poesia

quatro poemas de Mariana Basílio

mariana basilio

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC, 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras.
Contato: http://www.marianabasilio.com.br

***

2 poemas do futuro Megalômana e 2 poemas de Sombras & Luzes

 

COMO ANIMAIS NOTURNOS FARIAM

 À memória de Ingeborg Bachmann

Como animais noturnos fariam
rastejo nas covas do instinto.
Recriando as dores perdidas.
Arpando âncoras no silêncio –
e não sou mais do que um eclipse.

Ausente na ideia que é cega,
se muito penso. Orbitando
cadente na estéril realidade –
incendiária névoa vermelha.

Fervendo palavras sobre a
cabeça felina sorvendo em
brasas dissolvendo veloz a
tristeza metálica deste corpo.

E o mundo não é como antes.
O mundo é como sempre foi.
O mundo mudo como o nunca.

Mas abutres ardem imortais
na cidade sitiada pelo caos.
Alíneas saltam corrompidas
na cidade sitiada pelo caos.
Entranha de teias temporais.
A cidade sitiada pelo caos.
Raízes do espanto-movediço.

Tudo acontece enquanto envelheço

na utopia em que me teço.
Tudo acontece febre terçã
pois sozinha eu vago
entre os muros.
Sinfonia sem saída –
Ânsia sem alarde e melodia.

Como animais noturnos fariam
me contenho vasta no silêncio.
Renascendo, sonho improvável.
Percorrendo linhas intocáveis.

O grito existe e o espanto rasga
os mapas diáconos das estações.

Em memórias de veredas que são
miragens ao limite do que fomos.
Traços inegáveis do que somos –
nada mais do que um pouco
mais que o nada.

§

 

ENTRA A NOITE POR MIM DENTRO

Entra a noite por mim dentro.
Como um áspero tutano
Arqueando o meu pranto.
Entre os sismos do silêncio
A revestir as gotas secas
Deste dia que se finda
No ébrio pensamento.

Dura dura é nossa sina.
Composta de uma morte
Que se anuncia. Inteira.
Extensa em dimensões
Que se somam, ano a ano.

E quem de nós terá mais sorte?
O jovem que se vai desperto?
O velho que se vê disforme?
Nunca nunca saberemos.

Dispor do tratado geral da morte.
Mesmo que existam amuletos.
Mesmo que inventem remédios.
Há um limite arrancado das mágoas.
Um centro sísmico que nos acolhe.
Dissolvendo nossas antigas chamas,
Crias do absoluto nada.

Tudo tudo é mesmo um argumento:
Para que sejamos desenhos em nuvens.
Para que nódoas cicatrizem elementos.
Quimicamente a fenecerem, duais,
Por nossa humana descendência.

Aguardo assim a morte sob este corpo.
Bem como aguardo a vida, enquanto penso.
Insolúvel. Estendida em sentimentos.
Pois os olhos se alimentam
Deste frágil instante em que perduro.

No vício da pele, nos crivos dos pés.
Absorta no limite desta cama.
Que sou escorrimento.
Que sou vertigem
De sangues ferventes.
Dançando no túnel
De frívolos elos.
De carícias
Crescentes.

No fundo das córneas embaraçadas.
No futuro corrupto do ofício taciturno
Dos coveiros – a morrerem sustentados
Pela dura dura morte, diariamente.

Entra a noite por mim dentro.
Felina como línguas que se enlaçam
Feito pólvora. E preenchem o mundo.
Preenchem o breu que habita o meu peito.
Como a vórtice de um empírico anagrama.
Vertigens de um invisível espelho.
Refletindo, refletindo, o oco fundo
Do mundo, que se alimenta no cerne
De nossos infindáveis erros.

 

XXIX

(Do livro, Sombras & Luzes)

Eu sei que toco o firmamento
eu sei que toco os dedos da noite
eu sei que toco o que te prende
a um cometa desvairado
quando toco o último fado
a ser feito –
como um animal que morre
a cada novo grito do alvorecer.
Renasço neste instante.

Eu sei que é tarde quando se é cedo,
beijando-te a carne mole, a carne
que fede do ânus aos olhos
de um avestruz
por
tua
sombra,
que se recobre do pó estelar
de espadaúdos aguilhões.

Abraço-te as ferrugens, grudo
in natura e tua pele enrugada
se estica durante a tarde, se estica
e me come a consumir os miolos
do pensamento que me enlaça –
como uvas-passas estilhaçadas
nas fronteiras da qualidade
imoral (moralíssima) de fatos,
dos frutos de bocas pardais.

E eu sei que é cedo quando se é tarde,
porque toco-te as beiradas da voz, e
há um cuspe que te salta os olhos –
medonhos de medo – e que me traduz
<cética> quando sou a bendita santa
que te alarga as frontes de
pícaras
que te permite um repouso
rasteiro,
que te ilumina com os olhos
de raposa.

Porque sei.

 

XLVII

Todo escritor é um país estrangeiro.
Quando ultrapassa os limites do

seu coração ao cutucar
o fundo de um
silêncio, que
escapa aos
próprios
sentimentos.

Um estrangeiro de flores
rasgadas no fundo do peito.
Nos pomares desérticos de
antigos pensamentos.

Mesmo sendo poeira.
Mesmo tendo um ar pueril
que dissecaria um oceano.

Caminhando no céu
que engole,
na vida que esgana as
contas de sangue,
as gotas do tempo –
que não perdoam
o côncavo dos dedos.

Estrangeiro.
Ao sonhar alto demais
num topo de voz
que não se ouve
e
que
NUNCA
se imaginaria
tão luzente.

Em arqueiros
de nuvens
a dançar
ruas
e
carmins
em
futuros
passos.

Aos berros dos
pedregulhos,
nos acalantos
de casas que
apertam
nossas palavras
contra o peito.

A escalar
o silêncio das águas.
A ser navegante,
a ser
correnteza.
***

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