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Tomaz Amorim Izabel

tomazTomaz Amorim Izabel, 29, é poeta, tradutor e doutorando em Teoria e História Literária na USP. Mantém um blog onde publica a maior parte de sua produção: tomazizabel.blogspot.com. Nascido e criado em Poá/SP, nas margens do sonho-monstro Bandeirante, reivindica uma ascendência mineira a se reinventada onde houver ainda mundo.

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palavra parida num check-point em Ramala
revoada de pianos de cauda empoleirados entre as nuvens
planícies e vales e cumes de cúmulos-nimbos
chovendo linhas paralelas, beijando-se apenas em têmporas doces
estes mesmos versos mas sob o olhar de uma lâmpada-estrela azul
os braços desmunhecantes verdeprata das ondas, das quedas d’água, semi-círculos lunares, contraredamoinhos
meus lábios-palavras, meu hálito aquariano pedindo licença para deitar sob a pele, meus lábios canoa querendo ancorar
uma cabaça de coco grávida de fiapos e água correnteza, uma colcha de retalhos
monocromática, tecido de seda de aranha, rabiscada claraescura de trovões
para nos sentirmos finalmente homens, dignos como um bezerro, um novilho
gotas douradas de vinagre, batalhões de fileiras de escudos de alecrim, fumaça vapor de
azeite frito

§

 

Corações

Fui te escrever um bilhete
em papel manteiga
enfeitado de crepom
e ao escolher o giz de cera
para preencher a assinatura
um coração torto
desenhado à mão
me perguntei
se os amores sempre mudam
de jeito, de pessoa amante
por que sempre o vermelho
vermelho oxigenação e
sangramento
por que não amarelo ânsia
te ansio
rosa terno
ciano azul eterno
cinza refúgio
cerúleo seus olhos
fugidios
seus olhos púrpuras
fúcsia o mistério
dos seus seios pela primeira vez nas minhas palmas
nas minhas pálpebras
corações de couro preto e cinta-liga
marrom como abraços de um rio
dourado, de aniversário
verde e rosa, é mangueira
prata e rosa, amor primeira
xadrezinho, cubano e cabernet
um laço, um bombom, um chicote
um amor césio, decadente
por alguns séculos de vida humana
um amor enferrujado, banguelas há décadas
um coração daltônico para um amor estrábico
um coração de lata para os sem coragem
um coração todo corpo
um coração rosto que te sorri
e te beija explodido em furta-cor

§

 

“als du noch in der Schule warst”

para Aline

você se lembra quando nos deixamos ir
de ventre no chão, saindo da última pele
línguas para fora sentindo a garoa
na pele úmida dois ofídios
se arrastando eletrificados em ondas
no chão de terra do Ibirapuera?
você e eu
um devorando ao outro
um dupla de Oroboros
transatlânticos
um beijo satânico
em que se troca saliva
e cachaça e desenhos na mesa
promessas fúteis e sagradas
eu te amo, eu te amo
sua língua, chave de abrir cadeados
enferrujados e cansados, meu coração,
seus cabelos molhados de Omolú
me dando notícia do mundo dos mortos
me dando notícia do mundo dos vivos
nós dois como tapetes molhados
no chão do banheiro, ou dois japoneses
de robes brancos e o tempo uma piada
um disco em nossas mãos de criança
uma câmera paralisando
nossos corações no instante em que
batem e param
juntos
nós, velejando, finalmente
em Marselha
dois botões de rosas
num triângulo branco
boiando sobre o cetim azul
sob o farol dourado de Sacré-Cœur
até lá
sua blusa marrom
na minha gaveta
para ser amarrada
nas patas do próximo
pombo-correio
até lá
torcer para que não estoure
a próxima guerra, esperem governantes
porque ainda há o que amar
e eu me lembrei como fazê-lo
em pelo menos três línguas

§

 

 Ai, vai

Ela mordeu o meu lábio
como quem me diz
o que é teu está guardado.

§

 

riacho

redemoinho de vento
arquitetado por borboletas
hálito de césio de infantes divinos
plataformas móveis, desmontáveis
as rugas no rosto, os hexágonos nos cascos de tartaruga
ondas desligadas, fotografadas em preto e branco,
nas digitais dos dedos que se estralam
e coçam um palito de fósforos se
incendeia quando nós não éramos ainda esta
ou nem seremos mais embora eu tenha sido
embora dentro do cartucho haja poeira
e personagens cicatrizados em circuito verde
a Infância nunca foi
a Infância não está no futuro
basta de evaporação e chuva
basta de secura
uma pata de dinossauro na argila
uma mão de menina na massinha
um bambolê de vapor de gelo
um um que seja inteiro mas indeterminado
rascunhos em folhas velhas, rascunhos sempre refeitos
rascunhos aliás que não se repetem
tentativa de esboçar algo em fuga viva
a fisiognomia das pequenas quedas num riacho
um rosto mais amplo que o humano está lá
e não sorri ou abraça
mas diz algo
algo que se escuta

§

 

são paulo

são paulo é onde a cadela da esperança
vem parir seu último filhote
são paulo é onde a esperança vem
carregar carroças nas costas
vem se cobrir com o asfalto
do frio das noites de verão
tampando para sempre de piche
o que restou do céu azul
são paulo brilha como o sapato
polido com suor da criança engraxate
seus versos de homenagem são prozac
são paulo onde vivem os gênios não descobertos
mestres e mestras da frustração e do rancor
mas há uma boa nova, são paulo,
que não está no seu nome romano
nem na catedral dos mendigos da sé
são paulo dos emigrantes e de suas pontes,
a boa nova é que são paulo já acabou
que cada um voltará em breve pelo caminho de onde veio
ou por um caminho inventado
onde contará aos antepassados histórias tristes e loucas
onde se terá que inventar uma forma decente de viver
são paulo,
demorará ainda algum tempo
mas quem restar verá o trabalho lento
dos espíritos da água que exorcizarão
suas estacas de concreto e correntes de aço
e verá voltar a se inundar de sussurros e espelhos
o anhangabaú

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