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Sergio García Zamora (1986-), por Francesca Cricelli

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POETAS DE GRANADA

Seleção de poemas e poetas que participaram do Festival Internacional de Poesia de Granada, Nicarágua, dirigido pelo poeta Francisco de Asís Fernandez em fevereiro de 2017. A ideia é trazer aos leitores brasileiros poetas que aqui ainda não são conhecidos.

POESIA:

Sergio García Zamora [Cuba, Esperanza, Villa Clara, 1986], jovem poeta, filólogo, multipremiado. Entre seus livros há Tiempo de siega (Premio Poesía de Primavera 2009, Ediciones Ávila, 2010); Poda (Premio Calendario 2010, Casa Editora Abril, 2011); El Valle de Acor (Premio Fundación de la Ciudad de Santa Clara 2011, Editorial Capiro, 2012); Día mambí (Premio Digdora Alonso 2011, Ediciones Vigía, 2012); Libro del amor feliz (Premio Emilio Ballagas 2012, Editorial Ácana, 2013); Las espléndidas ciudades (Premio Eliseo Diego 2012, Ediciones Ávila, 2013); La violencia de las horas (Premio José Jacinto Milanés 2012, Ediciones Matanzas, 2013) e Caballería insurrecta (Premio Manuel Navarro Luna 2012, Ediciones Orto, 2013). Recebeu o Prêmio Ruben Darío em 2016 e o Prêmio da Fundação Loewe, categoria jovem, em 2016. Seus poemas foram publicados em Honduras, Porto Rico, México, Estados Unidos, Espanha.

Seleção e tradução

Francesca Cricelli [Ribeirão Preto, SP, 1982]. Poeta, tradutora e pesquisadora. Publicou os livros de poemas Repátria (Selo Demônio Negro, 2015), Tudo que toca o olhar (Casa Impresora Almería, 2013). Organizou a correspondência de Giuseppe Ungaretti e Edoardo Bizzarri em Cartas – Bizzarri Ungaretti 1966-1968 (Scriptorium, 2013) e o livro das missívas amorosas de Ungaretti para Bruna Bianco (no prelo pela Mondadori, 2017). É doutoranda em Estudos das Tradução (USP), leciona intelecção de literatura italiana na Casa Guilherme de Almeida e colabora com a Revista Cult. Está preparando o livro 16 poemas +1 (Edição de autora, 2017) que será apresentado em Nova York em junho no festival ALLOVER5, coleção trilíngue (PT/EN/ES) de alguns poemas do livro Repátria e outros inéditos.

 

* * *

CUMPLEAÑOS DE CÉSAR VALLEJO

César Vallejo estaba lleno de dolor como una piñata mexicana. Un dolor que él no sufría como César Vallejo por eso resultaba un dolor más triste y un dolor más dulce. Había que decirlo con el idioma de la infancia. César Vallejo estaba lleno de dolor como una piñata mexicana. Era el cumpleaños doloroso del Hombre, los poetas eran los niños invitados a la fiesta y los niños siempre quieren llevarse un dolor a casa. Las personas mayores velaban que cada poeta agarrara su dolor sin disputarse el dolor ajeno. A mí que todavía soy un niño, me tocó en suerte el dolor de la nostalgia. Escribo en el momento menos grave de mi vida. César Vallejo estaba lleno de dolor como una piñata mexicana. Había que darle duro con un palo.

ANIVERSÁRIO DE CÉSAR VALLEJO

César Vallejo estava cheio de dor como uma pinhata mexicana. Uma dor não sofriada como César Vallejo, por isso parecia uma dor mais triste, uma dor mais doce. Havia de ser dita no idioma da infância. César Vallejo estava cheio de dor como uma pinhata mexicana. Era o dolorido aniversário do Homem, os poetas eram as crianças convidadas à festa, as crianças sempre querem levar à casa uma dor. Os mais velhos cuidavam para que cada poeta agarrasse sua dor sem disputar pela dor alheia. A mim, que ainda sou um menino, tocou, por sorte, a dor da saudade. Escrevo no momento menos grave de minha vida. César Vallejo estava cheio de dor como uma pinhata mexicana. Havia que lhe dar uma paulada forte.

§

LA USURA

Uno empeña las palabras por el miserable dinero editorial creyendo que las recobrará algún día, pero la deuda crece sin remedio. uno pide a Ezra Pound un préstamo hasta que logre hacer fortuna y poseer un verso propio, un verso respaldado en oro, una línea como el hilo de los billetes que prueba su autenticidad. Ezra Pound, partidario de Mussolini, acusado de alta traición, te dice: «Con usura no tiene el hombre casa de buena piedra». pero tú le replicas: sin usura no tiene el hombre casa de mala piedra ni casa alguna. Ezra Pound, viejo zorro, ojalá te pudras en el manicomio, acusado de inhumano con tus poemas llenos de humanidad. uno empeña las palabras por el miserable dinero editorial y es toda la traición que comete.

USURA

Uma pessoa penhora as palavras pela miserável grana editorial, acreditando que será, um dia, recuperada, mas a dívida cresce irremediavelmente. Uma pessoa pede a Ezra Pound um préstimo até que possa fazer fortuna e possuir um verso próprio, um verso ancorado no ouro, uma linha como um fio de notas que prova sua autenticidade. Ezra Pound, partidário de Mussolini, acusado de alta traição, diz: “Com usura, o homem não possui uma casa de boa pedra”. Mas você responde: sem usura o homem não tem casa de pedra ruim, nem casa alguma. Ezra Pound, velha raposa, tomara que te putrefaças no manicômio, acusado de ser desumano com teus poemas cheios de humanidade. Uma pessoa penhora suas palavras pela miserável grana editorial e esta é toda a traição que comete.

[do livro Resurrección del cisne, prêmio Ruben Darío 2016]

§

MORDER LA MANO

Morder la mano que te alimenta,
el lenguaje común que te alimenta.
La mano entendida como dependencia
y el lenguaje entendido como sumisión.
Morder la mano hasta el hueso. Triturarlo.
Transformar el crujido en música.
Morder. Hasta el hueso. O no morder.
Esperar por la palabra que echan en tu plato.
Salivar por la palabra si demora.
Darle el gusto a Pávlov. Agradecido.

MORDER A MÃO

Morder a mão que te alimenta,
a linguaguem comúm que te alimenta.
A mão compreendida como dependência
e a linguagem entendida como submissão.
Morder a mão até o osso. Triturá-lo.
Transformar o tritado em música.
Morder. Até o osso. Ou não morder.
Esperar pela palavra que te colocam no prato.
Salivar pela palavra, se demorar.
Dar um gostinho a Pávlov. Agradecido.

§

CONTROL DE SANIDAD

El hombre que recoge los perros
tiene alma de poeta, alma de miserable,
lo que se dice un total miserable desalmado.
Mientras él goza atrapando al animal,
la gente le mira y lo abomina,
la gente que jamás recogió un animal.
Este es mi consejo, mi lección.
Escribir como el hombre que recoge los perros:
tomar al lector por el cuello y levantarlo en vilo;
reírse aunque chille, reírse porque chilla;
echarlo en la jaula, perro entre perros;
hacerle ver que no era otra su verdad
ni otro su destino

CONTROLE DE SANEAMENTO

O homem que recolhe os cães
tem alma de poeta, alma de miserável,
o que se diria um completo miserável desalmado.
Enquanto se diverte aprisionando o animal,
o povo olha e abomina,
o povo que nunca recolheu um animal.
Este é meu conselho, minha lição.
Escrever como o homem que recolhe cães:
tomar o leitor pelo pescoço e levantá-lo no ar;
rir mesmo que faça um grunhido, rir porque o faz;
atirá-lo na jaula, cão entre cães;
fazer ver que não era outra sua verdade
nem outro o seu destino.

§

LOS RECLUTAS

El verde militar está en los ojos:
muchachos que piden autorización
para ir al carnaval y abordan los camiones,
las máquinas de alquiler en Jagüey o Santa Clara
con el dinero último, con el único dinero.
Regresan las cabezas podadas por el verde militar,
los rostros que lastima la cuchilla:
el hermano mayor, el novio, el hijo de vecino.
En la noche de provincia son príncipes,
reyes que han vuelto de Troya o Las Cruzadas.
Bajo el fuego artificial, bajo la vida artificial
respiran el aire último, el único aire,
y entran al verde militar con sus amores.
Como los reclutas anhelas un pase,
un gesto dispensador de tu perenne servicio;
un pase, una tregua, un salvoconducto
para tu vida siempre. Como los reclutas.
Solo que ellos no saben disimular.

OS RECRUTAS

O verde militar está nos olhos:
garotos que pedem autorização
para pular o carnaval e abordam os caminhões,
os carros de aluguel em Jagüey ou Santa Clara
com a última grana, a única grana.
Voltam com as cabeças podadas pelo verde militar,
os rostos feridos pela lâmina:
o irmão mais velho, o namorado, o filho do vizinho.
Na noite da província são príncipes,
reis que voltaram de Troia ou das Cruzadas.
Sob o fogo artificial, sob a vida artificial
Respiram o último ar, o único ar,
e entram no verde militar com seus amores.
Como os recrutas, anseias um passe,
um gesto que te dispense do perene serviço;
um passe, uma trégua, um salvo-conduto
para tua vida, sempre. Como os recrutas.
Só que eles não sabem dissimular.

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Baudelérias, por Wladimir Saldanha

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BAUDELÉRIAS: O RISO E O PROSAÍSMO DE BAUDELAIRE

A propósito de Baudelaire, constuma-se acentuar o contraste entre a forma elevada de sua poesia, que segue o modelo clássico francês, e os temas baixos – a carniça, o satanismo, a vida das ruas. Mas, haveria algo de próprio no classicismo do autor de As flores do mal?

Para alguns leitores incomuns, como T. S. Eliot e Marcel Proust, sim. O primeiro sustenta que a fama veio para Baudelaire quando a “arte pela arte era um dogma”, doutrina que “afetou a crítica e a apreciação” do poeta francês (ELIOT, 1989). Já Proust advertia, sobre o soneto “Recolhimento”: “Falo do classicismo de Baudelaire como verdade pura, com o escrúpulo de não falsear, por engenhosidade, o que quis o poeta” (PROUST, 2017; traduzimos). E por isso discordava dos amigos que viam no primeiro verso daquele poema – “Sois sage, ô ma douleur, et tiens-toi plus tranquille” – uma repetição de Corneille, que na peça El Cid escreveu: “Pleurez, Pleurez, mes yeux et fondez-vous en eau“. Ao contrário da apóstrofe corneliana, Proust pensava o verso de Baudelaire como “a língua contida, trêmula, de alguém que tirita por ter chorado demais” (id, ib.).

A tais leitura podemos juntar a do italiano Alfonso Berardinelli, ao indagar-se dos motivos que teriam levado Baudelaire a fazer seus poemas em prosa ao tempo da finalização de As flores do mal. Não seria por acaso; haveria uma espécie de “aliança com a prosa”, termo que toma de empréstimo a Thibaudet: “a prosa é sobretudo o que sustenta a poesia, tornando a escansão do alexandrino sintaticamente mais dúctil e equilibrada” (BERARDINELLI, 2007, p. 44).

Como obter, em traduções, esse classicismo peculiar? Talvez a vantagem para alguém que se proponha a oferecer mais algumas possibilidades tradutórias de As flores do mal seja ousar um pouco. Baudelaire é dos poetas mais traduzidos no Brasil. Se Antonio Candido falava, ainda em 1973, em “apogeu de influência” seguido de “fase acadêmica de celebração tranquila”, é certo que a “contribuição monumental de Jamil Amansur Haddad”, embora não seja a “tradução completa” de As flores do mal que então apontava, fixaria o cânone tradutório baudelairiano. Este deixa para trás as errantes contribuições de Félix Pacheco, Carvalho Júnior, Teófilo Dias e outros – os “primeiros baudelairianos”, como os chama o crítico – que, por meio de paráfrases ou emulações, deram inicialmente ao Brasil um autor mais sexualizado e menos prosaico (cf. CANDIDO, 2006, p. 38).

Hoje Baudelaire conta com mais traduções integrais, como é o caso da de Ivan Junqueira, de 1985, além de traduções esparsas de poemas isolados de As flores do mal. Todas se esforçam por manter o contraste entre a forma elevada e o conteúdo baixo; a rima chamada consoante, com simetria desde a consoante de apoio – rima “para o olho e para o ouvido”, como se dizia nos manuais franceses, é norma de regra.

Mas o baudelariano de primeira hora Paul Verlaine, que frustaria os decandentistas de seu tempo na empresa de fazê-lo um precursor da retomada das toantes, reconheceria sua posição contrária como algo intrinsecamente ligado à língua francesa, um modo de dar certo colorido à monotonia acentual do idioma, no qual as oxítonas preponderam (cf. VERLAINE, 1972, 696-701).

Ora, não se pode transpor a interdição das toantes “sem mais” para uma língua como o português (de raras oxítonas); ao contrário, o que se pode transpor quase intuitivamente é o argumento do próprio Verlaine, estendendo-o a Baudelaire. Permitir-se algumas toantes em Verlaine, Baudelaire e outros poetas que ainda escreviam na pauta parnasiana nos últimos anos do século XIX, às vésperas do verso livre, não nos parece algo tão sacrílego.

Trata-se apenas de ampliar o arsenal tradutório, reconhecendo uma diferença de poética que corresponde à diferença de prosódia das duas línguas. E talvez evitando escolhas dicionarescas, em benefício de versões mais fluentes. Assim nasceram as Baudelérias, experiência de traduzir Baudelaire fora do cânone tradutório brasileiro, isto é, usando toantes. Também se procura ajustar os pronomes, preferindo o “você” ao “tu”, já que o primeiro é mais usado no português do Brasil, enquanto o segundo, no francês, não se associa necessariamente a modos elevados de linguagem. Aos poucos, parecia surgir um Baudelaire mais próximo e, talvez, mais ridente, mais irônico. Então pareceu tentação irresistível acentuar, na seleção de vocábulos, certa comicidade do original.

No mesmo estudo de Antonio Candido, há a observação de como Teófilo Dias evitou, por “falta de audácia”, a palavra “salive, que Baudelaire introduziu na poesia e enriqueceu de conotações as mais diversas”. Sabe-se como ironia e ambiguidade são gêmeas. E não se pode sonegar a Baudelaire o riso, sobre que refletiu o poeta em ensaio famoso, reconhecendo nele “algo satânico e profundamente humano (…), essencialmente contraditório, (…) ao mesmo tempo sinal de uma grandeza infinita e de uma miséria infinita” (BAUDELAIRE, 2008, p. 42).

 

REFERÊNCIAS:

BAUDELAIRE, Charles. Da essência do riso. In: ______.Escritos sobre arte. Organização e tradução de Plínio Augusto Coêlho. São Paulo: Hedra, 2008.
BERARDINELLI, Alfonso. Da Poesia à Prosa. Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006.
ELIOT, T. S. Baudelaire. In :______. Ensaios. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. São Paulo : Art Editora, 1989.
PROUST, Marcel. À propos de Baudelaire. Disponível em : < https://fr.wikisource.org/wiki/%C3%80_propos_de_Baudelaire&gt; Acessado em 19.04.2017.
VERLAINE, Paul. Un mot sur la rime. In : ______. Oeuvres en prose. Pleiade. Paris : Gallimard, 1972.

 

Wladimir Saldanha nasceu em 1977, em Salvador, cidade onde reside. Doutor em Letras pela Universidade Federal da Bahia, é poeta, crítico e tradutor. Em poesia, publicou As culpas do poema (Prêmio Asabeça/Scortecci, 2012), livro que seria incorporado ao volume Culpe o vento (7Letras, 2014). Lançou ainda: Lume Cardume Chama (7Letras, 2014) − obra selecionada para publicação pela Fundação Cultural da Bahia; e Cacau inventado (Mondrongo, 2015), livro semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa, em 2016. Pela mesma editora, em 2017, publica Natal de Herodes, poesia. Como tradutor, em 2014 participou da reedição de A cinza do Purgatório, de Otto Maria Carpeaux, pela Editora Danúbio, de Santa Catarina, tendo ficado responsável por verter autores como Rimbaud, Moréas, Georges Rodenbach entre outros. Colaborou também em algumas notas de rodapé, na identificação de fontes citadas por Carpeaux. Publicou na revista francesa Actualité Verlaine, dedicada a estudos do poeta francês Paul Verlaine, ensaio sobre a recepção desse autor no Brasil e problemas de sua tradução. Tem artigos de crítica no Jornal Rascunho (Curitiba), Jornal A Tarde (Salvador) e Jornal Opção (Goiânia).

* * *

CORRESPONDANCES

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

CORRESPONDÊNCIAS

A Natureza é templo e das colunas vivas
Por vezes vai minar um vozerio a címbalos;
Os homens passam lá no matagal de símbolos
Que familiarmente olham tais convivas.

Como ecos longos se confundem longe, onde
Há tenebrosa e profundíssima unidade,
Vasta como a noite é, ou como a claridade,
Perfumes, cores, sons – um fala, outro responde.

Perfumes frescos como se de carne nova,
Suaves de oboé, virentes de capim,
E outros, miasmais, riqueza a toda prova,

Com aquelas expansões do que não tem mais fim –
Do almíscar, benjoim, do âmbar ou sabeia,
Que cantam os frissons do corpo e da ideia.

§

LES CHATS

Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté
Ils cherchent le silence et l’horreur des ténèbres ;
L’Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S’ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s’endormir dans un rêve sans fin ;

Leurs reins féconds sont pleins d’étincelles magiques,
Et des parcelles d’or, ainsi qu’un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

OS GATOS

Os amantes fogosos e os sábios de assento
Amam de igual amor, se a idade os apraza,
Os bravos gatos bons, os orgulhos da casa,
Sedentários que são e do tipo friento.

Amigos da ciência e da concupiscência,
Eles buscam o silêncio e os horrores da treva;
O Érebo os tomara por fúnebres leva-
-e-traz se a lealdade fora subserviência.

Assumem, espichados, tão grãs posições,
Como esfinges de prol, sonhando solidões,
Que parecem dormir num devaneio só;

O dois quartos fecundos têm rajas miríficas,
E pingos d’ouro – é ver os da ardósia em pó –
Faíscam vagamente nas pupilas místicas.

§

A UNE PASSANTE

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit ! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Ailleurs, bien loin d’ici ! trop tard ! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

A UMA PASSANTE

A rua barulhenta em meu redor zunia.
Luto fechado, esbelta, rainha na dor,
Certa mulher passou, e com mão de esplendor
Arrrepanhava a renda e gingava a bainha;

Ágil e nobre, lá vai perna de escultura.
Quanto a mim, eu bebia (era um tipinho tenso)
No olhar baço de céu (“Vem remoinho”, penso),
Do que mata – prazer – e faz não ver – doçura.

Um clarão… noite, já! – Beleza mais fujona,
Que me fez renascer com os olhos num relance,
Pois só na eternidade eu reverei a dona?

Bem longe, além daqui! Tarde demais! Sem chance!
Pois de você não sei, e nem você de mim,
Ai você, nosso amor, ai você que viu, sim!

§

L’ALBATROS

Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d’eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!
L’un agace son bec avec un brûle-gueule,
L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l’archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.

O ALBATROZ

Vai que, por distração, a boa marujada
Faz presa do albatroz, esse avejão dos mares,
Que vai, à toa e companheiro de jornada,
Atrás da nau vogante nos cruéis algares.

Baixados ao convés, que logo se atravanca,
Os reis do azul, malamanhados e cabreiros,
Dão dó de rir com a grande envergadura branca
Das asas como remos a arrastar remeiros.

O alado capitão, como é gauche e decrépito!
De belo, é uma comédia, com a aparência cava!
É um que o bico lhe arrelia com seu pito,
É outro a imitar, mancando, quem voava!

O Poeta assim faz crer um rei que tem de aias
As nuvens, e o trovão assombra, e ri da flecha;
No exílio sob o sol e em meio só de vaias,
Gigante, quer andar – e alado, não se deixa.

§

ÉPIGRAPHE POUR UN LIVRE CONDAMNE

Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et naïf homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et mélancolique.

Si tu n’as fait ta rhétorique
Chez Satan, le rusé doyen,
Jette ! tu n’y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hystérique.

Mais si, sans se laisser charmer,
Ton oeil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre à m’aimer;

Ame curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi !… sinon, je te maudis!

EPÍGRAFE PARA UM LIVRO CONDENADO

Leitor de paz e amenas leiras,
Sóbrio, de bem e bom menino,
Ao lixo o livro saturnino:
Só coisas tristes e venéreas.

Não fez lição de baudelérias
No Inferno, com o Doutor Tinhoso?
Lixo! “Doente escandaloso”,
Ou nada entende – “são pilhérias”.

Mas se, sem se deixar lograr,
Seu olho curte um salto livre,
Leia meu livro, aprenda a amar;

Alma abelhuda e Deus-me-livre,
Se o paraíso quer de paga,
Pena de mim!… Ou rogo praga!

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poesia

Valeska Torres

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Valeska Torres nasceu no Rio de Janeiro, Marechal Hermes em 1996. Mora em Irajá. Publicou poemas em Do rio ao mar, coletânea de poemas, crônicas e contos, e no jornal bairrista Rio Suburbano.

* * *

Carne Moída

Torrando no meio fio do Ceasa,
homens armários me olham de esguelha,
sabem que ferida aberta é lugar para mosca botar ovos.

Abobrinha carne moída arroz feijão
no tribunal
vencem
os mais fortes
de pele
de olhos
de cabelos
de sacos
no cemitério de Inhaúma
um atrás do outro

pretos acumulam cargas,
dentro de caminhões baús
o burrinho sem rabo empena
no sol à pino
dá gargalhadas
ri de mim
ri de todos
menos
das sungas maiôs

Búzios. General Osório. Zona Sul.

Praias e praias com gente miúda na quarta-feira
o dólar está em alta magra sexy salto 15 saindo da boate um escândalo
na bolsa da mulher foi baleado um garoto correndo entres os carros na avenida
Nossa Senhora de Copacabana, onde a Senhora se escondeu?

Pintei minhas unhas
de vermelho
nas ruas de São Paulo
o gongo em colapso nervoso grita comigo,
não sei revidar.

Acumulam-se inacabados:

cinco ou seis projetos arquitetados que estão a essa hora do dia remendados com fita crepe.

dois ou três possíveis relacionamentos que nunca disseram a hora ou o lugar de encontro.

um quebra cabeças, duas costuras no rasgo de minhas blusas e 46 horas mal dormidas.

Depois de velha e pelancuda o que me resta é ser comida pelas traças
em mim cabem
vigas aço concreto camisinhas cacos estiletes balanças dedos esmalte absorvente fígado queijo nojo

§

Corações de Alcachofra

corações de alcachofra em conserva de óleo
mastigados depois do jantar
sobre a mesa
os pratos, os talheres, os corpos usados

abutres miúdos e vesgos
rasantes
afiam suas unhas no amolador de facas

arrancam as peles gorduras
jogam na vala atrás de minha casa
desfiguram a carne putrefata

explosões sucateiam o ferro
agora corroído serve de mordaça

a cidade dorme como se nunca houvesse
amanhecido. na madrugada
forra-se o tapete infestado
de ácaros

odor de alho na sola dos pés
caminhando sobre as ruas
os velhos não usam sapatos

deus não anda entre os meus
sobrevoa em helicópteros
arranhas céus
onde dorme em colchão de penas

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três poemas de yasmin nigri

nigri

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta e escritora convidada da Revista Caliban (https://revistacaliban.net/) onde escreve ensaios críticos, crônicas e traduz poesia alemã. É bacharel em filosofia pela UFF onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. É co-fundadora e integrante do coletivo feminista de artes e poesia Disk Musa onde atua em diversas frentes tais como elaboração e realização de performances, ações urbanas e oficinas de criação poética. É inédita em livro e possui poemas publicados em diversas revistas e jornais no Brasil e em Portugal.

***

Flora

será verdade que as pessoas
solitárias preferem animais
a outras pessoas

a três baias de Flora pensava
qual seria seu animal favorito

pela brevidade
talvez uma mariposa
pela intolerância

talvez uma doninha
talvez um panda que só tem olhos

para ramos de bambu
do ornitorrinco

admira a solidão
ou prefere a agilidade
da toupeira

a três baias de Flora pensava
convidá-la para jantar

na madrugada será
que vai sozinha à caça

ou fecha os olhos
mente opaca e

fantasia inquieta
se abrir para a noite

como a mariposa
será que afugenta a todos

como a doninha ou
às vezes é vista em par

como o ornitorrinco
a três baias de Flora desesperou-se

porque talvez ela fosse uma toupeira
que vai pouco à superfície

brinca sozinha
nos túneis que cava

quem sabe queira companhia
para atravessar a bruma

branca sob o pôr do sol
será mesmo feliz entre a nervura das folhas e o húmus

§


largar você não vai ser fácil

no início especialmente
não vai ser nada fácil
mas também não vai ser
como das primeiras vezes
essas doeram um bocado
mesmo assim
largar você não vai ser fácil
lembra aquele mochilão
que fizemos pela europa e
descobrimos que quase toda estátua
é uma estátua da sorte
basta fechar os olhos
esfregar as mãos
na parte mais clara
geralmente os joelhos
pés seios ou mãos
e fazer um pedido
largar você vai ser
passar pelas estátuas
sem pedir por nada
sentir fome
de barriga cheia
o que me lembra que
cozinhar só pra mim não tem graça
viajar sozinha sai mais caro
largar você não vai ser fácil
como um intercâmbio em genebra
no início vai tudo bem
depois faz silêncio demais
as horas são demais
tudo vai calmo demais
é frio demais
não tem feijão em genebra
não sei lidar com términos
escrevi depois rasguei um bilhete que dizia
se você me atazanar te largo 1tiro
vê se me erra, satanás.
não sou comum com despedidas
sabe como é
no meu copo sempre fica um dedo de café
lavo a louça e largo o ralo sujo
tomo banho e esqueço o gás ligado
abandono um par de meias na máquina
fins pra mim são terríveis
tem sempre um vestígio
por onde eu passo
um prato sobre a mesa
alguns fios de cabelo no pente
não é uma questão urgente
é que a idade não é mais de esperar
a mágoa, a injúria e o rancor se instalarem
pra que contar com a mágoa imperdoável
largar você não vai ser fácil
mas lembra quando eu voltei de genebra
e perdi meu passaporte
não faz diferença
§

 

À guisa d’O Amante, de Marguerite Duras

“Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.” – Marguerite Duras

Lembro exatamente suas palavras e olhar lacrimosos.

-Tentei, mas não estou apaixonado. Sinto muito.

Todo resto um alívio.

Não me deixei revelar.
Esse pouco,

porém,
foi o suficiente.

Dureza
Desfigurada.

Desculpa
amarela.

Pude revê-lo anos mais tarde.
Quase disse.

– Queria que estivéssemos nos conhecendo agora.

Calei.
Aos seus ouvidos soaria fraqueza.

Aquela dor inconfessável.
As costas arqueadas levaram suas mãos até mim.

Outra noite juntos.

Quem sabe ali, unidos,
se eu me pusesse a chorar,

você compreendesse tudo,
num súbito,
e me acompanhasse.

Talvez ali
o amor brotaria.

Chorar aos seus olhos não é fraqueza.
Era imprescindível que a primeira lágrima fosse minha.

Não tive forças.
Lembro das suas palavras.

– Um dia você irá mandar na mesa. Você está se afastando deles por [achar que não pode dar as cartas.

Talvez mandar na mesa seja
apostar alto.

Talvez mandar na mesa seja
saber chorar primeiro.

*

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poesia

Luiz Coelho (1984-)

luiz coelho. foto para escamandro

Luiz Coelho (1984) nasceu e vive no Rio de Janeiro. Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Publicou poemas na Revista Modo de Usar & Co. e no Jornal Plástico Bolha. Autor dos volumes de poemas agulhas descartáveis (2012) e Hágalo Despacio (2013) — o último, também com poemas de Aline Miranda e Maíra Fernandes de Melo.

 

sergio maciel

* * *

falanges

a.
fiados em
redemunhos

trabalham
sozinhos

b.
a sóis
cinzéis

zonzam
cabeças
de cochilo

b.
tralhar
o vento

festa

moenda
moinhos

c.
os céus
balançam
gaiolas

d.
necran
cabulosa
encaminho

§

trópicos

a.
nas saliências parte metal
dos tinteiros se anuncia
qual coração uma unha
nem sempre tácita

imediata comunicados
afincos de boa intenção
a fiança se um dia houve
tergiversa o mote

eufemismas a rodo

o ódio terceiriza
o afeto borrifa

a contraprova do lucro
um resto e uma fartura

pilha corpos por milhas
b.
fruto grifado
a ferro fátuo

tição a fogo
na dentição

novo contrato
mesmo mercado

cadinho de afiar
rosto aterrado

barro pelo torso

c.
nada na boca
sem profecia

mudo nos búzios
uns vãos caracóis

a borra ainda
passa o café

costura engole
sapo não dorme

§

se o tigre não fala

um tigre não se fala?

a língua
mordida

triste tigre

ao peito
a palma amarela
da mão

arcada

à forja
há flagra

a terceira via
a tigela vazia

a bolsa
a firma

afaga

gentileza
a galope

amostra grátis
a lá no portão

a lápis

assina
à linha de baixo

crânio

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poesia

3 poemas inéditos de Danilo Augusto

Danilo Augusto nasceu em Salvador, em 1990, e é autor dos livros Poemas, Zumbi e Begginner. Esses três poemas fazem parte de Estar na grama, ainda não lançado.

* * *

A mais estranha coisa
É haver leis
Na natureza
E podermos pô-las
Em uma folha

Se leis não houvesse?
Ou se não pudéssemos vê-las?
Seria como meu espirito
A natureza?

Quem inventará
A matemática
De uma alma?

E, depois,
Onde escrevê-la?

§

Você se deita comigo esta noite?
Quero apenas dormir de conchinha
Como imagino que deus se deita com o universo

Meu corpo, ele é tão engraçado
Nem vi de onde veio
E esse desejo de amar
Não é que tenha opção

Eu preciso da ajuda Deus
Só ele tem algo a ver comigo
Mas se você me beijasse essa noite
Como uma bomba sob um rio…
Poderia ser algo bom

Desliga o celular, tenho algo pra dizer
Deixa eu encher suas mãos
Porque a única coisa que sobrou foi eu mesmo
Afinal, não era eu
A brisa? as bolhas na correnteza?
Ah… não era não?

Apenas me diz
Como eu tiro este nascer do sol de dentro mim?
São seis da tarde, o ônibus vai sair
Nós confiamos tanto, não foi?
Se bem que não tanto assim

§

eu amei o meu filho, e daí?
você amou o seu. hoje, fechemos a conta.
quanto dá?

deus, esquece felicidade e verdade,
quero apenas tocar em sua barba de estrelas
guarda a máquina do mundo em outra sala
chegou o dia na agenda pra danilo fraga
eu rimo pra você, pra quem mais?

olha, pai, mãe, vocês são tão inocentes quanto eu
mas quanto amor não nasceu para que pudéssemos nos criar uns aos outros?
quanta história inata. hoje, fechemos a conta
quem vai pagar?

respirar é uma oração
mas eu tapo boca e nariz
como eu posso conhecer mais que o cão que matei
a relva sobre meus pés ou o ar seguindo para uma região de menor densidade?

a poesia é como um filho que criamos
o maior orgulho de se estar vivo
mas de onde vem esse orgulho senão da ironia de seu jogo?
senta comigo à mesa, me dá os dados pelo menos uma vez.

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Adriane Garcia

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Adriane Garcia, poeta, de Belo Horizonte. Tem publicados os livros Fábulas para adulto perder o sono (ganhador do Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014) e Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015). Também Enlouquecer é ganhar mil pássaros, livro disponível online pelo Issuu, edição Vida Secreta e o livreto Embrulhado para viagem, da coleção Leve um livro, 2016.

***

Ornitóloga

Vai saber
O que passa no pássaro
Eu que não sei nem de mim
Me dou ares de laboratório e
Lupas, tubos de ensaio
Tenho uns
Pinçamentos estranhos

Cato amostragens
Para ver se me explicam
Voos
(Eu que
Nunca saí do chão
Quando saí
Era sonho)

Me intrigam os olhos pretinhos
Paradinhos
Dos pássaros mortos

Desde criança eu reparo
Se a morte é sempre fria.

§

 

Acender as luzes

Abaixo pálpebras
E apago o dia
Dentro de mim
O escuro avia
Minha intimidade

Pudesses me tocar
Eu diria:
– Aí dói muito
E tu deixarias
Quieto
O meu rio?

Os peixes nadam
Num lodaçal difícil
E ainda há um monstro
De comer pântanos

Tu fazes um
Movimento brusco
Eu choro e
Me inundo
E para não me afogar eu
Abro os olhos.

§

 

Haras

Crio
Ninguém me diz o quê
Nem como

Domo
Meu cavalo eu quero aqui
No arreio

Mas gosto
Que ele corra
Desembestado

Até o meu
Assovio.

§

 

Dédalus

Sei muito bem o que é ter
Te encomendado minhas asas.

*

 

 

 

 

 

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