entrevista

Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen

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Montagem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: Oprah entrevistando MJ.

essa é a terceira parte da série de entrevistas que, recentemente, iniciei com poetas contemporâneos. a primeira parte, publicada aqui no blog (clique aqui), se deu com a poeta adelaide ivánova; a segunda, publicada no site da enfermaria 6 (clique aqui), se deu com um dos nossos editores, guilherme gontijo flores.

sem muita enrolação, passo a palavra à nossa entrevistada, a poeta júlia de carvalho hansen.

 

sergio maciel

* * *

SM – Recentemente você escreveu que “a poesia é a arte de lidar com a solidão do indivíduo na linguagem em que se comunicam”. Essa é sua definição pessoal de poesia? Mesmo com aquilo que diz Hilda Hilst sobre o escritor expressar sua verticalidade do melhor modo possível dentro da própria obra, não posso me furtar a pedir que você fale mais sobre esses versos & sobre sua visão a respeito da (o modo como você encara e lida com) poesia.

JCH – Rapaz! Que pergunta difícil de responder. Tem sim e tem não. Esta não é minha (única) definição pessoal de poesia, porque a minha definição de poesia é como a própria: metamorfose. Mas, sim, vejo a poesia como uma espécie de agência de ligações entre linguagens e mundos diversos, sempre a afirmar a própria solidão intrínseca. É como se a gente tivesse, num mundo particular, um monte de acúmulos, repertórios, buracos, com os quais o mundo de um poema estabelece conexões.

O verso que você cita do meu poema é uma releitura, uma realocação de um sentimento do mundo drummondiano: “Na solidão de indivíduo / desaprendi a linguagem / com que homens se comunicam”. Penso nestes versos porque o Drummond entendeu mais do que ninguém a linguagem com que os humanos se comunicam, a ponto de a ter desaprendido. Acho que esta gagueira instrumentalizada, isto também é o poema.

Quando escrevi esse verso que você citou eu estava com o Carlos na cabeça (estou quase o tempo todo com o Carlos no corpo), era alta madrugada e depois de anos eu me sentia muito sozinha (meu marido estava num retiro de meditação) e como ando pesquisando poemas que falem de amor, de afeto e de desejo pro novo livro que estou escrevendo, fui ler Ana Cristina Cesar, a quem eu só volto quando estou em mergulhos radicais, você sabe, paixão antiga sempre mexe com a gente.

E lendo o “A teus pés” naquela madrugada eu morria de rir de quanto a solidão é uma ilha de ilusão, sobretudo quando a gente a povoa com poemas, porque eles encenam tudo e mais um pouco do que podemos sentir em comum, eles encenam até o que a gente não sabia que a gente sentia, mas sentia. Aquele lance: o poema é o oráculo. E esta sensação de estar acompanhada e sozinha, me trouxe outras solidões do passado, lembrei das inúmeras noites de 15, 10 anos atrás, noites que eu atravessava lendo poesia e convivendo com a solidão acompanhada.

Agora a definição que você diz da Hilda eu não conheço! Podia googlar e me fazer de sabida, mas preferi me manter no mistério. Mas, poxa, a Hilda, aquele vulcão… eu pensava que ela só fazia poemas na horizontal!… Brincadeiras à parte, nem preciso entender pra dizer que concordo, sinto que estarei sempre de acordo com tudo que Hilda tiver escrito, falado, gritado. E olha que eu discordo até do Carlos.

SM – A definição da Hilda que cito está no livro Fico besta quando me entendem, que é uma série de entrevistas concedidas pela autora, organizadas por Cristiano Diniz e publicadas pela Biblioteca Azul. Mas ainda usando as coisas que você disse contra você (risos), recentemente, numa entrevista à Revista Continente, você disse que a produção do seu último livro, Seiva veneno ou fruto, se deu, em grande parte, graças ao seu retorno de Saturno, que foi quando você passou por um importante processo de abertura ao espiritual. Todavia você também diz que esse livro alinha e resolve coisas que você cultivava desde os 14 anos. É curioso ver como um processo iniciado e cerrado há pouco tempo suscita questões tão antigas, lá da sua adolescência. Aquilo que quero saber, no entanto, é o que todo esse processo espiritual, metafísico, astral representa pra você neste momento, dentro da sua obra, e de que modo isso afeta sua percepção da própria poesia, do seu fazer poético, do seu contato com a arte em geral. De que modo essas experiências todas ajudam a construir aquilo que você nomeou como uma “semântica integrativa”?

JCH – Lá vou eu falar de Drummond de novo: quando eu falo em “semântica integrativa” tem a ver com uma forma de montar os poemas no objeto final livro que aprendo a fazer com ele. Sabe quando você lê, por exemplo, Sentimento do Mundo e sai de lá de dentro com uma sensação que a palavra “noite” foi dita tantas vezes de tantos modos e com tantos significados e sonoridades combinadas que a noite se alargou até a linha do horizonte? De tanta coisa que “noite” significa. É um modo de ocupar as palavras e eu às vezes acho que o meu ofício é só esse: ocupar palavras.

O Herberto Helder diz algo parecido de forma invertida (e que cito de memória): “digo uma palavra mil vezes, ela já não significa”. Este meio-fio, este lugar em que a palavra é utilizada de modo a ocupar & ao mesmo tempo perder todo o significado, eu acho que esta é a visão de fronteira que me interessa e mora no poema. Entendo que o fio da linguagem que mora no poema é como um cavalo que cavalgasse uma fronteira limite, entre a ocupação material & o vazio e que, no fundo, é a linha limítrofe entre a vida & a morte também. Tanto Herberto como Drummond mostram isso o tempo todo & curiosamente ambos tinham Saturno em Capricórnio, o eixo no signo do tempo.

Formalmente eu gosto de ocupar o espaço de um livro com repetições semânticas que criem um fortalecimento das ligações entre os poemas, que elaborem uma sinergia dentro do livro e que, assim, pode transformá-lo numa espécie de objeto de combate, feito uma pedra ou um besouro, um objeto que em mãos alheias vai se entranhar com alguma implacabilidade. Tentei fazer isso em todos os meus livros de poemas até agora, mas só consegui no Seiva veneno ou fruto. Nos outros dois anteriores as linhas de fuga escaparam e como eu sou como sou (indisciplinada, exagerada e bagunceira) deixei estar. Afinal também sei apreciar o caos, a liberdade do caos. Mas no Seiva veneno ou fruto aconteceu uma espécie de ideal, de argila que eu (meio sem saber) tentava moldar desde a adolescência. E isto “moldar” tem tudo a ver com Saturno, que é o eixo.

Meu eixo de Saturno, o Saturno que tenho no meu mapa fala de muitas coisas, como buscar a transcendência através da descoberta do prazer, ou de como fazer da ancestralidade um eixo emocional de renovação lúcida (é o mesmo Saturno do Guilherme Gontijo Flores, por exemplo & aliás, quando li sua entrevista com ele fiquei vendo muito esse nosso Saturno em comum). Saturno em Escorpião tem que criar uma espécie de compromisso com isso, ou se não é soterrado de tanta presença de antepassados.

Em resumo: tudo isto que escrevi acima é uma tarefa espiritual. Durante muitos anos eu achei que vida “religiosa” e vida “espiritual” eram sinônimos, mas isso era um modo equivocado e tacanho de entender as coisas, inclusive as culturas rituais dos povos. Estou com o Álvaro de Campos quando ele diz que as religiões não ensinam mais do que a confeitaria. Mas o espírito é outra coisa, que respira. E atualmente é a palavra que mais me interessa entender, não tenho a menor ideia do que “espírito” significa e, no entanto, vou dizer “espírito” mil vezes e já não significará nada, podendo enfim esvaziada, ser uma palavra reutilizada da forma que convier, vivificada.

SM – Em apenas duas perguntas, ficou absolutamente claro que Drummond exerce uma senhora duma influência sobre você – assim como sobre mim – além da Hilda, que você também mencionou. Como foi sua formação literária? Quais poetas e processos te conduziram a ser a Júlia escrevendo hoje?

JCH – Pergunta complicada de responder, acho difícil dosar petulância e vaidade e não soar ingênua ou arrogante ao dizer que “Drummond me influencia”. Talvez eu prefira a antropofagia mesmo: comi e como Drummond, comerei do seu pasto o resto dos meus dias e espero fazê-lo a cada dia de modo mais erótico. O quanto essa alimentação me nutre de fato dando frutos presentes nos meus poemas ou não, eu não sei. No mesmo sentido eu mencionaria como fundamentais pra minha digestão da vida: Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst, Herberto Helder, Raduan Nassar, Leonardo Fróes, Clarice Lispector, Machado de Assis, Oswald de Andrade, Mario Cesariny, Ruy Belo… e teriam outros, dezenas. Isto pra ficar só nesta língua imensa portuguesa. E, no fundo, são autores que influenciam muita gente, toda gente talvez.

Eu devo a escrita ao meu pai, é algo que herdei dele. Ele me ensinou não exatamente a escrever, mas a perceber as forças que existem no texto, a ter prazer por escrever, possuir toda legitimidade que eu quiser e me permitir imediatamente tudo que me der prazer ao fazê-lo. Acho que essa audácia foi o mais fundamental de tudo que ele me deu. Comecei a escrever por prazer com 9 anos de idade, primeiro escrevia uns contos que misturavam histórias que eu tinha visto na televisão; depois, com 11 anos, quando soube na escola que poesia não precisava ter rima, comecei a escrever poemas. Na adolescência escrevi uns 400 poemas que eu guardava com muito esmero numa pasta, compilando uma espécie de obra completa, até que um dia precisei da pasta pra guardar outra coisa, fui numa praça perto de casa e com um isqueiro queimei todas aquelas folhas de papel.

Ao mesmo tempo, hoje em dia eu sinto que aprendi a escrever na Universidade de São Paulo e faz tempo que quero dizer isso publicamente! Risos e mais risos. Hoje percebo que tratei meus trabalhos de estudante de Letras como exercícios ficcionais, em que era preciso construir argumentação e teia, tecido textual, eu aprendi (com Pound) como todos aprendem: fazendo, pelo exercício, pelo treino. Aprendi na Letras a exercitar a concatenação, a sensibilidade dos argumentos. Como é evidente não acho que um poeta precise estudar Letras, mas a necessidade de ser clara, de ser crítica e precisa me fizeram primeiro um mal danado: fiquei uns três anos sem escrever nada por prazer. Mas aí perdi um grande amor sem nem ter tentado de fato tê-lo e me senti tão estúpida que já não tinha nada a perder: comecei a me perder escrevendo. Na época, voltar a escrever por prazer foi uma libertação, significou também uma implosão daquilo que a Universidade tinha me colocado como paradigmas, eu estava de saco cheio. Mas hoje vejo de um modo um pouco diferente: eu incluí e incluo aqueles paradigmas críticos como ferozes participantes da sinergia textual. Mas misturei mais coisas, claro, que a USP, no geral, é um lugar muito careta.

SM – Num ensaio publicado na revista Germina (clique aqui), o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

JCH – Eu acho que esta pergunta é a mais fundamental que se pode fazer a um poeta hoje, ontem e sempre. Não acredito em poeta que não se veja como um missionário de alguma espécie mítica, de alguma técnica formal, de alguma audácia fundamental. Mas a minha resposta é um tanto quanto vaga: depende. Eu, hoje em dia, estou batalhando por uma voz que fale de algum lugar em comum, mas nunca que ela fale por este lugar em comum, não quero falar por ninguém, mas quero me tornar ninguém. Por isso tenho falado de morte, tenho falado de amor, tenho falado das plantas. São, digamos, os meus sinais fundamentais neste momento. Mas eu não sou em nada gregária e as deusas me livrem de um dia o ser. Acho que cada poeta vai ter seu sinal de emissão, sua sina de linguagem de determinadas tribos, seus códigos a inventar. Acredito, sobretudo nos povos que possam vir a morar na minha fala e trabalho todos os dias para veiculá-los. É tudo muito vago? Mas eu também nunca fui muito boa com “tarefas”, sou uma pessoa do êxtase, escrevo para senti-lo e causá-lo.

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Um comentário sobre “Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen

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