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Iago Souza

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Iago Souza é portovelhense, o extremo-norte do norte da periferia do país, filho bem parido da América Latina, tem 20 anos e nunca publicou nada na vida, apesar disso espalha por aí que é escritor, estudante de psicologia e autor da página Contos de fodas no facebook. De resto e do que se pode saber dele: terá que lê-lo.

***

é tanto,
o tempo
e tão escasso,
longínquo,
é tanto que a gente
escreve,
sem saber pra quê
ou quem, pra onde vai e
de onde vem.
e tem o Carlos,
sentado,
de pernas cruzadas
na beira de um precipício
segura os óculos
pra não cair, e sorri,
porque tem gente por aí
que é solitária,
mas gosta de rir,
mesmo sem ter pro’nde fugir
atirando verso avulso,
letras trêmulas,
de choro ou riso ou sangue

e é tanto que se sente,
sabe, Carlos,
é tanto que se grita no papel,
ainda, Carlos,
ainda há tanto o que escrever,
tanto o que dizer
pra essa gente cafona,
que a gente se esquece,
às vezes, do resto
e só deixa o rastro
a marca grafada
pra quem quiser procurar
um traço de nós,
um traço de nada,
um traço de tudo,
um poema.

mas o que fizeram com a poesia, Carlos?

(em homenagem a Carlos Drummond de Andrade)

§

 

deus e eu, vez
ou outra,
batemos um papo
ele conta das melhores
e das mais tristes
histórias
fala sempre das
promessas
que não gosta de cumprir
me confessa os pobres e duros
pecados
que cometeu e os que
ainda não
chora no meu ombro
e agradece
depois vai embora
cabisbaixo
com o olhar nostálgico
melancólico
de quem tudo sabe e tudo viu
sem os mistérios e as descobertas
que a vida oferece

deus me disse que
quando anoitece
e os
anjos vão dormir
ele chora baixinho
de joelhos suplicando
perdão às crianças
da Somália

§

 

tenho olheiras fundas no rosto
de modo que meus olhos parecem
distantes
quase que esquecidos
dentro
do crânio
tenho olheiras fundas no rosto
de modo que não me imagino
sem elas

§

 

se eu te disser que
essa garrafinha de pitu
poderia salvar a noite
você bem que poderia ficar
comprei uns filmes piratas que travam
na metade
a gente pode pôr pra tocar
e parar de ver no começo
você pode ficar
de calcinha no meu quarto
e gritar da janela que o mundo se acabe
em boêmia
você bem que poderia ficar
e cantar comigo Belchior
poderíamos dormir de bêbados
no chão da cozinha
rindo de algum filme do Adam Sandler
felizes como aqueles dois viciados
que se abraçam em frente às lojas
do centro
e estão pouco se fodendo para o mundo

e todas as suas sutilezas engravatadas

§

 

o mundo anda tão triste

que eu posso sentir bombardearem

a Palestina

dentro do meu peito

*

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2 comentários sobre “Iago Souza

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