poesia

Izadora Xavier do Monte

Izadora Xavier do Monte já teve vários blogs de poemas. Atualmente faz doutorado em estudos de gênero.

twitter.com/bebelarcher

* * *

 náite

Preparem-se todos.
Vou redizer tudo que já disse
e não vou ser a primeira.
Quando me repito, não repito a mim mesma.
Aos domingos, logo antes de dormir,
vou falar de tristeza, de algum filme pretensioso,
ou de cerveja.

E olha que eu nem tenho mais bebido cerveja
porque o álcool só acentua o meu desânimo
Como um domingo líquido e azedo, servido aos sábados.
Por algum, ou o mesmo, garçom mal-humorado.

A certa altura da noite
todos cheiram a cerveja.
É mais ou menos a hora que eu começo a querer ir embora,
até lembrar que estou de carona

E carona é como um casamento – compromisso e espera.

Pelo mesmo caminho, sempre, ele sempre me leva
por isso o espero. Desde sempre, ou para sempre, às vezes parece
Espero-o como se ele mesmo fosse a minha casa.
A espera amanhece em mim um arrependimento, com a noite ainda alta.
Um arrependimento que diz, fala, como tábuas, de obrigações
honrar mãe, não odiar ninguém, não pensar para si mesma:
como é burro aquele menino
ou insuportável aquela garota

não cobiçar

não cobiçar

não vou cobiçar…

Nem os vou pensar irreparavelmente idiotas, a todos, e a mim também.
Enfadada eu tento
uma ou duas conversas, desperdiço-me um pouco
em todas as coisas das quais amanhã vou me arrepender
Essa culpa me lembra, esse cheiro de cerveja, tenho tanto

do que me arrepender

Mas se eu ficasse em casa, esse arrependimento, esse arrependimento também estaria
Esse arrependimento como um sonho, porque desconheço a causa
Não saberia de onde vem, incapaz de curá-lo mesmo em casa

e cumprindo os deveres,

e me esforçando em tudo. Em ignorar ou transcrever esse arrependimento,

ele continua o mesmo, domingo

às cinco para as dez, teclado sujo,

teclas cansadas.

Então vou me repetir, pessoal, mas não me levem muito a sério
não me levem a lugar nenhum
não me chamem para nada.
O que sofro já foi descrito por Bob Dylan no 34o. verso
de uma canção, gravada há muito, desconhecida do público, só
recentemente lançada.

Vou me repetir e não se espantem
Vocês já viram isso acontecer
Nenhum de nós esboçou reação. Como se o lento desgastar de nós mesmos

fosse transmitido

por um canal estrangeiro.

Vou me repetir à exaustão, como festas
e copos de cervejas, para um dia poder dizer
‘se lembra’
e não ter havido nada. O que aconteceu

além de estarmos aqui

e aquelas kaiser sobrando no balde de gelo

porque kaiser é ruim pra caralho?

§

aparecer offline

É impossível estar perfeitamente só.

Com o barulho dos carros na avenida –
alcança os ouvidos como moscas
alcançam os ouvidos, zunindo, como entomóveis, intrometendo-se
pelas portas entreabertas de um quase sono.
Como se não se saber mosca,
ou não se saber carro na avenida
perdoasse a impolidez
de não deixar alguém em paz -,

como a fronha e a escrivaninha
e as duas chamadas não atendidas
não entendem
que é impossível estar
perfeitamente só
quando estar só
é inevitável.

Fechou-se a janela sobre a noite fria
tarde demais. Estava já algo em mim quebrado,
irrestituível.
Como é terrível, terrível
a noite e todos os programas de TV que ela oferece.

Queria estar só,
mas não consigo.
Pensei se haveria, atrás da cortina,
algo que eu já não tenha visto.
Não poderia explicar o que seria
porque, é claro,
nunca vi, o que quer que seja,
parente de maravilhas e paralelepípedos.

Se alguém me chamasse em uma janela
do msn, agora,
não responderia. Nem abrirei a cortina.
Não há emotícone que represente o que eu sinto
nada para demonstrar o conforto imperfeito
da minha solidão.
Talvez
aquela carinha, a amarela,
com as lágrimas
que aparecem e somem,

e voltam a aparecer
e a sumir,
chegue perto de tudo isso, talvez essa carinha seja o
retrato exato de mim,
presa às possibilidades
de uma janela.
Uma janela para algo distante, distante.

Hoje eu não vou sair.
Estou pequena demais
para a noite lá fora.

§

poema feito com o auxílio da wikipedia

eu conto a distância da sua ausência
pelo comprimento das minhas unhas.
Essa manhã, tirando a sujeira que aparece por baixo da borda esbranquiçada,
contei uma semana.

Uma semana desde a sua última chamada, última mensagem
ou antes uma semana desde que a antecipação do encontro
me levou pra dentro do banheiro,
para reduzira as bordas esbranquiçadas a pontas nuas de dedo

– em certos mamíferos, unhas não são garras. Em certos mamíferos, unhas são menores e arrendondadas para facilitar a manipulação de ferramentas

Certos mamíferos tem unhas, não garras, que permitem a manipulação de ferramentas tais como um corta unhas
que corta unhas em antecipação à manipulação de outros elementos –
tais quais o sabão com que eu lavo todos os meus pêlos quando antecipo te encontrar.
A garrafa de argânia não a manipulo com as unhas curtas.
Só quando elas crescem que eu recubro meu corpo de argânia para lembrar teu cheiro sobre o meu.

Tantos homens certamente se lembram das minhas longas garras selvagens
Que agora alegramente podo em dedos macios para te agradar.
Esperando, eu higienizo minhas garras, e contemplo em centímetros de queratina
o negativo de um encontro.

§

moussaka vegana

de repente respiro fundo e em vez de respirar ar a única coisa que respiro é o espaço vazio o espaço no qual você existia e que não existe mais. parece que eu tentei respirar direto do último sopro que saiu do seu corpo

uma manhã de sábado exatamente como essa.

será que foi você mesmo ou fui eu que morri

(um momento me falta ar e eu um momento eu quase sou feliz porque não sei ao certo se foi você ou fui eu que desapareci)

perder não é uma arte elisabete. perder é um trabalho manual é o trabalho de descascar as peles da minha mão que não estavam lá enquanto as peles da sua mão se descascavam até não mais existir até perderem o contato para onde foi o contato da sua mão com as batatas que me alimentavam com meus cabelos com o teclado.

Quando a gente morre, para onde vai todo o nosso amor

só a tia nonoia podia te banhar só ela sabia como.

perder é o artesanato de odiar cada dia

o trabalho de ter que esquecer todo dia                                 pra poder conseguir descascar as batatas na cozinha e dansar na cozinha e me odiar na cozinha porque eu estava esquecendo que você era capaz de morrer antes de você morrer.

mas você não queria ser lembrado

envelhecer é o contrário

perder é o contrário de uma arte e tant mieux tant mieux saber desaperecer saber não ser conhecido saber ser esquecido saber esquecer

tantas gram´ætica scompradas tantas gramaticas

no fim você já não conseguia escrever nenhuma mensagem

(há uma seita secreta do luto, eu li sobre isso em harry potter)

perder é o contrário de uma arte e tant mieux tant mieux saber desaperecer saber não ser conhecido saber ser esquecido saber esquecer

então começo fazendo uma moussaka porque eu esqueci que era isso o que você fazia pra mim nas manhãs de sábado em que você não estava morto

esquecer tão inutil quanto lembrar tão inutil quanto

com batatas e molho de tomate e grão de bico faltou a berinjela é isso, é a berinjela eu esqueci da berinjela como eu esqueci bah voilà c’est raté eu continuo a lembrar de você

minhas mãos descascadas como as batatas eu não quero escrever porque escrever é resistir ao esquecimento e por isso é inutil; como você, quatro livros sobre minha cabeceira são inuteis e como sofrer e batatas são inuteis sempre uma coisa tao intuil quanto a outra sempre uma coisa em frente a outra sempre o impossivel tão estupido quanto o real

existem boas e más razões pra amar alguém?

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