo
uma cabeça estática
mas não haver cabeças rolando não significa muito
a inexistência de panorâmicas
ou do cheiro do cansaço e da chantagem e dos gritos
o grito esse martelo terrível
nem do uivo das sinetas de crianças mulheres e idosos na frente
tem tapete vermelho que a gente prefere ver
com pedaços só de pés alheios
nem do velho sentado no barril sabendo só pra ele em voz baixa
isso que o céu manda hoje nem foi adestrado
nas cronologias do abate
e nosso plano se abre

cortamos pra imagem das poltronas com porta copos
podemos mal observar ninguém

o dilema das missões só de reconhecimento

ousando
chamar a atenção do lanterninha

ow
vem cá
pelo quê é que esse ingresso vale

 

Padrão
poesia

Caetano da Costa Alegre (1864-1890)

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caetano da costa alegre (são tomé 1864 – alcobaça 1890), cuja obra foi deixada inédita até 1916, quando foi compilado num volume intitulado versos, em edição promovida por artur da cruz magalhães (1864-1928), foi um poeta africano. em 1882, aos dezoito anos, muda-se para lisboa para estudar medicina, todavia morre pouco tempo depois, em 1890, aos vinte e cinco anos, vítima de tuberculose. sua poesia, ao que consta, foi toda escrita durante seu período em portugal. fica evidente que, para além da temática do amor e da morte, tão caros ao romantismo da época, o mote de sua poesia é precisamente a questão racial. manuel ferreira, das ilhas são tomé e príncipe, por exemplo, dava a seu conterrâneo o título de “criador da negritude em poesia”, por ser um dos primeiros poetas africanos de expressão portuguesa a colocar sua condição de africano na poesia.

ao modo da poesia de fernando ferreira de loanda, outro poeta africano, mas esse naturalizado brasileiro, não há muito material disponível online. exceto um ou outro poema perdido pela internet, a fonte que encontrei e segui foi o sempre fértil site de antônio miranda.

 

sergio maciel

* * *

CANTARES SANTOMENSES

(A meu tio Jerônimo José da Costa)

Branca a espuma e negra a rocha,
Qual mais constante há-de ser,
A espuma indo e voltando,
A rocha sem se mexer?

Não creias que em teu jazigo
Alguém parta o coração,
No mundo quem morre, morre,
Quem cá fica come pão.

Não me dizem quanto tempo
Tenho ainda que viver,
Ficava ao menos sabendo
Quando finda o meu sofrer.

Se eu me casasse contigo,
Fazia um voto de ferro,
De deixar-te unicamente
No dia do meu enterro.

Todos me dizem: “esquece
Essa paixão, que te abrasa”.
Que serve fechar a porta
Ao fogo que tenho em casa?

Não havia tanta cara
De asno, de tolo e pedante,
Se falasse, quem censura,
Com um espelho adiante.

Brotam espinhos da rosa,
O incêndio brota do lume.
A traição brota das juras,
Brota do amor o ciúme.

Numa loja conhecida
O que é cem custa duzentos,
Levam dinheiro em fazendas
E o tempo nos cumprimentos.

Macaco, chamaste tolo
Ao meu pequeno sagüi.
Também queria que ouvisses
O que ele disse de ti.

Por teu desdém não me mato,
Não faço tamanha asneira,
Se o meu amor tu não queres,
Há muita gente que o queira.

Quem pode num campo vasto
O joio apartar dos trigos?
Quem conhece dentre os falsos
Os verdadeiros amigos?

 

§

A NEGRA

Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai,

Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada,
Porque te velo eu.

Não chores mais, criança, enxuga o pranto,
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.

No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.

Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;

Que outrora foste neve e amaste um lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.

Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo, ou no jardim.

Tu tens o meu amor ardente, e basta
Para seres feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor-de-lis.

§

PARA UM LEQUE

Se eu lhe fosse depor, minha senhora,
Por entre estas mentiras cor de aurora
Uma verdade sã e proveitosa,
Chamava-lhe vaidosa!
E, faça-me favor,
Não encrespe esse olhar acostumado
Ao falso galanteio delicado
E a finezas de amor.

II

Eu sei perfeitamente que Vocência
Possui a verve, a fina inteligência.
Que eu…não admiro, e toda a gente adora,
Duma mulher doutora.
Portanto vai então
Achar-me pouco amável no que digo,
Mas, por fim, há-de concordar comigo
E dar-me até razão.

III

Senão Vocência que me diga, franca,
Para que serve numa folha branca:
“A senhora é rainha da beleza;
Em graça e gentileza,
Um cisne a flutuar
Num lago não a iguala. Encanta, prende,
Como grades de ferro, a luz que esplende
Do seu profundo olhar”?

IV

Enfim, essas tolices que descubro
No leque, e que seu lindo lábio rubro
Agradece aos autores discretamente
Dizendo-lhes, ridente:
– Que bonitos que estão
Os versos!… Eu bem sei que não mereço
O que neles me diz, pois me conheço.
Mas…toque. E estende a mão

V

Suponha agora (é só por um momento)
Que esse escuro cabelo esparso ao vento,
Pelo vento é levado; em outros termos,
Para nos entendermos,
Suponha que ele cai,
Que o pouco que ficou se torna neve
E que a pele gentil do rosto breve
Encarquilhando vai!

A minha cor é negra, Indica luto e pena;
É luz, que nos alegra,
A tua cor morena.
É negra a minha raça,
A tua raça é branca, Tu és cheia de graça,
Tens a alegria franca,
Que brota a flux do peito
Das cândidas crianças.
Todo eu sou um defeito,
Sucumbo sem esperanças,
E o meu olhar atesta
Que é triste o meu sonhar,
Que a minha vida é mesta
E assim há-de findar!
Tu és a luz divina,
Em mil canções divagas,
Eu sou a horrenda furna
Em que se quebram vagas!…
Porém, brilhante e pura,
Talvez seja a manhã
Irmã da noite escura!
Serás tu minha irmã?!…
A minha cor é negra.
Indica luto e pena;
é luz, que nos alegra,
A tua cor morena.
E negra a minha raça,
A tua raça é branca,
Tu és cheia de graça,
Tensa alegria franca,
Que brota a flux do peito
Das cândidas crianças.

Todo eu sou um defeito,
Sucumbo sem esperanças,
E o meu olhar atesta
Que é triste o meu sonhar,
Que a minha vida é mesta
E assim há de findar!
Tu és a luz divina.
Em mil canções divagas.
Eu sou a horrenda furna
Em que se quebram vagas!…
Porém, brilhante e pura.
Talvez seja a manhã
Irmã da noite escura!
Serás tu minha irmã?!…

§

AURORA

Tu tens horror de mim, bem sei. Aurora,
Tu és o dia, eu sou a noite espessa,
Onde eu acabo é que o teu ser começa.
Não amas!… flor, que esta minha alma adora.

És a luz, eu a sombra pavorosa.
Eu sou a tua antítese frisante,
Mas não estranhes que te aspire formosa,
Do carvão sai o brilho do diamante.

Olha que esta paixão cruel, ardente,
Na resistência cresce, qual torrente;
É a paixão fatal que vem da sorte,

É a paixão selvática da fera,
É a paixão do peito da pantera.
Que me obriga a dizer-te “amor ou morte”.

§

VISÃO

Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce, tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(o teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.

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