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Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen (parte 2)

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entrevistei, de novo, a poeta júlia de carvalho hansen. dessa vez, o papo foi muito mais pessoal, íntimo. bem estilo ‘revista caras da literatura’.

para conferir todas as outras entrevistas já feitas por mim, aqui no blog, clique aqui.

 

sergio maciel

* * *

SM – Você costuma reler seus livros publicados? Se sim, por quê?

JCH – Releio tudo. Muitas vezes e por motivos diversos. Sou obcecada com meu próprio trabalho, sinto às vezes que isso pode beirar a doença, o vício. Quase sempre releio por gosto e tarefa, coisas que com meus textos, pra mim, são sempre uma mesma coisa. Às vezes releio simplesmente porque vou fazer uma leitura pública e resolvo trazer algo do passado à voz, ou porque me pedem um grupo de poemas pra publicar n’alguma espécie de antologia, site, etc. Às vezes releio pra perceber a distância temporal, gosto de perceber como eu realmente não faria hoje em dia o que fiz antes; às vezes acho isso delicado, mas isto pode beirar o abismo ou uma dor intensa; às vezes me incomoda muito, a vaidade de sentir vergonha às vezes me visita, ou também uma bobagem de me achar ingênua no antes, como se ser ingênua pudesse ser algo ruim!… Mas quase sempre sinto uma satisfação imensa. Gosto do que escrevo. Acho bonito. Se não gostasse, se não achasse bonito e se isso não resistisse com o passar do tempo da minha vida então eu me perguntaria: por quê? E pararia de escrever.

SM – Ismar Tirelli Neto cantou essa pergunta dia desses, refaço-a aqui: O que você espera de um poema?

JCH – Respondo o que respondi no facebook do Ismar: Que eu não o entenda porque não falo a sua língua, e que nisso tenha uma sedução louca que me faça fugir com ele como quem encontrou – finalmente – o seu circo.

SM – O horror está aí, estacado entre nós – sempre esteve, na verdade – vivendo em cada minuto, sob a clareza de um sol ao meio-dia. Todavia, as pessoas não param de escrever, ninguém silencia diante do horror. Por quê?

JCH – Embora me pareça uma questão fundamental, acho essa pergunta (meio que no ar do tempo) irritante, sabe? Acho que se algum poeta titubeia em não fazer o seu ofício quando dá de cara com o horror… acho que isto não é um poeta, isto é um covarde.

Ao meu ver poeta é uma ambulância, é uma enfermaria, uma guerrilheira, um lança-chamas. A meu ver poeta vai entrar sempre no gueto de Varsóvia e vai se compadecer pela dor que sente e não sente, poeta é quem tem peito pra doer a dor do mundo, mesmo que ria dela, poeta é quem se indigna com essa merda toda e diz coisas terríveis, e algumas terríveis de tão belas.

Eu sou muito dessa ideia, né? Vejo o corpo do poeta como uma espécie de rio da história. Quem não mergulha nesse rio, ao meu ver (ou pro meu gosto), tá escrevendo alguma coisa, mas é “alguma coisa”. Acho que pra escrever poesia mesmo, entre outras coisas, tem que se lambuzar na água. E às vezes a água não tá pra peixe. E certamente estamos num tempo em que essa água é ácida.

E aí tem outro problema que é: como nadar nesta água mas não se intoxicar a ponto de não sobreviver? Aí sim, acho que tá uma questão em que tenho pensado muito.

SM – Quero pedir lincença aqui-agora e usar as “perguntas clássicas” que Clarice Lispector costumava fazer sempre a cada entrevista. Qual é a coisa mais importante do mundo? Qual é a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo? E o que é amor?

JCH – São as perguntas mais fundamentais mesmo. Acho que a coisa mais importante do mundo é a água, o ar, a luz, o alimento e o descanso. A coisa mais importante pra pessoa como indivíduo é a água, o ar, a luz, o alimento e o descanso. O amor também é a água, o ar, a luz, o alimento e o descanso.

SM – Qual foi a experiência mais importante em toda sua vida? Quero saber, na verdade, se você teve algum momento decisivo na vida, qual foi e como essa experiência influenciou ou se refletiu em sua poética?

JCH – A mais importante de todas não sei se sei dizer. Pensei primeiro em cada uma das vezes que me apaixonei por um homem, coisa que deve ter acontecido verdadeiramente 5 vezes nesses meus 33 anos. Sou da turma que está quase sempre escrevendo para um destinatário imaginário e as paixões sempre são determinantes nas minhas escolhas e caminhos da vida. Depois me lembrei da ocasião em que a casa em que eu morava com meus pais foi assaltada conosco e meu irmão dentro, fomos amarrados, levaram tudo que eu tinha e acho que isso me mostrou uma impotência que é, pra mim, o contrário de escrever. Pensaria também em cada uma da quase centena de vezes que devo ter bebido ayahuasca nesses últimos 10 anos. E, por fim, e talvez o mais forte de tudo: o dia em que minha avó morreu nas minhas mãos e no qual, além de ver a morte, eu vi (e senti nas minhas mãos que estavam nela) o que as religiões dizem: de haver uma separação entre carne e espírito quando se morre. Ver isto me fez perder o medo de quase tudo e coincidentemente isso aconteceu quando eu estava terminando o “Seiva veneno ou fruto”, meu último livro, que já falava tanto da morte. Foi como se o livro esperasse pelo acontecimento antes de mim e que o acontecimento — da morte — me confirmasse (a minha) necessidade de colocar meu livro no mundo.

SM – Você já experimentou sentir-se em solidão, profunda solidão?

JCH – Sim, muitas vezes e de modos muito diversos. Embora eu nunca tenha estado sozinha numa canoa no alto do mar, ou no meio dum deserto à noite, sinto que a solidão é um lugar que eu conheço, exercito e posso até mesmo me viciar em estar nele. Neste sentido de estar sozinha já fiz coisas tão diversas como viajar sozinha por meses, fiz alguns retiros de dez dias de isolamento e silêncio, passei madrugadas a sofrer achando que isto leva a algum lugar, ou dias e dias escrevendo sem vontade de fazer outra coisa. Houve um ano, o ano em que eu estava escrevendo meu primeiro livro, que eu era capaz de passar 5-7 dias sem sair de casa nem falar com ninguém, quando eu falava era com a mulher da caixa do supermercado e me assustava ao ouvir minha própria voz. Mas tenho dezenas de melhores amigos. E seria incapaz de viver sem as pessoas, os outros são pra mim o oxigênio. Me sinto com muita sorte neste sentido, de ter relações baseadas em muito afeto, respeito e cordialidade. E, mesmo sozinha, pra mim o mais difícil é estar mesmo sozinha. Eu me sinto sempre muito acompanhada, estou sempre pensando em alguém, em dizer algo pra alguém, lembrando de algo que alguém me mostrou, me fez sentir, etc. Estou sempre em diálogo, estou sempre no vínculo. Talvez por isso eu precise tanto da solidão, pra respirar um pouco mais comigo mesma.

SM – Qual foi a coisa da qual você mais sentiu medo em toda sua vida?

JCH – Me considero uma pessoa medrosa. Convivo com muitos medos. Existem medos cotidianos que estão presentes todos os dias desde criança como o dia em que meus pais vão morrer; ou, pelo menos desde a adolescência um medo-buraco de, de repente o meu “ele” ter mudado de ideia, desistido de mim, ou esquecido o quanto sou importante na sua vida. Inseguranças. Medo de ladrão, medo de polícia. Muito medo de violência sexual. Mas são medos que talvez sejam ansiedades. Normalmente o medo me congela, mas se algo terrível acontece fico tão calma, imediatamente crio um sentido de estratégia, fico controladíssima e observadora. Tenho medo da loucura, curiosamente nunca tive medo de eu mesma enlouquecer, mas não consigo dialogar com a loucura sem temê-la.

Mas acho que nada me bota mais medo do que algumas visões que tenho de tempos em tempos e que não sei da onde vem nem pra onde vão. Têm sempre a ver com a morte. Desde criança me acontece. Por exemplo, no meu retorno de Saturno, em 2013, no final do inverno em Portugal, tive uma gripe fortíssima com uma alucinação intensa de febre, o meu rosto com dor de sinusite estava frio e doía vertiginosamente. A imaginação criou uma visão que a dor daquele jeito significava que meu rosto estava enterrado no chão de todos os antepassados. Eu via meu rosto enterrado num cemitério. Em certa medida eu sinto isso todos os dias: meu rosto: o cemitério dos que vieram antes só que agora pela primeira vez. E aquela visão veio acabar com a minha força de ter um rosto só meu. Foi terrível, durou quase uma hora. Não havia o que eu fizesse que me tirasse daquilo. Me marcou por mese. E, claro, tudo isso pode ser só minha imaginação combinada à febre. Mas a vez que mais senti medo em toda a minha vida é mais difícil de explicar. Foi quando vi num acidente de carro uma pessoa morrendo — era tudo muito veloz, destruidor, embora eu visse o acidente de muitos ângulos eram flashs, que me faziam exclamar pro meu namorado na época: “alguém morreu! ela está morrendo agora!” e desabei em choro até dormir de exaustão. Na manhã seguinte ao acordar vi que meu telefone vibrava: fui acordada com a notícia que uma amiga tinha morrido de madrugada, seu carro tinha sido arrastado por um ônibus, no mesmo momento em que eu tinha a visão de alguém morrendo num acidente de carro. Ela morreu enquanto eu via que ela estava morrendo. Foi muito assustador. Isto deve fazer uns 13 anos e ainda hoje tenho medo de acontecer algo parecido e evito adormecer na posição em que tive essa visão.

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2 comentários sobre “Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen (parte 2)

  1. Pingback: cantos de estima – Júlia de Carvalho Hansen – Douda Correria

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