poesia

Valeska Torres

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Valeska Torres nasceu no Rio de Janeiro, Marechal Hermes em 1996. Mora em Irajá. Publicou poemas em Do rio ao mar, coletânea de poemas, crônicas e contos, e no jornal bairrista Rio Suburbano.

* * *

Carne Moída

Torrando no meio fio do Ceasa,
homens armários me olham de esguelha,
sabem que ferida aberta é lugar para mosca botar ovos.

Abobrinha carne moída arroz feijão
no tribunal
vencem
os mais fortes
de pele
de olhos
de cabelos
de sacos
no cemitério de Inhaúma
um atrás do outro

pretos acumulam cargas,
dentro de caminhões baús
o burrinho sem rabo empena
no sol à pino
dá gargalhadas
ri de mim
ri de todos
menos
das sungas maiôs

Búzios. General Osório. Zona Sul.

Praias e praias com gente miúda na quarta-feira
o dólar está em alta magra sexy salto 15 saindo da boate um escândalo
na bolsa da mulher foi baleado um garoto correndo entres os carros na avenida
Nossa Senhora de Copacabana, onde a Senhora se escondeu?

Pintei minhas unhas
de vermelho
nas ruas de São Paulo
o gongo em colapso nervoso grita comigo,
não sei revidar.

Acumulam-se inacabados:

cinco ou seis projetos arquitetados que estão a essa hora do dia remendados com fita crepe.

dois ou três possíveis relacionamentos que nunca disseram a hora ou o lugar de encontro.

um quebra cabeças, duas costuras no rasgo de minhas blusas e 46 horas mal dormidas.

Depois de velha e pelancuda o que me resta é ser comida pelas traças
em mim cabem
vigas aço concreto camisinhas cacos estiletes balanças dedos esmalte absorvente fígado queijo nojo

§

Corações de Alcachofra

corações de alcachofra em conserva de óleo
mastigados depois do jantar
sobre a mesa
os pratos, os talheres, os corpos usados

abutres miúdos e vesgos
rasantes
afiam suas unhas no amolador de facas

arrancam as peles gorduras
jogam na vala atrás de minha casa
desfiguram a carne putrefata

explosões sucateiam o ferro
agora corroído serve de mordaça

a cidade dorme como se nunca houvesse
amanhecido. na madrugada
forra-se o tapete infestado
de ácaros

odor de alho na sola dos pés
caminhando sobre as ruas
os velhos não usam sapatos

deus não anda entre os meus
sobrevoa em helicópteros
arranhas céus
onde dorme em colchão de penas

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