crítica, poesia

Ana Kiffer, por Flávia Trocoli

sobre os poemas de tiráspola/desaparecimentos, primeiro livro de poemas de ana kiffer

flávia trocoli

Em algum lugar, talvez em sacrifício, ou em fúria, uma mulher queimou os nomes, queimou as histórias, queimou as cartas e as imagens. Nenhum elogio à posse. De um lado, em desaparecimentos, nos rastros, talvez, dessa mão ardente, Ana Kiffer recolheu as cinzas, as letras, os pedaços desarticulados das histórias, das cartas e das imagens. E, no entanto, esse só-depois do fogo não é o único tempo dessa escrita. O passado está desfeito, mas não apaziguado. Como quem não lamenta a miragem, ao contrário, deixa que ela passe, a escritora agarra e lança seu leitor no instante impossível do desaparecimento, nem antes, nem depois: a desintegrar as palavras, a roer a prosa, a des-existir. Escrita, portanto, que queima os nomes, sem desistir de inscrevê-los, assim: o nome disso é isso:/um traço caindo no meio das/costas./sem nome. Receba, leitor, estespoemas, eles veem na dor, sem desistir do êxtase. E ela, a dor, é também um resto que define um rosto, despido da imagem e da miragem, feito de linhas e buracos. Um outro poeta já o disse: o mais brilhante dos objetos é um buraco. Esgueirar-se, lançar as cinzas, contornar e atravessar os poemas, chegar a sua outra margem. Do outro lado, com a lucidez que o tempo presente exige, na primeira página de Tiráspola, encontra-se o ano de 2016 – o que se passou? Quando passará? Agora não é mais o passado que se desfaz, é próprio presente e Ana Kiffer não se deixa ofuscar e nem fascinar pelo buraco que contorna, não desiste de fazer sobreviverem o êxtase e a fúria, como quem abraça o corpo amado e se deixa abraçar por ele. Se escreve o amor e o golpe, é para, primeiro, atá-los sem remédio – o amor é o golpe. A partir do tempo presente, da vida presente, corpos e feridas, passado e futuro se enlaçam em encontro e, depois, em separação, como também podem estar contidos em um verso formado por uma só palavra. Passado e presente mal passaram e já existem restos de um romance de guerra que teria se contado entre Tiráspola, que se quer visitar, e uma Brasília cercada por barras de ferro. Deserto cravado no coração? Dele, crava-se a palavra pobre nos podres poderes, em um poema sem rima, sem verso, sem dente, sem corpo. Dele, do deserto, escreve-se, irrigando-o mesmo que sejam com orações quebradas, a destruição que, ao mesmo tempo, conecta e desconecta amor e golpe. E é somente, diante desse deserto instaurado de novo, que se pode afirmar o desejo inquebrantável de uma escrita que, na contramão da posse, do golpe, da barra de ferro, nos faz deslizar entre as letras, aquelas que claramente são as mais difíceis de rejuntar, soletrando nomes de mulheres, passagens secretas para esse Outro lugar que habitam os poemas de Ana Kiffer, que desconcerta e desaloja. E rejunta, não sem amor, a vida golpeada.

* * *

poemas citados por flávia trocoli:

AVISO:
esse livro é sobre
o amor e o golpe
quero dizer…
o amor é o golpe.
não!
é 2016
o amor e ´ o golpe…
– você não sabe o que diz.

(de tiráspola)

§

o nome disso é isso:
um traço caindo no meio das costas
um m no meio do nome
sem nome
duas mãos e alguns dedos
e uma matemática do incontável
eis que um isso rasga entre nós a neblina dos meus olhos cansados
traçando desejos
você dizendo
sensatos
comprimidos no retângulo raro de rodas altas
que deslizava numa quantidade interminável de horas
com histórias tontas
ali mesmo
onde o silêncio de pequenos ruídos feitos de ais
saíam do canto esquerdo
da tua boca
que agora aqui
na minha cama
toco
lentamente
com os dedos que sobraram
daquelas mãos negativas deixadas sobre o peito da minha caverna
no atlântico sul
depois
muito depois
da visita de duras por ali
um suspiro rarefeito adensou o ar desses trópicos cheios de lugares comuns

e fez sentar ao lado
um qualquer
enquanto eu
por detrás
via você falando de costas ia imaginando os pelos densos dela
e as escarpas nunca visitadas que insurgiam num batimento de cílios
por onde entra também a morte

deixo para você o meu último exercício espiritual
com cinco – como pedido – e o nome disso:
o nascimento de clara
a morte de cléa
o beija-flor de asa quebrada da minha infância
a escada rolante do dia em que parti
e uma van sobre o meu talvegue

(de tiráspola)

§

a rima pobre a casa pobre a vida pobre o pobre a arte pobre sem povera sem italiana sem ana a vez do verso do pobre a voz sem verso sem prosa sem rosa sem costume o uso pobre da língua pobre pobre o termo pobre sem termo sem eira sem rima pobre a rima gruda é só um ímã pobre da infância pobre como se falava pobre naquela época pobre naquela casa pobre hoje o vazio pobre volta o pobre já não rima nem adianta o pobre nem adianta você que quer você com o uso pobre da língua pobre dos podres poderes pobres versos logo você que não fica quieta no teu lugar pobre cheio de afeto de pobre de gente pobre que faz rima pobre teu sorriso pobre de boca pobre sem dente só unha contra as garras podres tudo muito pobre de rima pobre de rua pobre e nua pobre de boca pobre de dente podre não ria porque rir mostra o pobre o podre o dente e as vezes só as vezes a língua que agora decidiu que me afia no afinco de ir com o pobre da rima podre contra o sorriso agônico da arrogância uma lâmina contra os cantos da tua boca apenas um fio de cabelo nas minhas mãos pobres e puff explodiu um corpo pobre do poema pobre em verso pobre sobre o conceito de pobre de rima de poema que você deixou como obra póstuma sobre o leito pobre sobre o qual me deitei com mil versos pobres e ri sem dentes sobre a tua cara pávida eu esquálida sobre o seu sem corpo e tudo agora voltava ao seu mundo a tua morte inata e a minha vida pobre tudo muito podre vivia naquele reino

(de desaparecimentos)

§

Outros poemas de tiráspola/desaparecimentos:

atos institucionais

para o kiffer

como dizer
do que não lembro
nem vivi
e dali
do corpo de minha mãe
da prisão
como dizer
o impossível de tudo o que você calava
porque repetia e me contava
e daquela cela
na fortaleza que tem teu nome virado em santo meu pai
como não me envergonhar de agora aqui ainda
como dizer
que tento
apesar de tudo
daquela palavra fátuo
entender
e que mesmo no impossível
você tentou
como dizer que agora tento
mesmo no indizível
que não deixei de tentar
mesmo quando sem afeto
a palavra dura
ela dura
em seu silêncio
no corpo
do que não vivi
e não sei e não lembro
hoje a borra do que fica
como dizer
essa impressão
sobre tinta e papel
essa pressão que assola meu peito
em rota definitiva
em rotação do ainda
como dizer
mesmo quando cansada, pai
como dizer
àquele corpo trêmulo que você deixou na fortaleza de são joão
sigo buscando, pai
àquele corpo sem obra
com os braços curtos
a cavar
ali mesmo
por detrás daquela praça pública
ali mesmo
veja
aqui mesmo
onde deixaram o meu cadáver

§

anos se passaram
até que você me dissesse do medo que teve de que tudo isso se perdesse aqui

na minha lembrança
no engolfar proustiano daquela atmosfera cheia de madeleines
ah a minha paris literária
profundamente heroica
cuide-se
ao rejuntar-se ao mundo

§

anos se passaram
até que você me dissesse
me dissesse
de tudo isso
que se perdeu
o engolfar proustiano daquela atmosfera cheia de madeleines
a literatura
e o seu profundamente heroico
que se cuidem

(de desaparecimentos)

§

essa hora estranha e o zumbido destes tempos remotos
hoje talvez seja a bomba
– d’agua? –
e um ar que passa entre as paredes
mas aos 7 ali daquela sacada de onde avistava o mundo
eram os passos do lado de fora
a escutar o silêncio
povoado de rastros
vozes inauditas
ruídos
nomes
que hoje invento ao meu lado
estão aqui
sentados perto de mim
você que há tanto tempo vem tentando me dizer
sobre este mundo dali
do lado de fora
aquela multidão já desaparecida
as luzes apagadas
um vácuo de mim em cada janela que se acendia
um pouco da minha sombra em tudo o que por aqui passou
eu mesma um espectro da noite
restando evanescente diante do dia
a sua luz ofuscando o que de nós escapa e foge
esse corpo ligeiro
o animal que passa
o que rasteja

§

antes mesmo de uma vida nossa
já choro o dia da tua morte
essa tristeza que se abate
sem sentido
ou hora
essa velha no sinal
a minha paralisia falante
o teu carinho
o passeio que não fizemos
essa dor assusta sem complemento
mesmo quando dela me separo
e de você
que nem conheço
e já decido que não
não sou capaz de ficar
porque existiria mesmo
algo além da fantasia
ou quiçá uma ideia de vida
em que o amor não fosse apenas
esse poço frustrado
dos nomes perdidos
de tudo o que esquecemos
enfim
essa lama cujo meio grudou à minha sola
tingindo parte dos pés
um tanto da mão
enfurecida
e a cara
sim, essa coisa parada entre nós
sem nome ou rosto
uma cara bruta
que dizia apenas
não
desconhecemos por ora
e aqui
outra forma
do amor.

(de tiráspola)

 

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