poesia

Gabriel Gorini

 

gabriel gorini é poeta e editor da revista USINA.

* * *

helena

como se fosse um bruto,
os braços rijos as pernas
fartas de tanto cantar.
a pele, tão áspera, já nem
rompesse o calendário, o
silvo do contato
desaparecido nas mãos.
um bruto como um poste,
um mercado às sextas-feiras,
a face fixa de antevéspera
e o nome talhado no
dente (de onde saem
os gritos, meu deus?)

como fosse um bruto,
a armadura retida os músculos
tênues de tanto mentir.
os olhos, tão rotos, nem
curvassem as vitórias, a
ranhura do metal já
contida no sangue.
um bruto como um rato,
um átrio cinza em carnaval,
a presa posta no jantar
e o sufoco:
a guerra de tróia chegou
no largo de são francisco
e os monges, irresolutos,
ainda insistem em
rezar.

§

 epígrafe (fala do forasteiro)

ai meu deus quem comove
o asfalto o concreto quem
perturba o signo do zodíaco
e seu exército de sussurros
marítimos quem impede
os golpes os gestos os
toques quem ri no dia
das graças abençoado
seja este mundo abençoado
seja vós louvado
seja deus ele está no meio
de nós glória a deus
pai todo poderoso ai
meu deus quem descreve
as planícies ora desacreditadas
quem de ferro fere o fogo quem
de quase fura o corpo qual
carícia em tempo firme
qual malícia escapa à
sorte seremos nós guerreiros
do apocalipse seremos
nós milícias do fim do
mundo seremos nós pagãos
adictos organismos febris
espíritos abandonados
seremos nós visão do amanhã
predispostos ao ocaso
não vamos chorar nenhum morto
ai meu deus qual nome
te dar qual tanto e pouco e sinto
pode haver nessa hora de
santos nessas horas de missas
de bandas de preces quem vai
rezar por último somos nós
urbanos indiscretos formigas
indigestas somos nós orgasmos
industriais ciborgues xamânicos
sob nossos pés não estará
ninguém sob nossos pés restará a
ruína e nossas fogueiras tomarão
o continente e todas as
muralhas serão destruídas
até não haver mais nada
que não seja afeto até não
haver mais nada que não
seja gozo

Padrão