poesia

Cide Piquet (1977-)

Cide Piquet nasceu em Salvador em 1977 e estudou Letras na USP. É editor, tradutor e poeta. Trabalha desde 1999 na Editora 34, atuando especialmente nas coleções de literatura russa, poesia e literatura estrangeira em geral. Ministrou cursos e palestras sobre edição, tradução e poesia na Casa Guilherme de Almeida, Casa das Rosas, Espaço Revista Cult, Universidade do Livro e no curso de Editoração da Escola de Comunicações e Artes da USP. Publicou o livro de poemas malditos sapatos: 18 poemas de amor e desamor (Hedra, 2013, coleção Sem Chancela, em pequena tiragem); traduções de ensaios e poemas em livros, revistas e blogs de literatura (Revista SerroteRevista BólideRevista OrganismoModo de Usar & co., escamandro etc.) e o livro Histórias para brincar, de Gianni Rodari. Organizou e traduziu o volume Esta vida: poemas escolhidos, de Raymond Carver (Editora 34, 2017).

* * *

no pictures

dear family,
i am sorry but i won’t
take any pictures of
my travels: i’m travelling
alone, there is no one
to take pictures of me,
not to mention that i am
absolutely not going to
take pictures of myself, the
so-called selfies, standing there,
like an idiot, smiling
with no reason, in front of
monuments and things like that.
all my pictures will be lost
in the eyes of the people
passing by, that is: if they
happen to see me at all,
which i doubt, cause i try to
always pass unnoticed, like
a broken train, like a fallen leaf.
i do not want to disturb.
and the pictures of the
things i see, as well, i take them
only in my mind, since i don’t
hope for them to last: indeed, i
don’t expect anything to last, at all.
although, and shamefully
enough, i write

§

geladeira & cia.

um pêssego
dando sopa
em cima
da geladeira
(ao lado
do pinguim)
que dá água
como a teta
da vaca
dá leite

seria bom
quem sabe
pêssego no leite
sopa de pinguim
ter uma teta
ser uma vaca
botar fogo
na geladeira

§

fogo

gasto sempre mais
do que ganho
não em coisas
que sobreviverão à minha morte
mas em comida, bebida
algum presente para minha filha
prazeres fugazes
uma ajuda para o severino
que vive na rua
e é a pessoa mais nobre que conheço

se minha casa pegasse fogo
eu salvaria o fogo

§

zu spät

maldita igreja de mainz
tão imponente
e tão calada

malditos trens alemães
que chegam sempre
na hora exata

e triste de mim
que tanto te quis
e não disse nada

§

natureza-morta

esta maçã veio da terra
de alguma cidade do interior
chegou ao mercado da minha rua
onde a comprei anteontem
pensando em você, que come frutas
e um pouco em mim, que deveria comer
dormiu uma noite na minha geladeira
rodou a cidade uma tarde inteira
dentro da sua mochila
e por muito pouco
deixou de cruzar o oceano
rumo a berlim e moscou
e de conhecer a fúria dos seus dentes
e a doçura da sua boca

em vez disso
ficou aí sobre a mesa
condenada ao triste destino
de natureza-morta

§

Severino

Hoje o frio voltou, e por um momento,
enquanto passava o café, quase
me alegrei. Eu gosto do frio.
Mas todo ano, quando chega abril
e a temperatura começa a cair,
penso em Severino, que vive pelas ruas
do bairro, com sua cadela e seu cajado.
Anos atrás, eu o via com frequência.
Mas, ultimamente, Severino anda sumido.
No inverno, desaparece por meses,
e fico torcendo para revê-lo
na próxima primavera.

§

artefato

quisera
com uma palavra
plantada
no coração do poema
explodir
silenciosamente
meus inimigos

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