poesia

Flávio Morgado (1989-)

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Flávio Morgado é poeta nascido no Rio de Janeiro em 1989. Lançou seu primeiro livro “um caderno de capa verde” (7Letras) em 2012 e o segundo, “uma nesga de sol a mais” (7Letras), em 2016.

* * *

litígio à bandeira

 

Luis Gonzaga das Virgens, conjurado negro,
entregou a si, nascido cabeça a prêmio.
Luis Gama letrou-se em liberdade
e escreveu em costas brancas
a palavra justiça.
Liberata, escrava, alegou humanidade
aos bichos da lei.
Zumbi tem rosto.
Barbosa não tem culpa.
175 mil africanos
a contragosto, em kalunga,
sob o descaso da compaixão e da língua
cristã aportavam na capital em 1736.
54% da população deste país
é declaradamente negra
(à primeira carta republicana
vinha o apêndice sintático-racial
“forro”)

 

[minha cara
não encobre
minha culpa mas
não extingue
essa inquieta sensação de carregar
o que condeno.]

 

somos irmãos vis
do continente. Infanticidas notáveis
de nossas origens. Exímios
engenheiros de silêncios irrevogáveis.

injuriados à beleza.

se não o vermelho,
cobiça cabaço dos portugueses,
ou sobre brasis
(melhores inquilinos da terra),
ou ao resultado trágico desta equação.
que não seja
já que até os tons
a tacanhez contextualiza,
por que então a manutenção?
das cores, das vozes, das práticas,
da eterna vez, do quinto, do dízimo,
do cinismo e até do modo de foder
– ibericamente culpado. institucional.

 

mãe mais que gentil,
dos lázaros que sustenta em estrelado:
senna, escória de orleans&bregança, dória, ainda-sarney;
a bem sucedida sonegação
da família marinho;
o tricentenário de propriedade
e embranquecimento social
do clube piraquê
e a sonsa cegueira do leblon.

agora alguém morre, negligenciado, no hospital
salgado filho
todo dia alguém nasce, negligenciado, de antemão,
ao didático livro do capital.
e salve a santa constituição!
salve a pálida cara do constrangimento,
o iluminismo engabelado
e a esteira de produção!

(o mundo nos descabe esteticamente)

 

 

pensa,
oficialmente solitário,
jovem professor de história,
na zona sul do rio de janeiro,
em uma sala só de brancos,
ao explicar por quem
tremulam as nacionais
cores de uma bandeira
sem preto.

§

 

body art

 

pintar com a língua.
compreender o espaço
pelo tato, deixar o cheiro-
alvo cumprir seu domínio
pela boca,
começar pelas coxas –
quase moldura –
deixando pingar
saliva em relevo
(metalingua
agem porque ninguém a esta hora é ingênuo)
repetir o faro.
ouvir ofegar o quadro
que com a mão deve
saber de cor.

pincel-língua
tinta
sobre a
tinta
recupero o gesto adâmico

a língua funda o sentido
que nos admite orgíacos

começo a caber no seu delírio
quando a tela me pinta.

com o que ainda me escorre
de gozo,

espero
o corpo
reconduzir ao
corpo.

 

para recomeçarmos.

§

 

cena mãe

 

há um livro dentro de mim.
meu rancor tem a aspereza de um fato
e você não sabe disso.

não sabe
que enquanto à pia
teu filho sentava para catar os feijões
os caroços não se separavam dos calos.
não sabe
que depois que meus olhos
aprenderam a fazer,
não podem mais apenas ver
e foi por isso que
tua mão desistida
foi se dar a todas as mulheres que desamei (a mim)
e me puseram sobre seu colo –

medeia, sou teu filho pródigo
que correu a jasão

sou teu aborto interrompido,
tua juventude abortada,
teu caminho e atalho
ao parto – primeiro pacto de não-comunhão.

e se a narrativa se impôs ao perdão,
o que faço eu com os gestos
meus que se assemelham à mão
que te estapeou? o filho da culpa
se compadece
sobre a estética do não-pai
que não teve.
e se você soubesse, amava.

amava os livros que trago em mim,
úteros de si aos quais teria me
encontrado
e me permanecido teu filho apenas,
mesmo sob o silêncio de seu seio
negado
que ainda assim
armamenta este poema.

você armaria os livros que tenho em mim.

§

 

delírio castrada

 

delírio, a miss FEBEM dos gatos,
foi castrada.

ao redor de sua (agora) eterna castidade
o silêncio
do faro macho
dos noturnos pretendentes
e de sua instintiva ideia de amar

talvez doa em algum lugar
de sua consciência felina
de caça (e ensaio
de concentração)

já que, menos eufórica,
não come, não mia,
não me fita os olhos, não gateia.

caminha viúva
prefere a sombra aos pássaros
e honesta,
enluta o próprio tesão.

§

 

ministro do supremo

 

agulhas de oblíqua amolação
linhas de infâmia
e sujas articulações
cacos institucionais
caviar, gotas de dom perigon,
sobras de excessos ,
veleidades de um estômago gordo
empáfia audaz
uma constituição, uma toga e um trono
promessa, perjúrio e parcialidade
um senador, escravos e bons hectares da amazônia
doses de capanguismo
(nenhum remorso até o esôfago)
a idoneidade de uma democracia ruminada
e parafusos de uma velha engrenagem
a preto e pobre
foram encontrados,
junto aos miúdos,
e o corpo,
enganchado pelas nádegas,
exposto e fedendo
da vossa excelência
o ministro do supremo
gilmar mendes

(ainda de óculos)

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