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3 traduções pro ‘The Raven’ do Poe

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Mesmo que Edgar Allan Poe de fato seja, ao menos para um leitor de língua portuguesa, mais contista do que poeta, ainda assim é difícil que seu corvo não tenha alguma vez esvoaçado para dentro dos aposentos de leitores mais entusiastas e encontrado ali um local no mínimo propício à influência de seus feitiços. E nem me refiro especificamente ao poema original: seja em tradução, todo o lirismo exaltado desse romantismo tenebroso que flerta com o fantástico ainda é motivo de atração comum. Se não isso, ao menos a peculiaridade formal do poema é reconhecida pelos menos afetados. Um pouco além, existe ainda a questão das inúmeras referências ao poema na cultura popular: na literatura, por exemplo, com Neil Gaiman (American Gods, Sandman), Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler, em A Series of Unfortunate Events, The Vile Village), Stephen King (Insomnia); no cinema, em The Crow (1994), Batman (1989, de Tim Burton), numa breve citação pelo Coringa de Jack Nicholson (“take thy beak from out my heart!”); na televisão, com a série The Following (2013-2015), ou a paródia em The Simpsons; na música, com Lou Reed e seu álbum The Raven; etc. etc. O poema ainda é rentável para estampas de camisetas e canecas, e não me surpreenderia se “the raven” estivesse no cardápio de alguma hamburgueria temática. Seja dito que sim, Poe é pop, e seu corvo não menos. Das variadas traduções para o português, duas são as mais conhecidas: a de Machado de Assis e a de Fernando Pessoa. A primeira apresenta uma composição que não segue a estrutura original: os versos são quebrados e dispostos de maneira nova, variando entre oito, dez e doze sílabas, com ritmo diverso e rimas reorganizadas (esquema AABBCCDEDE). Essa bela tradução de Machado de Assis seria fruto indireto da versão francesa de Baudelaire. Fernando Pessoa, por sua vez, apresenta uma tradução com o mesmo número de versos e estrofes do poema original, e parece ainda ter a intenção de preservar os componentes rítmicos. Também na disposição das rimas se mantém fiel – ou seja, incluídas as rimas internas, reproduz o esquema AA, B, CC, CB, B, B. Um pouco à parte, é interessante notar que enquanto Machado de Assis traduz Lenore por “Lenora”, a versão de Pessoa em nenhum momento dá nome à amada perdida, já que se presta a preservar o padrão do esquema com suas rimas em ais (isso, obviamente, considerando que “nunca mais” fosse a única solução cabível para nevermore em sua proposta de tradução). Finalmente, no que refere à minha própria tradução, admito que se trata de um quase servilismo velado no encanto, ou vice-versa. De todo modo, minha proposta se assemelha à de Pessoa: tentei reproduzir também a forma do original, atentando não somente para a disposição das rimas (o esquema foi mencionado acima) como também para a estrutura rítmica dos versos (com o perdão do pedantismo, octâmetros acataléticos, heptâmetros cataléticos e tetrâmetros cataléticos combinados em ritmo trocaico, ou seja, sílaba forte seguida de fraca – tudo isso como bem especifica o próprio Poe em sua Filosofia da composição). Acresce a preocupação em preservar, pela proximidade de efeitos, imagens e referentes que não necessariamente se dão da mesma forma na versão de Pessoa, assim como ritmo e dicção mais fluentes. A ideia geral é suscitar no leitor uma sensação mais próxima ao feitiço original. Algumas questiúnculas para finalizar: não me preocupei com a oscilação na cesura de uns poucos versos, resultante de um heptâmetro catalético traduzido no lugar de um octâmetro acatalético. A segunda estrofe é um exemplo disso, com as rimas em -er. Também nas duas primeiras estrofes chamo atenção para as rimas praticamente iguais às da tradução de Milton Amado – recomendo-a, inclusive, como a minha preferida –, o que vai acabar num verso inteiro emprestado (“nome aqui já não tem mais”). Talvez tenha sido o martelar da versão de Milton em minha cabeça que me levou a entender isso como melhor solução para minha proposta. Por fim dos fins, convencido da significância de rimar Lenore com nevermore, optei por traduzir o nome da amada como nada menos que “Lenais”. Estou certo de que a ideia não é minha, mas totalmente incerto de sua fonte. As pesquisas me direcionam a uma tradução de Odair Cerazzo Jr., que me era de todo desconhecida até pouco tempo.

bruno palavro

* * *

 

ante-scriptum: como o poema é longo (e famoso) e 3 traduções + o original dariam muito trabalho pra barra de rolagem dos vossos computadores, quem quiser conferir o original clique aqui. passemos direto às traduções. ah, pra quem perdeu e quiser conferir a tradução-exu feita por guilherme gontijo flores e rodrigo gonçalves, clique aqui.

* * *

 

O CORVO

Era noite alta e sombria, fraco e farto eu refletia
Sobre muitos e curiosos esquecidos manuais.
Cabeceando, adormecido, escuto um súbito ruído
Como algum gentil batido, um batido em meus umbrais.
“É visita”, murmurei, “que está batendo em meus umbrais:
É só isso e nada mais”.

Ah, distintamente lembro, foi no gélido dezembro,
Cada flama já morrendo criava sombras fantasmais.
Desejava o amanhecer – tentara em vão nos livros ter
Um amparo e não sofrer, sofrer com a perda de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais –
Nome aqui já não tem mais.

E o sedoso, triste, incerto rubro véu soando perto
Me abalava com fantásticos terrores sem iguais;
Já meu peito reprimindo fui tão logo repetindo:
“É visita me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
Vem tardia, me pedindo entrada aqui nos meus umbrais –
É só isso e nada mais”.

Forte a alma num instante, e eu então não hesitante,
“Senhor”, disse, “ou madame, penso se me perdoais;
Estava quase adormecido e tão gentil foi o ruído,
Foi tão débil o batido que batia em meus umbrais,
Que mal pude vos ouvir…” – então abri os meus umbrais –
Só o escuro e nada mais.

Fundo as trevas espreitando, lá fiquei desconfiando,
Dúbio em sonhos que mortal nenhum ousou sonhar jamais;
O silêncio era infinito – no sossego incompreendido
Só um vocábulo foi dito, um sussurro assim: “Lenais?”
Isso eu disse, e algum eco murmurou assim: “Lenais!” –
Isso apenas, nada mais.

Ao meu quarto regressando, toda a alma em mim queimando,
Novamente eu ouço tapas ressoarem inda mais.
“Certo”, eu disse, “essa mazela é qualquer coisa na janela;
Resta ver o que tem nela, no mistério dos sinais –
Que meu coração se aquiete, que eu explore estes sinais –
É só o vento e nada mais!”

Tendo aberto já a vidraça, turbulento me esvoaça
E entra ali um nobre corvo de eras santas e ancestrais;
Cumprimentos não prestou, nem um minuto ali ficou:
Com ar de lorde ou lady voou até pousar nos meus umbrais –
Sobre um busto, no de Palas, logo acima dos umbrais –
Lá pousou e nada mais.

A ave de ébano deteve meu pesar num riso leve
Com o decoro grave e austero de seus ares tão formais.
“Sem penacho volumoso, mesmo assim não és medroso,
Corvo ancião e pavoroso vindo lá do escuro cais –
Diz qual é teu nome lá nas trevas do plutôneo cais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

Admirei que a ave rara discursasse assim tão clara,
Salvo a pouca relevância das palavras, bem banais;
Mas que seja mencionado: não há humano agraciado
Que antes tenha contemplado alguma ave em seus umbrais –
Ave ou besta no esculpido busto sobre seus umbrais –
Com tal nome, Nuncamais.

Mas o corvo, solitário, não variou o vocabulário,
Como se sua própria alma derramasse em termos tais.
Nada mais ele falou, nem uma pena farfalhou;
Mas minha alma murmurou: “Perdi amigos tempo atrás –
De manhã me deixará como a esperança um tempo atrás”.
E a ave disse: “Nunca mais”.

Pasmo com a mudez quebrada na resposta assim falada,
“Certo”, eu disse, “o que profere são só falas usuais
Que pegou de um mestre aflito, por desastre desmedido
E imparável perseguido até um refrão marcado em ais –
‘Té canções sem esperança, melancólicas com ais
De ‘nunca – nunca mais’”.

A ave ainda assim deteve meu pesar num riso leve:
Ajustei minha poltrona frente ao corvo, busto e umbrais.
No veludo então sentando me peguei associando
Devaneios e pensando na ave de eras ancestrais –
No motivo da ominosa, horrenda ave de ancestrais
Crocitar seu “Nunca mais”.

Isso eu quis adivinhar, sem uma sílaba expressar
À ave de olhos que queimavam meus alentos mais fulcrais;
Estive assim ensimesmado com o crânio reclinado
No recosto aveludado sob a luz dos castiçais,
No veludo violeta sob a luz dos castiçais –
Leito dela ah, nunca mais!

O ar então ficou mais denso, num perfume como incenso
Solto pelos serafins com suas passadas musicais.
“Infeliz,” gritei, “Deus deu-te – pelos anjos concedeu-te
Trégua – trégua e o nepente pras memórias de Lenais;
Bebe, bebe o bom nepente e esquece a perda de Lenais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo! –
Pelo Tentador trazido ou pelos rudes temporais;
Desolado mas ousado neste deserto encantado –
Lar de horrores, assombrado – imploro: franco, fala mais –
Há bálsamo em Gileade? – diz, imploro, fala mais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Ó profeta, ser malvado – és profeta, se ave ou diabo!
Pelo Deus que nós louvamos – pelos arcos celestiais –
Assegura essa alma insossa caso lá no Éden possa
Abraçar a santa moça que anjos chamam de Lenais –
A radiante e rara moça que anjos chamam de Lenais”.
Disse o corvo: “Nunca mais”.

“Tal resposta nos desuna, ave ou diabo!”, grito, em suma –
“Vai de volta à tempestade e às trevas do plutôneo cais!
Que nenhuma pluma ateste tais mentiras que disseste!
Vai, que a solidão me reste! – sai do busto nos umbrais!
Tira o bico da minha alma e tua figura dos umbrais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

E esse corvo está parado, lá sentado, lá sentado,
No alvo busto, no de Palas, logo sobre meus umbrais;
Com seus olhos figurando os de um demônio assim sonhando
Sob a luz que, tremulando, lança sombras sepulcrais;
E minha alma dessas sombras que flutuam sepulcrais
Há de erguer-se – nunca mais!

(tradução de Bruno Palavro)

§

 

O CORVO

Numa noite assim tão prava, quando, fraco, a mim cansava
Cum tratado mui singelo dum folclore além do inglês
Quando, ao ir e vir, na noite, veio aqui do nada o açoite
Feito alguém que em meu pernoite bate à porta e sem rudez
“É visita”, falei baixo, “cá na porta e sem rudez
É visita e sem porquês”

Ah, e assim a mim consterno vendo estou no pleno inverno
Toda vã poeira morta finca o pé em mim qual fez
Tal querer que enfim viesse tal manhã, e a sua messe
Qual nos livros eu fizesse meu reduto dessa Inês
Pois a rara e lhana moça dita pelo céu Inês.
Tem que nome aqui, que vez?

E esse lento, e triste, e incerto, negro desse véu aberto
Pelo vento que a mim toma qual de mim ninguém o fez
Tal que, a seu calor manter-me, faço atrito à velha derme
“É visita que a mim quer-me vir pra dentro e sem rudez
Vem-me tarde como os vermes vêm à porta e sem rudez
É não mais e sem porquês”

Pois então cresci mais firme, como a moça fosse vir-me
“Moça ou moço, eu peço logo, por favor, conte até três
Pois você na meia-noite foi não mais que aquele açoite
Foi não mais que o seu açoite no meu sono e sem rudez
Que eu, inferno, achei ouvi-la”, te abro a porta, e com rudez
Só o escuro teve vez

E há, com tal dama-da-noite, quem não ceda ou, bem, se afoite
Nesse sonho tão confuso que ninguém jamais o fez?
Meu silêncio não tocado, sem indícios de um passado
Que esse verbo mal chorado, tão sozinho, o nome “Inês?”
Que eu chorei, e o tal vazio deu de volta assim “Inês!”
Só teu nome teve vez

Já no quarto, revirou-se minha mente e assim pensou-se
Quando ouvi sem mais demora, o mais sonoro que se fez
“Deve ser”, me disse, “deve, coisa à qual, pois, vejo breve
Na janela a quem se atreve, tal mistério, aqui nos eis
Deixa o peito dar mornada , pra, ao mistério, aqui nos eis
Só o vento vai ter vez!”

Cá aberto dou pra trás, quando, sem porquês ou mas
Lá pairava então um Corvo de idos dias, anos, mês
Sem fazer nenhuma sala, nada o para ou mesmo abala
Com tal ar de quem tem ala, vem pra dentro e sem rudez
Olha pela imagem Dela, sobre a porta e “sem” rudez
Olha e senta e sem porquês.

E a ave sem mais cor ficou-se; cada ruga, então, bem foi-se,
Ri-me dessa compostura, tal decoro em tão chã tez
“Mesmo sem a pena, o pejo, tu bem foste qual almejo
Corvo velho a que ora alvejo: diz a estirpe e sem mudez
Vens da noite, é claro, diz-me, pois, o nome e sem mudez”
Disse o Corvo “Foi-se a vez”

Tanto pasmo então me veio, vendo um bicho achando um meio
De uma fala e sem enleio, mesmo à guisa de um burguês
Como? Sem sentido. Pôs-se, nisso, creio, concordou-se
Pois é raro (ou só mostrou-se) gente com ou sem rudez,
C’ave ou besta sobre a porta, com ou sem maior rudez,
Cum tal nome: “Foi-se a vez”

Mas o Corvo, só, sentando, nessa queda imagem quando
Tais palavras repetia qual se a mente ali talvez
Fosse pôr, não mais falava, não sem pena ou não mostrava,
Nada disso a mente brava “outros meus se foram, vês?
Vindo o dia, irás partir-te, qual m’a fé partiu, não vês?”
E ele disse “Foi-se a vez”

Perco o tino, a calma morta por resposta tal que importa
Nessa fala “com certeza só responde uns bê-a-bês
Ditos sem mais dó ou penas por um dono seu apenas
Nada menos, nada amenas, dá seu fardo em tal gaguez
Duma Fé a tal Desgraça, dá seu fardo em tal gaguez:
Foi-foi-foi-foi-foi-se a vez?”

Mas co Corvo a facha foi-se, cada ruga em mim passou-se,
Hirto vou pra frente à ave, e porta, e foto, e sem rudez
Já no tão tenro veludo, penso e penso sobre tudo
Que esse bicho de ar sisudo diz há dia ou ano ou mês
Diz terrível, vil, cruento, diz há dia ou ano ou mês
Diz em grasno “Foi-se a vez”.

Em pensar, sem ver se foi, se, lá no Corvo, algo ficou-se
Qual ficou por cá no peito, nesse Corvo tão soez
Isso e mais em mim passou-se, sem mais fé, corpo froxou-se
Pois no tal veludo doce, que essa luz tocou cortês
Nesse tal veludo doce que essa luz tocou cortês
Ela ali, bem, foi-se a vez

Pois bem vi meu ar mais denso qual queimasse eu nele incenso
Qual piano os céus me deitam cada pé, e eu só “vocês,
Anjos por Deus cá mandados para dar-me a tais bocados,
Pra dar folga dos passados, tais lembranças dessa Inês
Folga, esquece, e sente alívio, dá remédio à minha Inês”
Diz o Corvo “foi-se a vez”

“Mau agouro, bicho ou sanha, desse agouro que abocanha
Seja o fim do meu mormaço, seja o próprio seis seis seis
Sem ninguém, mas com fantasmas, terras vis, cê, vê, refaz-mas
Nessa casa o Horror das asmas – diga logo e sem surdez
Há no mundo algum remédio – diga logo e sem surdez
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

“Mau agouro, bicho ou sanha, desse agouro que abocanha
Pelos céus que nós fitamos, pelo Deus no qual bem crês
Pr’essa vida tão sentida, dantes da maçã comida
Tem retorno, ou mais saída, tem de volta a moça Inês?
Tem a rara e lhana moça dita pelo céu Inês”
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

“Que esse dito seja o açoite para o bicho ou sanha, foi-te?
Vai de volta para a Noite negra como a tua tez
Vai sem pena, a tal mentira que contaste não revira!
Meu silêncio sem mais ira dá de volta sem rudez
Meu vazio peito sem ira dá de volta sem rudez”
Diz-me o Corvo “foi-se a vez”

E esse Corvo não nos foi-se, fica ali qual pronta foice
Sobre a imagem de quem foi-se por tal porta sem rudez
Cum olhar tão como a Noite, desse inferno que ninou-te
E essa luz que a ti tocou-te faz-lhe u’a sombra não cortês
E essa mente pela sombra paira sem mais ar cortês
Vai ser livre? “Foi-se a vez”

(tradução de Wilton Bastos)

 

§

O ESTORVO

Certa vez, de madrugada, com a cabeça debruçada
Sobre uma apostila usada, dessas que ninguém lê mais —
Bocejando, já caduco, de repente um vuco-vuco
Escutei, como um maluco que batesse à minha porta.
“É um maluco… Quem se importa? Isso é o que a bebida faz:
Está bebo. Nadimais.”

Desse lance eu bem me lembro: era um porre de um dezembro,
E das velas, num vaivém, brotavam chamas viscerais.
Eu ansiava pelo dia e cada folha em vão treslia,
Besta que era, a ver se ali a dor calmava ou ia embora —
Dor da falta de Leonora, que partiu tempos atrás
E não voltou nunca mais.

E o balanço lento e chocho da cortina em tons de roxo
Infundia-me uns tremores que ninguém sentira iguais;
Pra que eu não tivesse um infarto, bem baixinho no meu quarto
Repetia-me “Estou farto: é só um maluco sem relógio
A rezar pra que eu aloje-o. Vou mostrar como se faz,
Que o safado não vem mais.”

Me senti viril pra burro; prenunciando um belo murro,
“Cara”, eu disse, “Ou dona, escuta… Eu nem sei o que te traz;
Tava quieto, e essa batida me deixou tão p. da vida
Que eu não vou te dar guarida. ‘Té tentei deixar passar,
Mas não dá pra te aguentar” — E eis que a porta abri, voraz;
Era a noite; nadimais.

Retornando ao meu quartinho, novamente o burburinho
Que me fez tremer na base — dessa vez bem mais tenaz.
“Eita nós”, gritei, “Cautela… Foi de fora da janela…
Vamos ver o que tem nela, e acabar com esse tormento —
Com certeza é só o vento… Saberemos num zás-trás
Que é só vento… Nadimais…”

Destranquei-a, abri o batente, e num revés, tão de repente,
Veio o vento, e uma esquisita Mariposa veio atrás.
Ignorou-me por completo, e, como um vulto irrequieto,
Voou até pousar no teto, chacoalhando a negra saia
Sobre um pôster do Tim Maia, na parede lá de trás;
Foi, pousou e nada mais.

A bichinha velha e escura me fez rir da minha agrura
Pelas pompas que vestia, pelo jeito perspicaz;
“Apesar da asa rasgada”, puxei papo com ela, “nada
Transparece de espantada, entrando assim, e assim enorme.
Qual teu nome? Pois me informe, se é que um nome você traz.”
E ela disse: “Tanto faz.”

Não pensava que esse verme fosse mesmo responder-me.
Se o que disse fez sentido, pouco importa, pois, rapaz,
Combinemos uma coisa: cê já viu uma mariposa
Que entra no teu quarto e inda ousa conversar de igual contigo?
Eu duvido, meu amigo: não existem animais
Que se chamam “Tanto Faz”…

Mas a mariposa queda sobre o Tim que se empareda
Parecia desdobrada nessas sílabas fatais.
Nem tentou falar mais nada, nem saiu em revoada,
‘Té que, em voz bem moderada, resmunguei: “O dia avança;
Como os bondes e a esperança que eu perdi, também te vais”
E ela disse: “Tanto faz.”

Matutando em que rolava sem dizer uma palavra
Para os aurinegros olhos que me ardiam mais e mais,
Reclinei-me no banquinho e, contemplando o negro linho,
Me esqueci de estar sozinho: “Lê, meu bem, pega a vassoura.”
Foi então que vi: Leonora me deixou pra nunca mais…
“Ai, que falta ela me faz…”

O climão ficou tamanho, mas do nada um cheiro estranho
Inundou meus aposentos como um banho de erva e sais.
“Céus”, chorei, “que doce esmola ao desespero que me assola!
Sente, sente essa marola — esquece a outra de uma vez;
Há no mundo tantas Lês — esquece! Esquece! Engole os ais!”
De repente: “Tanto faz.”

“Coisa ruim de borboleta”, eu disse, “cria do capeta,
Se o calor é o que te trouxe, ou se foi mesmo Satanás —
Temerosa, mas arauto — nesta rua sem asfalto,
Neste quarto — na moral, tô de joelhos, me responde:
Onde é o fim do túnel? Onde? Me responde, e um bem me faz!”
Mariposa: “Tanto faz.”

“Coisa ruim de borboleta, serva ou cria do capeta,
Pelo teto que nos cobre, pelo amor de nossos pais —
Tira o peso do meu peito e diz pra mim se ainda há jeito:
Quando enfim reencontrarei todo esse amor que hoje me fere,
Que tem nome de mulher e que partiu pra nunca mais?”
Mariposa: “Tanto faz.”

“Quer saber? Tu que se dane, ô coisa ruim!” Lancei-me, inane —
“Vai pro inferno que é tua casa dar um beijo em Satanás!”
Pra expiar de vez minha alma, dei um pulo e, abrindo a palma,
Soquei-a — não menos calma — sobre o pôster do Tim Maia,
E na boca do Tim Maia seus fluídos corporais
Escreveram “Tanto faz”.

E o que foi a mariposa agora pousa, agora pousa
Sobre a boca do Tim Maia na parede lá de trás;
E o seu olho ardendo aceso com irônico desprezo
Sob a luz projeta o peso de um silêncio no recinto;
E esse peso que ora sinto me enche de uma estranha paz,
Ou remorso, tanto faz…

(tradução de Pedro Mohallem)

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