poesia

Gilcevi

Foto de Warley Desali

Gilcevi é poeta, músico e produtor cultural. Integrou a banda Carolina Diz, com a qual lançou os álbuns Se perder (2004) e Crônicas do amanhecer (2008). Aprendeu a ler aos sete anos de idade devido ao seu interesse por decifrar os jornais e revistas que vendia nas ruas para sobreviver. Teve as mais diversas profissões ao longo da vida: jornaleiro, office boy, vendedor de produtos de limpeza, auxiliar de biblioteca, produtor, entre muitas outras. Embora escreva desde os 16 anos, só publicou recentemente seu primeiro livro intitulado Os ratos roeram o azul (editora Letramento, 2016). Atualmente apresenta seus poemas com a banda Cadelas Magnéticas.

* * *

 infância

a santa desce da nuvem
& com violência enterra o pecado nos meus olhos
como a placenta ocre lêndeas o Verbo

vó preta macera patuás me benze
com alquímicas negras vogais
desamarra a memória do tronco (há um negreiro
navio que à noite aporta no seu sono)
mas ainda sente o estalido da chibata: gritos
porejando na mordaça

vovô se aferra ao colchão intumescido
de fado & notas inflacionadas chora
o mar & a todos xinga com seu renascido
sotaque português

na beira do córrego vejo a vida: a véspera do bote
hipnotizando o sapo

mamãe bate roupa no tanque & sonha
com a cesta de alimentos um roach gordos
dízimos no ofertório
os pés de barro do domingo
ainda são embalados pelo saltério

na primavera papai enlouquecerá
& caminhará nu pelo quintal catando o eco das pedras

meu nome é de imperador
nas mãos do armilo três vezes
a infância regressou ao futuro
minha alma começa a ser íngreme me escalam
os elementos as vidências soturnas da inocência
o rútilo esperma do anjo caído

§

infância III (sangue ruim)

I
clã dos silva

da parte do pai vinham os de pele escura & parda
índios pegos no laço ladrões d’além mar capitães do mato
idólatras do cobre da preguiça & das armas
malvivendo amontoados naquela casa pau a pique senzala
partiam para o leste sob a tutela da noche oscura
levavam na matula a bússola a meiota de cachaça
carcaças de pequenos animais
sapienciais pergaminhos: eis que vou agora dormir no pó
se me procurares pela manhã já não existirei

II
clã dos souza

os irmãos da mãe na fronte acuada traziam sardas
lixo branco escorraçado das terras de lund
lazarones no monturo do morro das pedras
ralé de pés rachados sonâmbulos na encruzilhada
malvivendo amontoados naquela casa adobe senzala
pico & cola arranhando as grades da alma
falavam uma gíria bárbara & cheia de fúria
: o terceiro mundo vai explodir quem tiver de sapato não sobra

§

infância X (barreiro de cima)

o meu pai teve a mãe
& o meu pai teve o pai
só que para ele ter o pai
ele teve os avós
a única viva é a mãe da mãe do meu pai
a bisa dasdor que matou o marido com o pilão
pra se casar com o primo
ele arrancou uma costela dela
& do osso nasceu uma amante
que com ele teve mais vinte anti-heróis
que sabiam amansar o azul & a pólvora
& povoaram o barreiro

deus viu que isso era bom
& foi-se embora

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