crítica, poesia

“Agharta”, de Frederico Klumb, por Julya Tavares

Há um poema de Hilda Hilst que relaciona o desejo a uma busca pelo “outro” que ora se apresenta como “decantado/ surdo à (…) humana ladradura”, ora se revela como “o jardim aqui ao lado”. É nesta última imagem que este “outro”, no poema de Hilda, se torna corpo feito de carne e osso, sensível ao toque, ao contágio entre o que antes se afigurava apenas como “visgo e suor, pois que nunca se faziam”.

A escrita poética também é desejo atento à alteridade, sobretudo ao modo como, no corpo da linguagem, os limites entre uma coisa e outra interagem, por vezes se sobrepondo, desfazendo-se, reformulando-se ou permanecendo como óleo em copo d’água. No corpo desse texto que aqui se delineia, o poema de Hilda é diferença e contaminação, painel de imagens em que repouso a vista para estender o pensamento, ainda, às formas pelas quais essa alteridade se revela no fazer artístico, atravessando algumas produções do presente que têm se demonstrado cada vez mais interessadas em dar a ver, por meio da performance ou do uso mesmo de outros materiais, as relações interartes e o trânsito entre suportes.

No caso de Frederico Klumb, poeta, roteirista e artista visual nascido no Rio de Janeiro em 1990 – sobre quem exercito o fácil e o difícil no dizer de um outro – parece estar na zona de instabilidade entre os modos de fazer do cinema e da poesia o campo de testes de seus trabalhos artísticos. Seus poemas traçam diálogos com o cinematográfico não somente por meio de referências diretas – como em “mauvais sang”, cujo título é homônimo ao do filme do cineasta Leos Carax, ou Arena (2017), lançado pela coleção Megamini da editora carioca 7Letras, e que carrega consigo título e cenas do curta-metragem do realizador português João Salaviza –, mas também através de uma curiosidade por evidenciar processos, como a montagem, que permeiam tanto a poesia quanto o cinema. Para além do que se desloca entre o poético e o cinematográfico no âmbito da escrita, as práticas artísticas de Frederico Klumb investem, ainda, numa espécie de investigação dos poemas em outros suportes: Arena assumiu outra visualidade quando experimentado como foto-filme junto a fotografias de Bruno Machado e Antonio Arraes, do mesmo modo que o poema Vão, combinado a imagens de arquivo e banco de dados da internet.

Neste Agharta, o autor busca, à sua maneira, os métodos possíveis de transposição de aspectos formais do poema. A câmera na mão, que simula o próprio olho, desobedecendo a movimentos normativos, traça um ensaio ou uma cartografia outra sobre a cidade, e pode ser uma tentativa de acompanhar os enjambements do texto quando em sua apresentação escrita. Apoiada na crueza de resolução das imagens, a escolha do preto e branco na maior parte dos planos segue uma espécie de ética metodológica para retratar uma realidade urbana que, em alguns momentos, mais parece um terreno de terra arrasada ou de um pós-guerra.

Há ainda que ressaltar a tensão, que ao mesmo tempo convida e contém o espectador a entrar no filme, motivada pelos diversos canais de comunicação que se apresentam, mas também pela ausência de linearidade em sua narrativa. A locução do poema em português, as legendas em inglês, a trilha sonora com pequenas variações na paleta de emoção e, ainda, as próprias imagens filmadas na bitola super 8, reunidas sob uma montagem mais interessada em relações plurais de sentido, do que num encadeamento único de causa e efeito, parecem evidenciar não apenas as possibilidades de falha na comunicação, como também a difícil tarefa de dizer sobre essa falha. Mais do que reconhecer a questão expressa nos versos “há muita falha em nossa comunicação/ambiguidade e líquidos misturados/ que mesmo líquido não são’, o espectador acaba por conviver com essa tensão por meio de procedimentos que lhe exigem outros modos de ceder a vista e a escuta.

Assim, em processos como os que parecem permear os trabalhos de Frederico, a poesia não se torna uma prática afetada por outras práticas, ela é, antes de tudo, assumida como tal, isto é, percebida como um fazer que, desde sempre, buscou ampliar seus contornos mediante a um desejo pelo que comumente se entende como “do outro”. Não mais decantado, dado a ver como fora, mas tomado como parte, um corpo “laborioso, lascivo” com o qual é possível delinear um convívio por meio da linguagem.

Julya Tavares

* * *

Agharta, de Frederico Klumb.

 

Anúncios
Padrão
poesia

Flávio Morgado (1989-)

18944510_1474254825967192_1386532976_n

Flávio Morgado é poeta nascido no Rio de Janeiro em 1989. Lançou seu primeiro livro “um caderno de capa verde” (7Letras) em 2012 e o segundo, “uma nesga de sol a mais” (7Letras), em 2016.

* * *

litígio à bandeira

 

Luis Gonzaga das Virgens, conjurado negro,
entregou a si, nascido cabeça a prêmio.
Luis Gama letrou-se em liberdade
e escreveu em costas brancas
a palavra justiça.
Liberata, escrava, alegou humanidade
aos bichos da lei.
Zumbi tem rosto.
Barbosa não tem culpa.
175 mil africanos
a contragosto, em kalunga,
sob o descaso da compaixão e da língua
cristã aportavam na capital em 1736.
54% da população deste país
é declaradamente negra
(à primeira carta republicana
vinha o apêndice sintático-racial
“forro”)

 

[minha cara
não encobre
minha culpa mas
não extingue
essa inquieta sensação de carregar
o que condeno.]

 

somos irmãos vis
do continente. Infanticidas notáveis
de nossas origens. Exímios
engenheiros de silêncios irrevogáveis.

injuriados à beleza.

se não o vermelho,
cobiça cabaço dos portugueses,
ou sobre brasis
(melhores inquilinos da terra),
ou ao resultado trágico desta equação.
que não seja
já que até os tons
a tacanhez contextualiza,
por que então a manutenção?
das cores, das vozes, das práticas,
da eterna vez, do quinto, do dízimo,
do cinismo e até do modo de foder
– ibericamente culpado. institucional.

 

mãe mais que gentil,
dos lázaros que sustenta em estrelado:
senna, escória de orleans&bregança, dória, ainda-sarney;
a bem sucedida sonegação
da família marinho;
o tricentenário de propriedade
e embranquecimento social
do clube piraquê
e a sonsa cegueira do leblon.

agora alguém morre, negligenciado, no hospital
salgado filho
todo dia alguém nasce, negligenciado, de antemão,
ao didático livro do capital.
e salve a santa constituição!
salve a pálida cara do constrangimento,
o iluminismo engabelado
e a esteira de produção!

(o mundo nos descabe esteticamente)

 

 

pensa,
oficialmente solitário,
jovem professor de história,
na zona sul do rio de janeiro,
em uma sala só de brancos,
ao explicar por quem
tremulam as nacionais
cores de uma bandeira
sem preto.

§

 

body art

 

pintar com a língua.
compreender o espaço
pelo tato, deixar o cheiro-
alvo cumprir seu domínio
pela boca,
começar pelas coxas –
quase moldura –
deixando pingar
saliva em relevo
(metalingua
agem porque ninguém a esta hora é ingênuo)
repetir o faro.
ouvir ofegar o quadro
que com a mão deve
saber de cor.

pincel-língua
tinta
sobre a
tinta
recupero o gesto adâmico

a língua funda o sentido
que nos admite orgíacos

começo a caber no seu delírio
quando a tela me pinta.

com o que ainda me escorre
de gozo,

espero
o corpo
reconduzir ao
corpo.

 

para recomeçarmos.

§

 

cena mãe

 

há um livro dentro de mim.
meu rancor tem a aspereza de um fato
e você não sabe disso.

não sabe
que enquanto à pia
teu filho sentava para catar os feijões
os caroços não se separavam dos calos.
não sabe
que depois que meus olhos
aprenderam a fazer,
não podem mais apenas ver
e foi por isso que
tua mão desistida
foi se dar a todas as mulheres que desamei (a mim)
e me puseram sobre seu colo –

medeia, sou teu filho pródigo
que correu a jasão

sou teu aborto interrompido,
tua juventude abortada,
teu caminho e atalho
ao parto – primeiro pacto de não-comunhão.

e se a narrativa se impôs ao perdão,
o que faço eu com os gestos
meus que se assemelham à mão
que te estapeou? o filho da culpa
se compadece
sobre a estética do não-pai
que não teve.
e se você soubesse, amava.

amava os livros que trago em mim,
úteros de si aos quais teria me
encontrado
e me permanecido teu filho apenas,
mesmo sob o silêncio de seu seio
negado
que ainda assim
armamenta este poema.

você armaria os livros que tenho em mim.

§

 

delírio castrada

 

delírio, a miss FEBEM dos gatos,
foi castrada.

ao redor de sua (agora) eterna castidade
o silêncio
do faro macho
dos noturnos pretendentes
e de sua instintiva ideia de amar

talvez doa em algum lugar
de sua consciência felina
de caça (e ensaio
de concentração)

já que, menos eufórica,
não come, não mia,
não me fita os olhos, não gateia.

caminha viúva
prefere a sombra aos pássaros
e honesta,
enluta o próprio tesão.

§

 

ministro do supremo

 

agulhas de oblíqua amolação
linhas de infâmia
e sujas articulações
cacos institucionais
caviar, gotas de dom perigon,
sobras de excessos ,
veleidades de um estômago gordo
empáfia audaz
uma constituição, uma toga e um trono
promessa, perjúrio e parcialidade
um senador, escravos e bons hectares da amazônia
doses de capanguismo
(nenhum remorso até o esôfago)
a idoneidade de uma democracia ruminada
e parafusos de uma velha engrenagem
a preto e pobre
foram encontrados,
junto aos miúdos,
e o corpo,
enganchado pelas nádegas,
exposto e fedendo
da vossa excelência
o ministro do supremo
gilmar mendes

(ainda de óculos)

Padrão
poesia

João Meireles (1993-)

João Meireles nasceu em Queimados (RJ) em 1993. É historiador e poeta, foi colaborador dos sites LiteraTortura e Indique um Livro e edita a revista eletrônica Avenida Sul. Teve poemas publicados em sites e blogs no Brasil e em Portugal, além da coletânea de novos poetas “Flupp Pensa 2013 – Poesias” (Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2013) e da revista O Garibaldi #5 (Juiz de Fora: Editora Matinta, 2015). Publicou o livreto “Primeiras Viagens” (edição do autor, 2014) e a plaquete “Fui a Lisboa esquecer um amor” (Juiz de Fora: Edições Macondo, 2016), e foi um dos poetas selecionados para integrar a exposição “Poesia Agora”, com curadoria de Lucas Viriato.

* * *

BALADA

é certo o enterro
de cada palavra
antes que o mês acabe
como um soluço

não sou nada
o mundo é imenso
e a porta da cozinha está
aberta pro frio entrar

falta pouco
pros dedos se acostumarem
aos furos
mas prefiro o toque

e o que me toca
não é o medo
é o espanto
o instante exato do instinto

não é a vida
mas a morte
a certeza de estar
entre parênteses

não são suficientes
beijos sob a chuva
poesia não é estrada
de amor eterno

nascer
é um exercício diário

§

BILHETINHO ANÔNIMO EM LETRAS DE FÔRMA

no campo à margem dum rio é que seríamos
a graça do romance de todos dias
a graça do romance que eu quis
mas não há vacas aparando as horas
apenas self-made love
todos os dias abrir os olhos
sentir a falta ao fechá-los
ouvir a água do café que dá enjôos ferver
lembrar o não
porque poses para fingir desilusão são muitas
não chamam sua atenção
nem mesmo dizer
eu seria tudo o que você _____

 

§

A ANATOMIA DA SUBSTITUIÇÃO

devem erguer uma placa
bem aqui nesta rachadura
inflada de esgoto e salitre
não possuo armas ou guias
somente o cheiro que me falta
como ao perfumista do romance
um círculo que não se fecha
pelo encaixe incompleto
todo besouro derrubado agoniza
as patas desbravando o ar
que falta pelo tempo
virado no chão
mas eu não sou besouro
aprendi sobre o amor
com cantoras de jazz
sobre resistência
com as abelhas do quintal

Padrão
poesia, tradução

Don Juan de Byron, por Lucas Zaparolli de Augustini, pt. 1

Ford Madox Brown, “The Finding of Don Juan by Haidee”, 1878.

O melhor Canto do Don Juan de Byron

à beira do bicentenário de Don Juan

 

Byron considerava este Canto “muito decente”, e também algo dull, “monótono”. Porém até seus desafetos reconheciam ser aqui um dos seus pontos culminantes. O poeta S. T. Coleridge, merecedor de vária sátira na obra byroniana, é quem diz (dias após a morte de Byron, em 1824) ser a “melhor” coisa, isto é, a mais “individual”, da mesma.

O genial Canto III teve inclusive trechos traduzidos para o português por Augusto de Campos e Décio Pignatari. Alfim da tradução aqui apresentada estarão alguns comentários sobre eles, à guisa de posfácio.

O jovem Don Juan, metido num adultério, forçado a viajar (Canto I), vira náufrago, envolve-se em cenas de canibalismo e, único sobrevivente, é achado por Haidée, princesa de uma ilha, que se apaixona por ele (Canto II). O pai de Haidée era um pirata que, sumido há tempos, fora dado por morto (mas tal gente nunca morre). E narra-se no Canto III a volta a casa de Lambro. Sátira da Odisseia.

Entretanto, o principal personagem desse épico satírico é o próprio narrador, e as principais aventuras são da ideia, alusões (cita Shakespeare, Butler etc), tiradas retóricas e humorísticas (sua ex-mulher é a “musa dos paralelogramos”, mãe de Ada Lovelace (madrinha da computação)) e descrições pictóricas. Nas estrofes a seguir o narrador divaga sobre o amor e o casamento com crueza cética, passando à narração da volta de Lambro e à descrição dos costumes gregos, que Byron vivenciara em viagens.

A tradução foi feita na mesma forma estrófica do original, a oitava rima, buscando traduzir a maior parte da carga semântica com efeitos rímicos e enjambements. Pentâmetros iâmbicos foram traduzidos em decassílabos que, às vezes, possuem tônicas em ritmo iâmbico, como no último verso da primeira estrofe, ou na terceira estrofe, entre outras.

Lucas Zaparolli de Augustini

* * *

 CANTO THE THIRD

I.
HAIL, Muse! et cetera.—We left Juan sleeping,
Pillowed upon a fair and happy breast,
And watched by eyes that never yet knew weeping,
And loved by a young heart, too deeply blest
To feel the poison through her spirit creeping,
Or know who rested there, a foe to rest,
Had soiled the current of her sinless years,
And turned her pure heart’s purest blood to tears!

II.
Oh, Love! what is it in this world of ours
Which makes it fatal to be loved? Ah why
With cypress branches hast thou wreathed thy bowers,
And made thy best interpreter a sigh?
As those who dote on odours pluck the flowers,
And place them on their breast—but place to die—
Thus the frail beings we would fondly cherish
Are laid within our bosoms but to perish.

III.
In her first passion Woman loves her lover,
In all the others all she loves is Love,
Which grows a habit she can ne’er get over,
And fits her loosely—like an easy glove,
As you may find, whene’er you like to prove her:
One man alone at first her heart can move;
She then prefers him in the plural number,
Not finding that the additions much encumber.

IV.
I know not if the fault be men’s or theirs;
But one thing’s pretty sure; a woman planted
(Unless at once she plunge for life in prayers)—
After a decent time must be gallanted;
Although, no doubt, her first of love affairs
Is that to which her heart is wholly granted;
Yet there are some, they say, who have had none,
But those who have ne’er end with only one.

V.
‘T is melancholy, and a fearful sign
Of human frailty, folly, also crime,
That Love and Marriage rarely can combine,
Although they both are born in the same clime;
Marriage from Love, like vinegar from wine—
A sad, sour, sober beverage—by Time
Is sharpened from its high celestial flavour
Down to a very homely household savour.

VI.
There’s something of antipathy, as ‘t were,
Between their present and their future state;
A kind of flattery that’s hardly fair
Is used until the truth arrives too late—
Yet what can people do, except despair?
The same things change their names at such a rate;
For instance—Passion in a lover’s glorious,
But in a husband is pronounced uxorious.

VII.
Men grow ashamed of being so very fond;
They sometimes also get a little tired
(But that, of course, is rare), and then despond:
The same things cannot always be admired,
Yet ‘t is “so nominated in the bond,”
That both are tied till one shall have expired.
Sad thought! to lose the spouse that was adorning
Our days, and put one’s servants into mourning.

VIII.
There’s doubtless something in domestic doings
Which forms, in fact, true Love’s antithesis;
Romances paint at full length people’s wooings,
But only give a bust of marriages;
For no one cares for matrimonial cooings,
There’s nothing wrong in a connubial kiss:
Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,
He would have written sonnets all his life?

IX.
All tragedies are finished by a death,
All comedies are ended by a marriage;
The future states of both are left to faith,
For authors fear description might disparage
The worlds to come of both, or fall beneath,
And then both worlds would punish their miscarriage;
So leaving each their priest and prayer-book ready,
They say no more of Death or of the Lady.

X.
The only two that in my recollection,
Have sung of Heaven and Hell, or marriage, are
Dante and Milton, and of both the affection
Was hapless in their nuptials, for some bar
Of fault or temper ruined the connection
(Such things, in fact, it don’t ask much to mar);
But Dante’s Beatrice and Milton’s Eve
Were not drawn from their spouses, you conceive.

XI.
Some persons say that Dante meant Theology
By Beatrice, and not a mistress — I,
Although my opinion may require apology,
Deem this a commentator’s phantasy,
Unless indeed it was from his own knowledge he
Decided thus, and showed good reason why;
I think that Dante’s more abstruse ecstatics
Meant to personify the Mathematics.

XII.
Haidée and Juan were not married, but
The fault was theirs, not mine: it is not fair,
Chaste reader, then, in any way to put
The blame on me, unless you wish they were;
Then if you’d have them wedded, please to shut
The book which treats of this erroneous pair,
Before the consequences grow too awful;
‘T is dangerous to read of loves unlawful.

XIII.
Yet they were happy,—happy in the illicit
Indulgence of their innocent desires;
But more imprudent grown with every visit,
Haidée forgot the island was her Sire’s;
When we have what we like ‘t is hard to miss it,
At least in the beginning, ere one tires;
Thus she came often, not a moment losing,
Whilst her piratical papa was cruising.

XIV.
Let not his mode of raising cash seem strange,
Although he fleeced the flags of every nation,
For into a Prime Minister but change
His title, and ‘t is nothing but taxation;
But he, more modest, took an humbler range
Of Life, and in an honester vocation
Pursued o’er the high seas his watery journey,
And merely practised as a sea-attorney.

XV.
The good old gentleman had been detained
By winds and waves, and some important captures;
And, in the hope of more, at sea remained,
Although a squall or two had damped his raptures,
By swamping one of the prizes; he had chained
His prisoners, dividing them like chapters
In numbered lots; they all had cuffs and collars,
And averaged each from ten to a hundred dollars.

XVI.
Some he disposed of off Cape Matapan,
Among his friends the Mainots; some he sold
To his Tunis correspondents, save one man
Tossed overboard unsaleable (being old);
The rest—save here and there some richer one,
Reserved for future ransom—in the hold,
Were linked alike, as, for the common people, he
Had a large order from the Dey of Tripoli.

XVII.
The merchandise was served in the same way,
Pieced out for different marts in the Levant,
Except some certain portions of the prey,
Light classic articles of female want,
French stuffs, lace, tweezers, toothpicks, teapot, tray,
Guitars and castanets from Alicant,
All which selected from the spoil he gathers,
Robbed for his daughter by the best of fathers.

XVIII.
A monkey, a Dutch mastiff, a mackaw,
Two parrots, with a Persian cat and kittens,
He chose from several animals he saw —
A terrier, too, which once had been a Briton’s,
Who dying on the coast of Ithaca,
The peasants gave the poor dumb thing a pittance:
These to secure in this strong blowing weather,
He caged in one huge hamper altogether.

XIX.
Then, having settled his marine affairs,
Despatching single cruisers here and there,
His vessel having need of some repairs,
He shaped his course to where his daughter fair
Continued still her hospitable cares;
But that part of the coast being shoal and bare,
And rough with reefs which ran out many a mile,
His port lay on the other side o’ the isle.

XX.
And there he went ashore without delay,
Having no custom-house nor quarantine
To ask him awkward questions on the way,
About the time and place where he had been:
He left his ship to be hove down next day,
With orders to the people to careen;
So that all hands were busy beyond measure,
In getting out goods, ballast, guns, and treasure.

XXI.
Arriving at the summit of a hill
Which overlooked the white walls of his home,
He stopped.—What singular emotions fill
Their bosoms who have been induced to roam!
With fluttering doubts if all be well or ill—
With love for many, and with fears for some;
All feelings which o’erleap the years long lost,
And bring our hearts back to their starting-post.

XXII.
The approach of home to husbands and to sires,
After long travelling by land or water,
Most naturally some small doubt inspires —
A female family’s a serious matter,
(None trusts the sex more, or so much admires —
But they hate flattery, so I never flatter);
Wives in their husbands’ absences grow subtler,
And daughters sometimes run off with the butler.

XXIII.
An honest gentleman at his return
May not have the good fortune of Ulysses;
Not all lone matrons for their husbands mourn,
Or show the same dislike to suitors’ kisses;
The odds are that he finds a handsome urn
To his memory—and two or three young misses
Born to some friend, who holds his wife and riches—
And that his Argus—bites him by the breeches.

XXIV.
If single, probably his plighted Fair
Has in his absence wedded some rich miser;
But all the better, for the happy pair
May quarrel, and, the lady growing wiser,
He may resume his amatory care
As cavalier servente, or despise her;
And that his sorrow may not be a dumb one,
Writes odes on the Inconstancy of Woman.

XXV.
And oh! ye gentlemen who have already
Some chaste liaison of the kind—I mean
An honest friendship with a married lady—
The only thing of this sort ever seen
To last—of all connections the most steady,
And the true Hymen, (the first’s but a screen)—
Yet, for all that, keep not too long away—
I’ve known the absent wronged four times a day.

XXVI.
Lambro, our sea-solicitor, who had
Much less experience of dry land than Ocean,
On seeing his own chimney-smoke, felt glad;
But not knowing metaphysics, had no notion
Of the true reason of his not being sad,
Or that of any other strong emotion;
He loved his child, and would have wept the loss of her,
But knew the cause no more than a philosopher.

XXVII.
He saw his white walls shining in the sun,
His garden trees all shadowy and green;
He heard his rivulet’s light bubbling run,
The distant dog-bark; and perceived between
The umbrage of the wood, so cool and dun,
The moving figures, and the sparkling sheen
Of arms (in the East all arm)—and various dyes
Of coloured garbs, as bright as butterflies.

XXVIII.
And as the spot where they appear he nears,
Surprised at these unwonted signs of idling,
He hears—alas! no music of the spheres,
But an unhallowed, earthly sound of fiddling!
A melody which made him doubt his ears,
The cause being past his guessing or unriddling;
A pipe, too, and a drum, and shortly after—
A most unoriental roar of laughter.

XXIX.
And still more nearly to the place advancing,
Descending rather quickly the declivity,
Through the waved branches o’er the greensward glancing,
‘Midst other indications of festivity,
Seeing a troop of his domestics dancing
Like Dervises, who turn as on a pivot, he
Perceived it was the Pyrrhic dance so martial,
To which the Levantines are very partial.

XXX.
And further on a troop of Grecian girls,
The first and tallest her white kerchief waving,
Were strung together like a row of pearls,
Linked hand in hand, and dancing; each too having
Down her white neck long floating auburn curls—
(The least of which would set ten poets raving);
Their leader sang—and bounded to her song
With choral step and voice the virgin throng.

XXXI.
And here, assembled cross-legged round their trays,
Small social parties just begun to dine;
Pilaus and meats of all sorts met the gaze,
And flasks of Samian and of Chian wine,
And sherbet cooling in the porous vase;
Above them their dessert grew on its vine;—
The orange and pomegranate nodding o’er,
Dropped in their laps, scarce plucked, their mellow store.

XXXII.
A band of children, round a snow-white ram,
There wreathe his venerable horns with flowers;
While peaceful as if still an unweaned lamb,
The patriarch of the flock all gently cowers
His sober head, majestically tame,
Or eats from out the palm, or playful lowers
His brow, as if in act to butt, and then
Yielding to their small hands, draws back again.

XXXIII.
Their classical profiles, and glittering dresses,
Their large black eyes, and soft seraphic cheeks,
Crimson as cleft pomegranates, their long tresses,
The gesture which enchants, the eye that speaks,
The innocence which happy childhood blesses,
Made quite a picture of these little Greeks;
So that the philosophical beholder
Sighed for their sakes—that they should e’er grow older.

XXXIV.
Afar, a dwarf buffoon stood telling tales
To a sedate grey circle of old smokers,
Of secret treasures found in hidden vales,
Of wonderful replies from Arab jokers,
Of charms to make good gold and cure bad ails,
Of rocks bewitched that open to the knockers,
Of magic ladies who, by one sole act,
Transformed their lords to beasts (but that’s a fact).

XXXV.
Here was no lack of innocent diversion
For the imagination or the senses,
Song, dance, wine, music, stories from the Persian,
All pretty pastimes in which no offence is;
But Lambro saw all these things with aversion,
Perceiving in his absence such expenses,
Dreading that climax of all human ills,
The inflammation of his weekly bills.

XXXVI.
Ah! what is man? what perils still environ
The happiest mortals even after dinner!
A day of gold from out an age of iron
Is all that Life allows the luckiest sinner;
Pleasure (whene’er she sings, at least) ‘s a Siren,
That lures, to flay alive, the young beginner;
Lambro’s reception at his people’s banquet
Was such as fire accords to a wet blanket.

CANTO III

I.
Fala, Musa! et cetera. – Juan ficou
No aconchego de um seio belo e feliz,
Visto por olho que jamais chorou,
No amor de um jovem coração, na raiz
Mui santo pra ver vir veneno esguio, ou
Ver que o que odeia a paz lá dorme, quem quis
Ao flux dos puros anos seus pôr mancha,
Pôr pranto em puro sangue de alma mansa.

II.
Oh, Amor! o que há em nosso mundo que toca
E faz fatal ser amado? Ah com cipreste
Em ramos tu revestes tuas tocas,
Fazes do suspiro o melhor intérprete?
Igual quem ama o odor colhe a flor, coloca-a
Em seu peito – só pra que morra – deste
Modo um frágil ser a quem temos carinho
Entra a perecer em nosso peito mesquinho.

III.
Só seu primeiro amado ama-o a Mulher,
Nos outros ela passa a amar o Amor,
Aí é hábito que não pode desprender,
E que cai bem – luva fácil de pôr,
Se pode provar sempre que quiser:
Primeiro o peito a um homem só a dispor;
Depois do que ela gosta é do plural,
Que uma adição enorme não faz mal.

IV.
Não sei se é culpa do homem ou dela é;
Mas bem certo é; uma mulher deixada
(A menos que afunde a vida na fé) –
Após um tempo deve ser cortejada;
Embora, óbvio, o primeiro dos affairs
O peito inteiro ocupe e aí entra mais nada;
Que haja, diz-se, a que não teve nenhum,
Mas a que teve nunca teve só um.

V.
É melancolia, e algo medroso bem
Da fraqueza humana, tolice, e crime,
Que Amor e Casamento não se deem,
Embora ambos nasçam no mesmo clima; e
Casamento, do Amor, vinagre do vinho vem –
Sóbrio, ácido, ruim – o Tempo oprime-
-O do mais alto aroma no céu posto,
A um sabor familiar, simples, sem gosto.

VI.
Há a antipatia, não sei se isto é sincero,
Entre o presente e o futuro estatuto;
Usa-se elogio não tão verdadeiro
Até vir a verdade tarde e muito –
E o que a gente faz, senão desespera? O
Mesmo muda o seu nome em um minuto;
Por exemplo – Paixão no amante é gloriosa,
No marido é comer na mão da esposa.

VII.
Tem vergonha o homem de ser muito quisto; e
Às vezes fica um pouco aborrecido
(Mas isto, claro, é raro), e fica triste:
Jamais se é sempre à mesma coisa atraído,
Mas é “em nome da fiança que existe”
Que dois se unem até que haja um morrido.
Triste ideia! perder o par que faz linda
A vida, e pôr os criados de luto ainda.

VIII.
No doméstico há algo que se afeiçoa,
De fato, à antítese do Amor real;
Romances tratam casos de pessoas,
Só dão de casamentos bustos; mal
Liga alguém pra arrulho de casório, há
Nada errado num beijo conjugal:
Se fosse a esposa de Petrarca Laura,
Faria sonetos toda a vida para?

IX.
Toda tragédia com morte termina,
E finda toda comédia em casório;
O porvir do par fica à própria sina,
Pois os autores temem ser simplórios
Com o mundo do par, ou a que se inclina,
E é este mundo que pune seus imbróglios;
Deixando-o ao padre e ao pronto livro de ora-
Ções, nada dizem da Morte ou a Senhora .

X.
Que eu lembre, apenas dois possuem canção
Ao Céu e ao Inferno, ou casamento: Dante
E Milton, ambos com péssima afeição
Às núpcias, pois erro ou algo conflitante
No temperamento arruinou a união
(O que, de fato, não requer bastante);
Mas a Beatriz de Dante e a Eva de Milton
Não são inspiradas na esposa, admito.

XI.
Dizem que Dante via a Teologia
Em Beatriz, não uma amante – eu, conquanto
Julguem que faço alguma apologia,
Vejo um comentador num sonho e tanto,
A menos que só a sua sabedoria
Decidiu, e comprovou então; no entanto,
Eu acho que a dantesca abstração extática
É a personificação da Matemática.

XII.
Haidée e Juan não se casaram, porém
Azar o deles, não o meu: não é doce,
Casto leitor, então, culpa pôr em
Mim, a menos que queira que eles fossem;
Se casado os queria, por favor, tem
Que fechar o livro do par no erro, se-
Não o efeito terrível será explícito;
É perigoso ler de amor ilícito.

XIII.
E eram felizes, – na indulgência dita
Proibida do inocente desejo, uai;
Mais imprudente vai cada visita,
Haidée esquece que a ilha é de seu Pai;
Perder o que se gosta é coisa aflita,
Ao menos de início, até que um canse; sai
Sempre Haidée assim, toda chance usa,
Enquanto o pai pirata os mares cruza.

XIV.
É estranha forma de ganhar um cash, a
Roubar bandeira de qualquer nação;
De primeiro-ministro só não se acha
O título, além, sim, da tributação;
Mas ele, mais modesto, humilde faixa
Da Vida toma, e a honesta vocação
Segue em alto-mar seu aquoso caminho,
Algo como um advogado-marinho.

XV.
O bom senhor havia sido pego
Por onda, vento, e presa que mui val’;
E, esperançoso a mais, quedou no pego,
Minando o ânimo um ou outro temporal,
Pondo a pique uma presa; ele, não nego,
Seus presos acorrenta em lote igual,
Numerados; com correntes, colares,
Cada um em média de dez a cem dólares.

XVI.
No cabo Matapão dispôs uns para
Seus amigos maniotas; uns vendeu
Ao correspondente de Túnis, só um cara
Lançou-se ao mar sem venda (era um velho); e o
Resto – um ou outro mais rico, reservara-
-Se a posterior resgate – se prendeu
Junto no porão; aos de comum tipo, ali,
Havia grande demanda ao Dei de Trípoli.

XVII.
O material foi servido igual, pelas
Mais diferentes vendas do Levante,
Salvo porções da presa, que são elas
Clássico artigo de mulher, bastante
Coisa da França, pinças, laços, tigelas,
Guitarras, castanholas de Alicante,
Tudo escolhido que do espólio vai
Roubado à filha pelo melhor pai.

XVIII.
Um macaco, um mastim da Holanda, a arara,
Dois papagaios, e um gato persa e a cria,
Ele escolheu dos animais que olhara –
Um terrier, também, de um Bretão que havia
Morrido em Ítaca, e que ele comprara
Dos camponeses por mor ninharia:
Pra prendê-los no temporal que expande,
Pôs tudo junto num balaio grande.

XIX.
Daí, tendo acertado o assunto marinho,
Despachou barcos de ida e de vinda,
Seu navio carecendo algum alinho,
Mudou seu curso pra onde a filha linda
Segue em seu hospitaleiro carinho;
Mas na parte da praia aberta, e rasa ainda,
Áspera em recife por muitas milhas,
A porta de casa é do outro lado da ilha.

XX.
Ele desembarcou ali depressa,
Alfândega não tendo, ou quarentena
Pra que com questões chatas lhe aborreça,
O modo, o tempo, o lugar que esteve: e na
Manhã já deixou de ponta cabeça
Sua nau, com ordens de fazer querena;
Assim ocupadas mãos pra além da conta,
Daí tesouro, armas, lastro e bens desmontam.

XXI.
Quando chegou ao cume da montanha
Vendo as paredes brancas de seu lar,
Parou. – Cheio de uma emoção estranha
Seu coração forçado a viajar!
Está bem, mal está, a dúvida o assanha –
Por muitos amor, por outros recear;
Sentimentos que esquecem a vida ida,
E trazem o peito ao ponto de partida.

XXII.
Volta à casa a esposo ou pai que partira,
Depois de viagem longa em terra ou mar,
Alguma dúvida de certo inspira –
Mulher da família há que preocupar,
(Ninguém confia mais no sexo, ou o admira –
E odeiam bajular, não vou bajular);
Sem o esposo a esposa é mais sutil, como
Filhas que às vezes fogem com mordomo.

XXIII.
Nem sempre homem bom tem a boa fortuna
Que Ulisses na volta a casa sua usa;
Nem toda viúva fica soturna,
Ou beijo de pretendente recusa;
As chances são que encontre uma bela urna
À sua memória – e duas, três filhas aí inclusas
Do amigo, que está com esposa e fundos –
E que seu Argos – morda-lhe os fundos.

XXIV.
Se solteiro, sua Linda já achará
Casada em sua ausência com rico avaro;
O bom é que a feliz dupla poderá
Brigar, ela, com talento e preparo,
Ele o caso de amor terminará
Qual cavalier servente , ou a desprezá-la; o
Seu pesar feito idiota assim não pode, e
Aí à Inconstância Feminina fará odes.

XXV.
E oh! vós senhores que já possuis desta
Casta liaison – que é, com moça bela
Casada uma amizade mui honesta –
Das coisas assim nada existe entre elas
Mais firme – único vínculo que presta,
Real Himeneu (o primeiro é só tela) –
É, então, não fique muito fora – que
Tem ausente a errar quatro ao dia, tem, vi.

XXVI.
Lambro, nosso advogado-marinho, tem
Mais prática no Oceano que no chão,
Viu o fogo da lareira e ficou bem;
Não tinha metafísica, ou noção
Da razão de não ser triste também,
Ou de qualquer outra forte emoção;
Ama a filha, sua perda choraria,
E igual filósofo a causa não sabia.

XXVII.
Via seus brancos portais ao sol brilhando,
As árvores no jardim, umbrosas, verdes;
Ouvia seu suave riacho borbulhando,
Um cão latindo ao longe; já por ver de
Entre o escuro bosque, frio, marrom, lá andando
Umas figuras, faíscas ao mover de
Armas (no Oriente tudo é arma) – e as mil cores
Das vestes, com da borboleta os fulgores.

XXVIII.
Quando mais próximo ao local viera,
E indício de ócio tal surpreso viu,
Ouviu – ah! não música das esferas ,
Mas mundano som de violão vadio!
Melodia que a audição descrer fizera,
E a causa já além do acho e do alvedrio;
E uma flauta, e um tambor também, daí soa –
O riso menos oriental e ecoa.

XXIX.
Aí pra mais perto do lugar avança,
Descendo lesto um inclinado trecho,
Olhando através da erva que balança,
Entre outros sinais de festa, perplexo,
Vê um bando dos de casa que ali dançam
Como Dervixes, girando em seu eixo,
Mas era a dança pírrica , marcial,
A qual o Levantino é bem parcial.

XXX.
E adiante um grupo de mocinhas gregas,
A mais alta à frente agita o alvo lenço,
Como colar de pérolas se agregam,
Mão com mão, dançam; fulvos cachos pensos
Que por alvos pescoços escorregam –
(Uma só poria dez poetas sem senso);
A líder canta – e o pé e a voz dirigem
Junto o coro daquele bando virgem.

XXXI.
Cá, de perna cruzada em volta aos potes,
Outro estrato social passa a jantar;
Pilaus e carnes veem-se a toda sorte,
Frascos de vinho Sâmio e Quio, e a gelar
O sorvete em poroso vaso; note
Que em cima cresce a vinha no pomar; –
A laranja e a romã que pendem sobre,
Ao toque, e com dulçor, seus colos cobrem.

XXXII.
Em torno a um carneiro branco como a neve,
Crianças trazem flores para pôr nos
Chifres; qual cordeiro que inda mamar deve,
O patriarca da lã, calmo, os seus cornos
Baixa esplendidamente manso, e esteve
A comer de uma palma, e ora desce o adorno
Da fronte em galhofeiro ataque, aí,
Rendendo-se às mãozinhas, volta a si.

XXXIII.
E o perfil clássico, a veste que luz lança,
O grande olho escuro, sua angélica cútis,
Aberta romã rubra, e as longas tranças,
Gesto que encanta, e o olhar que repercute,
E a inocência que benze a alegre infância,
Destes greguinhos um retrato incute;
Pra que o observador filósofo ao vê-los
Suspire por eles – em breve velhos.

XXXIV.
Longe, um bufo anão causos narrava-lhes,
Aos velhos sedados ao redor fumantes,
De ocultos bens em escondidos vales,
De palhaços da Arábia em shows brilhantes,
De como fazer ouro e curar males,
De quem bate e abre pedras com encanto, e
De moças magas que, com um só ato,
Fazem de esposos bestas (isto é fato).

XXXV.
Lá havia inocentes diversões diversas
Pra imaginação e sentidos, música,
Canto, dança, vinho, histórias persas,
Passatempos de forma alegre e justa;
Mas tais coisas a Lambro eram avessas,
Da sua ausência já vira o quanto custa,
Receando que o ápice da ruína humana
Seja a inflação nas contas da semana.

XXXVI.
Ah! que é o homem? que perigo permeia
Os mais felizes já após que a janta aprovem!
Um dia de ouro na idade do ferro, eis aí
Tudo que a Vida ao pecador ditoso move;
Prazer (o que quer que cante) é Sereia,
Que atrai, pra esfolar vivo, o ingênuo jovem;
Ao banquete da gente Lambro logo
Foi cobertor molhado sobre o fogo.

(Continua)

§

Posfácio

Trechos deste Canto foram traduzidos por João Vieira, em prosa; por Décio Pignatari e mais recentemente por Augusto de Campos (2009).

Os concretos traduziram (Campos diz “tecnomediunizou”) os pêntametros byronianos em decassílabos. A forma estrófica foi mantida praticamente idêntica.

Pignatari traduziu cerca de cinco trechos, e somente duas estrofes completas. Da segunda estrofe traduziu apenas quatro versos, alterando a disposição das rimas, usando dessas em or e ar, e acolhendo, de certo modo, só o epigrama que a oitava continha:

Amantes de perfumes colhem flores
E abrigam-nas no seio (mau lugar).
Assim pomos no peito alguns amores
– E este é o lugar mais tumular.
(Pignatari, 2007, p. 198).

Campos traduziu duas estrofes completas das quase cem do Canto III. A primeira e a última. Na primeira o make it new poundiano, isto é, a tecnomediunização, foi ousada, vertendo gerúndio por gerúndio:

Ó Musa, et cetera. Deixei dormindo
Juan no seio do mais suave leito
Sob um olhar que só viveu sorrindo,
E amado por alguém tão sem defeito
Que não sabe o veneno que vem vindo
Para tomar-lhe a alma. No seu peito
Ela pusera um malfeitor, enquanto
Seu coração ia do sangue ao pranto.
(Campos, 2009, p. 47).

§

Bibliografia

AGUSTINI, Lucas de Lacerda Zaparolli de. Don Juan de Lord Byron: estudo descritivo das traduções, tradução, comentários e notas. 2015. Dissertação (Mestrado em Estudos da Tradução) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8160/tde-01032016-161149/&gt;. Acesso em: 2017-03-01.

BYRON, George Gordon. Don Juan. Edited by T. G. Steffan, E. Steffan e W. W. Pratt. England: Penguin Classics, 1996.

CAMPOS, Augusto de. Entreversos – Byron e Keats. São Paulo: Editora Unicamp, 2009.

PIGNATARI, Décio. 31 Poetas 214 Poemas – Do Rigveda e Safo a Apollinaire. São Paulo: Ed. Unicamp, 2007.

* * *

Lucas Zaparolli de Agustini é bacharel em latim e pós-graduando em Tradução (USP). Seu primeiro livro de poemas, Pelo Andar do Dia, está engatilhado. Canto no Pântano está por vir… Publicou independentemente as Obras Completas de Delmira Agustini.

Padrão
poesia

Lucas Matos

Lucas Matos é poeta, ator, e professor da UERJ (CAp-UERJ) de língua e de literatura. Editou a revista de poesia Bliss (7letras), junto com Marcio Junqueira e Clarissa Freitas, e também com eles e mais Thiago Gallego editou a revista-disco de poesia Bliss não tem bis (edição dos autores com apoio de SR-3/DECULT/COART/UERJ). Com todos, edita blog de poesia de mesmo nome. Publicou pela 7letras os livros de poesia Três semblantes, ou no meio da piada você percebe: ninguém vai achar graça, ou para cada sentença clara há um engano (2015) e 1989: franz (megamíni, 2016).

* * *

De 1989

ocupando o apocalipse com laurie

sabe aqueles dias que você acorda
e diz:

pois é, hoje eu vou deixar o túmulo vazio
?

então
pois é, hoje eu vou deixar o túmulo vazio

o túmulo sim e um caixão
cheio de ar e das marcas das
digitais de um vendedor zeloso e
fracassado vou até ligar para o
coveiro rapaz por que você não
tira o dia de folga aproveita
o mês manda ver as férias
que você sempre quis uma
viagem para o norte é tão boa
quanto o rumo para o sul e se
você pega um desvio à direita
ou à esquerda quem sabe
o fantasma que te espera na esquina
eu digo
olha, hoje eu vou deixar o túmulo vazio

quando ligo o telefone
chama chama e o coveiro está
ausente
alô laurie falando

imagina o dia chegou
um estranho te acorda na cama
você não lembra como ele e você
acabaram aqui
e ele é só indagações de que servem
estas garras e dentes afiados
você tem um focinho no lugar
do umbigo você corre ao
banheiro com pressa
com medo de ficar de frente
para o espelho alguém
acordou de um pesadelo
e o monstro é você

imagina uma mosca
do tamanho de um carro
imagina um carro
do tamanho da mosca
o sol nasceu o sol se pôs
este é o tempo
tudo que pertencia ao
tamanho do carro
está no tamanho da mosca
e também ao contrário

o patrão do coveiro é
feito qualquer patrão
tem um pé de cabra e
um taco de beisebol
ventilador de teto raspando
a cabeça dos funcionários
este mês não tem salário
e mês que vem quem sabe
não é uma faca nos rins
estilhaço na córnea
que me derrubam
do cavalo

filho, hoje eu vou deixar o túmulo vazio

o patrão está satisfeito
os mortos estão satisfeitos
mas não tem geladeira na cozinha
ligo para a entrega de pizzas
quem sabe o miguel do turno das 22
aceite os meus sorrisos
chama chama ninguém viu miguel

a minha avó era uma presbiteriana
da baixada fluminense e tinha
uma imagem muito clara do futuro
de como o mundo acaba
em fogo
em fogo
como no livro do apocalipse
como no livro do apocalipse
e quando eu tinha 10
ela me disse que o mundo
acabaria em 1 ano
eu passei o ano orando
lendo a bíblia e me
distanciando de amigos e
parentes

até que finalmente o grande dia chegou
e não aconteceu absolutamente nada
apenas outro dia
e eu lembro o dia em que ela morreu
estava muito animada
parecia um passarinho num poleiro
na beira da cama diante da janela
do hospital à espera da
morte

ela vestia uma camisola rosa
e penteava o cabelo para
estar bonita na hora
que cristo viesse buscá-la
não tinha medo só
que no último minuto
aconteceu uma coisa que mudou
tudo

depois de uma vida inteira de
orações e previsões sobre o fim do mundo
ela entrou em pânico
e ela entrou em pânico
porque não conseguia decidir
se botava ou não um
chapéu

e então ela morreu
entrou para o futuro em
pânico sem absolutamente nenhuma
ideia do que se feltro palha
véu iria acontecer em
seguida

sabe aqueles dias que você acorda
e os lençóis estão vazios
como o gosto na sua boca
a manhã aquece a casa
não encontra pessoa na sala
nos quartos no banheiro
nos pulmões pálpebras paredes
ressoa

amor, hoje eu vou deixar o túmulo vazio

a campainha toca estão os três
à porta: o juiz o carrasco o assassino
vieram me levar saio pela janela
feito desenho animado um cordame
de lençóis e fronhas eles entram
deixa que eu mostro a casa alguém
quer cafezinho indago das férias
se cada um recebeu em dia o terço
tenho pensado muito sobre a clt
o início dos movimentos sindicais
na década de 1920 um deles acende
uma vela e outro menciona comovido
o sr. getúlio um de nós
pede para falarmos coisas horríveis
porque estamos tristes sabemos
estamos tristes e a beleza pode
passar a impressão errada é
com muita delicadeza que eu volto ao
refrão hoje vocês sabem
já é noite quente quando os três se
vão pela janela as ruas da vila quase
um deserto me encaminho para a
louça suja é tão difícil desembaraçar
o que é simplesmente fim do fiapo
de um novo começo

imagina todas as coisas
estão embrulhadas em folhas de bananeira
pneus dos carros telefones para-brisas
cada página dos livros cada grão
de areia nas praias as praias
todas embrulhadas em folhas de bananeira
e os seus amigos embrulhados até
os seus órgãos internos passam
vozes e são como o vento
correndo entre os dedos
‘já estamos preparados para quando queimarem
a quarta parte da terra
já estamos preparados para que venham
todos animais de peçonha
todos animais de rapina
todas as pestes e pragas
enquanto cantamos chegamos ao ponto
de abate assim nos fizemos mais
tenros você levantou sua foice sobre
a terra e o nosso aroma é doce
na sua presença’

é aí que você se toca
toda essa conversa de
folhas de bananeira
abriu seu apetite
é aí que você se toca
não é que está na hora do
almoço

ou eu poderia dizer
a partir de agora esta porta vai ficar aberta
ou eu poderia dizer
esta casa não conta mais derrotas
ou eu poderia dizer
levanta povo o cativeiro acabou
o mundo? estou sabendo
a vida? estou sacando
me disseram poemas
e não era o crepúsculo
e não era o calor da noite de verão
era cedo e minhas irmãs sérias
me olhavam
o neoliberalismo? já vi
o fim do fim? já ouvi
em quantas línguas o café da manhã
começa com café
eu gosto dessa frase
encarei a alfabetização como quem compra um peixe que tem espinha
eu gosto dessa frase
tudo passa sobre a terra

eu perguntei ao meu mestre
se existia alguma meditação
para quando o fim estiver se aproximando
procure escutar os sons ao seu redor
ele disse bom está ok
mas pode ser que você não consiga a concentração necessária
ou que o barulho seja infernal e daí
é quase impossível ficar apenas escutando
então lembre da primeira vez que você sentiu
medo e depois lembre a última até os fios
de cabelo na nuca se arrepiarem
e pense
é assim que os mortos veem os vivos
eu saí de lá com uma estranheza
uma espécie de confusão
na praça da carioca
um pregador lia ao microfone
trechos do apocalipse
eu nunca tinha reparado
a beleza das imagens
o dia em que envelhecerão as crianças
um mar de vidro mesclado de fogo
a ruína completa e definitiva
e me lembrei quando tinha 10
entrou um rato em casa
a minha avó saiu atrás dele
vassoura em punho e
palavrões em língua estrangeira
porque em língua nossa oh o pecado
quando matou o bicho e me viu
com o olhar aterrado ela disse
e se a besta e seus vencedores
os cavaleiros com seus flagelos
as trombetas a postos
tudo está pronto para soar
e dar fim ao mundo mas
eles têm mais medo
de nós do que nós
deles

quando o coveiro afinal atende
oxalá ele diz eu não descubro nunca
as razões de estarmos vivos nessa terra
hoje eu vou deixar o túmulo vazio
por que não aproveita o espaço
planta jardim floresta
ou então
meus inimigos?

Padrão
tradução

3 traduções pro ‘The Raven’ do Poe

crows_by_unlobogris1

Mesmo que Edgar Allan Poe de fato seja, ao menos para um leitor de língua portuguesa, mais contista do que poeta, ainda assim é difícil que seu corvo não tenha alguma vez esvoaçado para dentro dos aposentos de leitores mais entusiastas e encontrado ali um local no mínimo propício à influência de seus feitiços. E nem me refiro especificamente ao poema original: seja em tradução, todo o lirismo exaltado desse romantismo tenebroso que flerta com o fantástico ainda é motivo de atração comum. Se não isso, ao menos a peculiaridade formal do poema é reconhecida pelos menos afetados. Um pouco além, existe ainda a questão das inúmeras referências ao poema na cultura popular: na literatura, por exemplo, com Neil Gaiman (American Gods, Sandman), Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler, em A Series of Unfortunate Events, The Vile Village), Stephen King (Insomnia); no cinema, em The Crow (1994), Batman (1989, de Tim Burton), numa breve citação pelo Coringa de Jack Nicholson (“take thy beak from out my heart!”); na televisão, com a série The Following (2013-2015), ou a paródia em The Simpsons; na música, com Lou Reed e seu álbum The Raven; etc. etc. O poema ainda é rentável para estampas de camisetas e canecas, e não me surpreenderia se “the raven” estivesse no cardápio de alguma hamburgueria temática. Seja dito que sim, Poe é pop, e seu corvo não menos. Das variadas traduções para o português, duas são as mais conhecidas: a de Machado de Assis e a de Fernando Pessoa. A primeira apresenta uma composição que não segue a estrutura original: os versos são quebrados e dispostos de maneira nova, variando entre oito, dez e doze sílabas, com ritmo diverso e rimas reorganizadas (esquema AABBCCDEDE). Essa bela tradução de Machado de Assis seria fruto indireto da versão francesa de Baudelaire. Fernando Pessoa, por sua vez, apresenta uma tradução com o mesmo número de versos e estrofes do poema original, e parece ainda ter a intenção de preservar os componentes rítmicos. Também na disposição das rimas se mantém fiel – ou seja, incluídas as rimas internas, reproduz o esquema AA, B, CC, CB, B, B. Um pouco à parte, é interessante notar que enquanto Machado de Assis traduz Lenore por “Lenora”, a versão de Pessoa em nenhum momento dá nome à amada perdida, já que se presta a preservar o padrão do esquema com suas rimas em ais (isso, obviamente, considerando que “nunca mais” fosse a única solução cabível para nevermore em sua proposta de tradução). Finalmente, no que refere à minha própria tradução, admito que se trata de um quase servilismo velado no encanto, ou vice-versa. De todo modo, minha proposta se assemelha à de Pessoa: tentei reproduzir também a forma do original, atentando não somente para a disposição das rimas (o esquema foi mencionado acima) como também para a estrutura rítmica dos versos (com o perdão do pedantismo, octâmetros acataléticos, heptâmetros cataléticos e tetrâmetros cataléticos combinados em ritmo trocaico, ou seja, sílaba forte seguida de fraca – tudo isso como bem especifica o próprio Poe em sua Filosofia da composição). Acresce a preocupação em preservar, pela proximidade de efeitos, imagens e referentes que não necessariamente se dão da mesma forma na versão de Pessoa, assim como ritmo e dicção mais fluentes. A ideia geral é suscitar no leitor uma sensação mais próxima ao feitiço original. Algumas questiúnculas para finalizar: não me preocupei com a oscilação na cesura de uns poucos versos, resultante de um heptâmetro catalético traduzido no lugar de um octâmetro acatalético. A segunda estrofe é um exemplo disso, com as rimas em -er. Também nas duas primeiras estrofes chamo atenção para as rimas praticamente iguais às da tradução de Milton Amado – recomendo-a, inclusive, como a minha preferida –, o que vai acabar num verso inteiro emprestado (“nome aqui já não tem mais”). Talvez tenha sido o martelar da versão de Milton em minha cabeça que me levou a entender isso como melhor solução para minha proposta. Por fim dos fins, convencido da significância de rimar Lenore com nevermore, optei por traduzir o nome da amada como nada menos que “Lenais”. Estou certo de que a ideia não é minha, mas totalmente incerto de sua fonte. As pesquisas me direcionam a uma tradução de Odair Cerazzo Jr., que me era de todo desconhecida até pouco tempo.

bruno palavro

* * *

 

ante-scriptum: como o poema é longo (e famoso) e 3 traduções + o original dariam muito trabalho pra barra de rolagem dos vossos computadores, quem quiser conferir o original clique aqui. passemos direto às traduções. ah, pra quem perdeu e quiser conferir a tradução-exu feita por guilherme gontijo flores e rodrigo gonçalves, clique aqui.

* * *

 

O CORVO

Era noite alta e sombria, fraco e farto eu refletia
Sobre muitos e curiosos esquecidos manuais.
Cabeceando, adormecido, escuto um súbito ruído
Como algum gentil batido, um batido em meus umbrais.
“É visita”, murmurei, “que está batendo em meus umbrais:
É só isso e nada mais”.

Ah, distintamente lembro, foi no gélido dezembro,
Cada flama já morrendo criava sombras fantasmais.
Desejava o amanhecer – tentara em vão nos livros ter
Um amparo e não sofrer, sofrer com a perda de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais –
Nome aqui já não tem mais.

E o sedoso, triste, incerto rubro véu soando perto
Me abalava com fantásticos terrores sem iguais;
Já meu peito reprimindo fui tão logo repetindo:
“É visita me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
Vem tardia, me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
É só isso e nada mais”.

Forte a alma num instante, e eu então não hesitante,
“Senhor”, disse, “ou madame, penso se me perdoais;
Estava quase adormecido e tão gentil foi o ruído,
Foi tão débil o batido que batia em meus umbrais,
Que mal pude vos ouvir…” – então abri os meus umbrais –
Só o escuro e nada mais.

Fundo as trevas espreitando, lá fiquei desconfiando,
Dúbio em sonhos que mortal nenhum ousou sonhar jamais;
O silêncio era infinito – no sossego incompreendido
Só um vocábulo foi dito, um sussurro assim: “Lenais?”
Isso eu disse, e algum eco murmurou assim: “Lenais!” –
Isso apenas, nada mais.

Ao meu quarto regressando, toda a alma em mim queimando,
Novamente eu ouço tapas ressoarem inda mais.
“Certo”, eu disse, “essa mazela é qualquer coisa na janela;
Resta ver o que tem nela, no mistério dos sinais –
Que meu coração se aquiete, que eu explore estes sinais –
É só o vento e nada mais!”

Tendo aberto já a vidraça, turbulento me esvoaça
E entra ali um nobre corvo de eras santas e ancestrais;
Cumprimentos não prestou, nem um minuto ali ficou:
Com ar de lorde ou lady voou até pousar nos meus umbrais –
Sobre um busto, no de Palas, logo acima dos umbrais –
Lá pousou e nada mais.

A ave de ébano deteve meu pesar num riso leve
Com o decoro grave e austero de seus ares tão formais.
“Sem penacho volumoso, mesmo assim não és medroso,
Corvo ancião e pavoroso vindo lá do escuro cais –
Diz qual é teu nome lá nas trevas do plutôneo cais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

Admirei que a ave rara discursasse assim tão clara,
Salvo a pouca relevância das palavras, bem banais;
Mas que seja mencionado: não há humano agraciado
Que antes tenha contemplado alguma ave em seus umbrais –
Ave ou besta no esculpido busto sobre seus umbrais –
Com tal nome, Nuncamais.

Mas o corvo, solitário, não variou o vocabulário,
Como se sua própria alma derramasse em termos tais.
Nada mais ele falou, nem uma pena farfalhou;
Mas minha alma murmurou: “Perdi amigos tempo atrás –
De manhã me deixará como a esperança um tempo atrás”.
E a ave disse: “Nunca mais”.

Pasmo com a mudez quebrada na resposta assim falada,
“Certo”, eu disse, “o que profere são só falas usuais
Que pegou de um mestre aflito, por desastre desmedido
E imparável perseguido até um refrão marcado em ais –
‘Té canções sem esperança, melancólicas com ais
De ‘nunca – nunca mais’”.

A ave ainda assim deteve meu pesar num riso leve:
Ajustei minha poltrona frente ao corvo, busto e umbrais.
No veludo então sentando me peguei associando
Devaneios e pensando na ave de eras ancestrais –
No motivo da ominosa, horrenda ave de ancestrais
Crocitar seu “Nunca mais”.

Isso eu quis adivinhar, sem uma sílaba expressar
À ave de olhos que queimavam meus alentos mais fulcrais;
Estive assim ensimesmado com o crânio reclinado
No recosto aveludado sob a luz dos castiçais,
No veludo violeta sob a luz dos castiçais –
Leito dela ah, nunca mais!

O ar então ficou mais denso, num perfume como incenso
Solto pelos serafins com suas passadas musicais.
“Infeliz,” gritei, “Deus deu-te – pelos anjos concedeu-te
Trégua – trégua e o nepente pras memórias de Lenais;
Bebe, bebe o bom nepente e esquece a perda de Lenais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo! –
Pelo Tentador trazido ou pelos rudes temporais;
Desolado mas ousado neste deserto encantado –
Lar de horrores, assombrado – imploro: franco, fala mais –
Há bálsamo em Gileade? – diz, imploro, fala mais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo!
Pelo Deus que nós louvamos – pelos arcos celestiais –
Assegura essa alma insossa caso lá no Éden possa
Abraçar a santa moça que anjos chamam de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais”.
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Tal resposta nos desuna, ave ou diabo!”, grito, em suma –
“Vai de volta à tempestade e às trevas do plutôneo cais!
Que nenhuma pluma ateste tais mentiras que disseste!
Vai, que a solidão me reste! – sai do busto nos umbrais!
Tira o bico da minha alma e tua figura dos umbrais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

E esse corvo está parado, lá sentado, lá sentado,
No alvo busto, no de Palas, logo sobre meus umbrais;
Com seus olhos figurando os de um demônio assim sonhando
Sob a luz que, tremulando, lança sombras sepulcrais;
E minha alma dessas sombras que flutuam sepulcrais
Há de erguer-se – nunca mais!

(tradução de Bruno Palavro)

§

 

O CORVO

Numa noite assim tão prava, quando, fraco, a mim cansava
Cum tratado mui singelo dum folclore além do inglês
Quando, ao ir e vir, na noite, veio aqui do nada o açoite
Feito alguém que em meu pernoite bate à porta e sem rudez
“É visita”, falei baixo, “cá na porta e sem rudez
É visita e sem porquês”

Ah, e assim a mim consterno vendo estou no pleno inverno
Toda vã poeira morta finca o pé em mim qual fez
Tal querer que enfim viesse tal manhã, e a sua messe
Qual nos livros eu fizesse meu reduto dessa Inês
Pois a rara e lhana moça dita pelo céu Inês.
Tem que nome aqui, que vez?

E esse lento, e triste, e incerto, negro desse véu aberto
Pelo vento que a mim toma qual de mim ninguém o fez
Tal que, a seu calor manter-me, faço atrito à velha derme
“É visita que a mim quer-me vir pra dentro e sem rudez
Vem-me tarde como os vermes vêm à porta e sem rudez
É não mais e sem porquês”

Pois então cresci mais firme, como a moça fosse vir-me
“Moça ou moço, eu peço logo, por favor, conte até três
Pois você na meia-noite foi não mais que aquele açoite
Foi não mais que o seu açoite no meu sono e sem rudez
Que eu, inferno, achei ouvi-la”, te abro a porta, e com rudez
Só o escuro teve vez

E há, com tal dama-da-noite, quem não ceda ou, bem, se afoite
Nesse sonho tão confuso que ninguém jamais o fez?
Meu silêncio não tocado, sem indícios de um passado
Que esse verbo mal chorado, tão sozinho, o nome “Inês?”
Que eu chorei, e o tal vazio deu de volta assim “Inês!”
Só teu nome teve vez

Já no quarto, revirou-se minha mente e assim pensou-se
Quando ouvi sem mais demora, o mais sonoro que se fez
“Deve ser”, me disse, “deve, coisa à qual, pois, vejo breve
Na janela a quem se atreve, tal mistério, aqui nos eis
Deixa o peito dar mornada , pra, ao mistério, aqui nos eis
Só o vento vai ter vez!”

Cá aberto dou pra trás, quando, sem porquês ou mas
Lá pairava então um Corvo de idos dias, anos, mês
Sem fazer nenhuma sala, nada o para ou mesmo abala
Com tal ar de quem tem ala, vem pra dentro e sem rudez
Olha pela imagem Dela, sobre a porta e “sem” rudez
Olha e senta e sem porquês.

E a ave sem mais cor ficou-se; cada ruga, então, bem foi-se,
Ri-me dessa compostura, tal decoro em tão chã tez
“Mesmo sem a pena, o pejo, tu bem foste qual almejo
Corvo velho a que ora alvejo: diz a estirpe e sem mudez
Vens da noite, é claro, diz-me, pois, o nome e sem mudez”
Disse o Corvo “Foi-se a vez”

Tanto pasmo então me veio, vendo um bicho achando um meio
De uma fala e sem enleio, mesmo à guisa de um burguês
Como? Sem sentido. Pôs-se, nisso, creio, concordou-se
Pois é raro (ou só mostrou-se) gente com ou sem rudez,
C’ave ou besta sobre a porta, com ou sem maior rudez,
Cum tal nome: “Foi-se a vez”

Mas o Corvo, só, sentando, nessa queda imagem quando
Tais palavras repetia qual se a mente ali talvez
Fosse pôr, não mais falava, não sem pena ou não mostrava,
Nada disso a mente brava “outros meus se foram, vês?
Vindo o dia, irás partir-te, qual m’a fé partiu, não vês?”
E ele disse “Foi-se a vez”

Perco o tino, a calma morta por resposta tal que importa
Nessa fala “com certeza só responde uns bê-a-bês
Ditos sem mais dó ou penas por um dono seu apenas
Nada menos, nada amenas, dá seu fardo em tal gaguez
Duma Fé a tal Desgraça, dá seu fardo em tal gaguez:
Foi-foi-foi-foi-foi-se a vez?”

Mas co Corvo a facha foi-se, cada ruga em mim passou-se,
Hirto vou pra frente à ave, e porta, e foto, e sem rudez
Já no tão tenro veludo, penso e penso sobre tudo
Que esse bicho de ar sisudo diz há dia ou ano ou mês
Diz terrível, vil, cruento, diz há dia ou ano ou mês
Diz em grasno “Foi-se a vez”.

Em pensar, sem ver se foi, se, lá no Corvo, algo ficou-se
Qual ficou por cá no peito, nesse Corvo tão soez
Isso e mais em mim passou-se, sem mais fé, corpo froxou-se
Pois no tal veludo doce, que essa luz tocou cortês
Nesse tal veludo doce que essa luz tocou cortês
Ela ali, bem, foi-se a vez

Pois bem vi meu ar mais denso qual queimasse eu nele incenso
Qual piano os céus me deitam cada pé, e eu só “vocês,
Anjos por Deus cá mandados para dar-me a tais bocados,
Pra dar folga dos passados, tais lembranças dessa Inês
Folga, esquece, e sente alívio, dá remédio à minha Inês”
Diz o Corvo “foi-se a vez”

“Mau agouro, bicho ou sanha, desse agouro que abocanha
Seja o fim do meu mormaço, seja o próprio seis seis seis
Sem ninguém, mas com fantasmas, terras vis, cê, vê, refaz-mas
Nessa casa o Horror das asmas – diga logo e sem surdez
Há no mundo algum remédio – diga logo e sem surdez
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

“Mau agouro, bicho ou sanha, desse agouro que abocanha
Pelos céus que nós fitamos, pelo Deus no qual bem crês
Pr’essa vida tão sentida, dantes da maçã comida
Tem retorno, ou mais saída, tem de volta a moça Inês?
Tem a rara e lhana moça dita pelo céu Inês”
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

“Que esse dito seja o açoite para o bicho ou sanha, foi-te?
Vai de volta para a Noite negra como a tua tez
Vai sem pena, a tal mentira que contaste não revira!
Meu silêncio sem mais ira dá de volta sem rudez
Meu vazio peito sem ira dá de volta sem rudez”
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

E esse Corvo não nos foi-se, fica ali qual pronta foice
Sobre a imagem de quem foi-se por tal porta sem rudez
Cum olhar tão como a Noite, desse inferno que ninou-te
E essa luz que a ti tocou-te faz-lhe u’a sombra não cortês
E essa mente pela sombra paira sem mais ar cortês
Vai ser livre? “Foi-se a vez”

(tradução de Wilton Bastos)

 

§

O ESTORVO

Certa vez, de madrugada, com a cabeça debruçada
Sobre uma apostila usada, dessas que ninguém lê mais —
Bocejando, já caduco, de repente um vuco-vuco
Escutei, como um maluco que batesse à minha porta.
“É um maluco… Quem se importa? Isso é o que a bebida faz:
Está bebo. Nadimais.”

Desse lance eu bem me lembro: era um porre de um dezembro,
E das velas, num vaivém, brotavam chamas viscerais.
Eu ansiava pelo dia e cada folha em vão treslia,
Besta que era, a ver se ali a dor calmava ou ia embora —
Dor da falta de Leonora, que partiu tempos atrás
E não voltou nunca mais.

E o balanço lento e chocho da cortina em tons de roxo
Infundia-me uns tremores que ninguém sentira iguais;
Pra que eu não tivesse um infarto, bem baixinho no meu quarto
Repetia-me “Estou farto: é só um maluco sem relógio
A rezar pra que eu aloje-o. Vou mostrar como se faz,
Que o safado não vem mais.”

Me senti viril pra burro; prenunciando um belo murro,
“Cara”, eu disse, “Ou dona, escuta… Eu nem sei o que te traz;
Tava quieto, e essa batida me deixou tão p. da vida
Que eu não vou te dar guarida. ‘Té tentei deixar passar,
Mas não dá pra te aguentar” — E eis que a porta abri, voraz;
Era a noite; nadimais.

Retornando ao meu quartinho, novamente o burburinho
Que me fez tremer na base — dessa vez bem mais tenaz.
“Eita nós”, gritei, “Cautela… Foi de fora da janela…
Vamos ver o que tem nela, e acabar com esse tormento —
Com certeza é só o vento… Saberemos num zás-trás
Que é só vento… Nadimais…”

Destranquei-a, abri o batente, e num revés, tão de repente,
Veio o vento, e uma esquisita Mariposa veio atrás.
Ignorou-me por completo, e, como um vulto irrequieto,
Voou até pousar no teto, chacoalhando a negra saia
Sobre um pôster do Tim Maia, na parede lá de trás;
Foi, pousou e nada mais.

A bichinha velha e escura me fez rir da minha agrura
Pelas pompas que vestia, pelo jeito perspicaz;
“Apesar da asa rasgada”, puxei papo com ela, “nada
Transparece de espantada, entrando assim, e assim enorme.
Qual teu nome? Pois me informe, se é que um nome você traz.”
E ela disse: “Tanto faz.”

Não pensava que esse verme fosse mesmo responder-me.
Se o que disse fez sentido, pouco importa, pois, rapaz,
Combinemos uma coisa: cê já viu uma mariposa
Que entra no teu quarto e inda ousa conversar de igual contigo?
Eu duvido, meu amigo: não existem animais
Que se chamam “Tanto Faz”…

Mas a mariposa queda sobre o Tim que se empareda
Parecia desdobrada nessas sílabas fatais.
Nem tentou falar mais nada, nem saiu em revoada,
‘Té que, em voz bem moderada, resmunguei: “O dia avança;
Como os bondes e a esperança que eu perdi, também te vais”
E ela disse: “Tanto faz.”

Matutando em que rolava sem dizer uma palavra
Para os aurinegros olhos que me ardiam mais e mais,
Reclinei-me no banquinho e, contemplando o negro linho,
Me esqueci de estar sozinho: “Lê, meu bem, pega a vassoura.”
Foi então que vi: Leonora me deixou pra nunca mais…
“Ai, que falta ela me faz…”

O climão ficou tamanho, mas do nada um cheiro estranho
Inundou meus aposentos como um banho de erva e sais.
“Céus”, chorei, “que doce esmola ao desespero que me assola!
Sente, sente essa marola — esquece a outra de uma vez;
Há no mundo tantas Lês — esquece! Esquece! Engole os ais!”
De repente: “Tanto faz.”

“Coisa ruim de borboleta”, eu disse, “cria do capeta,
Se o calor é o que te trouxe, ou se foi mesmo Satanás —
Temerosa, mas arauto — nesta rua sem asfalto,
Neste quarto — na moral, tô de joelhos, me responde:
Onde é o fim do túnel? Onde? Me responde, e um bem me faz!”
Mariposa: “Tanto faz.”

“Coisa ruim de borboleta, serva ou cria do capeta,
Pelo teto que nos cobre, pelo amor de nossos pais —
Tira o peso do meu peito e diz pra mim se ainda há jeito:
Quando enfim reencontrarei todo esse amor que hoje me fere,
Que tem nome de mulher e que partiu pra nunca mais?”
Mariposa: “Tanto faz.”

“Quer saber? Tu que se dane, ô coisa ruim!” Lancei-me, inane —
“Vai pro inferno que é tua casa dar um beijo em Satanás!”
Pra expiar de vez minha alma, dei um pulo e, abrindo a palma,
Soquei-a — não menos calma — sobre o pôster do Tim Maia,
E na boca do Tim Maia seus fluídos corporais
Escreveram “Tanto faz”.

E o que foi a mariposa agora pousa, agora pousa
Sobre a boca do Tim Maia na parede lá de trás;
E o seu olho ardendo aceso com irônico desprezo
Sob a luz projeta o peso de um silêncio no recinto;
E esse peso que ora sinto me enche de uma estranha paz,
Ou remorso, tanto faz…

(tradução de Pedro Mohallem)

Padrão
tradução

Anne Sexton, por Beatriz Regina Guimarães Barboza

Stage-Anne-Sexton-03102016

ALGUNS POEMAS DOS ÚLTIMOS ANOS DE ANNE SEXTON

Nos últimos poemas do livro The Awful Rowing Toward God (1975), último livro que Anne Sexton (1928-1974) chegou a revisar antes de seu suicídio — embora tenha deixado outros textos para posterior compilação — o poema “Mothers” chama a atenção pelo diálogo que ele possui com textos em outros livros seus. Trabalha-se com esses textos pois que a fase final da obra de Sexton não recebe a mesma atenção que seus primeiros livros, mas ela apresenta uma riqueza simbólica tão vasta quanto, e, em especial, nos temas que são caros a ela e atravessam sua poesia.

É recorrente uma continuidade temática em sua obra, especialmente por sua inscrição na poesia confessionalista estadunidense, em que elementos supostamente biográficos se confundiam com elaborações fictícias. Assim, podemos falar de uma persona poética de Sexton em seus poemas, e, nesta performance de si, a relação entre mãe e filha é um assunto frequente, presente desde seu primeiro livro, To Bedlam and Part Way Back (1960), em “The Double Image”. Conforme a biografia de Anne Sexton por Diane Middlebrook, quando ela fazia leituras públicas desse poema, que relata a relação entre três gerações (a filha da persona poética, ela mesma e sua mãe), ela costumava dizer: “o grande tema não é o de Romeu e Julieta. O grande tema de que todos nós compartilhamos é o tornar-se quem se é, de superarmos nosso pai e nossa mãe, de assumirmos nossa identidade de alguma forma” (tradução minha).

Assim, retomam-se aqui particularmente dois poemas de The Book of Folly (1972), “Dreaming the Breasts” e “The Author of the Jesus Papers Speaks”, desenvolvendo esse tema familiar, com uma reverberação imagética que parece ter no texto de 1974 e publicado em 1975. O segundo poema, em particular, não fala da relação maternal explicitamente, mas a referência ao leite e à alimentação estabelecem outra interpretação para os outros textos. Escritos em verso livre, procura-se pela tradução recriar seu ritmo e jogos sonoros internos, ainda que alterando levemente o sentido das frases, para que o efeito poético não se perca. Considerando o ritmo, busca-se manter a mesma quantidade de sílabas fortes dentro de cada verso, ainda que a tradução resulte maior, para tentar conciliar a menor extensão das palavras em inglês com relação às suas possíveis traduções ao português e, assim, preservar o conteúdo do poema na medida do possível.

Beatriz Regina Guimarães Barboza

***

DREAMING THE BREASTS

Mother, 
strange goddess face 
above my milk home, 
that delicate asylum, 
I ate you up. 
All my need took 
you down like a meal. 

What you gave 
I remember in a dream: 
the freckled arms binding me, 
the laugh somewhere over my woolly hat, 
the blood fingers tying my shoe, 
the breasts hanging like two bats 
and then darting at me, 
bending me down. 

The breasts I knew at midnight 
beat like the sea in me now. 
Mother, I put bees in my mouth 
to keep from eating 
yet it did no good. 
In the end they cut off your breasts 
and milk poured from them 
into the surgeon’s hand 
and he embraced them. 
I took them from him 
and planted them. 

I have put a padlock 
on you, Mother, dear dead human, 
so that your great bells, 
those dear white ponies, 
can go galloping, galloping, 
wherever you are.

SONHANDO OS SEIOS

Mãe,
estranha face divina
sobre meu lar leitoso,
aquele delicado asilo,
te comi toda.
Toda minha falta te
engoliu como um prato.

O que você ofertou
eu lembro em um sonho:
os braços sardentos me enlaçando,
o riso n’algum lugar sobre meu chapéu de lã,
os dedos de sangue atando meu sapato,
os seios pendurados como dois tacos
e então me atingindo assim,
me curvando.

Os seios que eu soube à meia-noite
soam como o mar em mim agora.
Mãe, ponho abelhas em minha boca
para me impedir a comida
mas isso de nada adiantou.
No fim cortaram fora seus seios
e o leite derramou deles
nas mãos do cirurgião
e ele os abraçou.
Eu os tomei dele
e plantei-os.

Coloquei um cadeado
em você, Mãe, querida humana morta,
para que seus grandes sinos,
aqueles queridos pôneis brancos,
sigam galopando, galopando,
onde quer que você esteja.

§

 

THE AUTHOR OF THE JESUS PAPERS SPEAKS

In my dream 
I milked a cow, 
the terrible udder 
like a great rubber lily 
sweated in my fingers 
and as I yanked, 
waiting for the moon juice, 
waiting for the white mother, 
blood spurted from it 
and covered me with shame. 
Then God spoke to me and said: 
People say only good things about Christmas. 
If they want to say something bad, 
they whisper. 
So I went to the well and drew a baby 
out of the hollow water. 
Then God spoke to me and said: 
Here. Take this gingerbread lady 
and put her in your oven. 
When the cow gives blood 
and the Christ is born 
we must all eat sacrifices. 
We must all eat beautiful women.

A AUTORA DOS PAPÉIS DE JESUS SE PRONUNCIA

Em meu sonho,
ordenhei uma vaca,
a terrível teta
grande lírio de látex
suando em meus dedos
e com meu puxão,
esperando pelo suco lunar,
esperando pela pálida mãe,
sangue jorrou dela
e me cobriu com vergonha.
Então Deus falou comigo e disse:
As pessoas só dizem boas coisas do Natal.
Se querem dizer algo ruim,
elas sussurram.
Então eu fui ao poço e trouxe um bebê
lá do fundo da água.
Então Deus falou comigo e disse:
Aqui. Tome esta moça de pão de mel
e ponha-a em seu forno.
Quando a vaca dá sangue
e o Cristo nasce
nós temos que comer sacrifícios.
Nós temos que comer belas mulheres.

§

MOTHERS
for J. B.

Oh mother,
here in your lap,
as good as a bowlful of clouds,
I your greedy child
am given your breast,
the sea wrapped in skin,
and your arms,
roots covered with moss
and with new shoots sticking out
to tickle the laugh out of me.
Yes, I am wedded to my teddy
but he has the smell of you 
as well as the smell of me.
Your necklace that I finger
is all angel eyes.
Your rings that sparkle
are like the moon on the pond.
Your legs bounce me up and down,
your dear nylon-covered legs,
are the horses I will ride
into eternity.

Oh mother,
after this lap of childhood
I will never go forth
into the big people’s world
as an alien,
a fabrication,
or falter
when someone else
is empty as a shoe.

MÃES
para J. B.

Oh mãe,
aqui no seu colo,
tão bom quanto uma cuia de nuvens,
eu, sua criança gananciosa,
recebo seu seio,
o mar embalado em pele,
e seus braços,
raízes cobertas de musgo
e com novos brotos surgindo
tirando-me risos com cócegas.
Sim, estou noiva de meu ursinho
mas ele tem o mesmo cheiro seu
assim como o cheiro meu.
Pego nos dedos seu colar
que é todo olhos de anjo.
Seus anéis que cintilam
são como a lua na lagoa.
Suas pernas me balançam pra cima e pra baixo,
suas queridas pernas cobertas de nylon,
são os cavalos em que montarei
à eternidade.

Oh mãe,
depois deste colo da infância
nunca mais poderei sair
ao mundo das pessoas grandes
como uma estranha,
algo inventado,
ou vacilação
quando outro alguém
está tão vazio como um sapato.

§

Beatriz Regina Guimarães Barboza é aluna de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução na Universidade Federal de Santa Catarina, tendo como projeto de pesquisa a tradução comentada do livro “The Awful Rowing Toward God” de Anne Sexton (1975). Graduou-se em Estudos Literários na Universidade Estadual de Campinas, concluindo o curso com uma monografia de tradução comentada do livreto “The Book of Repulsive Women” (1915) de Djuna Barnes. Faz parte do Grupo de Estudos Feministas na Literatura e na Tradução (GEFLiT) na Universidade Federal de Santa Catarina e busca tanto traduzir quanto escrever resenhas sobre os últimas publicações na interseção entre os estudos de tradução e os estudos de gênero. Além disso, também escreve poesia (“Quartos Esvaziados”, 2015, ed. Urutau) e contos.

***

Padrão