poesia

Victor Prado

Victor Prado, 21, publicou, por vias independentes e digitais, dois livretos de poesia: Mamute (2015) e Onde Eu Poderia Estar (2016). Em 2016 a Editora Urutau publicou Bastardo, seu primogênito com ISBN. Também já esteve por alguns lugares bem bonitos como: Enfermaria6, Diversos Afins, Jornal RelevO, Mallarmargens, SubVersa, Revista Raimundo entre outros.

* * *

para Ana de Araújo

No campo, as manhãs se formam

No campo,
as manhãs
se formam

Isso já foi dito,

Mas novamente:

No campo, as manhãs se formam como
pequenos adornos que as crianças carregam
por ai

Pequenos brinquedos, esses nossos
velhos dedos: tão sóbrios, tão retilíneos

Distantes dos rizomas, do
líquido viscoso da vida,
do orvalho, da
coisa bêbada como o vento

Essa dança é uma espécie
de sistema hidráulico
Essa curva é um ritmo verde

Mas a mula sempre empaca
ou
O caminho sempre exige, em sua
rigidez, outras chegadas

II

O fedor da casa antiga,

igual o da pele a muito presa
dentro do gesso,

sempre acha um canto, que respinga
tranquilo nos encaracolados das plantas

III

Trabalhosa estação, pronta
a ser onda brava:

Mãe que dá sua benção
a cria que logo adormece:

Essa casa erguida no primeiro Sol
Ereta e rija,
Mas também aberta

IV

A natureza observa

E atua

Tão cotidiana quanto um milagre.

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crítica, xanto

XANTO | Tocar na ferida (Sobre “Outros jeitos de usar a boca” de Rupi Kaur), por Matheus Mavericco

 

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TOCAR NA FERIDA:
Sobre Outros jeitos de usar a boca, de Rupi Kaur.

De pijamas e virada pra parede, a jovem deitada parece que descansa. Seu cobertor beje estampado de flores, com o qual a princípio se cobria, foi jogado para o lado a fim de que pudéssemos ver a mancha vermelha primeiro entre as pernas e depois no lençol de cama. O enquadramento da imagem, aliado ao contraste com uma paleta de cores pálida, realça a mancha. E no entanto, a posição do corpo e o cobertor tão à vontade evidenciam também a naturalidade daquela cena que se tenta a todo custo esconder, quase como se não existisse ou, pior ainda, não devesse existir. Em outras fotos do mesmo ensaio, a jovem contempla gotas de sangue perto do ralo do banheiro ou o vermelho da menstruação que se sobressai na brancura asséptica da privada.

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“Não me vou desculpar por não alimentar o ego e orgulho de uma sociedade misógina que aceita o meu corpo em roupa interior mas fica desconfortável com uma perdazinha de sangue”, disse Rupi Kaur, a jovem da foto, quando sua imagem foi apagada da rede social em que havia sido postada. Com isto, recusava-se ainda a internalizar os artifícios e imagens que se naturalizam às custas da biologia do corpo feminino ou dos relacionamentos amorosos. Quem abre seu primeiro livro de poemas, publicado em 2014 nos Estados Unidos (onde encabeçou meses a fio a lista de mais vendidos) e no Brasil este ano, encontrará esta recusa a todo instante.

De minha parte, com exceção de “a arte de esvaziar” (elogiado também pela tradutora, Ana Guadalupe), não gostei do livro. Achei a realização artística um tanto fraca e em não poucos momentos rala e cafona, por exemplo quando ela diz ser um museu cheio de quadros que o rapaz, com os olhos fechados, não viu. Diria também que o livro, lambuzado de prosaísmo, quase não apresenta recursos poéticos e nem tampouco faz desta secura uma inesperada fonte de interesse, de modo que se o leitor espera um espetáculo de metáforas ou sonoridades retumbantes ou um modo mirabolante de ver o mundo então ele certamente se verá decepcionado com o livro, escrito, ao que a princípio parece, passando a tesoura aleatoriamente nas frases até que caiam retalhos no chão que de maneira arbitrária batizaremos “verso”.

O problema é que isto não encerra a discussão. Na verdade, mesmo que o objetivo fosse o do polegar pra baixo a questão teria sido quando muito colocada, no que a incumbência passaria ao leitor: que ele concordasse, discordasse, risse, ignorasse. O valor artístico que enxergamos numa obra é importante e sou da opinião que é perigoso minimizá-lo, mas uma obra também pode acumular outros valores que às vezes até são artísticos, mas de maneiras moderadas (por exemplo quando se limitam a efemérides temáticas), ou que de artísticos possuiriam muito pouco (a exemplo de quando a arte é tomada para fins terapêuticos). E Rupi Kaur, se para mim não faz jus ao primeiro sentido, claramente faz aos outros dois tanto por pelo menos abordar assuntos dolorosos e urgentes quanto por servir de mensagem revigorante para um público oprimido.

Pensemos naquilo que mencionei sobre os versos parecerem retalhos. Creio que consigo chegar a respostas distintas se rumino um pouquinho mais a coisa toda. Penso que de fato a autora não se preocupou muito em fornecer objetos artísticos bem acabados; na verdade, eu diria que o fato de que muitos de seus poemas se passam por frases de efeito é algo deliberado em seu projeto estético, no sentido de que poderiam ser veiculados em embalagens distintas sem acarretar o apocalipse. Claro que isso nos leva à acusação grave de que não possuem qualidade, pois, se considerarmos com Max Bense que o poema é a mensagem estética mais frágil, no sentido de que um simples arranhão ou o deslocamento de uma vírgula derrubam o casebre, então a possibilidade de que os poemas de Rupi Kaur sejam acomodados em outros invólucros não parece bom.

Pelo menos não se ainda os considerarmos como poesia. Ou seja: pode ser sim que estejamos diante de uma coletânea que contém não só poemas, mas também outra coisa que quer estar perto da poesia a fim de que sugue algumas propriedades do discurso poético e as utilize para incrementar sua mensagem. Concordo que é estranho cogitar tal hipótese, afinal de contas nós nos acostumamos a bater o martelo quando achamos que algo não é poesia e, depois disso, tirar as meias e colocar uma pizza no forno. Sou da opinião que proceder assim é um desperdício, não só porque é absolutamente plausível que um texto finja ser poético apenas para absorver benefícios de tal confusão sem que o resultado seja sempre negativo ou ardiloso, mas também pois, pra colocar de forma inteiramente pragmática, se você investiu seu dinheirinho naquilo e agora precisa esperar mês que vem pra embolsar outra coisa, o jeito é passar um tempo mastigando, elucubrando e buscando, porquê não?, novas maneiras de apreciá-lo, distintas das conclusões a que muitas vezes se chega de maneira insolitamente cômoda.

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De modo análogo a quando Adelaide Ivánova sobe no palco, saúda as meninas e as matriarcas no recinto, informa a página específica (setenta e cinco) e declama que “O problema não é que as pessoas lembrem por meio de fotos mas que só se lembrem das fotos” ela está de algum modo se aproveitando do fato de que aquilo é o maior festival literário do país e o público que a escuta espera degustar poesia, no que, assim procedendo, ela consegue espicaçar a sensibilidade e a consciência justamente pelo fato de que faz um voo rasante e propõe um mapa provisório do machismo brutal de nosso tempo, de modo análogo Rupi Kaur também se aproveita de nossas expectativas perante um livro de poemas, algo como abrir os poros e deixar que o coração transborde, e muitas vezes comunica mensagens curtas e diretas ou, caso queiramos adjetivos requintados, concisas e secas.

Uma comparação facilmente maldosa aproximaria os poemas da norteamericana aos do presidente brasileiro, principalmente pelo fato de que muitos são diretos, curtos e usam o cavalgamento de maneira livre, dando a impressão até de que não pensada. Eu tenho duas hipóteses sobre a última característica: a primeira é a de que, seguindo um comentário curiosíssimo de Rogério Chociay, o cavalgamento diz muito mais a respeito da estrofe do que a respeito do verso, de modo que devemos pensar o cavalgamento não a nível de um ganho entre um verso e outro, como é costume que façamos, mas sim num nível global, e a segunda hipótese é a de que o cavalgamento proporia um sistema de ênfases, como se, tentando desenvolver a ideia de uma maneira perigosa não obstante promissora, a disposição dada por Rupi Kaur fosse apenas uma dentre outras que os leitores também podem fazer. Afinal de contas, se eles podem acondicionar os versos na embalagem de uma única frase, então não me parece absurdo que possam repicotá-los e redistribuir as ênfases dadas pelo original.

eu não fui embora porque
eu deixei de te amar
eu fui embora porque quanto mais
eu ficava menos
eu me amava

Neste poema nós até possuímos um recorte bem pensado graças à anáfora pronominal deixando claro que sair de um relacionamento abusivo recuperou toda uma autoconfiança perdida. Um segundo exemplo de uso expressivo da quebra de linha é o desse aqui, onde o isolamento vocabular nos dois últimos versos está obviamente te dizendo algo num poema onde pouco parece ser dito e até o sujeito é indeterminado.

o jeito como
vão embora
diz
tudo

Ocorre que esta nem sempre é a realidade de outros textos do livro, onde a operação de repicotar, operação nem um pouco recomendável para qualquer leitor diante de obras literárias, parece abrir uma exceção tal como se a poesia de Rupi Kaur permitisse algo do tipo para seus leitores. Vejamos:

há uma diferença entre
alguém dizer que
te ama e
de fato
te amar

Com exceção do primeiro verso, que se terminasse em “diferença” perderia a chance de passar uma demão de ênfase justamente no contraste entre as duas opções, não vejo nada de especial na disposição dos versos. E o ponto que faço é que não julgo que a ênfase dada pela poeta seja a única possível, pois do mesmo modo que posso veicular o poema numa só frase, também posso, sem que isto implique uma perda tão profunda e lastimável como seria se com poemas de outros autores, transcrevê-lo como:

há uma diferença entre
alguém dizer que te ama
e
de fato te amar

Creio que se trata de um tipo de liberdade que pode ser especialmente produtiva nos poemas longos, onde, segundo Ana Guadalupe, Outros jeitos de usar a boca chega pertinho de uma poesia falada que pede para que o leitor a declame. Ora: como, na hora de declamar, é comum que desloquemos as ênfases do original e construamos algo que se ajuste melhor à performance escolhida, então creio que temos um incremento a mais para a hipótese que lancei.

deixar a barriga da minha mãe vazia
foi meu primeiro ato de desaparecimento
aprender a encolher para uma família
que gosta de ver as filhas invisíveis
foi o segundo
a arte de se esvaziar
é simples
acredite quando eles dizem
que você não é nada
vá repetindo
como um mantra
eu não sou nada
eu não sou nada
eu não sou nada
tão concentrada
que o único jeito de saber
que você ainda existe é
o seu peito ofegante

Esse daí é o tal “a arte de esvaziar”. Nele a autora faz uma óbvia referência à vilanela de Elizabeth Bishop, especialmente vista quando diz que a arte de esvaziar é simples (isn’t hard to master). Penso que se trata de um poema notável não só pela imagem de abertura, talvez a melhor do livro todo (afinal de contas é claro que quando um bebê nasce a barriga da mãe fica vazia, mas, porque o milagre da vida aconteceu, “vazia” definitivamente não parece ser o adjetivo correto, o que apenas realça a dor, o deslocamento e a privação que afligem o eu lírico), como também pelo fato de que a fluidez das frases e seu recorte coloquial fazem com que aquilo escorregue pela língua até o ponto em que nos pegamos lendo em voz alta. E isso é importantíssimo, afinal de contas se o poema fala de como toda uma trajetória de vida foi apequenada graças a uma educação que menospreza, então o ato de que no ápice do esvaziamento imposto (aqui surgido como uma versão deturpada de “mantra”) a pessoa descubra seu próprio corpo é um ato que quando mimetizado pelo leitor descobrindo, pela espontaneidade dos versos, a sua garganta que vocaliza o que está sendo lido ― é um ato que fecha o ciclo e carcome por dentro a arte de esvaziar. É como se o leitor, porque repercute as palavras em seus pulmões, contribuísse para libertar a voz lírica.

Mas voltando à comparação maldosa. Tomemos o caso de um poema do presidente chamado “Fuga”:

Está
Cada vez mais difícil
Fugir de mim!

Eu até entendo o que poderia levar alguém a comparar de maneira maldosa as duas poéticas. São poemas concisos a ponto de raquíticos mas que não recorrem a recursos tipicamente poéticos. Eles são, pelo contrário, bem diretos, o que já foi apontado como uma característica positiva na poesia de Rupi Kaur: ou seja, o fato de que ela não cria aquele tipo de ambiente palaciano atapetado de interjeições próprio, segundo o Ensino Médio, da poesia.

A diferença fundamental, além do fato de que o livro de Rupi se demonstrou como de maior relevância para seu público, agregando valor até de mercado, é que enquanto nos poemas do presidente nós encontramos um eu lírico que teme (!) revelar demais sua intimidade, no que o uso de poemas curtos acaba sendo um modo de amputar os veios emocionais com pitadas de mistério como se a carapaça do eu lírico fosse um esconderijo que validasse a “anônima intimidade” do título, e que diz respeito menos ao poeta do que ao leitor que, anônimo, vindo de todos os cantos, onipresente e sem rosto, deixa o escritor apreensivo diante da intimidade possivelmente estabelecida pelos textos, afinal de contas o leitor anônimo poderia devassar sua vida íntima em níveis que fugiriam do controle da voz enunciadora (o que, como sabemos quando se lida com políticos, pode representar a ruína); se com os poemas do presidente é assim que funciona, com Rupi Kaur nós temos um procedimento mais direto, onde o eu lírico sente a garra dos preconceitos ou dos relacionamentos abusivos ou de qualquer outra coisa que lhe ampute e, à medida que rechaça este passado e presente traumáticos, constrói uma individualidade cada vez mais forte, não a partir da proclamação expansiva e whitmaniana, digamos assim, de um Eu que suplanta tudo e a tudo abarca, mas sim num processo menor de curar as feridas e aceitar partes de si mesma que até então eram menosprezadas, a exemplo do que a aceitação do próprio corpo feminino, longe das idealizações mercadológicas e próximo de algo que é ferido, sente prazer e sangra, consegue demonstrar.

Com isto nós notamos que a intimidade da poesia da autora é distinta do temê-la e até mesmo do concebê-la caseiramente qual se fosse propaganda de margarina. Esta última diria respeito à chamada poesia caseira ou familiar, que esteve muito em voga no início do século passado e que encontrou no país cultores notáveis como Mário Pederneiras ou Guilherme de Almeida. Guilherme, aliás, chegou a traduzir um livro do poeta francês Paul Géraldy, Eu e você, onde as situações íntimas, miúdas e extremamente prosaicas são postas na ribalta. Num deles, chamado “Abat-jour”, o eu lírico chega pertinho da sua amada e pede pra que desliguem a luz do abajur para, vocês sabem…

Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!…
Mas quem está aí? Ah! a criada
que traz o café… Não podia
deixar aí mesmo? Não importa!
Pode ir-se embora!… E feche a porta!…
Mas o que é mesmo que eu dizia?

Consegue imaginar algo mais prosaico do que isso? Os dois quase no rala-e-rola e então a criada chega atrapalhando. Tudo em tempo real, revelando a intimidade não apenas de dois namorados que se preparam para a transa mas de uma casa onde o café ferve no bule. Não é assim que funciona? A visita chega e quer forrar o estômago. Pede-se pra criada que faça o café. Os dois vão pra cima, conversar miúdo e ranger as molas do colchão. Mas e o resto do mundo? Paralisou? Claro que não: e por isso prosaico, e por isso íntimo.

Com Rupi Kaur, porém, a intimidade é distinta. É a intimidade de, levantada a coberta, a mancha vermelha saltar aos nossos olhos, é a intimidade de falar de um assunto levantando a camisa e também mostrando as cicatrizes. Não é que ela se limite ao puramente privado, o privado a ponto do leitor se sentir como quem bisbilhota, mas sim que busque chegar àquela área da vida íntima que o preconceito ignora, veda ou rechaça. Sua poesia pelo jeito se passa facilmente como frase de efeito ou como um tipo feminista de auto-ajuda, mas somente o faz à maneira de uma flecha que perfura o concreto até chegar a seu público como uma forma de alento. Se no poema de Géraldy ele nos mostra que na vida real terceiros entram e atrapalham o banho de lirismo, Rupi Kaur se preocupa com o que se infiltra nos lençóis freáticos da sociedade. Naquele que é talvez o poema mais forte do livro, ela diz:

o estupro
vai te rasgar
ao meio

mas
não vai ser
o seu fim

E aqui nós tocamos em pontos importantes. O primeiro é o de que o livro realmente se presta muito bem à causa do empoderamento feminino, o que é visto de forma admirável num poema como o que acabei de citar. Mas ele também mostra que os temas abordados por Rupi Kaur, temas como por exemplo de relacionamentos abusivos, são temas que dificilmente seriam tratados por homens. Não que homens estejam impedidos de falar disso. Ei, caras, qual é, eu jamais defenderia algo do tipo. Somos uma irmandade. Não vou dar o braço a torcer para essas malditas feministas, pelo menos não depois que elas roubaram meu sorvete de casquinha. É só que… Ninguém nunca nos impediu, não é mesmo? A gente sempre pôde. Claro que pôde, ô se pôde. E no entanto… Por que quase não se trata disso? Não existe? Ou tudo o que existe são metáforas que falam da vagina da mulher como espécie de floricultura mística?

É uma maneira interessante de abordar o assunto. O empoderamento dos poemas de Rupi Kaur me parece fazer com que eles deixem de lado alguns dos aspectos mais prezados do que chamamos de Discurso Poético em prol de um papo reto com seu público leitor, o que é facilmente notado pelas constantes referências a um “você” na maior parte dos casos feminino. Isso já é algo perceptível na produção dos chamados instapoets, escritores que alcançaram um número vertiginoso de acessos em suas páginas nas redes sociais. Outros nomes incluem Lang Leav:

ENCERRAMENTO

Feito o tempo em aberto
e ferimento aberto ―
você perto de mim.

Não dissemos adeus,
não tivemos um fim;

E eu vou sempre indagar
por que é que foi assim.

CLOSURE.

Like time suspended,
a wound unmended ―
you and I.

We had no ending,
no said goodbye;

For all my life
I’ll wonder why.

 

E Tyler Knott Gregson (“Eu escrevo temas e fotografo coisas e vou pra lugares e vejo pessoas”, diz seu perfil):

   Ninguém

o mundo
que nem nós,
Ninguém
vai apreciar
o peso
de outra
mão
na nossa
mais
que nós.

No one
sees
the world
how we do,
No one
will appreciate
the weight
of another
hand
inside ours
more
than we.

No Brasil poderíamos pensar em algo do tipo se tomarmos como base páginas como Eu me chamo Antônio ou Pó de Lua, onde não apenas a rede social muda como uma leitura do passado poético imediato do país leva a soluções formais e literárias distintas, de modo que enquanto os poemas de Rupi parecem se nutrir muito da experiência da chamada poesia confessional, no caso das páginas brasileiras encontramos jovens que usam e abusam de efeitos trocadilhescos e paranomásicos que nos remetem de pronto à prática da poesia marginal. Tudo, gosto de às vezes imaginar, amarrado por uma preocupação em romper as clausuras da vida contemporânea, em estilhaçar as paredes de vidro das redes sociais e com isto evidenciar que ainda somos capazes de tocar o coração do outro, como se a verdadeira mensagem fosse algo que não se expressa com textos imensos e padronizados nem com fotos de casais sorridentes. Os poemas de Rupi são especialmente hábeis neste sentido, em mostrar como a roupagem de uma vida normal ou feliz pode servir de pesada túnica que imprime sofrimento para aquela pessoa.

E é pensando a popularidade dos poemas da autora que não apenas o apontamento de que podem ser transportados em outros veículos, alguns até mesmo não adaptados para conteúdos poéticos, haja vista que a comunicação nas redes sociais demanda muitas vezes que ilustrações sirvam de acompanhamento e modifiquem a disposição do original a fim de que a postagem acumule uma cordilheira de curtidas; não apenas tal apontamento como, ainda, o de que a poeta de algum modo reduz a distância implícita ao conceito de eu lírico e fala para o leitor de maneira mais direta, sem, portanto, aquele embate entre fingimento e sinceridade que marcou a poesia de uma Ana C. Em Rupi Kaur um filete de sangue sempre escorre pela gengiva, e a leitora que encontra seus textos ou que principalmente acessa sua página numa rede social sabe que aquele poema sai de uma mulher que se comunica diretamente com ela, uma mulher que olha nos seus olhos e diz ter uma mensagem muito importante ― e prova disso é encerrar o livro com um texto chamado “uma carta de amor de mim para você”, onde agradece ao leitor “por ter cuidado com o que há de mais delicado em mim”.

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Isso por óbvio leva a autora a reduzir a densidade semântica ou poética de seus textos a fim de que flerte com um tipo de construção textual que talvez nem seja mesmo poesia e sim algo muito mais próximo da confissão. Isso vai depender da disposição do leitor, e não acho que quem negue o status de poético para muitos textos de Rupi Kaur esteja por conseguinte fornecendo uma leitura ruim deles. Eu diria até que considerá-los o tempo todo como poemas pode atrapalhar: poemas, quando estabelecem uma relação de intimidade com o leitor, estabelecem de forma faceira, gingando de lá pra cá sempre dando a entender que pode não ser bem assim. Seja como for, existem formas artisticamente mais refinadas de pensar a mensagem empoderadora de Rupi Kaur, a exemplo do que podemos enxergar na poesia de uma Angélica Freitas, que passa o cutelo da sátira na pedra de afiar da alta cultura, ou mesmo de uma Adelaide Ivánova, que escreve poemas como quem planta uma bomba-relógio. O que não se pode negar é que a poesia da norteamericana emite uma mensagem que repercutiu de forma positiva no cenário estadunidense, espanhol e agora brasileiro, a exemplo do que as resenhas em vídeo de personalidades como a Jout Jout atestam. E embora eu realmente não tenha gostado do livro, não posso negar que é bom, muito bom que tenha acumulado um valor assim.

Matheus Mavericco

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poesia

Maíra Dal’Maz

maíra

Maíra Dal’Maz, Rio Grande do Norte ou Pará, 1991, professora e pesquisadora na área de educação, tem dois zines publicados com amigos (“doze olhos ou terceira miopia” e “sedenta”), participou de uma coletânea de poemas publicada pela UBE – RN. Mais textos podem ser encontrados no blog Vortex de catatonia.

***

I

como fosse domínio do homem
o pico do cabugi, ou qualquer dos pontos altos da terra
e como se não fosse dar jeito na vida do homem
ela cai e é soterrada como pedrinha que se descola
ou qualquer matéria desgarrada que deve ficar ao chão
jamais no alto

e eu imagino quantas vidas foram para que o pico do cabugi tomasse a forma
desse projeto de vulcão que nunca sofreu
com o ar quente dos gêiseres
ou o cheiro de enxofre que vem do desconhecido
mas o cheiro confundido com os das tantas raposas sem vida no acostamento
saindo do jovem displicente antagonista das recomendações “não vá”

como se fosse, portanto, domínio do homem
superar a natureza da mulher selvagem que recolherá
os ossos
na base do vulcão-pedra no deserto do sertão, onde os canos de adutoras distraem o passante, e cantará
para seus humores voltarem a correr ao redor
não do pico, mas dos corações parados em volta de um morro
com formato de seio

o morro, o bicho morto e a mulher:
domínios por si, nunca do homem

§

 

II

dedicatórias

*

para B.

abastado de mal entendidos o homem que morreu
cuja a pele eu conheço doutros tempos
pele desatada
munida
de oleosidade natural
macia
marcada
feito a dos homens que precederam meu pai

*

para M.

ainda aquele colar de prata com lápis-lazúli
ou qualquer azul que te não te demovam os olhos-opressores
por analogia teus olhos multiplicam-se sobre o teu torso e orelhas,
como brotoejas
em excesso:
lembretes de castigos em couraças negras

*

para H.

escrevi no quadro negro da cozinha algumas urgências
prevendo uma busca incessante de palavras novas
ou riscos nas casas desconhecidas próximas ao baldo
pedindo que me ligue, por favor, me ligue
ou acenda na escuridão aquele canudo de pólvora
e natureza
para que possamos dormir

§

 

III

lembranças do baldo

dezessete horas reaberto:
lembro-me da noite em que chovia

depois de alguns sambas
do alto do viaduto do baldo interditado
a vista do front:

travessia, libido, inconsciência

lembro-me, ainda,
dos fogos de artifício sempre ouvidos desde que não conhecia o outro fogo
embalados em caixas de papelão

com orientações:
“7 tiros” ou “12 tiros”

na cervical estremecida
da minha cachorra hoje

hoje:
baldo livre

de quem?

§

 

IV

lendo chaya, a mulher que só tinha o nome e o karma sifilítico desviado
e sendo exposta a todo esse íntimo
à luz, com pressa de se colocar pensando
e descrevendo o não-ser
ou o ser lírico que fala só dos aflitos

eu, tentando escrever um poema que fosse
lido como música e que me mostrasse poeta
de sentimentos e angústias

(eu, frustrada com meu poema
sem imagens
sem conseguir ver além de)

baratas, cemitérios e sonhos com embates meus e um red nose na rua do baldo
só penso nas unhas da embaladora do supermercado
e como elas devem estar nos poemas

mãos-suspense

toda embaladora de presentes tem as unhas longas,
pintadas com glitter sobre algum tom róseo

que ditam a maestria dos usos de durex
tal qual todas que embalaram os brinquedos da minha infância

e hoje embalam sagatibas ouro

§

 

V

“Violinos: seda encrespada, queixas de mulher à noite sozinha.”
(M. Darwish)
“…esta noche angustiosa
llena de dualismos”
(A. Pizarnik)

consummatum est:
solidão em qualquer não-litoral
e por quando passo trêsquatrocinco dias
componho o hábito teu

esquartejo as frutas
recriando teu vulto na cozinha

eu como,
pelo menos,
tua sombra

§

 

VI

perdi as contas da quilometragem
toda rodada na vida

nessa perda, criei parâmetros
como o da textura dos asfaltos ou barro
que levam a três pontos da rosa dos ventos

como reverberam com o corpo sentado,
o movimento dos seios quando os buracos
as instabilidades do assento

a fricção da calça jeans no clitóris

(o prazer num ônibus velho rodeado do desconhecido)
as rodas dos automóveis, novas,
ou o desalinho

e conheço todos os postos de gasolina,

onde tomei os piores cafés, até perder este hábito
ou os grandes galpões-facções

e coloquei entre meus dedos tantos cigarros imaginários enquanto só
para não voltar ao hábito

fumei o ar

e senti
o cheiro de carniça quantas vezes
dos animais mortos na beira da estrada

e na estrada,
as desconversas
os desvios:

perdi as contas dos esquecimentos
mas algo sobra
não sei o quê

§

 

VII

sentir a permissão para alcançar uma emoção
coisa há muito esquecida
nas paixões e seus ímpetos de objetos quebrados,
como os vasos lançados das janelas,
acender o círio d’um santo
e rezar longas preces a essas paixões descuidadas:

o que entocam os poetas no cano que leva o fundo
dos seus vasos de banheiros sujos
depois de cervejas, cigarros e som?

sentir a permissão de jogar o corpo na estrada, ir até…
voltar a si e negar o arremesso

mas só depois do desvario
de quando sílvia me fala

§

 

VIII

contorno

dentre as principais coisas observáveis
com tamanho agrado estão:
o céu, a estrada vazia, os olhos dos meus cachorros
e o desenho do seu perfil

[lembro-me no teatro
como por minutos esqueci de dos amores y un bicho
e senti pela minha coluna todo o júbilo e lisonja
quando vi de tão perto o seu perfil]

investigava-o para chegar a isso
esse esquecimento dos tempos de guerras:
eu olhava todas as suas metades

era para isso, para encontrar todas as coisas observáveis com agrado
que eu flanava por todas as suas metades
pelas veias, por um ombro

mas, diferente do cavalheiro de Shalott:
[talvez ache, também, que gosta de se reajustar]
half is not enough

§

 

IX

oferenda

o fenômeno da fome
da mãe dos que nascem peixes
reduto de colo
recato de cor escura
um lar: todo negro

mania de anaeróbio
que costumo levar

o que costumo soltar:
o canto que apenas uns desatentos
uns passantes

um canto no vácuo

coágulo de ar:
três minutos de morte
brilho azul das vestes
odoyá

§

 

X

deitar-se
em decúbito ventral
tendo à vista
um livro-grão
uma flor no pensamento

a flor se abre

(uma pupa amadurece)

deitar-me
e ter com o livro-pólen
o estame:
pequeno filho

sempre que sou outra
deito-me com esse tipo

***

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poesia, tradução

Denise Levertov, por Mariana Basílio

Denise

Denise Levertov (1923 – 1997) foi poeta, escritora e tradutora inglesa, naturalizada nos Estados Unidos e ligada à Geração Beat.

Atualmente traduzo algumas das principais poetas americanas do século XX. Escolhi Denise Levertov para essa colaboração por dois fatores: primeiro, uma intensa ligação que sinto com a poeta no presente, além da mesma ser pouco conhecida no país. De traduções já realizadas da autora, encontrei uma anterior por aqui, por Stefano Calgaro, assim como outra na revista Zunái, feita por Ruy Vasconcelos, e por último, no Jornal Rascunho, por André Caramuru Aubert.

A escolha dos poemas aconteceu a partir de minha leitura dos seus livros, incluindo The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).  São livros que trazem conceitos marcantes da poética de Levertov, com imagens intensas e associações entre o ser, o seu local e a natureza das coisas, também explorando o momento de transição da sociedade na década de 60, incluindo sua constante práxis no feminismo.

Em relação à tradução, busquei uma equivalência em nossa língua para a dicção e o vocabulário da poeta, procurando valer-me de seus recursos e reproduzir a sonoridade do verso livre inglês sem comprometer o sentido, explorando a capacidade fluídica e o impacto de suas palavras.

 Mariana Basílio

***

Quatro poemas dos livros The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).

 

SALMO RELATIVO AO CASTELO

Deixa-me estar no lugar do castelo.

Deixa o castelo estar dentro de mim.

Deixa que ele se eleve firme do anel do fosso.

Deixa que as águas do fosso reflitam a verde plumagem dos patos, deixa que os cascos das tartarugas rompam a superfície ou sejam vistos através das profundezas ondulantes.

Deixa a cavalaria postada nas bordas do fosso, e um cachorro, sempre alertas à chegada do sono.

Deixa que o espaço embaixo do primeiro piso seja escuro, deixa que a água envolva os pilares de pedra e que o vívido lodo verde neles cintile; deixa que lá fique um bote.

Deixa que as cariátides do segundo piso sejam ursos sustentados por vigas que sejam dragões.

No parapeito do salão central, deixa quatro arqueiros, olhando aos quatro horizontes. Dentro, deixa que o príncipe se sinta em casa, deixa-o sentar pensativo, em paz, todas as janelas abertas para as lógias.

Deixa que a jovem rainha se sente no alto, no ar fresco, seu filho nos braços; deixe-a ver com alegria o grande círculo, as sombras peregrinas, o labor do sol e o folgar do vento. Deixa-a caminhar de lá para cá. Deixa as colunas sustentarem o telhado, deixa que os pisos sustentem as colunas, deixa um espaço escuro embaixo do piso mais inferior, deixa que o castelo se eleve firme do fosso, deixa o fosso ser um anel e suas águas serem profundas, deixa que os guardiões o guardem, deixa que hajam vastas terras ao seu redor, deixa que o campo onde ele esteja fique dentro de mim, deixa-me estar onde ele estiver.

 

PSALM CONCERNING THE CASTLE

Let me be at the place of the castle. 

Let the castle be within me. 

Let it rise foursquare from the moat’s ring. 

Let the moat’s waters reflect green plumage of ducks, let the shells of swimming turtles break the surface or be seen through the rippling depths. 

Let horsemen be stationed at the rim of it, and a dog, always alert on the brink of sleep. 

Let the space under the first storey be dark, let the water lap the stone posts, and vivid green slime glimmer upon them; let a boat be kept there. 

Let the caryatids of the second storey be bears upheld on beams that are dragons. 

On the parapet of the central room, let there be four archers, looking off to the four horizons. Within, let the prince be at home, let him sit in deep thought, at peace, all the windows open to the loggias. 

Let the young queen sit above, in the cool air, her child in her arms; let her look with joy at the great circle, the pilgrim shadows, the work of the sun and the play of the wind. Let her walk to and fro. Let the columns uphold the roof, let the storeys uphold the columns, let there be dark space below the lowest floor, let the castle rise foursquare out of the moat, let the moat be a ring and the water deep, let the guardians guard it, let there be wide lands around it, let that country where it stands be within me, let me be where it is.

§

A DOR DO MATRIMÔNIO

A dor do matrimônio:

coxa e língua, amado,
carregam seu peso,

que pulsa nos dentes
Buscamos comunhão

e somos rejeitados, amado,
todos e cada um

É leviatã e nós

em seu estômago
atrás de alegria, alguma alegria
inconcebível fora dele

de dois a dois na arca

dessa dor.

THE ACHE OF MARRIAGE

The ache of marriage:

thigh and tongue, beloved, 
are heavy with it, 
it throbs in the teeth

We look for communion
and are turned away, beloved, 
each and each

It is leviathan and we 
in its belly
looking for joy, some joy 
not to be known outside it

two by two in the ark of 
the ache of it.

§

CANÇÃO DE AMOR 

Tua beleza, que uma vez perdi de vista

por longo tempo, é longa,
não simétrica, e veste

as cores terrosas que me fazem vê-la.

Uma longa beleza. Que é isso?
Uma canção

que pode ser cantada uma e outra vez
longas notas ou longos ossos.

O amor é uma paisagem que as longas montanhas
definem mas não

separam da

distância imperceptível.
No outono, no outono,

tuas árvores esticam
seus braços longos em mangas

de vermelho terra e
amarelo céu, um pouco
podadas. Eu dou

longos passeios por eles. As uvas
que precisam de geada para amadurecer

são âmbar e crescem profundas na
sebe, meio ocultas,
como tua beleza cresce em longas gavinhas

meio na escuridão.

LOVE SONG 

Your beauty, which I lost sight of once
for a long time, is long,
not symmetrical, and wears
the earth colors that make me see it.

A long beauty, what is that?
A song
that can be sung over and over,
long notes or long bones.

Love is a landscape the long mountains
define but don’t
shut off from the
unseeable distance.

In fall, in fall,
your trees stretch
their long arms in sleeves
of earth-red and

sky-yellow, a little
lop-sided. I take
long walks among them. The grapes
that need frost to ripen them

are amber and grow deep in the
hedge, half-concealed,
the way your beauty grows in long tendrils
half in darkness.

§

OS ELFOS

Os elfos não são menores
que os humanos, e caminham
como os humanos fazem, nesse mundo,
mas com mais graça que a maioria,
e não são imortais.

Sua beleza os separa
dos demais homens e mulheres
a menos que uma mulher tenha aquele fogo frio em si

chamado poeta: com isso
ela pode vê-los e por sua luz

eles a conhecem e não a temem

e prateadas línguas de amor
cintilam entre eles.

THE ELVES

Elves are no smaller
than men, and walk
as men do, in this world,
but with more grace than most,
and are not immortal.

Their beauty sets them aside
from other men and from women
unless a woman has that cold fire in her
called poet: with that

she may see them and by its light
they know her and are not afraid
and silver tongues of love
flicker between them. 

***

 

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras. Aqui no escamandro já apareceu quatro poemas. Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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tradução

David Diop (1927-1960), por Lucas Perito

david2bdiop

David Léon Mandessi Diop teve uma vida curta: nasceu em 1927, em Bordeaux, França e morreu em 1960, aos 32 anos, em um acidente de avião na costa do Senegal. Diop, uma promessa da poesia francesa de ascendência africana, é considerado o mais revoltado dos poetas do movimento Négritude.

Filho de pai senegalês e mãe camaronesa, Diop passou a infância em hospitais devido à sua saúde frágil. Homossexual, mantinha a sua sexualidade reprimida a ponto de ter tentado se suicidar.

Sua poesia é fortemente marcada pela raiva e o protesto contra os valores europeus. Sua obra é baseada em um único livro (lançado ainda em vida), “Coups de Pilon” em que seus poemas passam pelo sofrimento do negro desde os tempos da escravidão, pela dominação colonial e a condição do negro no século XX, em uma sociedade marcada pelo racismo e pelos valores da cultura europeia, e termina com um chamado à luta do povo africano.

Sua escrita ocorre principalmente no período em que muitas das colônias africanas lutavam pela independência e os conflitos estavam no auge. Vivendo nessa dicotomia entre ser francês, mas sem perder as raízes de seus antepassados, Diop viu os dois lados desse conflito, vivendo boa parte da sua vida na França e tendo sido professor no Senegal e, posteriormente, em Guiné – atendendo ao apelo de Sékou Touré, primeiro Presidente de Guiné, se junta ao PAI (Partido Africano de Independência) e assume a função de diretor da Escola Normal.

Seus primeiros poemas saíram em uma das revistas mais importante para o movimento Négritude, “Présence Africaine” e sua obra tem grande influência de Aimé Césaire e Léopold Senghor, que foi, inclusive, seu professor na faculdade e que publicou, em 1948, alguns de seus poemas no livro “Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française”.

Abordar o trabalho de David Diop tem como intuito, não só apresentar um poeta menos conhecido do movimento em questão, como também chamar a atenção para um trabalho que se mostra ainda atual. A escolha por estes três poemas baseou-se em sua representatividade no conjunto da obra do autor, pois apresentam três pontos da condição do negro na história: o racismo que remonta ao Code Noir, no primeiro poema; a luta contra a opressão, no segundo e o passado africano na busca por conhecer suas raízes e a partir delas redefinir o mundo em que se vive.

lucas perito

* * *

Un blanc m’ a dit…

Tu n’es qu’un nègre!
Un nègre!
Un sale nègre!
Ton coeur est une éponge qui boit
Qui boit avec frénésie le liquide empoisonné du vice
Et ta couleur emprisonne ton sang
Dans l’éternité de l’esclavage.
Le fer rouge de la justice t’a marqué
Marqué dans ta chair de luxure.
Ta route a les contours sinueux de l’humiliation
Et ton avenir, monstre damné, c’est ton présent de honte.
Donne-moi ce dos qui ruisselle
Et ruisselle de la sueur fétide de tes fautes.
Donne-moi tes mains calleuses et lourdes
Ces mains de rachat sans espoir.
Le travail n’attend pas!
Et que tombe ma pitié
Devant l’horreur de ton spectacle.

Um branco me disse…

Tu não passas de um negro!
Um negro!
Um negro sujo!
Teu coração é uma esponja que bebe
Que bebe com frenesi o líquido envenenado do vício
E tua cor aprisiona teu sangue
Na eternidade da escravidão.
O ferro vermelho da justiça te marcou
Marcou sobre tua carne de luxúria.
Teu caminho tem os contornos sinuosos da humilhação
E teu futuro, monstro danado, é o teu presente vergonhoso.
Dá-me esse dorso que escorre
E escorre suor fétido de tuas faltas.
Dá-me tuas mãos calejadas e pesadas
Essas mãos adquiridas sem esperança.
O trabalho não espera!
E que caia minha piedade
Frente ao horror de teu espetáculo.

§

 

Défi à la force

Toi qui plies toi qui pleures
Toi qui meurs un jour sans savoir pourquoi
Toi qui luttes qui veilles sur le repos de l’Autre
Toi qui ne regardes plus avec le rire dans les yeux
Toi mon frère au visage de peur et d’angoisse
Relève-toi et crie: NON

Desafio à força

Tu que te curvas tu que choras
Tu que morres um dia sem saber por quê
Tu que lutas que velas sobre o repouso do Outro
Tu que não vês mais com o sorriso nos olhos
Tu meu irmão a face do medo e da agonia
Levanta-te e grites: NÃO

§

 

Afrique

À ma mère.

Afrique mon Afrique
Afrique des fiers guerriers dans les savanes ancestrales
Afrique que chante ma grand-mère
Au bord de son fleuve lointain
Je ne t`ai jamais connue
Mais mon regard est plein de ton sang
Ton beau sang noir à travers les champs répandu
Le sang de ta sueur
La sueur de ton travail
Le travail de l’esclavage
L`esclavage de tes enfants
Afrique dis-moi Afrique
Est-ce donc toi ce dos qui se courbe
Et se couche sous le poids de l’humilité
Ce dos tremblant à zébrures rouges
Qui dit oui au fouet sur les routes de midi
Alors gravement une voix me répondit
Fils impétueux cet arbre robuste et jeune
Cet arbre là-bas
Splendidement seul au milieu des fleurs blanches et fanées
C`est L’Afrique ton Afrique qui repousse
Qui repousse patiemment obstinément
Et dont les fruits ont peu à peu
L’amère saveur de la liberté.

África

À minha mãe

África minha África
África de orgulhosos guerreiros das savanas ancestrais
África que canta minha avó
À beira de seu rio distante
Eu nunca te conheci
Mas meu olhar é pleno de teu sangue
Teu belo sangue negro através dos campos difundido
O sangue de teu suor
O suor de teu trabalho
O trabalho da escravidão
Escravidão de tuas crianças
África diga-me África
É portanto teu esse dorso que se curva
E se deita sobre o peso da humilhação
Esse dorso trêmulo a listras vermelhas
Que disse sim ao chicote nos caminhos do meio dia
Então gravemente uma voz me respondeu
Filhos impetuosos esta árvore robusta e jovem
Aquela árvore lá
Esplendidamente só no meio das flores brancas e desbotadas
Esta é a África tua África que renasce
Que renasce pacientemente obstinadamente
E cujos frutos têm pouco a pouco
O amargo sabor da liberdade.

 

* * *

Lucas Perito nasceu em São Paulo, em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses.

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poesia

Carina Castro

fotografia: luís bahú

Carina Castro (SP, 1988) é poeta, pesquisadora e artivista cultural. É autora do livro de poesia Caravana (Editora Patuá, 2013). Se dedica também aos textos para crianças e jovens, ganhou o Prémio Lusofonia de Portugal (2012) na categoria conto infantojuvenil; de lá pra cá muitos textos engavetados, alguns publicados em revistas digitais e antologias diversas, entre elas a mais recente É agora como nunca (Cia das Letras, 2017). Com Deborah Erê criou o selo de publicações independentes & intervenções gráfico-poéticas Selenitas. É idealizadora e atuante no coletivo de feminismo, arte-educação & infância Espaço Marciana. Atualmente escreve seu próximo livro e ministra oficinas de criação literária para mulheres e crianças. Seus textos e trampos podem ser encontrados internet afora no blog: Tudo é Coisa  e nas páginas: Caravana – poéticas de Carina Castro & Selenitas

***

afiadas

bem sabemos manusear facas
nem sempre na cozinha, meu bem
também riscamos chão
pontiagudas
lâminas afiadas
embainhadas na coragemedo
nem sempre armas brancas

afiamos a língua na pedra
estirada qual kali
mais cortante que a aresta do papel
aveludado capim cidreira
vento frio da madrugada
e o inconfundível sabor
que vem a boca

não mais delírios de buñuel
no brilho que espelha
confunde cegueira tua
rasgar de raios ou lancinante mirada?
§

SPIRITUAL

te aceno do outro lado da margem
mas não sei como transpor esse
rio
de palavras
ditas não ditas
vez ou outra versadas

engulo o choro

pra molhar a garganta
pra desfazer o nó(dulo
molhar por dentro

brota em mim uma delicadeza
bruta
e enquanto cresce corpo acima
caminho sobre as águas

§


IN DOLOR

tem dores que latejam
juntinho do osso
e aprendemos a sorrir
mesmo assim
gengiva exposta
falta chorar
de rir
mostro os caninos
quando desestruturada
a gente fica sem cara
e aquela dor canina
insiste
a gente
insiste também
sem anestesia
sente fundo a dor até não sentir mais
espinha ereta
nadamos do âmago
ao mar aberto
até que possamos levitar

e carregar os próprios ossos

 ***

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tradução

Najwan Darwish (1978-), por Thiago Ponce de Moraes

Najwan Darwish, Žcrivain, Bruxelles, mars 208

Foto: Veronique Vercheval

Najwan Darwish (Jerusalém, 1978 –) é um dos mais destacados poetas de língua árabe de sua geração. Darwish vem conduzindo muitos projetos artísticos, entre os quais o Festival Palestino de Literatura se destaca. Em 2009, fundou uma editora em Jerusalém, responsável pelo jornal pan-arábico Al-Araby, onde é editor chefe nas seções de artes e de cultura. A poesia de Najwan Darwish é influenciada pelas tradições arábicas e ocidentais, tanto clássicas quanto modernas, bem como pela poesia sufi. Ele explora temas como a fé, o poder e o trauma para lançar interrogações à história e ao status quo. Sua obra já foi traduzida para mais de quinze línguas e tem sido publicada amplamente em todo o mundo.

* * *

 

 

reserved

“RESERVED”

Uma vez tentei sentar
em um dos assentos vagos da esperança
mas a palavra “reserved”
me encarava como uma hiena

(Eu não me sentei, ninguém se sentou)

Os assentos da esperança estão sempre reservados

 

 

§

 

reserved

 

NADA MAIS A PERDER

Ponha a cabeça no meu peito e escute
às camadas de ruínas
atrás da madraça de Saladin
ouça as casas soterradas
na aldeia de Lifta
ouça o moinho destruído, as lições e leituras
no primeiro piso da mesquita
ouça as luzes da varanda
saírem pela última vez
do alto do Vale da Cruz
ouça a multidão arrastando os pés
e ouça-a retornando
ouça os corpos sendo descartados, escute
a sua respiração no fundo
do Mar da Galileia
escute como um peixe
em um rio vigiado por um anjo
ouça os contos dos aldeões, bordados
como kufiyas nos poemas
ouça os cantores envelhecendo
ouça suas vozes atemporais
ouça as mulheres de Nazaré
enquanto cruzam os campos
ouça o cameleiro
que nunca para de me atormentar
ouça-o
e nos deixe, juntos, lembrar
então nos deixe, juntos, esquecer
tudo o que ouvimos
Ponha sua cabeça no meu peito:
Estou escutando a terra
Estou escutando a grama
Conforme passa pela minha pele…

Perdemos a cabeça no amor
e não temos nada mais a perder

§

 

reserved

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DORMINDO EM GAZA

Fado, vou dormir como as pessoas dormem
quando bombas estão caindo
e o céu se rompe em carne viva
Vou sonhar, então, como as pessoas sonham
quando bombas estão caindo:
Vou sonhar com traições
Vou acordar ao meio dia e fazer à rádio
as perguntas que as pessoas fazem:
O bombardeio acabou?
Quantos foram mortos?

Mas minha tragédia, Fado,
é que há dois tipos de pessoas:
aquelas que jogam seus sofrimentos e pecados
nas ruas para que possam dormir
e aquelas que catam os sofrimentos e pecados das outras
moldam-nos em cruzes e desfilam
pelas ruas de Babilônia e Gaza e Beirute
gritando sem parar
Há ainda mais por vir?
Há ainda mais por vir?

Há dois anos andei pelas ruas
de Dahieh, ao sul de Beirute
e carreguei uma cruz
tão grande quanto as casas destruídas
Mas quem vai levantar hoje uma cruz
das costas de um homem exausto em Jerusalém?

A terra são três pregos
e a misericórdia um martelo:
Ataque, Senhor
Ataque com os aviões

Há ainda mais por vir?

Dezembro, 2008

§

reserved

NÃO ADIANTA

Não adianta se esconder e trancar as portas
Mudar-nos para onde ninguém nos conhecesse
também não adianta
Mesmo que você se lance do precipício
em direção ao abismo
a história
ainda vai se agarrar ao seu nome

§

reserved

AS DUAS ÚLTIMAS FRASES

As duas últimas frases antes de você cair
não exprimem o desejo
de deixar pra trás algum significado
Elas não são nem um adeus
nem uma expressão de esperança
Elas são simplesmente necessárias
para a sua queda

§

reserved

SEM QUALQUER ORIENTAÇÃO

Amanhã nossos filhos vão acordar
sem qualquer orientação
eles são os sobreviventes do futuro:
Por algum milagre do Criador
eles sobreviveram
a todas as tentativas de orientá-los

 

§

reserved

CONTE

Conte-me quem é esse jovem leão
e como ele saltava pelo ar
enquanto o caçavam
de Musrara a Sheikh Jarrah

Conte-me sobre aquele homem magro e bravo
e como um esquadrão inteiro o atacou
no posto de controle de Qalandia
mesmo sem conseguir abatê-lo

Conte-me sobre aquela garota que se manteve firme
enquanto o buldôzer a esmagava
como uma amendoeira em março

Conte isso àqueles
que dizem que fomos derrotados

§

reserved

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NO INFERNO

1

Nos anos 30
ocorreu aos nazistas
colocar suas vítimas em câmaras de gás
Os algozes de hoje são mais profissionais:
Eles colocam as câmaras de gás
nas suas vítimas

2

Para o inferno, 2010
Para o inferno, seus ocupantes, vocês e toda a sua prole
E que toda a humanidade vá para o inferno se for como vocês
Que os barcos e aviões, os bancos e os painéis todos vão para o inferno
Eu grito, “para o inferno…”
sabendo muito bem que
sou o único
que vive lá

3

Então, deixe-me deitar
e descansar minha cabeça nos travesseiros do inferno

 

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poesia

Izadora Xavier do Monte

Izadora Xavier do Monte já teve vários blogs de poemas. Atualmente faz doutorado em estudos de gênero.

twitter.com/bebelarcher

* * *

 náite

Preparem-se todos.
Vou redizer tudo que já disse
e não vou ser a primeira.
Quando me repito, não repito a mim mesma.
Aos domingos, logo antes de dormir,
vou falar de tristeza, de algum filme pretensioso,
ou de cerveja.

E olha que eu nem tenho mais bebido cerveja
porque o álcool só acentua o meu desânimo
Como um domingo líquido e azedo, servido aos sábados.
Por algum, ou o mesmo, garçom mal-humorado.

A certa altura da noite
todos cheiram a cerveja.
É mais ou menos a hora que eu começo a querer ir embora,
até lembrar que estou de carona

E carona é como um casamento – compromisso e espera.

Pelo mesmo caminho, sempre, ele sempre me leva
por isso o espero. Desde sempre, ou para sempre, às vezes parece
Espero-o como se ele mesmo fosse a minha casa.
A espera amanhece em mim um arrependimento, com a noite ainda alta.
Um arrependimento que diz, fala, como tábuas, de obrigações
honrar mãe, não odiar ninguém, não pensar para si mesma:
como é burro aquele menino
ou insuportável aquela garota

não cobiçar

não cobiçar

não vou cobiçar…

Nem os vou pensar irreparavelmente idiotas, a todos, e a mim também.
Enfadada eu tento
uma ou duas conversas, desperdiço-me um pouco
em todas as coisas das quais amanhã vou me arrepender
Essa culpa me lembra, esse cheiro de cerveja, tenho tanto

do que me arrepender

Mas se eu ficasse em casa, esse arrependimento, esse arrependimento também estaria
Esse arrependimento como um sonho, porque desconheço a causa
Não saberia de onde vem, incapaz de curá-lo mesmo em casa

e cumprindo os deveres,

e me esforçando em tudo. Em ignorar ou transcrever esse arrependimento,

ele continua o mesmo, domingo

às cinco para as dez, teclado sujo,

teclas cansadas.

Então vou me repetir, pessoal, mas não me levem muito a sério
não me levem a lugar nenhum
não me chamem para nada.
O que sofro já foi descrito por Bob Dylan no 34o. verso
de uma canção, gravada há muito, desconhecida do público, só
recentemente lançada.

Vou me repetir e não se espantem
Vocês já viram isso acontecer
Nenhum de nós esboçou reação. Como se o lento desgastar de nós mesmos

fosse transmitido

por um canal estrangeiro.

Vou me repetir à exaustão, como festas
e copos de cervejas, para um dia poder dizer
‘se lembra’
e não ter havido nada. O que aconteceu

além de estarmos aqui

e aquelas kaiser sobrando no balde de gelo

porque kaiser é ruim pra caralho?

§

aparecer offline

É impossível estar perfeitamente só.

Com o barulho dos carros na avenida –
alcança os ouvidos como moscas
alcançam os ouvidos, zunindo, como entomóveis, intrometendo-se
pelas portas entreabertas de um quase sono.
Como se não se saber mosca,
ou não se saber carro na avenida
perdoasse a impolidez
de não deixar alguém em paz -,

como a fronha e a escrivaninha
e as duas chamadas não atendidas
não entendem
que é impossível estar
perfeitamente só
quando estar só
é inevitável.

Fechou-se a janela sobre a noite fria
tarde demais. Estava já algo em mim quebrado,
irrestituível.
Como é terrível, terrível
a noite e todos os programas de TV que ela oferece.

Queria estar só,
mas não consigo.
Pensei se haveria, atrás da cortina,
algo que eu já não tenha visto.
Não poderia explicar o que seria
porque, é claro,
nunca vi, o que quer que seja,
parente de maravilhas e paralelepípedos.

Se alguém me chamasse em uma janela
do msn, agora,
não responderia. Nem abrirei a cortina.
Não há emotícone que represente o que eu sinto
nada para demonstrar o conforto imperfeito
da minha solidão.
Talvez
aquela carinha, a amarela,
com as lágrimas
que aparecem e somem,

e voltam a aparecer
e a sumir,
chegue perto de tudo isso, talvez essa carinha seja o
retrato exato de mim,
presa às possibilidades
de uma janela.
Uma janela para algo distante, distante.

Hoje eu não vou sair.
Estou pequena demais
para a noite lá fora.

§

poema feito com o auxílio da wikipedia

eu conto a distância da sua ausência
pelo comprimento das minhas unhas.
Essa manhã, tirando a sujeira que aparece por baixo da borda esbranquiçada,
contei uma semana.

Uma semana desde a sua última chamada, última mensagem
ou antes uma semana desde que a antecipação do encontro
me levou pra dentro do banheiro,
para reduzira as bordas esbranquiçadas a pontas nuas de dedo

– em certos mamíferos, unhas não são garras. Em certos mamíferos, unhas são menores e arrendondadas para facilitar a manipulação de ferramentas

Certos mamíferos tem unhas, não garras, que permitem a manipulação de ferramentas tais como um corta unhas
que corta unhas em antecipação à manipulação de outros elementos –
tais quais o sabão com que eu lavo todos os meus pêlos quando antecipo te encontrar.
A garrafa de argânia não a manipulo com as unhas curtas.
Só quando elas crescem que eu recubro meu corpo de argânia para lembrar teu cheiro sobre o meu.

Tantos homens certamente se lembram das minhas longas garras selvagens
Que agora alegramente podo em dedos macios para te agradar.
Esperando, eu higienizo minhas garras, e contemplo em centímetros de queratina
o negativo de um encontro.

§

moussaka vegana

de repente respiro fundo e em vez de respirar ar a única coisa que respiro é o espaço vazio o espaço no qual você existia e que não existe mais. parece que eu tentei respirar direto do último sopro que saiu do seu corpo

uma manhã de sábado exatamente como essa.

será que foi você mesmo ou fui eu que morri

(um momento me falta ar e eu um momento eu quase sou feliz porque não sei ao certo se foi você ou fui eu que desapareci)

perder não é uma arte elisabete. perder é um trabalho manual é o trabalho de descascar as peles da minha mão que não estavam lá enquanto as peles da sua mão se descascavam até não mais existir até perderem o contato para onde foi o contato da sua mão com as batatas que me alimentavam com meus cabelos com o teclado.

Quando a gente morre, para onde vai todo o nosso amor

só a tia nonoia podia te banhar só ela sabia como.

perder é o artesanato de odiar cada dia

o trabalho de ter que esquecer todo dia                                 pra poder conseguir descascar as batatas na cozinha e dansar na cozinha e me odiar na cozinha porque eu estava esquecendo que você era capaz de morrer antes de você morrer.

mas você não queria ser lembrado

envelhecer é o contrário

perder é o contrário de uma arte e tant mieux tant mieux saber desaperecer saber não ser conhecido saber ser esquecido saber esquecer

tantas gram´ætica scompradas tantas gramaticas

no fim você já não conseguia escrever nenhuma mensagem

(há uma seita secreta do luto, eu li sobre isso em harry potter)

perder é o contrário de uma arte e tant mieux tant mieux saber desaperecer saber não ser conhecido saber ser esquecido saber esquecer

então começo fazendo uma moussaka porque eu esqueci que era isso o que você fazia pra mim nas manhãs de sábado em que você não estava morto

esquecer tão inutil quanto lembrar tão inutil quanto

com batatas e molho de tomate e grão de bico faltou a berinjela é isso, é a berinjela eu esqueci da berinjela como eu esqueci bah voilà c’est raté eu continuo a lembrar de você

minhas mãos descascadas como as batatas eu não quero escrever porque escrever é resistir ao esquecimento e por isso é inutil; como você, quatro livros sobre minha cabeceira são inuteis e como sofrer e batatas são inuteis sempre uma coisa tao intuil quanto a outra sempre uma coisa em frente a outra sempre o impossivel tão estupido quanto o real

existem boas e más razões pra amar alguém?

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Leo Silva

Foto de Lucianna Silveira

Leo Silva tem 22 anos, mora no Santa Filomena – Jangurussu, Fortaleza. É escritor, poeta e fotógrafo. Tem alguns escritos publicados em livros, como: POETAS DE LUGAR NENHUM – SARAU DA B1, e Vozes do Jangu. Faz parte da equipe do Tentalize e escreve aleatoriamente para a página GRITOS ALEATÓRIOS.

Os fragmentos abaixo fazem parte de um ciclo de poemas inéditos; as fotografias integram a exposição  “Simples Cidade – Simplicidade”, quarenta fotos que nos mostram um pouco mais do Jangurussu – suas localidades, rostos, sorrisos & cotocos, olhares & paisagens locais -, bairro periférico de Fortaleza/ Ceará, que abrange oito comunidades que carregam em seus nomes os mártires e os santos que acabam muitas vezes no esquecimento. Leia também o texto de Dani Guerra sobre a exposição na Revista Berro.

SIMPLICIDADE (6)

EM MEIO TERMO

em meio termo,
em meio tempo,
em meio a gente,

[…]
ficamos ali,
contemplando um ponto fixo,

[…]
em meio termo,
no meio tempo,
em meio a gente,

a gente se encolhe,
afasta, e continua a contemplar,
sem jeito,
[…]

 

ESTE NÃO SOU EU,

a gente se encontra por aqui,
a gente se encontra por ali,
todos me olham,
e eu olho todos,
estou em diversos lugares,
[…]
este não sou eu,

[…]

SIMPLICIDADE (4)

Nos corres da vida,
na volta de bike,
aquele suor que rebate todo o corpo,
é como este momento,
[…]

SIMPLICIDADE (37)
uma folga,
descansar,
descansar,
[…] o dia virá//

SIMPLICIDADE (14)

Padrão
crítica, xanto

XANTO| Violáceo, vermelho-sangue, (sobre O martelo, de Adelaide Ivánova), por Gustavo Silveira

xanto o outro nome do mesmo rio.
o mesmo nome de escamandro na ilíada, mas no plano divino.
duplo nome para um só nume,
algo que deriva, aflui,
desiguala-se de si,
como todo rio, para quem o vê
com olhos de heráclito. xanto,
no curso da poesia, pode ser
o rio de pedras claras da crítica (xanthos
também é “amarelo” ou “loiro” em grego),
que desvia, desdobra aprofunda a potência
do poema, realiza e performa
o poema enquanto produz
já outra coisa, deriva
entre ambages.

de agora em diante,
pretendemos apresentar nesta seção da escamandro
uma série de estudos, análises, comentários, resenhas
etc.
críticos
que possam sair
de alguns lugares comuns,
como o mero julgamento
(a famigerada prescrição do que deve ser escrito)
ou a mera descrição
(a enfadonha paráfrase do mesmo)
da poesia. a crítica,
aqui sonhamos,
será metade da arte.

 

escamandro|XANTO

 

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Foto tirada pela própria autora.

Nadie presta atención a estos asesinatos,
pero en ellos se esconde el secreto del mundo.

Roberto Bolaño, 2666

Há na violeta, como eu disse,
um áspero pendor de pedra.
Das pétalas as úlceras
únicas

Marcelo Reis de Mello, Elefantes dentro de um sussurro

 

Armada contra o seu próprio tempo, mas encaixada inapelavelmente dentro dele – conforme se pode ler desde o título do livro que se tem em mãos, e também na epígrafe cuidadosamente colhida em Paul Celan[1]– a poeta Adelaide Ivánova movimenta-se com desenvoltura no território conflagrado que é O martelo (Garupa/2017), seu volume de estreia, um conjunto de poemas que traz para a frente do palco, ao primeiro plano das escolhas formais e da matéria fundamental de cada texto – o estupro, o silenciamento feminino, o desprezo misógino – os mil modos, enfim, da violência que se pratica diariamente contra as mulheres no Brasil e além. Página e palco, texto e cena: não é sem razão que aqui lembro a proximidade não declarada dos poemas da autora com o espetáculo: de certo modo, e em múltiplas direções, há um fio a unir a escrita de Adelaide com a exposição absoluta, a visibilidade total daquilo que , em nossa época, se pode chamar espetáculo, seja na acepção dramatúrgica do termo, seja no deslocamento conceitual promovido pela reflexão de Guy Debord (La société du spectacle/1967). Em primeiro lugar, cabe lembrar que há como que uma encenação permanente nos poemas de O martelo: o sujeito da escrita, a voz feminina que ouvimos a cada instante expõe, representa, coloca-em-ato uma trama de acontecimentos difíceis, na qual o corpo, o mais das vezes o seu próprio corpo, ocupa lugar central. Lembrando, na cama, o amor não consumado (por efeito do trauma? pelo desencontro dos desejos?) ou estendida, em posição desconfortável, numa mesa de procedimentos médicos para a realização de um exame de corpo de delito (uma expressão, uma metáfora, talvez, muito adequada para pensar tantos poemas da autora, e que em “o urubu” organiza todos os sentidos terríveis e irônicos de que essa poesia é feita), é o corpo que se apresenta, erótico ou incômodo, como a imagem deflagradora da poesia, daquilo que ela quer desfazer (saberes, expectativas de gênero, ficções narcísicas, discursos socialmente aceitos) e das sensações e afetos que procura mobilizar.

O corpo. Sua presença é performance – como se sabe, sempre um tipo qualquer de encenação, de gesto estudado capaz de ser várias vezes refeito: a voz que se eleva e constrói nos poemas não trata de representar, no sentido tradicional e comezinho do termo, um corpo reconhecível, autobiográfico, que ali estaria apenas para figurar simbolicamente uma ideia anterior qualquer. Ao contrário, ela – a voz, o texto – cria, no ato mesmo da sua enunciação, o corpo, os corpos de que fala, solicitando a sua concretude para que a operação estética possa se realizar. Esse chamamento ao corpo, da participação direta do leitor no processo que o poema dispara, já começa na capa, vale lembrar: a tinta vermelha que a recobre se desprende ao contato das mãos, sujando, contaminando qualquer um que toque o livro com a cor do sangue, implicando-o, assim, e de modo muito significativo, com a matéria tratada. É uma artimanha desenvolvida habilmente para tragar o corpo para dentro da experiência da leitura, afirmando o lugar decisivo que ele terá mesmo antes da decifração das letras ou da construção das ideias: é a pele mesmo que começa a leitura, em prefiguração. Nesse sentido, como deixar de notar que o vazio desejante, o oco do peito (também e principalmente o vão entre as pernas) que, num poema como “o bom animal”, no qual o lamento amoroso (aqui um exercício bastante próximo das melhores experiências que Ricardo Domeneck vem fazendo, em seus últimos livros, num subgênero que bem poderia se chamar construtivo-confessional) constitui o cerne, só pode ser percebido completamente pelo leitor que, como a poeta, convida ao texto a sua própria carne, seu sexo? Como não perceber, a não ser como atualização infinitamente renovada a cada leitura, a humilhação e o rebaixamento sentidos pela mulher que se expressa, senão repropondo o meu próprio corpo de leitor no lugar impossível daquele outro, exposto e indefeso, cercado como se num campo de batalha?

 

o urubu

corpo de delito é
a expressão usada
para os casos de
infração em que há
no local marcas do evento
infracional
fazendo do corpo
um lugar e de delito
um adjetivo o exame
consiste em ver e ser
visto (festas também
consistem disso)

deitada numa maca com
quatro médicos ao meu redor
conversando ao mesmo tempo
sobre mucosas a greve
a falta de copos descartáveis
e decidindo diante de minhas pernas
abertas se depois do
expediente iam todos pro bar
o doutor do instituto
de medicina legal escreveu seu laudo
sem olhar pra minha cara
e falando no celular

eu e o doutor temos um corpo
e pelo menos outra coisa em comum:
adoramos telefonar e ir pro bar
o doutor é uma pessoa
lida com mortos e mulheres vivas
(que ele chama de peças)
com coisas.

(IVÁNOVA, 2017)

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Foto tirada pela própria autora.

O poema em tela, com suas aves de rapina, a indiferença à agressão sofrida e mesmo as disputas entre os registros linguísticos utilizados – a fala direta e coloquial do relato contra o código jurídico e seus gestos frios, a coisificação distanciada que implica (“ele chama peças” às mulheres que têm de fazer o exame constrangedor) – faz do ato da leitura, mais do que nunca, uma forma de presentificar pela repetição, como numa espécie de ritual macabro, a violência invasiva que se apodera do corpo feminino: seja no momento da violação, aqui uma referência deslocada mas perceptível, seja a do procedimento clínico desumanizado, sem qualquer traço de acolhimento, que acaba por repetir e reforçar, em roupagem diversa, o fato brutal[2]. Como lembra Paul Zumthor em Performance, recepção, leitura (2007), o ato performático visa repetir, ritualizando-a, uma determinada ação de valor simbólico. A atualização continuada amplia o seu sentido, retirando da banalidade cotidiana aquilo que, pela força mesma da sua presença refeita a cada novo giro, deveria existir e ser notada de modo especial. O aspecto negativo, portanto, do dispositivo performático do poema de Adelaide se faz notar de imediato, uma vez que não há sacralização alguma, não há repetição que se faça por prazer ou valor, mas iterabilidade nauseante, insuportável, que emula o efeito perverso da continuidade da violência, além de recordar, de maneira direta e crua, aquilo que parece invisibilizado pelo hábito e pelo pacto ideológico que informa a relação entre sexo, poder e força numa sociedade como a nossa.

Se a exposição da violência que submete o corpo (e o desarranja) se representa no poema como encenação grotesca de um corpo em meio aos mecanismos terríveis do aparato jurídico-policial (e outros textos da série como “o gato” e “a porca”, contidos na seção inicial do livro, trazem à tona outros ambientes como a delegacia e a corte, nos quais, como na antessala do hospital, a mulher encontra-se sozinha, em descrédito), será também por meio da espetacularização do corpo e do desejo que a lógica violenta da exclusão e do estupro começa a ser desfeita no livro. Não me refiro, claro está, apenas ao questionamento crítico e mesmo à denúncia da barbárie da violação e de toda a cultura que a cerca, protege e reproduz: n’O Martelo, os poemas de Adelaide, muitos deles, utilizam-se da ironia e do estranhamento como forma de criar um contra-discurso capaz ao mesmo tempo de lembrar os danos sofridos e revelar as engrenagens que o fazem funcionar. Para dar conta de um contexto extremamente violento, a linguagem, os modos de enunciação, a cadeia metafórica perseguida (ligada, como antes ficou dito, às imagens do universo zoomórfico e ao imaginário da guerra e do combate) são igualmente violentas, devolvendo, como num processo de apropriação e enfrentamento que lembra muito o melhor de Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas, a substância dura e cruel com que o mundo patriarcal é feito. Apesar de esse ser um traço decisivo do livro de Adelaide, penso que no seu interior se elabora (e é de fato de elaboração que se trata aqui, em sentido psicanalítico) um outro processo de resposta à agressão misógina: a afirmação confessional e espetacularizada (para o sujeito da escrita, nunca para uma projeção qualquer da autora) do desejo sexual, dos fetiches de um encontro que mal se realiza, apesar da proximidade com Humboldt, personagem-objeto da exasperação e da entrega física.

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Foto tirada pela própria autora para o primeiro lançamento do livro.

O trauma do estupro coloca-se, na primeira metade do livro, como uma espécie de interdito, de brusca interrupção no fluxo de uma vida que quer se desenvolver plenamente, em torno à potência de seus encontros e acasos. A ferida, a lembrança em si (e a consciência de que habita o mundo, desde sempre) da violência que invadiu o corpo e o quis submeter e controlar sem arestas, sem intervalos, apresenta-se como um incontornável, experiência que permanece junto ao sujeito da escrita. Na sucessão dos poemas, no entanto, um trabalho qualquer, uma energia propriamente corporal parece retornar à cena, e muitos textos da segunda metade do livro vão deter-se justo sobre as possibilidades expansivas da vida amorosa e da satisfação sexual. É quase uma inversão, num certo sentido, daquilo que domina a primeira parte de O martelo. Acontece, porém, que isso não se dá de modo gradual e cuidado, imerso num decoro de vítima. Ao contrário: em poemas como “a moral”, “mecanismos de defesa” e “o bom animal”, por exemplo, é de modo bastante intenso que a questão erótica retorna, afirmando-se como dado central do projeto e da vida do sujeito da escrita. A contemplação embevecida, às vezes quase suplicante do corpo do homem amado, a descrição detalhada e lasciva dos seus movimentos e contornos confere aos textos uma muito interessante capacidade de resposta ao trauma: uma vez que foi pelo sexo e pelo desejo (ainda que corrompido pelas relações de mando e autoridade que se impõem no jogo de forças da sociedade patriarcal) que a violência se tornou realidade – mesmo que, é preciso reconhecer, não foram esses elementos, o sexo e o desejo, os responsáveis pela brutalidade, papel que cabe antes à misoginia e à cultura dos mitos de uma masculinidade agressiva e dominadora – será através do apelo a essas mesmas questões que o processo de reconstrução subjetiva do eu-lírico irá passar. Será através do desnudamento amplo do tesão e suas frustrações que a dor começará – é o que os poemas sugerem – a ser mitigada, isto é, incorporada mais profundamente e logo ressignificada. O aspecto voyeurístico desses poemas e o tom de auto-ironia que os atravessa, por meio do qual o sujeito confessa o vazio enorme que resta em suas mãos pelo encontro irrealizado, pelo impulso não satisfeito, só vêm reforçar o dado performático que, como antes ficou dito, é parte importante de O martelo, uma das estratégias compositivas que tanto inscrevem o corpo no centro do texto quanto produzem um efeito de encenação calculada, de repetição em diferença da experiência vivencial. É o que se pode ler em “o bom animal”:

 

quantos palmos
de largura tem
o seu quadril?
desconfio que
o meu seja
mais largo
ao menos
foi o que senti
ao sentar
em você
queria eu
ter sentado
na sua cara
gentil
como um bom animal
e submissa
como um bom animal
eu me alegraria
com sua língua em mim
e grata
como um bom animal
eu lamberia
sua cara
molhada
pegajosa
cheirando a mim
mas minha língua
minha pobre língua
só lambeu suas
pálpebras
Humbert Humboldt
eu não sou nenhuma
Henriette Herz
me deixe pousar
a cara em seu pau
e me afogar no
silêncio entre
suas coxas e testículos
sua magreza me insulta
Humboldt
mas para cada osso
Humboldt
me deixe lembra-lo
há a carne
correspondente.

(IVÁNOVA, 2017)

 

O recurso à metáfora zoo retorna nesse poema, subvertendo, no entanto, a sua direção e sentido. Se antes ele indicava uma máscara degradante colada ao rosto dos homens e mulheres da lei participavam da violência patriarcal, aqui o procedimento aponta para o componente erótico e irracional do desejo, bem como para o discurso modesto, auto-irônico, no qual o sujeito se reconhece humilde – conforme as lições retóricas da tradição da poesia lírica do Ocidente – diante do objeto amoroso. A mudança é significativa e revela a passagem do sujeito poético de um estado a outro: aquilo que nos poemas ligados à memória do estupro era limitação da alegria (em sentido espinoziano: potência do corpo), aqui é celebração da vontade de recuperar o domínio sobre si, sua força. Mesmo que confinado à imaginação, posto que o enlace não se concretiza pelos obstáculos anunciados ao longo dos demais poemas dessa segunda parte de O martelo[3], importa o questionamento que essa guinada oferece, já que se trata de uma voz feminina expondo, com timbre firme, as urgências da sua carne; e se trata também, me parece evidente, de um processo de depuração do sexo (e até do mundo masculino), já que o mergulho naquele conjunto de experiências que se ligava ao horror se dá como risco e entrega sem limites, expectativa do gozo que poderia participar do trabalho de reordenação da intimidade, modo de repropor, criando zonas de diferenciação e novos significados, do evento terrível.

Voz que vem do futuro, poesia por vir, o livro de Adelaide Ivánova faz lembrar, insistente, o passado que não passa do trauma – individual e coletivo – do estupro e do feminicídio. Ele explora, com olhos abertos e em busca de modos de expressão novos, um universo obscuro, muitas vezes impensável para a lírica. Poesia contra polícia, desestabilizadora dos discursos do poder, ela politiza o corpo e suas reentrâncias, como ocorre, por exemplo, em Pier Paolo Pasolini e Diane di Prima, poetas que, como a autora, fazem do desejo uma propedêutica para o pensamento e a reflexão crítica.

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A l’infini, de Louise Bourgeois 2008-2009

notas:

[1] “O tempo, de fina areia, canta em meus braços:/me aconchego nele, faca na mão”, em tradução de Flávio R. Khote. A imagem não poderia ser mais bem escolhida: a poeta só se sente de fato confortável no tempo, na sua época, acrescento, ao empunhar a faca, preparada para atacar. A dualidade que atravessa todo o livro já se dá a ver aqui, assinalando que dois polos opostos – o aconchego e a repulsão, o amor e a violência, o estar dentro e fora do tempo – se atravessam e confundem no corpo dos poemas, servindo, na sua mistura inextricável de elementos, como convite ao espanto e à reflexão.

[2] Alguns procedimentos e muitas das questões levantadas por Adelaide Ivánova em O martelo me recordam o romance 2666, de Roberto Bolaño: nele, como se sabe, são narrados, em linguagem jurídica e descarnada, o assassinato de centenas de mulheres no México nos anos 1990. Além da descrição dos cadáveres e do conteúdo sexual dos crimes perpetrados contra, na sua maioria, mulheres pobres, o texto do escritor chileno apresenta também, ao longo do corpo imenso do romance, diversos diálogos entre policiais, médicos e repórteres que conviviam com a realidade do feminicídio. Em quase todos eles, a naturalidade com que os eventos eram tratados revelava o dado misógino que atravessava – e atravessa – a cultura da América Latina, sendo ao fim e ao cabo um dos elementos centrais que explicam o indevassável do massacre. A poeta brasileira, por seu turno, em poemas como “o gato” e “a porca”, além do já referido “o urubu”, trabalha com os mesmos dados, recorrendo também à linguagem técnica das instituições quanto à violência implícita, a aceitação tácita que o descaso de médicos, delegados de polícia e juízes manifestam quando diante de vítimas de violência contra a mulher. É curioso notar também como nesses poemas a referência aos animais remete ao universo da zoomorfização e do grotesco, servindo para criar zonas de contraste irônico entre a aparente polidez, o arrojo das vestimentas dos oficiais da lei (e da saúde), e o descaso cínico, o descrédito acintoso oferecido às palavras, e ao sofrimento, da vítima.

[3] Em pelo menos quatro desses poemas, “a mulher casada”, “os órgãos inúteis”, “a outra” e “o marido”, a poeta compõe pequenas peças críticas ao casamento, rindo das suas formalidades e tempos mortos, da farsa que, bem ou mal, o constitui. Neles, a autora se projeta, em identificação ora solidária, ora sarcástica, com outras artistas que, nas suas obras ou nas suas vidas, tiveram o adultério, a infelicidade conjugal e outros traumas familiares como questão: Sylvia Plath, Anne Sexton, Virginia Woolf e Louise Bourgeois. Além de se associar assim ao seu destino, Adelaide Ivánova mescla também a reflexão que faz sobre a potência do corpo e do desejo (como ética pessoal e arma de resistência) à domesticação desses elementos pela institucionalização burguesa da vida, calcada na observação de normas e códigos de etiqueta, de expectativas artificiais e malogros.

 

texto de gustavo silveira ribeiro

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