poesia

Rafael Mantovani (1980-)

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Rafael Mantovani nasceu em 1980 em São Paulo, e mora em Berlim desde 2011. Ganha a vida como tradutor. Teve poemas publicados em revistas brasileiras como modo de usar & co., Lado 7, Rosa e Opiniães. Seu primeiro livro cão foi lançado em 2011 pela ed. Hedra, e o segundo, mas o Céu também, sairá em 2017. Apresenta-se regularmente em eventos e festivais de literatura em Berlim, como a Latinale – Lateinamerikanisches Poesiefestival (2013), Brasilien trifft Berlin (2015) e Stadtsprachen (2016).

 

sergio maciel

* * *

hoje segundo o que tem pra hoje

hoje eu vou ter que ser deus
porque você não veio
porque hoje não veio mais ninguém

faço milagres
porque a disposição dos átomos não colabora
distribuo maravilhas
faço a ingenuidade dar certo
faço trocadilhos serem engraçados
faço lágrimas correrem na temperatura certa, e em público
trago a pessoa amada em 37 anos
faço gatinhos desaparecidos lerem cartazes em papel A4, feitos no word colados em postes

reembaralho remorsos e mutilações
canto por cima de desconfianças
deflagro o choro e o ranger de dentes em festinhas
danço em cima do seu túmulo
danço there is a light that never goes out em cima do seu túmulo

dou bigodes aos que não têm boca
e vice-versa.

 

§

uma segunda-e-meia chance

pedia a deus uma segunda chance
ele me dava uma chance segunda-e-meia
era que nem uma segunda chance, só que
já usada por outra pessoa, uma chance amassada nas pontas
uma chance apanhada do chão, e batida pra tirar a sujeira

não brilhava colorida como uma chance nova
não vinha dentro do plástico pra eu mesmo poder rasgar
tinha gordura de dedos de quem tinha usado antes
não tinha a consistência firme de uma chance recém-saída da máquina do mundo
pro que você quer, ainda serve, deus me dizia

eu aceitava sem olhar no rosto dele
não agradecia nem deixava de agradecer
tentava sorrir
ia embora atravessando a longa selva, voltava
pro quarto onde deus não me via

no caminho olhava embaixo
das árvores, pensava o diabo quem sabe
estivesse por ali.

 

§

armazenamento

a cidade guarda os ossos dos seus mortos
como se não estivesse convencida
de que nunca mais vai precisar deles

“nunca se sabe”, ela exclama, ela é uma mãe de mãos sujas
não permitiria simplesmente deitá-los pros cães
“vai saber”, o tempo é grande, pode chegar quando eles sirvam

a cidade guarda nas partes de baixo
aquilo que seria desejável só nas (o inferno
ou uma câmara de magma, por exemplo) circunstâncias mais
específicas, porque existem tantos talvezes

as coisas inclusive pessoas
começa a ficar mais improvável
que alguém venha a querer encostar nelas, mas
não se sabe a partir de quando.

 

§

e não

e não, o diabo não quer fazer um pacto com você
disse que não está interessado na sua alma
disse que é um modelo de alma comum demais, que ele já tem várias parecidas
e usa todas elas como papel de rascunho

disse muitos imbecis tentam
me vender a alma depois que ela já se corrompeu sozinha

ele não agradece sua proposta
e informa que está rindo da sua cartinha junto com belzebu e os outros
e que vai contar para deus que você se ofereceu.

 

§

mirabel

deus me entregava em mãos o inventário
(definitivo até segunda ordem
mas que eu tratasse como definitivo)

nele tinha uma lista do que eu podia jogar fora
e uma lista do que eu tinha que guardar
tinha uma lista do que eu teria que jogar fora
e uma lista do que era melhor eu guardar
tinha uma lista do que era impossível jogar fora
e uma lista do que eu já tinha perdido

o que eu já tinha perdido
deus ia acomodar dentro dos nomes
que tinham sobrado quase sem usar

alvastadt
mirabel
tintagel
sanabil

eu via ele desplugar os nomes um por um
sentia arrepio.

 

§

zero zero

afetos comuns
que os cães também têm

ciúme preto
vontade de agradar
vontade de agradar a ana luiza
vontade de entrar
de ser convidado

leio ricardo domeneck
com a wikipédia do lado
leio a previsão do tempo
com uma agulha e um machado.

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