poesia, tradução

Rob Packer (1982-)

Rob Packer nasceu em Londres em 1982, mas durante a última década viveu em alguns países da Ásia e América Latina. Desde 2011, ele mora no Brasil, atualmente no Rio de Janeiro. Os seus poemas em inglês foram publicados em revistas e sites no Reino Unido e na Irlanda, e alguns poemas exofônicos vão aparecer em publicações na Espanha e no Brasil nos próximos meses. Ele também traduz poesia para o inglês e a Carnaval Press de Londres editou as traduções do Thiago Ponce de Moraes na plaquete, Glory Box, em 2016. Estes poemas são em versão bilíngue feita pelo próprio poeta. Lançou em 2017 o livro Écfrases (7Letras, coleção megamíni).

* * *

A Question of Paralysis

Ekphrasis of a performance by Marília Garcia

Last week I had never seen paralysis. This was a cloud on the seabed. I had frozen, no longer crossing the sky, not taking us forward.

I had changed to another plane. This new act is coincidence and darkness. In the impossibility of movement, I have geographies to think with. A map threads the clouds and they fall. There had been crossed lines and waves. Data transmits through the dust.

The helix paralyses. Dreams come from the tops of the trees. Repeated gestures hover and think with their hands.

So many images passed. I was there in the audience. I tried to follow the thread, explain the quest. I left the questions with holes in.

I was in flight. I should rest. I am disappearing from the radar. Dial in to hear the sound of so many borders closing.

The picture was coming to an end. It was my voice speaking from the past. There were so many things it scared me to think of them.

Dust covers my sight.

Stars exit the sky.

There is just one sound.

Some message lost in the air.

Uma questão de paralisia

Écfrase de uma performance da Marília Garcia

Na semana passada nunca tinha visto a paralisia. Era uma nuvem no fundo do mar. Eu tinha congelado, não mais atravessava o céu, nem nos levava para frente.

Mudei para outra dimensão. Este novo ato é coincidência e escuridão. Na impossibilidade do movimento, devo pensar com as geografias. Um mapa enlaça as nuvens e caem. Tinha linhas cruzadas e ondas. Dados se transmitem na poeira.

Os genes paralisam. Os sonhos vêm dos topos das árvores. Gestos repetidos pairam e pensam com as mãos.

Passaram tantas imagens. Estive lá no público. Tentei seguir o fio da história, explicar a aventura. Deixei as perguntas furadas.

Estava voando. Devia descansar. Desaparecia do radar. Ligue para ouvir o som de tantas fronteiras se fechando.

O filme chegava ao seu fim. Era a minha voz falando desde o passado. Havia tantas coisas que me dava medo pensar nelas.

Poeira cobre a minha vista.

Estrelas saem do céu.

Tem apenas um som.

Alguma mensagem perdida no ar.

§

vertigem sobre o planalto

… quanto falta até terminar esse voo, pousar até que eu possa falar para alguém desse poema ou desse ensaio como aquele que o ismar falou para mim na praça são salvador, bebendo refrigerante, não cerveja e sentados no playground, não no ground onde os batuques ensaiam o carnaval ou só nos dão um ritmo de fundo para os latões e as latinhas, as periguetes como dizem em salvador da bahia que deixei agora, dos jovens valentes de laranjeiras, catete e flamengo, os bons jovens valentes das laranjeiras e cateter e do flamingo ou do belga, que talvez em algum guia ou em uma matéria de 36 horas de dicas no new york times ou guardian, embora aí a leitora generosamente pode ter 48 horas de lazer porque ela chegou sexta numa cidade onde tem ou pode ter uma praça de foliões foliando no ensaio de batuques e latas de cerveja small ou large compradas dos vendedores que trouxeram isopores de gelo e cerveja estupidamente gelada, não porque às vezes congela, mas porque é só pela estupidez que vai chegar na temperatura onde toda cerveja precisa ser desprezada, como o edu fez a primeira noite que eu passei nessa cidade, ficando no saara, um colchonete no chão e antes de sequer saber que português seria a língua que iria falar durante tantos anos, mas não na versão que sempre imaginava que falaria, a do meu lado do atlântico, mas ainda com ditongos nasais eu pratico desde que estive em roma e tive um guia de conversação que dizia representar todas as línguas da europa salvo as partes novamente abertas e cujas cidades eu pesquisava para aquela rodada de civilization 2 quando os portugueses conquistaram todos os povos do mundo terminando com os zulus e cujas cidades e panoramas eu nunca logrei desenhar, esboçando numa folha de a4 pegada na janela e que continha o sistema de metro perfeito com uma estação a cada quilômetro, se não me engano, embora a escala eu nunca tenha acertado, tão invejoso de todos que tiveram a sorte de viver em paris onde em menos de 500 metros você encontra uma boca do metropolitain, cuja abreviatura oxítona foi adotada aqui, onde a locutora severa fala em que lugar colocar a mochila e que sempre fique atento como se as instruções que acabou de dar só fossem uma indicação da possibilidade teóricas de chegar ou não em algum lugar da zona norte sem ter que cotovelar um caminho para dentro de um trem chinês estupidamente gelado no estácio, que eu nunca entendi se era eustace ou uma referência através de estácio de sá ao poeta beato que vai com dante nos últimos cantos do purgatório e quem observou a censura da beatriz, já por que dante estava pensando em outras mulheres, tal como porque eu estive procurando sexo com outros homens quando eu tinha um que à diferença da vita nuova não foi levado e ninguém lhe ofereceu de comer um coração, mesmo lá em florianópolis mas quem igual beatriz me mostrou a graça infinita e quem estaria mortificado que eu o alinhasse com deus, que como os überzeugten empalhados dizem foi o único mesmo que poderia ter feito uma cidade com tal beleza, se você subtrai as partes sobre as quais voamos agora e a baía doente e o asfalto da pista de pouso aqui no galeão,

vertigo above the planalto

… how much longer until we end this flight, touch down until i can tell someone about this poem or this essay like the one ismar told me about on the praça são salvador, drinking soft drinks, not beer and sitting by the playground, not on the ground where the drums are practising for carnival or just providing backing beat for the latões and latinhas, the periguetes as they say in salvador da bahia, the place i’ve left behind just now, for the good young folk of laranjeiras, catete and flamengo, the good young folk of orange trees and catete and fleming or flamingo, described perhaps in some guide book or a 36 hours in piece in the new york times or guardian, although there the reader is granted a leisured 48 because she flew on friday to a city where there is or could be a square of revellers revelling in the drumbeat practice and the small or large cans of beer bought from the vendors who’ve brought the isopors of ice and beer estupidamente gelada, not because it does freeze sometimes, but because only through stupidity will it not reach the temperature at which all beer must be tipped away, like edu did the first night that i spent in this city, staying in the sahara, a mattress on the floor before i even knew that portuguese would be the language i would speak for years, but not the version that i always guessed i would, the one from my side of the atlantic, whose nasal diphthongs from there and here i practised since i went to rome and had a phrasebook that claimed to represent all the languages of europe, except the newly opened parts and whose cities’ names i researched for that round of civilization 2 when the portuguese conquered the peoples of the world, ending with the zulus and whose cityscapes i never managed to design, sketching on a piece of a4 held up to a window, which held the perfect metro system of simple interchange and a station every kilometre i think although i never got the scale quite right, as envious as i was of all who had the luck to live in paris where within 500 metres you can find a mouth of the metropolitain, whose shortening to metrô with an end stress is adopted here, where the stern announcer tells you where to put your rucksack and always to stay aware as if the instructions she has just given were only an indication of the theoretical possibilities of getting through or not to somewhere in the zona norte without elbowing you way onto the chinese train estupidamente gelado from estácio, which i’ve never figured out is really eustace or a reference through estácio de sá to the beatific poet who goes with dante on the final cantos of the purgatorio and who watched beatrice and her rebuke, for why was dante thinking about other women just as why had i been seeking sex with other men, when i had one, who had unlike the vita nuova, not been taken away and was not offered up a heart to eat, even there in florianópolis and who like beatrice showed me the infinite grace he would be mortified for me to put in any way in line with god, who as the overstuffed überzeugten say was indeed the only one who could have made a city with such beauty, if you subtract the parts that now we’re flying over and the sickened bay and the tarmac of the landing here at galeão,

§

um campo de milho na frança

para os maias, somos da mesma carne,
apertados dentro de camadas de pele.

fiquei entre as suas fileiras de ouro escondido,
esses dentes do verão, os meus irmãos, senti

os olhos se ajustavam ao sol filtrado pela luz deles
e levantei os meus braços dentro dessa manada

de dançarinos. me perguntei se é assim
que se sente a permanência verdadeira,

enquanto nos inclinávamos e balançávamos nos farrapos
extraviados de um furacão que se apagava deste lado do atlântico.

In a French Maizefield

For the Maya, we are of the same flesh,
wrapped tight within our layers of skin.

I stood between their rows of hidden gold,
those teeth of summer, my brothers, I felt

my eyes adjust to sun filtered through their light
and raised my arms among that clump

of dancers. I wondered if this was what
true permanence would feel like, as we

bent and swayed and leant in the wayward rags
of a hurricane blowing out on this side of the Atlantic.

§

Com as nossas raízes em água

Foi alguma coisa que você jogou na minha bebida?
Tantos anos e agora você me faz isso?
Aquelas gemas líquidas ficaram
na barra, no neon. E agiram rápido:
coquetéis sobre gelo e ausência.
Já se começa o zumbido da dança,
as ruas retas se torcem e fundem.
Os prédios desvanecem, os juncos crescem
e sob os pés sentimos o solo se amolecer,
o solo que você perdeu, onde eu fui perdido.
A sua mão nos conduz pelo pântano
até a margem escura da água. Damos um passo.
Os nossos pés se movem, anelam até as grades.
O metal está frio. Já senti este calor.
Foi ali que respirei os esporos e as sementes
que agora brotam dentro de mim.
Os juncos e o cânhamo se tecem, fazem a corda
que retorce e distende no capim molhado.
Sinto o seu solo escuro na minha boca e no meu cabelo.
Vem, já te encho de vapor e barro.

With Our Roots in Water

Was it something you put in my drink?
So many years, now this from you?
Those liquid gemstones stood
on the neon bar and then worked fast:
mixer over ice and absence.
They begin their buzzing dance,
fuse straight streets back against themselves.
The buildings fade, the reeds grow tall.
Underfoot we feel the softening land
you’ve lost, the land that I was lost in.
Your hand leads us through the marsh
to the water’s dark edge. Here we step.
Our feet move across the concrete to the railings.
The metal’s cold. I’ve felt this heat before.
It was there I breathed the spores
and seeds, that germinate inside me now.
The reeds and hemp weave themselves to rope
twisting and spraining in the wet grass.
I feel your dark earth in my mouth and hair.
Come, I’ll fill you with vapour and clay.

§

A predição negativa

eu não vou mais me irritar com os dados de usuários um março de ativos e em estados do país em um ano antes do jogo contra o câncer na região central da capital paulista e o seu nome é uma coisa que não se trata de um vídeo a seguir os passos principais pontos do projeto que não tem nada a ver com a minha agenda de reformas estruturais do mundo e o que não é um dos maiores desafios e o governo federal em Brasília para participar do programa mais de dois anos depois da morte do dançarino de funk no morro dos prazeres e não é um grande número de pessoas que não tem nada a ver com a mesma pessoa que você não tem como não amar esse tipo de crime passional ou seja urgente a vida é assim mesmo

I am not going to get angry with the users’ data one March of assets and in states of the country one year before the game against cancer in the central region of São Paulo and your name is a thing that is not anything to do with a video to follow the main steps points of the project and doesn’t have anything to do with my agenda of structural reforms for the world and which isn’t one of the greatest challenges and for the federal government in Brasília to take part in the trade more than two years after the death of the go-go boy on the mount of pleasures favela and it isn’t a large number of people and doesn’t have anything to do with the same person that you can’t help but love this type of crime of passion or in other words urgent that’s just what life is like

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