crítica, poesia

In memoriam Belchior (1946—2017)

Os deuses também morrem. Todos o sabem, talvez até demais. Na verdade, deuses não param de morrer, a todo instante, e todo ano lamentamos uns bons tantos que se vão talvez — ou muito provavelmente — ao nada. Belchior é mais um dos imensos que se vão, mas nos imensos há muitos casos menores, o caso pequeno deles em nossas vidas mesquinha, e Belchior é uma parte da minha vida que não se vai com sua morte, e que não quero narrar aqui, nem contar quantas vezes já toquei “A palo seco” nesta vida. Ele fica nos que ficam, arrisca-se a ir ficando ainda além. Paradoxo dos deuses que morrem, mas não de todo (non omnis moriar “não morrerei de todo”, diria o romano Horácio). Foi-se um deus, não quero aqui lamentar, nem vou apresentar aos leigos. O mistério, eu mesmo já escrevi isso, está na cara.

Há muito tempo eu pensava em comentar aqui no escamandro o poder da poesia de Belchior,  como também desejo e adio comentar Djavan e Zé Ramalho (pelo fato de receberem ainda tão pouca atenção poética), eu pensava em comentar coisas impressionantes, como “De primeira grandeza”:

Quando eu estou sob as luzes, não tenho medo de nada
E a face oculta da lua, que era minha, aparece iluminada,
Sou o que escondo sendo uma mulher, igual a tua namorada,
Mas o que vês, quando mostro estrela de grandeza inesperada,

Musa, deusa, mulher, cantora e bailarina,
A força masculina atrai, não é só ilusão.
A mais que a história fez e faz, o homem se destina
A ser maior que Deus por ser filho de Adão

Anjo, herói, Prometeu, poeta e dançarino,
A glória feminina existe e não se fez em vão,
E se destina a vir ao gozo a mais do que imagina
O louco que pensou a vida sem paixão.

Mas acho que daria pra resumir tudo repetindo “a mais que a história fez e faz, o homem se destina | a ser maior que Deus por ser filho de Adão”, simplesmente lembrar que ele, como homem, soube dar-se à voz de cantar tamanha violência, poeta da crueldade, que feito faca fura as nossas carnes. Muito pensei na necessidade simples de canções como “Galos, noites e quintais”:

Quando eu não tinha o olhar lacrimoso,
que hoje eu trago e tenho;
Quando adoçava meu pranto e meu sono,
no bagaço de cana do engenho;

Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus,
fazendo eu mesmo o meu caminho,
por entre as fileiras do milho verde
que ondeia, com saudade do verde marinho:

Eu era alegre como um rio,
um bicho, um bando de pardais;
Como um galo, quando havia,
quando havia galos, noites e quintais.

Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo
o mal que a força sempre faz.
Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais

Por ser essa re-versão do topos dos meus oito anos. “Eu era alegre como um rio | um bicho, um bando de pardais; | como um galo quando havia, | quando havia galos, noites e quintais” — versos que já citei na minha poesia (meu modo de dizer que isso é poesia de primeira grandeza) — isso resume muito da melancolia infantil que assola a tantos, que por sua vez infelizmente não conseguem repetir com a mesma força outra frase como “não sou feliz, mas não sou mudo”, nesses tempos de mudez geral, assolada pelo excesso de repetição das redes sociais; em parte não conseguimos como grupo dar força de verdade ao “hoje canto muito mais” que supere o lamento. Eu pensava ainda em analisar o engajamento desse homem que tinha por alucinação “suportar o dia a dia”, o delírio da “experiência com coisas reais”; ou aquele engajado no viço que convocou todos a rejuvenescer,; mencionar “enquanto houver espaço, tempo e algum modo de dizer não, eu canto”, e o fato de que ele mesmo parou de cantar (para inventar outros nãos? haveria um não em traduzir a Commedia de Dante?, devemos muito pensar nisso); lembrar que esse cidadão teve colhão de nos lembrar há tanto tempo que “nada é divino, nada é maravilhoso” (embora eu mesmo penso que tudo é também divino e maravilhoso, mesmo não sendo) para bater num outro deus Caetano, porque deuses têm lá rixas, desde que o mundo é mundo; que na mesma canção, “Fotografia 3×4, ainda teria o vigor de expor-se-nos (quem o sujeito?) assim:

A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do norte
Que no sul viveu na rua
Que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
Que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
Que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você
Eu sou como você

Pensei em simplesmente mostrar que poema impresisonante é Paralelas

Dentro do carro
Sobre o trevo
A cem por hora, ó meu amor
Só tens agora os carinhos do motor

E no escritório em que eu trabalho
e fico rico, quanto mais eu multiplico
Diminui o meu amor

Em cada luz de mercúrio
vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos
Nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar

No Corcovado, quem abre os braços sou eu
Copacabana, esta semana, o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel, o que é paixão

E as paralelas dos pneus n’água das ruas
São duas estradas nuas
Em que foges do que é teu

No apartamento, oitavo andar
Abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa
Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu

Poderia ainda comentar que coisa genial foi traduzir o Raven/Never de Poe em Blackbird dos Beatles em Assum Preto de Gonzaga, em “Velha Roupa Colorida”:

Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: Black bird, Assum-preto, o que se faz?
Raven never Raven never Raven never Raven never Raven
Assum-preto, passo preto, blackbird, me responde, tudo já ficou atrás
Raven never Raven never Raven never Raven never Raven
Black bird, passáro preto, passáro preto, me responde
O passado nunca mais

Mas isso temos às pencas por aí. Imagino que os louvores de hoje dos próximos dias vão citar aos montes esses trechos. Eu queria, queria há muito tempo, como disse, falar de outra, “Ypê:

Contemplo o rio, que corre parado
e a dançarina de pedra que evolui,
completamente sem metas, sentado,
não tenho sido, eu sou, não serei, nem fui.

A mente quer ser, mas querendo erra;
pois só sem desejos é que se vive o agora.
Vede o pé de ypê, apenasmente flora,
revolucionariamente apenso ao pé da serra.

É uma espécie de síntese dos contrates que foi Belchior, do estudante de medicina ao poeta/compositor/cantor, passando pelo bardo cronista engajado, ao interessado amador por pintura e caligrafia (inclusive o shodo japonês). O poema se abre com uma cena de contemplação natural: um rimo que funde movimento e estase se vê desdobrado em dançarina de pedra (água sobre rocha, saltos de gotas) que evolui parada num movimento que recorda o fragmento de Heráclito (não se entra duas vezes num mesmo rio); o observador quase se funde à imagem, no jogo entre sem metas/sentado, ele percebe que o único tempo é o presente pontual, que recusa tanto o pretérito quanto o futuro, mas também o presente perfeito do “tenho sido”.

A segunda parte do poema parte para o logro mental do desejo de ser, um problema que parece surgir lá no poema de Parmênides, com a vida do ser e do não-ser, que acaba por elencar o “ser” como o caminho melhor. A mente, então, quer “ser” esse ser contínuo que funde o tempo numa essência clara, quer reconhecer-se no passado, apontar para um futuro coerente; a mente, nesse desejo, erra (no sentido de vagar e no sentido de cometer um erro) por almejar a coerência da essência, em vez do mero ser agora. Assim vamos ao postulado, lugar comum, por exemplo, do budismo, é zerando o desejo e o reconhecimento do sujeito coerente, que se busca uma espécie de dissolução, aniquilação do eu (muito além daquela desaparição elocutório do sujeito, de Marllarmé); o sujeito aqui procura, na recusa dos quereres, viver o agora, a cada agora.

Mas aí vem a pedra de toque, o exemplo natural, que sai do rio em seu paradoxo, para um ypê que flora em plena mata atlântica, à beira da serra, dependurado na serra. O ypê, como o rio, não se pensa (poderíamos lembrar Ricardo Reis, “os deuses são deuses porque não se pensam”), mas aliterativamente (pé, ypê, apenas, apenso, pé), esse pé que se desdobra no pé de si, no pé da serra, no apenas do florir; e aí podemos perceber que outro eco invade o poema inteiro, “mente”. O adverbial “completamente” que parecia apenas um jogo sonoro com “contemplo”, depois se desdobrará na “mente quer ser”, no “apenasmente”, “revolucionariamente” do ypê, que então nos apresenta outra mente (transfiguração do real para além do simbólico?) contra a mente desejante de coerência e essência. Não à toa, este ypê está “apenso”, com tudo que isso pode querer dizer (pendurado, penso, mas também a+penso, uma negação do pensar), ele que não pensa apenasmente apenso: um ypê como revolução, cultural, pessoal, política, como tudo na obra de Belchior. Apaixonado e violento, como você.

Eu pensei demais, Belchior, pensei em te citar muitas vezes pra insistir, ainda uma vez mais, nas poéticas orais, nas poéticas dos vivos. Pensei em falar da tua voz grave e fanha, fora dos padrões, que os bêbados imitam, e bêbado eu imitei, só pra lembrar que era essa falha que era também a tua poética, porque poesia é coisa de corpo, e no teu caso essa voz era parte da faca. Agora que você não tem agoras, fui fazer tudo isso, como posso. Com uma certa alegria em notar que fiz quase tudo de cabeça, que carrego neste corpo agora este teu tanto. Meio que com vontade de só cantar de volta: eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você.

guilherme gontijo flores

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tradução

De Rerum Natura de Lucrécio, por Rodrigo Gonçalves

lucretius_drawn_by_michael_burghers

Gravura de  Michael Burghers

tito caro lucrécio (99 a.C. – 55 a.C.) já apareceu por aqui, em tradução de mario domingues (clique aqui). naquela ocasião, trouxemos um excerto do livro vi, conhecido também como o “livro do clima e da terra”. agora, outro excerto (III, vv. 417-505) vem à luz, desta vez do livro iii, ou “livro da mortalidade e da alma”, em tradução rítmica de rodrigo tadeu gonçalves.

rodrigo vem trabalhando nos mais de 7 mil hexâmetros do poeta latino há dois anos. por falta de tempo e por não querer mais se autoplagiar, o tradutor não pôde escrever uma introdução à tradução ora apresentada. todavia, pediu que fosse deixado aqui, ao acesso de texto, um texto seu sobre o poema épico (clique aqui).

cumprido estando o pedido, passemos à tradução.

 

sergio maciel

* * *

 

Vamos, então, pra que possas saber que as ânimas leves
e os ânimos são mortais e nativos nos seres
vivos, perseguirei os achados em doces labores
e os disporei em versos dignos de tua vida. 420

Faz com que juntes ambos sob um único nome
e, por isso, quando eu disser da ânima que ela
é mortal, poderás conceber que do ânimo falo
na medida em que ambos formam uma única coisa.

Em princípio, como ensinei que ela é tênue e consiste
de diminutos corpos, princípios muito menores
do que o líquido humor da água ou mesmo que a névoa
ou que a fumaça, pois longe em mobilidade os excede
e se move bem mais se tocada por tênue causa,
move-se mesmo tocada de imagens de fumo e de névoa. 430
Quando, pois, tomados de sono nós vimos ao alto
exalarem vapores altares, os fumos levando,
não há dúvida alguma, vêm-nos os simulacros;

E se de vasos chacoalhados pra todos os lados
vês fugir todo o humor e a água se espalha efluindo,
e se também a névoa e o fumo dispersam-se aos ares
crê tu que a ânima efunde-se e muito mais rápido esvai-se,
muito mais veloz dissolvendo-se em corpos primevos
logo que seja afastada dos membros dos corpos dos homens.
Mais, como o corpo, que é como se fosse pra ânima um vaso 440
vês que não pode contê-la, por algo concussionado
ou rarefeito, com sangue todo vazando das veias,
como crerias que pode ela ser coibida por ares,
já que esses ares do que os nossos corpos são bem mais esparsos?

Nós percebemos, também, que juntamente com o corpo
nasce a mente, e ao mesmo tempo cresce e envelhece.
Pois, assim como o infante vaga com tenro e infirme
corpo, também segue assim da ânima a tênue sentença.
Quando, pois, adolesce a idade em robusta virência,
cresce o conselho e maior é da ânima a verve. 450
Pós, quando, já chacoalhado por forças ferozes do tempo
nosso corpo, nos falham os membros com feras feridas,
claudicando o engenho, a língua delira e a mente,
tudo é deficiente e desaba e de súbito falta.

Logo, também convêm que da ânima toda a natura,
tal como o fumo, dissolva nas altas auras dos ares.
Já que junto nasce e cresce conjunta com o corpo,
vimos, e tal como expus, com ele sucumbe ao cansaço.
Segue-se então que vejamos que, tal como o corpo ele mesmo
é suscetível de imanes morbosidades e duras 460
dores, assim ao ânimo as acres agruras e o luto;
por tal motivo convém que lhe seja partícipe em morte.

Pois, como sempre em mórbido corpo ínvio vagueia
o ânimo, e fala somente delírios de língua demente,
e, vez ou outra, em letargo tremendo se deixa ir a um alto
sono, e eterno, cadente a cabeça, olhos pesados,
donde nem pode exaurir as vozes, vultos não vendo,
nem pode reconhecê-los à vida invocando de volta,
circunstantes, a lágrima rola – orvalho dos olhos.
Deve-se então admitir que o ânimo enfim se dissolve 470
quando quer que nele penetrem contágios do morbo.
Pois são a dor e o morbo ambos fabricadores da morte –
nisso somos perdoutos diante do exício de muitos.

Sigo: por quê, quando a um homem a verve do vinho penetra,
acre, e em meio às veias o ardor distribui-se, disperso,
segue-se gravidade, vacilam e trançam-se as pernas,
entardesce-se a língua, a mádida mente se mela,
nadam os olhos, soluços, clamores e tretas escalam, 480
desse gênero ainda outras coisas logo se seguem?
Qual é a causa, se não que a veemente violência do vinho
pode e costuma aturdir a ânima dentro do corpo?
Se algo pode ser assim aturdido e impedido,
nos significa que se uma causa um pouco mais dura
nele insinua-se, perecerá sem sua posteridade.

Mais ainda, se alguém, coagido de súbito morbo
diante dos nossos olhos, tal como atingido de um raio,
cai e baba espuma, geme e treme nos membros,
pira, retesa seus nervos, contorce-se, ofega anelante, 490
inconstante e em tais convulsões os seus membros fadiga.
Não é de se admirar: destroçadas as juntas e membros
pela verve do morbo, a ânima turba as espumas,
como no mar as ondas fervilham com a verve do vento.
Mais ainda, o gemido se exprime por conta dos membros
inflamados de dor e, principalmente, por conta
das sementes da voz que se lançam pra fora da boca
aglomeradas, pela via usual, em conjunto.

É quando a verve do ânimo-ânima é conturbada
que a loucura se faz, como já ensinei; de si mesma 500
é destroçada, divide-se pelo mesmo veneno.
Quando, porém, já retrocede a causa do morbo
e o acre humor do corpo corrupto volta pras sombras,
ergue-se, então, como se vacilante primeiro e então todos,
pouco a pouco, seus sentidos a ânima acolhe.

(tradução de rodrigo gonçalves)

 

Nunc age, nativos animantibus et mortalis
esse animos animasque levis ut noscere possis,
conquisita diu dulcique reperta labore
digna tua pergam disponere carmina vita. 420
tu fac utrumque uno sub iungas nomine eorum
atque animam verbi causa cum dicere pergam,
mortalem esse docens, animum quoque dicere credas,
quatenus est unum inter se coniunctaque res est.
Principio quoniam tenuem constare minutis
corporibus docui multoque minoribus esse
principiis factam quam liquidus umor aquai
aut nebula aut fumus – nam longe mobilitate
praestat et a tenui causa magis icta movetur;
quippe ubi imaginibus fumi nebulaeque movetur. 430
quod genus in somnis sopiti ubi cernimus alte
exhalare vaporem altaria ferreque fumum;
nam procul haec dubio nobis simulacra geruntur –
nunc igitur quoniam quassatis undique vasis
diffluere umorem et laticem discedere cernis
et nebula ac fumus quoniam discedit in auras,
crede animam quoque diffundi multoque perire
ocius et citius dissolvi <in> corpora prima,
cum semel ex hominis membris ablata recessit.
quippe etenim corpus, quod vas quasi constitit eius, 440
cum cohibere nequit conquassatum ex aliqua re
ac rarefactum detracto sanguine venis,
aere qui credas posse hanc cohiberier ullo,
corpore qui nostro rarus magis incohibens sit?
Praeterea gigni pariter cum corpore et una
crescere sentimus pariterque senescere mentem.
nam velut infirmo pueri teneroque vagantur
corpore, sic animi sequitur sententia tenvis.
inde ubi robustis adolevit viribus aetas,
consilium quoque maius et auctior est animi vis. 450
post ubi iam validis quassatum est viribus aevi
corpus et obtusis ceciderunt viribus artus,
claudicat ingenium, delirat lingua, <labat> mens,
omnia deficiunt atque uno tempore desunt.
ergo dissolui quoque convenit omnem animai
naturam, ceu fumus, in altas aeris auras;
quandoquidem gigni pariter pariterque videmus
crescere et, <ut> docui, simul aevo fessa fatisci.
Huc accedit uti videamus, corpus ut ipsum
suscipere immanis morbos durumque dolorem, 460
sic animum curas acris luctumque metumque;
quare participem leti quoque convenit esse.
quin etiam morbis in corporis avius errat
saepe animus; dementit enim deliraque fatur
interdumque gravi lethargo fertur in altum
aeternumque soporem oculis nutuque cadenti,
unde neque exaudit voces nec noscere voltus
illorum potis est, ad vitam qui revocantes
circumstant lacrimis rorantes ora genasque.
quare animum quoque dissolui fateare necessest, 470
quandoquidem penetrant in eum contagia morbi.
nam dolor ac morbus leti fabricator uterquest,
multorum exitio perdocti quod sumus ante.
[et quoniam mentem sanari, corpus ut aegrum
et pariter mentem sanari corpus inani]
denique cur, hominem cum vini vis penetravit
acris et in venas discessit diditus ardor,
consequitur gravitas membrorum, praepediuntur
crura vacillanti, tardescit lingua, madet mens,
nant oculi, clamor singultus iurgia gliscunt, 480
et iam cetera de genere hoc quaecumque sequuntur,
cur ea sunt, nisi quod vemens violentia vini
conturbare animam consuevit corpore in ipso?
at quaecumque queunt conturbari inque pediri,
significant, paulo si durior insinuarit
causa, fore ut pereant aevo privata futuro.
quin etiam subito vi morbi saepe coactus
ante oculos aliquis nostros, ut fulminis ictu,
concidit et spumas agit, ingemit et tremit artus,
desipit, extentat nervos, torquetur, anhelat 490
inconstanter, et in iactando membra fatigat.
nimirum quia vi morbi distracta per artus
turbat agens anima spumas, <ut> in aequore salso
ventorum validis fervescunt viribus undae.
exprimitur porro gemitus, quia membra dolore
adficiuntur et omnino quod semina vocis
eiciuntur et ore foras glomerata feruntur
qua quasi consuerunt et sunt munita viai.
desipientia fit, quia vis animi atque animai
conturbatur et, ut docui, divisa seorsum 500
disiectatur eodem illo distracta veneno.
inde ubi iam morbi reflexit causa reditque
in latebras acer corrupti corporis umor,
tum quasi vaccillans primum consurgit et omnis
paulatim redit in sensus animamque receptat.

(lucrécio, de rerum natura, ed. cyril bailey, 1910)

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