crítica, poesia

In memoriam Belchior (1946—2017)

Os deuses também morrem. Todos o sabem, talvez até demais. Na verdade, deuses não param de morrer, a todo instante, e todo ano lamentamos uns bons tantos que se vão talvez — ou muito provavelmente — ao nada. Belchior é mais um dos imensos que se vão, mas nos imensos há muitos casos menores, o caso pequeno deles em nossas vidas mesquinha, e Belchior é uma parte da minha vida que não se vai com sua morte, e que não quero narrar aqui, nem contar quantas vezes já toquei “A palo seco” nesta vida. Ele fica nos que ficam, arrisca-se a ir ficando ainda além. Paradoxo dos deuses que morrem, mas não de todo (non omnis moriar “não morrerei de todo”, diria o romano Horácio). Foi-se um deus, não quero aqui lamentar, nem vou apresentar aos leigos. O mistério, eu mesmo já escrevi isso, está na cara.

Há muito tempo eu pensava em comentar aqui no escamandro o poder da poesia de Belchior,  como também desejo e adio comentar Djavan e Zé Ramalho (pelo fato de receberem ainda tão pouca atenção poética), eu pensava em comentar coisas impressionantes, como “De primeira grandeza”:

Quando eu estou sob as luzes, não tenho medo de nada
E a face oculta da lua, que era minha, aparece iluminada,
Sou o que escondo sendo uma mulher, igual a tua namorada,
Mas o que vês, quando mostro estrela de grandeza inesperada,

Musa, deusa, mulher, cantora e bailarina,
A força masculina atrai, não é só ilusão.
A mais que a história fez e faz, o homem se destina
A ser maior que Deus por ser filho de Adão

Anjo, herói, Prometeu, poeta e dançarino,
A glória feminina existe e não se fez em vão,
E se destina a vir ao gozo a mais do que imagina
O louco que pensou a vida sem paixão.

Mas acho que daria pra resumir tudo repetindo “a mais que a história fez e faz, o homem se destina | a ser maior que Deus por ser filho de Adão”, simplesmente lembrar que ele, como homem, soube dar-se à voz de cantar tamanha violência, poeta da crueldade, que feito faca fura as nossas carnes. Muito pensei na necessidade simples de canções como “Galos, noites e quintais”:

Quando eu não tinha o olhar lacrimoso,
que hoje eu trago e tenho;
Quando adoçava meu pranto e meu sono,
no bagaço de cana do engenho;

Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus,
fazendo eu mesmo o meu caminho,
por entre as fileiras do milho verde
que ondeia, com saudade do verde marinho:

Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia,
quando havia galos, noites e quintais.

Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
o mal que a força sempre faz.
Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais

Por ser essa re-versão do topos dos meus oito anos. “Eu era alegre como um rio | um bicho, um bando de pardais; | como um galo quando havia, | quando havia galos, noites e quintais” — versos que já citei na minha poesia (meu modo de dizer que isso é poesia de primeira grandeza) — isso resume muito da melancolia infantil que assola a tantos, que por sua vez infelizmente não conseguem repetir com a mesma força outra frase como “não sou feliz, mas não sou mudo”, nesses tempos de mudez geral, assolada pelo excesso de repetição das redes sociais; em parte não conseguimos como grupo dar força de verdade ao “hoje canto muito mais” que supere o lamento. Eu pensava ainda em analisar o engajamento desse homem que tinha por alucinação “suportar o dia a dia”, o delírio da “experiência com coisas reais”; ou aquele engajado no viço que convocou todos a rejuvenescer,; mencionar “enquanto houver espaço, tempo e algum modo de dizer não, eu canto”, e o fato de que ele mesmo parou de cantar (para inventar outros nãos? haveria um não em traduzir a Commedia de Dante?, devemos muito pensar nisso); lembrar que esse cidadão teve colhão de nos lembrar há tanto tempo que “nada é divino, nada é maravilhoso” (embora eu mesmo penso que tudo é também divino e maravilhoso, mesmo não sendo) para bater num outro deus Caetano, porque deuses têm lá rixas, desde que o mundo é mundo; que na mesma canção, “Fotografia 3×4, ainda teria o vigor de expor-se-nos (quem o sujeito?) assim:

A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do norte
Que no sul viveu na rua
Que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
Que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
Que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você
Eu sou como você

Pensei em simplesmente mostrar que poema impresisonante é Paralelas

Dentro do carro
Sobre o trevo
A cem por hora, ó meu amor
Só tens agora os carinhos do motor

E no escritório em que eu trabalho
e fico rico, quanto mais eu multiplico
Diminui o meu amor

Em cada luz de mercúrio
vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos
Nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar

No Corcovado, quem abre os braços sou eu
Copacabana, esta semana, o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel, o que é paixão

E as paralelas dos pneus n’água das ruas
São duas estradas nuas
Em que foges do que é teu

No apartamento, oitavo andar
Abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa
Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu

Poderia ainda comentar que coisa genial foi traduzir o Raven/Never de Poe em Blackbird dos Beatles em Assum Preto de Gonzaga, em “Velha Roupa Colorida”:

Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: Black bird, Assum-preto, o que se faz?
Raven never Raven never Raven never Raven never Raven
Assum-preto, passo preto, blackbird, me responde, tudo já ficou atrás
Raven never Raven never Raven never Raven never Raven
Black bird, passáro preto, passáro preto, me responde
O passado nunca mais

Mas isso temos às pencas por aí. Imagino que os louvores de hoje dos próximos dias vão citar aos montes esses trechos. Eu queria, queria há muito tempo, como disse, falar de outra, “Ypê:

Contemplo o rio, que corre parado
e a dançarina de pedra que evolui,
completamente sem metas, sentado,
não tenho sido, eu sou, não serei, nem fui.

A mente quer ser, mas querendo erra;
pois só sem desejos é que se vive o agora.
Vede o pé de ypê, apenasmente flora,
revolucionariamente apenso ao pé da serra.

É uma espécie de síntese dos contrates que foi Belchior, do estudante de medicina ao poeta/compositor/cantor, passando pelo bardo cronista engajado, ao interessado amador por pintura e caligrafia (inclusive o shodo japonês). O poema se abre com uma cena de contemplação natural: um rimo que funde movimento e estase se vê desdobrado em dançarina de pedra (água sobre rocha, saltos de gotas) que evolui parada num movimento que recorda o fragmento de Heráclito (não se entra duas vezes num mesmo rio); o observador quase se funde à imagem, no jogo entre sem metas/sentado, ele percebe que o único tempo é o presente pontual, que recusa tanto o pretérito quanto o futuro, mas também o presente perfeito do “tenho sido”.

A segunda parte do poema parte para o logro mental do desejo de ser, um problema que parece surgir lá no poema de Parmênides, com a vida do ser e do não-ser, que acaba por elencar o “ser” como o caminho melhor. A mente, então, quer “ser” esse ser contínuo que funde o tempo numa essência clara, quer reconhecer-se no passado, apontar para um futuro coerente; a mente, nesse desejo, erra (no sentido de vagar e no sentido de cometer um erro) por almejar a coerência da essência, em vez do mero ser agora. Assim vamos ao postulado, lugar comum, por exemplo, do budismo, é zerando o desejo e o reconhecimento do sujeito coerente, que se busca uma espécie de dissolução, aniquilação do eu (muito além daquela desaparição elocutório do sujeito, de Marllarmé); o sujeito aqui procura, na recusa dos quereres, viver o agora, a cada agora.

Mas aí vem a pedra de toque, o exemplo natural, que sai do rio em seu paradoxo, para um ypê que flora em plena mata atlântica, à beira da serra, dependurado na serra. O ypê, como o rio, não se pensa (poderíamos lembrar Ricardo Reis, “os deuses são deuses porque não se pensam”), mas aliterativamente (pé, ypê, apenas, apenso, pé), esse pé que se desdobra no pé de si, no pé da serra, no apenas do florir; e aí podemos perceber que outro eco invade o poema inteiro, “mente”. O adverbial “completamente” que parecia apenas um jogo sonoro com “contemplo”, depois se desdobrará na “mente quer ser”, no “apenasmente”, “revolucionariamente” do ypê, que então nos apresenta outra mente (transfiguração do real para além do simbólico?) contra a mente desejante de coerência e essência. Não à toa, este ypê está “apenso”, com tudo que isso pode querer dizer (pendurado, penso, mas também a+penso, uma negação do pensar), ele que não pensa apenasmente apenso: um ypê como revolução, cultural, pessoal, política, como tudo na obra de Belchior. Apaixonado e violento, como você.

Eu pensei demais, Belchior, pensei em te citar muitas vezes pra insistir, ainda uma vez mais, nas poéticas orais, nas poéticas dos vivos. Pensei em falar da tua voz grave e fanha, fora dos padrões, que os bêbados imitam, e bêbado eu imitei, só pra lembrar que era essa falha que era também a tua poética, porque poesia é coisa de corpo, e no teu caso essa voz era parte da faca. Agora que você não tem agoras, fui fazer tudo isso, como posso. Com uma certa alegria em notar que fiz quase tudo de cabeça, que carrego neste corpo agora este teu tanto. Meio que com vontade de só cantar de volta: eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você.

guilherme gontijo flores

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tradução

De Rerum Natura de Lucrécio, por Rodrigo Gonçalves

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Gravura de  Michael Burghers

tito caro lucrécio (99 a.C. – 55 a.C.) já apareceu por aqui, em tradução de mario domingues (clique aqui). naquela ocasião, trouxemos um excerto do livro vi, conhecido também como o “livro do clima e da terra”. agora, outro excerto (III, vv. 417-505) vem à luz, desta vez do livro iii, ou “livro da mortalidade e da alma”, em tradução rítmica de rodrigo tadeu gonçalves.

rodrigo vem trabalhando nos mais de 7 mil hexâmetros do poeta latino há dois anos. por falta de tempo e por não querer mais se autoplagiar, o tradutor não pôde escrever uma introdução à tradução ora apresentada. todavia, pediu que fosse deixado aqui, ao acesso de texto, um texto seu sobre o poema épico (clique aqui).

cumprido estando o pedido, passemos à tradução.

 

sergio maciel

* * *

 

Vamos, então, pra que possas saber que as ânimas leves
e os ânimos são mortais e nativos nos seres
vivos, perseguirei os achados em doces labores
e os disporei em versos dignos de tua vida. 420

Faz com que juntes ambos sob um único nome
e, por isso, quando eu disser da ânima que ela
é mortal, poderás conceber que do ânimo falo
na medida em que ambos formam uma única coisa.

Em princípio, como ensinei que ela é tênue e consiste
de diminutos corpos, princípios muito menores
do que o líquido humor da água ou mesmo que a névoa
ou que a fumaça, pois longe em mobilidade os excede
e se move bem mais se tocada por tênue causa,
move-se mesmo tocada de imagens de fumo e de névoa. 430
Quando, pois, tomados de sono nós vimos ao alto
exalarem vapores altares, os fumos levando,
não há dúvida alguma, vêm-nos os simulacros;

E se de vasos chacoalhados pra todos os lados
vês fugir todo o humor e a água se espalha efluindo,
e se também a névoa e o fumo dispersam-se aos ares
crê tu que a ânima efunde-se e muito mais rápido esvai-se,
muito mais veloz dissolvendo-se em corpos primevos
logo que seja afastada dos membros dos corpos dos homens.
Mais, como o corpo, que é como se fosse pra ânima um vaso 440
vês que não pode contê-la, por algo concussionado
ou rarefeito, com sangue todo vazando das veias,
como crerias que pode ela ser coibida por ares,
já que esses ares do que os nossos corpos são bem mais esparsos?

Nós percebemos, também, que juntamente com o corpo
nasce a mente, e ao mesmo tempo cresce e envelhece.
Pois, assim como o infante vaga com tenro e infirme
corpo, também segue assim da ânima a tênue sentença.
Quando, pois, adolesce a idade em robusta virência,
cresce o conselho e maior é da ânima a verve. 450
Pós, quando, já chacoalhado por forças ferozes do tempo
nosso corpo, nos falham os membros com feras feridas,
claudicando o engenho, a língua delira e a mente,
tudo é deficiente e desaba e de súbito falta.

Logo, também convêm que da ânima toda a natura,
tal como o fumo, dissolva nas altas auras dos ares.
Já que junto nasce e cresce conjunta com o corpo,
vimos, e tal como expus, com ele sucumbe ao cansaço.
Segue-se então que vejamos que, tal como o corpo ele mesmo
é suscetível de imanes morbosidades e duras 460
dores, assim ao ânimo as acres agruras e o luto;
por tal motivo convém que lhe seja partícipe em morte.

Pois, como sempre em mórbido corpo ínvio vagueia
o ânimo, e fala somente delírios de língua demente,
e, vez ou outra, em letargo tremendo se deixa ir a um alto
sono, e eterno, cadente a cabeça, olhos pesados,
donde nem pode exaurir as vozes, vultos não vendo,
nem pode reconhecê-los à vida invocando de volta,
circunstantes, a lágrima rola – orvalho dos olhos.
Deve-se então admitir que o ânimo enfim se dissolve 470
quando quer que nele penetrem contágios do morbo.
Pois são a dor e o morbo ambos fabricadores da morte –
nisso somos perdoutos diante do exício de muitos.

Sigo: por quê, quando a um homem a verve do vinho penetra,
acre, e em meio às veias o ardor distribui-se, disperso,
segue-se gravidade, vacilam e trançam-se as pernas,
entardesce-se a língua, a mádida mente se mela,
nadam os olhos, soluços, clamores e tretas escalam, 480
desse gênero ainda outras coisas logo se seguem?
Qual é a causa, se não que a veemente violência do vinho
pode e costuma aturdir a ânima dentro do corpo?
Se algo pode ser assim aturdido e impedido,
nos significa que se uma causa um pouco mais dura
nele insinua-se, perecerá sem sua posteridade.

Mais ainda, se alguém, coagido de súbito morbo
diante dos nossos olhos, tal como atingido de um raio,
cai e baba espuma, geme e treme nos membros,
pira, retesa seus nervos, contorce-se, ofega anelante, 490
inconstante e em tais convulsões os seus membros fadiga.
Não é de se admirar: destroçadas as juntas e membros
pela verve do morbo, a ânima turba as espumas,
como no mar as ondas fervilham com a verve do vento.
Mais ainda, o gemido se exprime por conta dos membros
inflamados de dor e, principalmente, por conta
das sementes da voz que se lançam pra fora da boca
aglomeradas, pela via usual, em conjunto.

É quando a verve do ânimo-ânima é conturbada
que a loucura se faz, como já ensinei; de si mesma 500
é destroçada, divide-se pelo mesmo veneno.
Quando, porém, já retrocede a causa do morbo
e o acre humor do corpo corrupto volta pras sombras,
ergue-se, então, como se vacilante primeiro e então todos,
pouco a pouco, seus sentidos a ânima acolhe.

(tradução de rodrigo gonçalves)

 

Nunc age, nativos animantibus et mortalis
esse animos animasque levis ut noscere possis,
conquisita diu dulcique reperta labore
digna tua pergam disponere carmina vita. 420
tu fac utrumque uno sub iungas nomine eorum
atque animam verbi causa cum dicere pergam,
mortalem esse docens, animum quoque dicere credas,
quatenus est unum inter se coniunctaque res est.
Principio quoniam tenuem constare minutis
corporibus docui multoque minoribus esse
principiis factam quam liquidus umor aquai
aut nebula aut fumus – nam longe mobilitate
praestat et a tenui causa magis icta movetur;
quippe ubi imaginibus fumi nebulaeque movetur. 430
quod genus in somnis sopiti ubi cernimus alte
exhalare vaporem altaria ferreque fumum;
nam procul haec dubio nobis simulacra geruntur –
nunc igitur quoniam quassatis undique vasis
diffluere umorem et laticem discedere cernis
et nebula ac fumus quoniam discedit in auras,
crede animam quoque diffundi multoque perire
ocius et citius dissolvi <in> corpora prima,
cum semel ex hominis membris ablata recessit.
quippe etenim corpus, quod vas quasi constitit eius, 440
cum cohibere nequit conquassatum ex aliqua re
ac rarefactum detracto sanguine venis,
aere qui credas posse hanc cohiberier ullo,
corpore qui nostro rarus magis incohibens sit?
Praeterea gigni pariter cum corpore et una
crescere sentimus pariterque senescere mentem.
nam velut infirmo pueri teneroque vagantur
corpore, sic animi sequitur sententia tenvis.
inde ubi robustis adolevit viribus aetas,
consilium quoque maius et auctior est animi vis. 450
post ubi iam validis quassatum est viribus aevi
corpus et obtusis ceciderunt viribus artus,
claudicat ingenium, delirat lingua, <labat> mens,
omnia deficiunt atque uno tempore desunt.
ergo dissolui quoque convenit omnem animai
naturam, ceu fumus, in altas aeris auras;
quandoquidem gigni pariter pariterque videmus
crescere et, <ut> docui, simul aevo fessa fatisci.
Huc accedit uti videamus, corpus ut ipsum
suscipere immanis morbos durumque dolorem, 460
sic animum curas acris luctumque metumque;
quare participem leti quoque convenit esse.
quin etiam morbis in corporis avius errat
saepe animus; dementit enim deliraque fatur
interdumque gravi lethargo fertur in altum
aeternumque soporem oculis nutuque cadenti,
unde neque exaudit voces nec noscere voltus
illorum potis est, ad vitam qui revocantes
circumstant lacrimis rorantes ora genasque.
quare animum quoque dissolui fateare necessest, 470
quandoquidem penetrant in eum contagia morbi.
nam dolor ac morbus leti fabricator uterquest,
multorum exitio perdocti quod sumus ante.
[et quoniam mentem sanari, corpus ut aegrum
et pariter mentem sanari corpus inani]
denique cur, hominem cum vini vis penetravit
acris et in venas discessit diditus ardor,
consequitur gravitas membrorum, praepediuntur
crura vacillanti, tardescit lingua, madet mens,
nant oculi, clamor singultus iurgia gliscunt, 480
et iam cetera de genere hoc quaecumque sequuntur,
cur ea sunt, nisi quod vemens violentia vini
conturbare animam consuevit corpore in ipso?
at quaecumque queunt conturbari inque pediri,
significant, paulo si durior insinuarit
causa, fore ut pereant aevo privata futuro.
quin etiam subito vi morbi saepe coactus
ante oculos aliquis nostros, ut fulminis ictu,
concidit et spumas agit, ingemit et tremit artus,
desipit, extentat nervos, torquetur, anhelat 490
inconstanter, et in iactando membra fatigat.
nimirum quia vi morbi distracta per artus
turbat agens anima spumas, <ut> in aequore salso
ventorum validis fervescunt viribus undae.
exprimitur porro gemitus, quia membra dolore
adficiuntur et omnino quod semina vocis
eiciuntur et ore foras glomerata feruntur
qua quasi consuerunt et sunt munita viai.
desipientia fit, quia vis animi atque animai
conturbatur et, ut docui, divisa seorsum 500
disiectatur eodem illo distracta veneno.
inde ubi iam morbi reflexit causa reditque
in latebras acer corrupti corporis umor,
tum quasi vaccillans primum consurgit et omnis
paulatim redit in sensus animamque receptat.

(lucrécio, de rerum natura, ed. cyril bailey, 1910)

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poesia

Ana Carolina Figueiredo de Assis

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Ana Carolina Assis é poeta e educadora. Mora em São Gonçalo desde que nasceu, em 1991, e ainda investiga esse trânsito mato-asfalto ao ir pro Rio. Cursa o mestrado na UFF, pesquisando poesia, corpo e esquizofrenia em Adília Lopes e Stela do Patrocínio. Tem poemas publicados na Revista Garupa. Constrói a muitas mãos a Oficina Experimental de Poesia desde 2015 e esse ano publicou com el_s o Almanaque Rebolado (2017, Açougue, Cozinha Experimental e Garupa).

* * *

aos 16 parou de tocar piano os pássaros e as geografias dos homens
(para a joana)

a luz laranja
atravessava a pedra
era impossível

sobre a rocha gigante
detrás do vidro
antes da fome

da rocha aparente
manchada laranja

não sei se musgo
líquen raiz

criavam liga
e uma pedrinha
equilibrada
era impossível

e seria preciso
derrapar o carro
perder o olho
a liga
e as pontas

você dizia dos pássaros e da geografia dos homens e que estudou piano com a vó embora tenha parado aos 16

uma pedra sobre
a rocha gigante
sustentava a queda
d’água o abrigo dos
pássaros lentes

que só funcionariam
caso parássemos
o carro

coisa que não fizemos
pela mínima fome
que nós acometia

você dizia da acidez extrema entre as coxas e das vitórias-régias e do pincel mergulhado na sopa de cores trocadas e que viveu aqui desde os 11

a pedrinha sobre
o fundo laranja
nos olhava
fundo

e dizia eu não sou daqui
como disseram muitas vezes
aquelas mulheres

§

pássaro morto não é guerra, eu te dizia
e por isso não se pode
suspendê-lo como um
boi
ou proteger a carne
das carapaças

e rangiam teus pés na escada
já são muitos vermes
roendo o corpinho

sim, a fuligem das penas
dos olhos minúsculos
pretos
tinta aos besouros
que pronto chegaram
mas já eram toco a carambola
a fruta do conde
e os restos da feira

eu que nunca troquei de casa
agradeço por não cair do ninho

§

ponte presidente costa e silva

agora sabíamos
cidade de Ilhabela
aquele cargueiro
pro qual correr
caso rasgassem contratos

suas crostas
crustáceos agora sabíamos
feito cascos de tartaruga
guardavam – casa
de corpos –
segredos

vigas guardavam
dos corpos a maior parte
agora sabíamos
caldo de caranguejos
e areia lavada

corpos que cuspiram
como caroços de ameixa
seu gosto por trocas
agora sabíamos

eu te dizia dos
corpos secretos
sob a frágil pele
da ponte

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crítica, poesia

Ana Kiffer, por Flávia Trocoli

sobre os poemas de tiráspola/desaparecimentos, primeiro livro de poemas de ana kiffer

flávia trocoli

Em algum lugar, talvez em sacrifício, ou em fúria, uma mulher queimou os nomes, queimou as histórias, queimou as cartas e as imagens. Nenhum elogio à posse. De um lado, em desaparecimentos, nos rastros, talvez, dessa mão ardente, Ana Kiffer recolheu as cinzas, as letras, os pedaços desarticulados das histórias, das cartas e das imagens. E, no entanto, esse só-depois do fogo não é o único tempo dessa escrita. O passado está desfeito, mas não apaziguado. Como quem não lamenta a miragem, ao contrário, deixa que ela passe, a escritora agarra e lança seu leitor no instante impossível do desaparecimento, nem antes, nem depois: a desintegrar as palavras, a roer a prosa, a des-existir. Escrita, portanto, que queima os nomes, sem desistir de inscrevê-los, assim: o nome disso é isso:/um traço caindo no meio das/costas./sem nome. Receba, leitor, estespoemas, eles veem na dor, sem desistir do êxtase. E ela, a dor, é também um resto que define um rosto, despido da imagem e da miragem, feito de linhas e buracos. Um outro poeta já o disse: o mais brilhante dos objetos é um buraco. Esgueirar-se, lançar as cinzas, contornar e atravessar os poemas, chegar a sua outra margem. Do outro lado, com a lucidez que o tempo presente exige, na primeira página de Tiráspola, encontra-se o ano de 2016 – o que se passou? Quando passará? Agora não é mais o passado que se desfaz, é próprio presente e Ana Kiffer não se deixa ofuscar e nem fascinar pelo buraco que contorna, não desiste de fazer sobreviverem o êxtase e a fúria, como quem abraça o corpo amado e se deixa abraçar por ele. Se escreve o amor e o golpe, é para, primeiro, atá-los sem remédio – o amor é o golpe. A partir do tempo presente, da vida presente, corpos e feridas, passado e futuro se enlaçam em encontro e, depois, em separação, como também podem estar contidos em um verso formado por uma só palavra. Passado e presente mal passaram e já existem restos de um romance de guerra que teria se contado entre Tiráspola, que se quer visitar, e uma Brasília cercada por barras de ferro. Deserto cravado no coração? Dele, crava-se a palavra pobre nos podres poderes, em um poema sem rima, sem verso, sem dente, sem corpo. Dele, do deserto, escreve-se, irrigando-o mesmo que sejam com orações quebradas, a destruição que, ao mesmo tempo, conecta e desconecta amor e golpe. E é somente, diante desse deserto instaurado de novo, que se pode afirmar o desejo inquebrantável de uma escrita que, na contramão da posse, do golpe, da barra de ferro, nos faz deslizar entre as letras, aquelas que claramente são as mais difíceis de rejuntar, soletrando nomes de mulheres, passagens secretas para esse Outro lugar que habitam os poemas de Ana Kiffer, que desconcerta e desaloja. E rejunta, não sem amor, a vida golpeada.

* * *

poemas citados por flávia trocoli:

AVISO:
esse livro é sobre
o amor e o golpe
quero dizer…
o amor é o golpe.
não!
é 2016
o amor e ´ o golpe…
– você não sabe o que diz.

(de tiráspola)

§

o nome disso é isso:
um traço caindo no meio das costas
um m no meio do nome
sem nome
duas mãos e alguns dedos
e uma matemática do incontável
eis que um isso rasga entre nós a neblina dos meus olhos cansados
traçando desejos
você dizendo
sensatos
comprimidos no retângulo raro de rodas altas
que deslizava numa quantidade interminável de horas
com histórias tontas
ali mesmo
onde o silêncio de pequenos ruídos feitos de ais
saíam do canto esquerdo
da tua boca
que agora aqui
na minha cama
toco
lentamente
com os dedos que sobraram
daquelas mãos negativas deixadas sobre o peito da minha caverna
no atlântico sul
depois
muito depois
da visita de duras por ali
um suspiro rarefeito adensou o ar desses trópicos cheios de lugares comuns

e fez sentar ao lado
um qualquer
enquanto eu
por detrás
via você falando de costas ia imaginando os pelos densos dela
e as escarpas nunca visitadas que insurgiam num batimento de cílios
por onde entra também a morte

deixo para você o meu último exercício espiritual
com cinco – como pedido – e o nome disso:
o nascimento de clara
a morte de cléa
o beija-flor de asa quebrada da minha infância
a escada rolante do dia em que parti
e uma van sobre o meu talvegue

(de tiráspola)

§

a rima pobre a casa pobre a vida pobre o pobre a arte pobre sem povera sem italiana sem ana a vez do verso do pobre a voz sem verso sem prosa sem rosa sem costume o uso pobre da língua pobre pobre o termo pobre sem termo sem eira sem rima pobre a rima gruda é só um ímã pobre da infância pobre como se falava pobre naquela época pobre naquela casa pobre hoje o vazio pobre volta o pobre já não rima nem adianta o pobre nem adianta você que quer você com o uso pobre da língua pobre dos podres poderes pobres versos logo você que não fica quieta no teu lugar pobre cheio de afeto de pobre de gente pobre que faz rima pobre teu sorriso pobre de boca pobre sem dente só unha contra as garras podres tudo muito pobre de rima pobre de rua pobre e nua pobre de boca pobre de dente podre não ria porque rir mostra o pobre o podre o dente e as vezes só as vezes a língua que agora decidiu que me afia no afinco de ir com o pobre da rima podre contra o sorriso agônico da arrogância uma lâmina contra os cantos da tua boca apenas um fio de cabelo nas minhas mãos pobres e puff explodiu um corpo pobre do poema pobre em verso pobre sobre o conceito de pobre de rima de poema que você deixou como obra póstuma sobre o leito pobre sobre o qual me deitei com mil versos pobres e ri sem dentes sobre a tua cara pávida eu esquálida sobre o seu sem corpo e tudo agora voltava ao seu mundo a tua morte inata e a minha vida pobre tudo muito podre vivia naquele reino

(de desaparecimentos)

§

Outros poemas de tiráspola/desaparecimentos:

atos institucionais

para o kiffer

como dizer
do que não lembro
nem vivi
e dali
do corpo de minha mãe
da prisão
como dizer
o impossível de tudo o que você calava
porque repetia e me contava
e daquela cela
na fortaleza que tem teu nome virado em santo meu pai
como não me envergonhar de agora aqui ainda
como dizer
que tento
apesar de tudo
daquela palavra fátuo
entender
e que mesmo no impossível
você tentou
como dizer que agora tento
mesmo no indizível
que não deixei de tentar
mesmo quando sem afeto
a palavra dura
ela dura
em seu silêncio
no corpo
do que não vivi
e não sei e não lembro
hoje a borra do que fica
como dizer
essa impressão
sobre tinta e papel
essa pressão que assola meu peito
em rota definitiva
em rotação do ainda
como dizer
mesmo quando cansada, pai
como dizer
àquele corpo trêmulo que você deixou na fortaleza de são joão
sigo buscando, pai
àquele corpo sem obra
com os braços curtos
a cavar
ali mesmo
por detrás daquela praça pública
ali mesmo
veja
aqui mesmo
onde deixaram o meu cadáver

§

anos se passaram
até que você me dissesse do medo que teve de que tudo isso se perdesse aqui

na minha lembrança
no engolfar proustiano daquela atmosfera cheia de madeleines
ah a minha paris literária
profundamente heroica
cuide-se
ao rejuntar-se ao mundo

§

anos se passaram
até que você me dissesse
me dissesse
de tudo isso
que se perdeu
o engolfar proustiano daquela atmosfera cheia de madeleines
a literatura
e o seu profundamente heroico
que se cuidem

(de desaparecimentos)

§

essa hora estranha e o zumbido destes tempos remotos
hoje talvez seja a bomba
– d’agua? –
e um ar que passa entre as paredes
mas aos 7 ali daquela sacada de onde avistava o mundo
eram os passos do lado de fora
a escutar o silêncio
povoado de rastros
vozes inauditas
ruídos
nomes
que hoje invento ao meu lado
estão aqui
sentados perto de mim
você que há tanto tempo vem tentando me dizer
sobre este mundo dali
do lado de fora
aquela multidão já desaparecida
as luzes apagadas
um vácuo de mim em cada janela que se acendia
um pouco da minha sombra em tudo o que por aqui passou
eu mesma um espectro da noite
restando evanescente diante do dia
a sua luz ofuscando o que de nós escapa e foge
esse corpo ligeiro
o animal que passa
o que rasteja

§

antes mesmo de uma vida nossa
já choro o dia da tua morte
essa tristeza que se abate
sem sentido
ou hora
essa velha no sinal
a minha paralisia falante
o teu carinho
o passeio que não fizemos
essa dor assusta sem complemento
mesmo quando dela me separo
e de você
que nem conheço
e já decido que não
não sou capaz de ficar
porque existiria mesmo
algo além da fantasia
ou quiçá uma ideia de vida
em que o amor não fosse apenas
esse poço frustrado
dos nomes perdidos
de tudo o que esquecemos
enfim
essa lama cujo meio grudou à minha sola
tingindo parte dos pés
um tanto da mão
enfurecida
e a cara
sim, essa coisa parada entre nós
sem nome ou rosto
uma cara bruta
que dizia apenas
não
desconhecemos por ora
e aqui
outra forma
do amor.

(de tiráspola)

 

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um poema de Aline Bei

bei

Aline Bei é escritora e vive em sampa. sobre ela, sua voz: eu tinha uns 8 anos quando ganhei da minha mãe uma Agenda. – agora você pode se organizar, – ela disse. era uma agenda bem colorida, com folhas sem linhas, janeiro, março, julho e o melhor: em alguns dias do mês tinham poemas. esses dias com poemas. (meus favoritos do ano). contato: alinebei@hotmail.com

***

não tenho mãe

 

meu rosto ainda estava no asfalto

na queda tem esse momento

pequeno

em que a gente quase se acostuma com o chão, a gente quase mora no lugar onde caímos

também na pessoa em nós que caiu

como se a queda fosse irreversível

como se a vida, agora, se limitasse a isso, a esse

beijo.

o asfalto

é um lugar de pisar e carros, um lugar de passagem, não parece natural um rosto ali, Imóvel.

ou morreu

ou a queda está doendo demais

até que eu me levantei

devagar

sentindo falta de algo no corpo.

não era a pele

nem o sangue

esse sangue que fica como um rio pela gente, já pensou? no quão líquido somos, água, sangue e nada vaza, a Pele de barreira e ainda por cima é macia, ainda por cima ela é útil

no amor.

depois da queda

meu plano de virar uma grande escritora subitamente ficou pra depois.

cair é uma pausa

no movimento da vida, de repente uma consciência

se não da própria morte

talvez da fragilidade que nos é inata

e no turbilhão dos dias a gente se esquece dela.

parecemos tão fortes lutando pelo que queremos, pelas pessoas que amamos, pagamos nossas contas, planejamos viagens, um filho, e de repente lembramos,

de repente entendemos que

somos feito de vidro.

 

-tá tudo bem?- perguntam, me ajudando a levantar.

sim. – respondo esgotada.

-vou chamar uma ambulância.

não, não precisa. tá tudo bem, não foi nada grave. eu vou pra casa agora.

-mas seu rosto. tá bem machucado. vem, a gente te ajuda.

não precisa, é sério. eu moro logo ali. obrigada. tá tudo bem.

 

e me lembrei de um dia

em que eu caí assim também, de rosto, minha mãe estava perto, ela me puxou pelo braço tão rápido

que doeu o ombro em cima da dor

do rosto.

 

-filha, filha. –ela dizia agitada.

 

me colocou no peito num abraço, aquela correntinha de pássaro que ela tinha

grudou na minha bochecha

meu suor, o dela,

ficou a marca do pingente em mim.

-tô bem, mãe. – eu disse. – foi só um susto.

e ela chorando. me vi ali, com 5 ou 6 anos,

consolando minha mãe da minha queda, acalmando ela da minha dor, eu que sempre fui a mãe da minha mãe.

ela nunca soube

cuidar de ninguém.

mas tentava, desesperada cuidar, às vezes ficava até violenta cuidando,

fazendo o curativo com força. ela se aborrecia rápido,

gritava Eu tenho tanta coisa pra fazer e colocava as mãos na cabeça.

esse era o seu jeito de lidar com o Susto, como uma menina.

então eu passei a evitar machucados,

tomava um cuidado absurdo como se minha vida fosse dentro de uma loja de cristais.

não queria ver minha mãe gritando, evitava contar as histórias das outras crianças que podiam assustá-la,

como quando a mãe da sofia morreu

e a sofia não comia mais

ficou tão magra que ia pra escola de cadeira de rodas.

não contei nada

nada de trágico para os ouvidos de mamãe. quando chegava de Noite

ela ficava mais macia.

a noite tinha um efeito devastador de calmaria pra minha mãe, sempre foi assim. ela nunca brigou com ninguém à noite,

ela ficava doce,

compreensiva, até bem humorada, até menos dona

de si. vulnerável à cama, ao peso dos lençóis, ela finalmente se calava, cedia, de noite você podia contar pra ela até de 1 medo.

calmamente ela te ouviria

dizendo tá tudo bem

e um abraço, um abraço também seria bom.

mas quando amanhece o dia

a calmaria passa

a calmaria é como se fosse um sonho que tive ou quem sabe era ela quem estava sonhando

e por isso me tratou assim, como aquelas mães nos filmes,

que cantam pra fazer o filho dormir, a mão delicada passeando pela testa do menino.

e assim eu sigo

tentando não me machucar

evitando qualquer perigo

pisando em

ovos tenho conseguido

me equilibrar com o passar dos anos, é pena que hoje eu tenha caído assim desprevenida

nem me lembro como. fico tentando lembrar

estava tão lúcida antes da queda

como posso esquecer de tudo assim, de repente? a memória. a memória tem vida própria

ela é um anão

morando na gente

entre a cabeça e o peito, mais ou menos na altura garganta.

tem certeza que não precisa de ninguém pra te levar em casa?

tenho, obrigada. eu já vou indo.

pego minha bolsa e a chave que foram parar do outro lado da calçada. agradeço com um leve aceno de cabeça os olhares preocupados dos desconhecidos ali

na rua

eles formavam uma pequena plateia.

olhavam com pena

minha volta pra casa, espero que a mãe esteja no mercado

ou que o machucado seque

com o vento,

ventava bastante,
aquele algo a menos no corpo ainda latejava em mim.

 

 

 

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poesia

Hugo Simões (1990-)

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hugo simões faz e traduz poesia, entre outras coisas. tem um livro publicado pela dybbuk (pêsames, 2016), alguns poemas espalhados por jornais locais e algumas traduções (feitas a quatro ou mais mãos) expostas na casa stefan zweig. não almeja a glória, ama a rihanna e corta o cabelo no mesmo lugar há dez anos.

* * *

mesmo aquela flor
o retrato a data
a mancha no canto que estive
o lado que nesses anos todos me deitei
seca no pender dos olhos
que hoje ao avesso
procuram no oco da carne
a lembrança que chegamos ser

§

o barulho do ventilador de teto
no quarto ao lado em que deito
não afeta meu olhar para vós
— que sois tento em vão dizer
a minha frente entre o contínuo
som de giros vos escuto entre
meus lóbulos olhos narinas sei

§

procurei teu nome no google
porque senti saudade

conheci teus homônimos
vidas imagens palavras sem fim

mas não encontrei tua cara
tuas crases erradas teu cabelo curto

§

ininterruptamente
bipes escapes furados
toques polifônicos plins
carros dos sonhos
quadrado bolinha
ônibus subindo ladeiras
mouses clicando e
pigarros e pigarros
: eis a minha infância

§

quero vê-la sorrir
tocava no passat do
meu vô na época eu
não via a polissemia
de tudo que pensava

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poesia

Luís Perdiz

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Luís Perdiz é poeta, compositor e editor do portal de literatura Poesia Primata, voltado para a degustação e difusão da poesia contemporânea brasileir . Faz parte do projeto musical autoral Estranhos no Ninho, do coletivo Ocupecompoesia e colabora regularmente em revistas de literatura e antologias. Com poemas de Saudade mestiça (Patuá, 2016), seu livro de estreia, obteve menção honrosa no Programa Nascente USP. Atualmente vive em São Paulo.

* * *

CÓRREGOS

bota imersa na
flora do destino
brilho transatlântico
fincado em alma

auroras e cachos
moto infinita na neblina

dilúvio de nuances
improvisando verões

o jazz campestre na barraca da noite
desfigurava também o interior de nossos pulsos

§

 

FUTURO EM FÚRIA
todos os eletrônicos sagrados ruíram com cócegas
têmporas lapidadas se derreteram em química miragem

viveram pólvoras por detalhes
retalho pelo retalho em amarga voz

semblante animal lívido próximo à porta
sonegávamos entreabertos as sirenes do teatro lógico

o dia mastigado no bolso anterior
cada entulho vespertino em sua espécie ávida
vapores e capacetes abandonados no esgoto

éramos dois esqueletos momentâneos do destino
numa carne viva e suntuosa 
esperando esperança

§

PLAYGROUND

o que mais me relevava naquele
playground vazio
era o silêncio
igual ao meu

infância fantasia atravessada
merthiolates colos contrastes
amigos imaginários
todos eles filhos únicos

ensimesmado
pressentia sons de macondo

outras partes longas
indefinidas
longe do baile de minotauros

§

ESTADIA

sempre na sua casa
os vitrais se entrelaçam
as teias desnudam o tempo

as peles se dissolvem
meu alicerce mais valente
assiste o horário

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