poesia, tradução

Poesia Nórdica| A poética de Snorri Sturluson, por Luciano Dutra

Snorri Sturluson (1179-1241)

, que legaste una mitología
de hielo y fuego a la filial memoria,
, que fijaste la violenta gloria
de tu estirpe de acero y de osadía,
sentiste con asombro en una tarde
de espadas que tu triste carne humana
temblaba. En esa tarde sin mañana
te fue dado saber que eras cobarde.
En la noche de Islandia, la salobre
borrasca mueve el mar. Está cercada
tu casa. Has bebido hasta las heces
el deshonor inolvidable. Sobre
tu pálida cabeza cae la espada
como en tu libro cayó tantas veces.

(Jorge Luis Borges, 1964)

O destinatário desse soneto de Borges é o autor do texto traduzido como abre-alas do que se pretende ser uma contribuição nórdica regular na Escamandro. Um texto em prosa para abrir uma seção de poesia traduzida pode parecer algo paradóxico. Mas quem chegar até o final da tradução e seguir acompanhando essa aventura poética pelos mares do norte vai perceber aos poucos que este trecho do livro Poética (Skáldskaparmál, em islandês antigo) é a moldura necessária para este quadro que iremos pintando, pincelada a pincelada, com cores islandesas, feroesas, norueguesas, dinamarquesas, suecas, finlandesas e, eventualmente, groenlandesas e lapãs (essas mediadas pelos idiomas nórdicos germânicos).

 

Snorri Sturluson foi, além de um dos raríssimos escritores islandeses da era de ouro da literatura nessa língua, também caudilho que complicou sua biografia e no limite pagou com a própria vida por tentar servir a dois senhores: a independência da mancomunidade islandesa, com lei mas sem rei, sem poder executivo central para fazer as decisões tomadas por uma oligarquia exilada da Noruega (onde se recusaram a comungar do sonho de um reino unificado patrocinado pelo rei Haraldur Belas-Melenas), e esse mesmo reino em ascensão, a Noruega, torrão natal dos colonos que fizeram da Islândia, a partir do último quartel do século IX, uma das únicas nações duradouras resultantes da chamada era víquingue.

Snorri, cuja vida coincidiu com parte do período que viu nascer a literatura das sagas, é o autor de uma história mítico-biográfica das dinastias escandinavas (Heimskringla ou Orbe do Mundo), de uma saga que conta as aventuras de um poeta-pirata pela Islândia e pelas ilhas britânicas (Egils saga Skallagrímssonar ou Saga de Egill Skallagrímsson) e, principalmente de um compêndio dividido em três partes onde cataloga os metros tradicionais germânicos, a origem das kenningar, um gênero de metáforas tão caras a Borges (que escreveu sobre elas pelo menos um ensaio completo, além de dedica-las um belo capítulo no seu Literaturas germánicas medievales) e os mitos nórdicos sobre a origem do mundo e dos deuses do panteão nórdico-germânico, conhecimentos que na época de Snorri vinham se extraviando devido à influência cristã na cultura originária da Islândia (Snorra Edda ou Edda de Snorri). Skáldskaparmál ou Poética é a segunda parte da Snorra Edda. Dela traduzimos dois capítulos onde o autor resgata o mito da origem da erudição e, o que mais nos interessa, da poesia.

* * *

Capítulos 5 e 6 de Skáldskaparmál (Poética) de Snorri Sturluson (1179-1241)

 

5 A origem do hidromel de Suttungur

E outra vez perguntou Ægir: ”Como teve início a arte a que chamais poesia?”

Bragi responde: ”Ela teve origem quando os deuses[1] tiveram uma desavença com um povo chamado os vânios.[2] Então eles se reuniram para conciliar e fizeram um acordo de paz de tal forma que todos de ambos os lados foram até uma tina e cuspiram nela. Ao se despedirem, os deuses concluíram que não queriam deixar aquele signo de paz se perder e criaram a partir dele um homem. Tal homem se chama Kvasir. Ele é tão sábio que ninguém lhe pergunta coisa alguma que ele não saiba a resposta.

Ele andava por todo o mundo ensinando as ciências aos homens, e um dia foi convidado a visitar a morada de uns anões, Fjalar e Galar, então eles o chamaram para conversar a sós e o mataram, deixaram o sangue dele escorrer em duas tinas e uma caldeira, a qual se chama Óðrerir, já as tinas se chamam Són e Boðn. Misturaram mel no sangue, e disso surgiu um hidromel tal do qual, quem quer que beba, torna-se poeta ou erudito. Os anões disseram aos ásios que Kvasir havia sufocado de tanto conhecimento, pois não havia ninguém tão sábio capaz de lhe fazer perguntas para extrair a sabedoria.

Então aqueles anões convidaram a lhes visitar o gigante chamado Gillingur e a esposa desse. Então os anões chamaram Gillingur para ir com eles remar no mar. Porém, tão logo se afastaram da terra firme, os anões remaram contra a maré e viraram o barco. Gillingur não sabia nadar e pereceu, então os anões desviraram o seu barco e remaram à terra firme. Contaram aquele ocorrido à esposa, e ela começou a passar mal e chorava alto. Então Fjalar perguntou se ela se sentiria mais aliviada se avistasse o lugar o mar onde ele havia perecido, e ela queria. Então ele disse a Galar, seu irmão, que fosse até lá em cima e, quando ela saísse pela porta, deixasse uma mó cair na cabeça dela, dizendo que os urros dela o aborreciam. E assim ele fez.

Quando o gigante Suttungur, filho de Gillingur, ficou sabendo daquilo, foi até lá e pegou os anões e levou-os ao mar e colocou-os num atol de maré baixa.[3] Eles imploram a Suttungur por sua vida e como conciliação oferecem pelo homizio do pai o precioso hidromel, e com isso se reconciliam. Suttungur leva para casa o hidromel e o guarda no penhasco chamado Hnitbjörg, deixando lá a sua filha Gunnlöð de guardiã. Por isso chamamos nós outros a poesia sangue de Kvasir ou bebida de anões ou enchimento ou qualquer forma de conteúdo de Óðrerir ou Boðn ou Són ou óbulo de anões, pois o tal hidromel salvou a vida deles no atol, ou hidromel de Suttungur ou fluído de Hnitbjörg.”

Então disse Ægir: ”Parece-me cousa funesta chamar a poesia por esses nomes. Mas como foi que os ásios se apossaram do hidromel de Suttungur?”

6 De como Óðinn se apossou do hidromel

Bragi responde: “Reza a lenda que Óðinn partiu de sua morada e chegou num lugar onde nove escravos cortavam feno. Pergunta se eles gostariam que ele afiasse as gadanhas deles. Eles aceitam. Então ele tira uma pedra de amolar do seu cinto e afiou as gadanhas, eles acharam que as gadanhas agora cortavam muito melhor e pediram que ele lhes desse aquela pedra, ao que ele porém respondeu que quem a quisesse comprar teria que pagar um preço alto. Mas todos se disseram dispostos e rogaram-lhe que a vendesse, porém ele a arremessou ao ar. Mas como todos queriam agarrá-la, se precipitaram de tal forma que cada um passou a gadanha no pescoço do outro.

Óðinn foi pedir pousada para aquela noite a um gigante chamado Baugi, irmão de Suttungur. Baugi reclamou que tinha poucas reses[4] e contou que seus nove escravos haviam morrido, e que não sabia de onde poderia conseguir outra mão de obra. Então Óðinn disse se chamar Bölverkur. Se ofereceu para trabalhar por nove para Baugi, pelo que exigia como salário um trago do hidromel de Suttungur. Baugi afirmou não ter como conseguir hidromel, disse que Suttungur guardava-o apenas para si mesmo, mas que iria com Bölverkur tentar obter hidromel.

Bölverkur fez durante o verão o trabalho de nove homens para Baugi, mas chegado o inverno exigiu de Baugi o seu salário. Então foram ambos até Suttungur. Baugi conta a Suttungu, seu irmão, o que ele e Bölverkur haviam contratado, mas Suttungur se recusa terminantemente a dar sequer um gota do hidromel. Então Bölverkur diz a Baugi que deveriam tentar arrumar alguma artimanha para poder conseguir o hidromel, ao que Baugi consente. Então Bölverkur puxa uma furadeira chamada Rati e pede a Baugi para furar o penhasco se a furadeira aguentar. Ele assim o faz. Então Baugi diz que a furadeira atravessou o penhasco: Bölverkur sopra pelo furo mas a serragem volta ruidosamente contra ele. Com isso ele percebe que Baugi queria traí-lo, e pede que ele fure o penhasco até o fim. Baugi fura mais uma vez, Bölverkur sopra novamente e dessa vez a serragem cai do outro lado. Então Bölverkur assume a forma de serpente e desliza pelo furo, mas Baugi tenta acertá-lo com a furadeira mas erra o alvo.

Bölverkur vai até onde Gunnlöð montava guarda e se deitou com ela por três noites, e ela permitiu que ele tomasse três tragos de hidromel. Na primeira tragada, ele esvaziou Óðreri, na segunda Boðn, na terceira Són, e com isso ficou com todo o hidromel. Então ele assumiu a forma de águia e voou o mais rápido possível.

Porém, quando Suttungur notou o voo da ave, assumiu também a forma de águia e saiu em revoada atrás dela. No entanto, os ásios viram quando Óðinn se aproximou voando: botaram as suas tinas no jardim, e ao entrar em Ásgarður,[5] Óðinn cuspiu o hidromel nas tinas, mas como estava quase a ponto de ser alcançado por Suttungur, se apressou em cuspir todo o hidromel, e uma parte de perdeu. A parte desperdiçada ficou ao alcance de qualquer um, por isso a essa parte chamamos hidromel de poetastro. De resto, Óðinn concedeu o hidromel de Suttungur aos ásios e aos homens que sabem poetar. Por isso chamamos a poesia despojos de Óðinn e de achado e bebida de Óðinn e presente de Óðinn e bebida dos ásios.”

§

(5) Upphaf Suttungamjaðar.

Ok enn mælti Ægir: “Hvaðan af hefir hafizt sú íþrótt, er þér kallið skáldskap?”

Bragi svarar: “Þat váru upphöf til þess, at goðin höfðu ósætt við þat fólk, er Vanir heita. En þeir lögðu með sér friðstefnu ok settu grið á þá lund, at þeir gengu hvárirtveggju til eins kers ok spýttu í hráka sínum. En at skilnaði þá tóku goðin ok vildu eigi láta týnast þat griðamark ok sköpuðu þar ór mann. Sá heitir Kvasir. Hann er svá vitr, at engi spyrr hann þeira hluta, er eigi kann hann órlausn.

Hann fór víða um heim at kenna mönnum fræði, ok þá er hann kom at heimboði til dverga nökkurra, Fjalars ok Galars, þá kölluðu þeir hann með sér á einmæli ok drápu hann, létu renna blóð hans í tvau ker ok einn ketil, ok heitir sá Óðrerir, en kerin heita Són ok Boðn. Þeir blendu hunangi við blóðit, ok varð þar af mjöðr sá, er hverr, er af drekkr, verðr skáld eða fræðamaðr. Dvergarnir sögðu ásum, at Kvasir hefði kafnat í mannviti, fyrir því at engi var þar svá fróðr, at spyrja kynni hann fróðleiks.

Þá buðu þessir dvergar til sín jötni þeim, er Gillingr heitir, ok konu hans. Þá buðu dvergarnir Gillingi at róa á sæ með sér. En er þeir fóru fyrir land fram, reru dvergarnir á boða ok hvelfðu skipinu. Gillingr var ósyndr, ok týndist hann, en dvergarnir réttu skip sitt ok reru til lands. Þeir sögðu konu hans þenna atburð, en hon kunni illa ok grét hátt. Þá spurði Fjalarr hana, ef henni myndi hugléttara, ef hon sæi út á sæinn, þar er hann hafði týnzt, en hon vildi þat. Þá mælti hann við Galar, bróður sinn, at hann skal fara upp yfir dyrrnar, er hon gengi út, ok láta kvernstein falla í höfuð henni, ok talði sér leiðast óp hennar. Ok svá gerði hann.

Þá er þetta spurði Suttungr jötunn, sonr Gillings, ferr hann til ok tók dvergana ok flytr á sæ út ok setr þá í flæðarsker. Þeir biðja Suttung sér lífsgriða ok bjóða honum til sættar í fóðurgjald mjöðinn dýra, ok þat verðr at sætt með þeim. Flytr Suttungr mjöðinn heim ok hirðir, þar sem heita Hnitbjörg, setr þar til gæzlu dóttur sína, Gunnlöðu. Af þessu köllum vér skáldskap Kvasis blóð eða dvergadrekku eða fylli eða nökkurs konar lög Óðreris eða Boðnar eða Sónar eða farskost dverga, fyrir því at sá mjöðr flutti þeim fjörlausn ór skerinu, eða Suttungamjöð eða Hnitbjargalögr.”

Þá mælti Ægir: “Myrkt þykkir mér þat mælt at kalla skáldskap með þessum heitum. En hvernig kómuzt þér æsir at Suttungamiði?”

(6) Hversu Óðinn komst at miðinum.

Bragi svarar: “Sjá saga er til þess, at Óðinn fór heiman ok kom þar, er þrælar níu slógu hey. Hann spyrr, ef þeir vili, at hann brýni ljá þeira. Þeir játa því. Þá tekr hann hein af belti sér ok brýndi ljána, en þeim þótti bíta ljárnir miklu betr ok föluðu heinina, en hann mat svá, at sá, er kaupa vildi, skyldi gefa við hóf. En allir kváðust vilja ok báðu hann sér selja, en hann kastaði heininni í loft upp. En er allir vildu henda, þá skiptust þeir svá við, at hverr brá ljánum á háls öðrum.

Óðinn sótti til náttstaðar til jötuns þess, er Baugi hét, bróðir Suttungs. Baugi kallaði illt fjárhald sitt ok sagði, at þrælar hans níu höfðu drepizt, en talðist eigi vita sér ván verkmanna. En Óðinn nefndist fyrir honum Bölverkr. Hann bauð at taka upp níu manna verk fyrir Bauga, en mælti sér til kaups einn drykk af Suttungamiði. Baugi kvaðst einskis ráð eiga at miðinum, sagði, at Suttungr vildi einn hafa, en fara kveðst hann mundu með Bölverki, ok freista, ef þeir fengi mjöðinn.

Bölverkr vann um sumarit níu manna verk fyrir Bauga, en at vetri beiddi hann Bauga leigu sínnar. Þá fara þeir báðir til Suttungs. Baugi segir Suttungi, bróður sínum, kaup þeira Bölverks, en Suttungr synjar þverliga hvers dropa af miðinum. Þá mælti Bölverkr til Bauga, at þeir skyldu freista véla nökkurra, ef þeir megi ná miðinum, en Baugi lætr þat vel vera. Þá dregr Bölverkr fram nafar þann, er Rati heitir, ok mælti, at Baugi skal bora bjargit, ef nafarrinn bítr. Hann gerir svá. Þá segir Baugi, at gegnum er borat bjargit, en Bölverkr blæss í nafarsraufina, ok hrjóta spænirnir upp í móti honum. Þá fann hann, at Baugi vildi svíkja hann, ok bað bora gegnum bjargit. Baugi boraði enn, en er Bölverkr blés annat sinn, þá fuku inn spænirnir. Þá brást Bölverkr í ormslíki ok skreið inn í nafarsraufina, en Baugi stakk eftir honum nafrinum ok missti hans.

Fór Bölverkr þar til, sem Gunnlöð var, ok lá hjá henni þrjár nætr, ok þá lofaði hon honum at drekka af miðinum þrjá drykki. Í inum fyrsta drykk drakk hann allt ór Óðreri, en í öðrum ór Boðn, í inum þriðja ór Són, ok hafði hann þá allan mjöðinn. Þá brást hann í arnarham ok flaug sem ákafast.

En er Suttungr sá flug arnarins, tók hann sér arnarham ok flaug eftir honum. En er æsir sá, hvar Óðinn flaug, þá settu þeir út í garðinn ker sín, en er Óðinn kom inn of Ásgarð, þá spýtti hann upp miðinum í kerin, en honum var þá svá nær komit, at Suttungr myndi ná honum, at hann sendi aftr suman mjöðinn, ok var þess ekki gætt. Hafði þat hverr, er vildi, ok köllum vér þat skáldfífla hlut. En Suttungamjöð gaf Óðinn ásunum ok þeim mönnum, er yrkja kunnu. Því köllum vér skáldskapinn feng Óðins ok fund ok drykk hans ok gjöf hans ok drykk ásanna.”

[1] No sistema mitológico-religioso nórdico-antigo (isto é, pré-cristão), os deuses Ásios (æsir) foram uma linhagem posterior, à qual pertence o próprio Bragi, cujos apanágios são a poesia e a retórica. Ægir, o interlocutor de Bragi no trecho traduzido, é a divindade marítima dos antigos nórdicos.

[2] Os vânios (vanir) eram uma linhagem de deuses anterior à dos ásios.

[3] Ou seja, que ficava submerso na maré alta.

[4] Ou seja, que era pobre.

[5] Ásgarður (literalmente, Jardim ou Cidadela dos Ásios) é no sistema mitológico-religioso dos antigos nórdicos a morada dos ásios.

* * *

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia, tradutor juramentado islandês-português desde 2009. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia que influenciaram escritores modernos tão diversos quanto Jorge Luis Borges, Milan Kundera, William Morris, Kurt Vonnegut, Ted Hughes, William Blake, w.h. Auden, Walter Scott, William Morris, Robert Louis Stevenson, Thomas Hardy, Halldór Laxness, Henrik Ibsen, Jostein Gaarder e J.R.R. Tolkien. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, microeditora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português.
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