poesia

Lucas Matos

Lucas Matos é poeta, ator, e professor da UERJ (CAp-UERJ) de língua e de literatura. Editou a revista de poesia Bliss (7letras), junto com Marcio Junqueira e Clarissa Freitas, e também com eles e mais Thiago Gallego editou a revista-disco de poesia Bliss não tem bis (edição dos autores com apoio de SR-3/DECULT/COART/UERJ). Com todos, edita blog de poesia de mesmo nome. Publicou pela 7letras os livros de poesia Três semblantes, ou no meio da piada você percebe: ninguém vai achar graça, ou para cada sentença clara há um engano (2015) e 1989: franz (megamíni, 2016).

* * *

De 1989

ocupando o apocalipse com laurie

sabe aqueles dias que você acorda
e diz:

pois é, hoje eu vou deixar o túmulo vazio
?

então
pois é, hoje eu vou deixar o túmulo vazio

o túmulo sim e um caixão
cheio de ar e das marcas das
digitais de um vendedor zeloso e
fracassado vou até ligar para o
coveiro rapaz por que você não
tira o dia de folga aproveita
o mês manda ver as férias
que você sempre quis uma
viagem para o norte é tão boa
quanto o rumo para o sul e se
você pega um desvio à direita
ou à esquerda quem sabe
o fantasma que te espera na esquina
eu digo
olha, hoje eu vou deixar o túmulo vazio

quando ligo o telefone
chama chama e o coveiro está
ausente
alô laurie falando

imagina o dia chegou
um estranho te acorda na cama
você não lembra como ele e você
acabaram aqui
e ele é só indagações de que servem
estas garras e dentes afiados
você tem um focinho no lugar
do umbigo você corre ao
banheiro com pressa
com medo de ficar de frente
para o espelho alguém
acordou de um pesadelo
e o monstro é você

imagina uma mosca
do tamanho de um carro
imagina um carro
do tamanho da mosca
o sol nasceu o sol se pôs
este é o tempo
tudo que pertencia ao
tamanho do carro
está no tamanho da mosca
e também ao contrário

o patrão do coveiro é
feito qualquer patrão
tem um pé de cabra e
um taco de beisebol
ventilador de teto raspando
a cabeça dos funcionários
este mês não tem salário
e mês que vem quem sabe
não é uma faca nos rins
estilhaço na córnea
que me derrubam
do cavalo

filho, hoje eu vou deixar o túmulo vazio

o patrão está satisfeito
os mortos estão satisfeitos
mas não tem geladeira na cozinha
ligo para a entrega de pizzas
quem sabe o miguel do turno das 22
aceite os meus sorrisos
chama chama ninguém viu miguel

a minha avó era uma presbiteriana
da baixada fluminense e tinha
uma imagem muito clara do futuro
de como o mundo acaba
em fogo
em fogo
como no livro do apocalipse
como no livro do apocalipse
e quando eu tinha 10
ela me disse que o mundo
acabaria em 1 ano
eu passei o ano orando
lendo a bíblia e me
distanciando de amigos e
parentes

até que finalmente o grande dia chegou
e não aconteceu absolutamente nada
apenas outro dia
e eu lembro o dia em que ela morreu
estava muito animada
parecia um passarinho num poleiro
na beira da cama diante da janela
do hospital à espera da
morte

ela vestia uma camisola rosa
e penteava o cabelo para
estar bonita na hora
que cristo viesse buscá-la
não tinha medo só
que no último minuto
aconteceu uma coisa que mudou
tudo

depois de uma vida inteira de
orações e previsões sobre o fim do mundo
ela entrou em pânico
e ela entrou em pânico
porque não conseguia decidir
se botava ou não um
chapéu

e então ela morreu
entrou para o futuro em
pânico sem absolutamente nenhuma
ideia do que se feltro palha
véu iria acontecer em
seguida

sabe aqueles dias que você acorda
e os lençóis estão vazios
como o gosto na sua boca
a manhã aquece a casa
não encontra pessoa na sala
nos quartos no banheiro
nos pulmões pálpebras paredes
ressoa

amor, hoje eu vou deixar o túmulo vazio

a campainha toca estão os três
à porta: o juiz o carrasco o assassino
vieram me levar saio pela janela
feito desenho animado um cordame
de lençóis e fronhas eles entram
deixa que eu mostro a casa alguém
quer cafezinho indago das férias
se cada um recebeu em dia o terço
tenho pensado muito sobre a clt
o início dos movimentos sindicais
na década de 1920 um deles acende
uma vela e outro menciona comovido
o sr. getúlio um de nós
pede para falarmos coisas horríveis
porque estamos tristes sabemos
estamos tristes e a beleza pode
passar a impressão errada é
com muita delicadeza que eu volto ao
refrão hoje vocês sabem
já é noite quente quando os três se
vão pela janela as ruas da vila quase
um deserto me encaminho para a
louça suja é tão difícil desembaraçar
o que é simplesmente fim do fiapo
de um novo começo

imagina todas as coisas
estão embrulhadas em folhas de bananeira
pneus dos carros telefones para-brisas
cada página dos livros cada grão
de areia nas praias as praias
todas embrulhadas em folhas de bananeira
e os seus amigos embrulhados até
os seus órgãos internos passam
vozes e são como o vento
correndo entre os dedos
‘já estamos preparados para quando queimarem
a quarta parte da terra
já estamos preparados para que venham
todos animais de peçonha
todos animais de rapina
todas as pestes e pragas
enquanto cantamos chegamos ao ponto
de abate assim nos fizemos mais
tenros você levantou sua foice sobre
a terra e o nosso aroma é doce
na sua presença’

é aí que você se toca
toda essa conversa de
folhas de bananeira
abriu seu apetite
é aí que você se toca
não é que está na hora do
almoço

ou eu poderia dizer
a partir de agora esta porta vai ficar aberta
ou eu poderia dizer
esta casa não conta mais derrotas
ou eu poderia dizer
levanta povo o cativeiro acabou
o mundo? estou sabendo
a vida? estou sacando
me disseram poemas
e não era o crepúsculo
e não era o calor da noite de verão
era cedo e minhas irmãs sérias
me olhavam
o neoliberalismo? já vi
o fim do fim? já ouvi
em quantas línguas o café da manhã
começa com café
eu gosto dessa frase
encarei a alfabetização como quem compra um peixe que tem espinha
eu gosto dessa frase
tudo passa sobre a terra

eu perguntei ao meu mestre
se existia alguma meditação
para quando o fim estiver se aproximando
procure escutar os sons ao seu redor
ele disse bom está ok
mas pode ser que você não consiga a concentração necessária
ou que o barulho seja infernal e daí
é quase impossível ficar apenas escutando
então lembre da primeira vez que você sentiu
medo e depois lembre a última até os fios
de cabelo na nuca se arrepiarem
e pense
é assim que os mortos veem os vivos
eu saí de lá com uma estranheza
uma espécie de confusão
na praça da carioca
um pregador lia ao microfone
trechos do apocalipse
eu nunca tinha reparado
a beleza das imagens
o dia em que envelhecerão as crianças
um mar de vidro mesclado de fogo
a ruína completa e definitiva
e me lembrei quando tinha 10
entrou um rato em casa
a minha avó saiu atrás dele
vassoura em punho e
palavrões em língua estrangeira
porque em língua nossa oh o pecado
quando matou o bicho e me viu
com o olhar aterrado ela disse
e se a besta e seus vencedores
os cavaleiros com seus flagelos
as trombetas a postos
tudo está pronto para soar
e dar fim ao mundo mas
eles têm mais medo
de nós do que nós
deles

quando o coveiro afinal atende
oxalá ele diz eu não descubro nunca
as razões de estarmos vivos nessa terra
hoje eu vou deixar o túmulo vazio
por que não aproveita o espaço
planta jardim floresta
ou então
meus inimigos?

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