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três poemas de yasmin nigri

nigri

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta e escritora convidada da Revista Caliban (https://revistacaliban.net/) onde escreve ensaios críticos, crônicas e traduz poesia alemã. É bacharel em filosofia pela UFF onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. É co-fundadora e integrante do coletivo feminista de artes e poesia Disk Musa onde atua em diversas frentes tais como elaboração e realização de performances, ações urbanas e oficinas de criação poética. É inédita em livro e possui poemas publicados em diversas revistas e jornais no Brasil e em Portugal.

***

Flora

será verdade que as pessoas
solitárias preferem animais
a outras pessoas

a três baias de Flora pensava
qual seria seu animal favorito

pela brevidade
talvez uma mariposa
pela intolerância

talvez uma doninha
talvez um panda que só tem olhos

para ramos de bambu
do ornitorrinco

admira a solidão
ou prefere a agilidade
da toupeira

a três baias de Flora pensava
convidá-la para jantar

na madrugada será
que vai sozinha à caça

ou fecha os olhos
mente opaca e

fantasia inquieta
se abrir para a noite

como a mariposa
será que afugenta a todos

como a doninha ou
às vezes é vista em par

como o ornitorrinco
a três baias de Flora desesperou-se

porque talvez ela fosse uma toupeira
que vai pouco à superfície

brinca sozinha
nos túneis que cava

quem sabe queira companhia
para atravessar a bruma

branca sob o pôr do sol
será mesmo feliz entre a nervura das folhas e o húmus

§


largar você não vai ser fácil

no início especialmente
não vai ser nada fácil
mas também não vai ser
como das primeiras vezes
essas doeram um bocado
mesmo assim
largar você não vai ser fácil
lembra aquele mochilão
que fizemos pela europa e
descobrimos que quase toda estátua
é uma estátua da sorte
basta fechar os olhos
esfregar as mãos
na parte mais clara
geralmente os joelhos
pés seios ou mãos
e fazer um pedido
largar você vai ser
passar pelas estátuas
sem pedir por nada
sentir fome
de barriga cheia
o que me lembra que
cozinhar só pra mim não tem graça
viajar sozinha sai mais caro
largar você não vai ser fácil
como um intercâmbio em genebra
no início vai tudo bem
depois faz silêncio demais
as horas são demais
tudo vai calmo demais
é frio demais
não tem feijão em genebra
não sei lidar com términos
escrevi depois rasguei um bilhete que dizia
se você me atazanar te largo 1tiro
vê se me erra, satanás.
não sou comum com despedidas
sabe como é
no meu copo sempre fica um dedo de café
lavo a louça e largo o ralo sujo
tomo banho e esqueço o gás ligado
abandono um par de meias na máquina
fins pra mim são terríveis
tem sempre um vestígio
por onde eu passo
um prato sobre a mesa
alguns fios de cabelo no pente
não é uma questão urgente
é que a idade não é mais de esperar
a mágoa, a injúria e o rancor se instalarem
pra que contar com a mágoa imperdoável
largar você não vai ser fácil
mas lembra quando eu voltei de genebra
e perdi meu passaporte
não faz diferença
§

 

À guisa d’O Amante, de Marguerite Duras

“Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.” – Marguerite Duras

Lembro exatamente suas palavras e olhar lacrimosos.

-Tentei, mas não estou apaixonado. Sinto muito.

Todo resto um alívio.

Não me deixei revelar.
Esse pouco,

porém,
foi o suficiente.

Dureza
Desfigurada.

Desculpa
amarela.

Pude revê-lo anos mais tarde.
Quase disse.

– Queria que estivéssemos nos conhecendo agora.

Calei.
Aos seus ouvidos soaria fraqueza.

Aquela dor inconfessável.
As costas arqueadas levaram suas mãos até mim.

Outra noite juntos.

Quem sabe ali, unidos,
se eu me pusesse a chorar,

você compreendesse tudo,
num súbito,
e me acompanhasse.

Talvez ali
o amor brotaria.

Chorar aos seus olhos não é fraqueza.
Era imprescindível que a primeira lágrima fosse minha.

Não tive forças.
Lembro das suas palavras.

– Um dia você irá mandar na mesa. Você está se afastando deles por [achar que não pode dar as cartas.

Talvez mandar na mesa seja
apostar alto.

Talvez mandar na mesa seja
saber chorar primeiro.

*

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