poesia

Adriana Godoy

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Adriana Godoy, por ela mesma: Nasci em Beagá, Minas Gerais, numa madrugada de fevereiro. Sou cercada de montanhas e incertezas. Professora de Português, revisora, amante das noites, das luas, das madrugadas. Escrevo como quem sonha ou tem pesadelos. Tenho um livro publicado: Mil noites e um abismo, pela CrivoEditorial e alguns poemas meus em uma coletânea Maria Clara: Universos Femininos. Meus poemas estão publicados em algumas algumas revistas literárias e blogs de poesia.

***

amanheceram estrelas

essa noite não aconteceu
nem a seguinte

amanheceram estrelas
a cama azul
seu cheiro perdido nas fronhas

sua insensatez na pasta de dente sem tampa

ainda vejo sua sombra na porta
e os demônios que sempre te perseguiram

mas o dia está claro
e acho que posso pensar em outras coisas
que não sejam seus olhos me implorando
pra ficar

e juro que queria
mas o seu inferno não me cabe mais

§

mil noites e um abismo

você precisaria de mil noites pra começar a me entender
pra sentir a lua e o gosto da cerveja descendo como um rio doce na garganta

você precisaria de mil dedos pra me tocar
e talvez nem alcançasse o ponto mais primitivo do prazer

você precisaria de atravessar estradas curvas e escuras
pra saber a cor do vento e a intensidade dos pássaros noturnos

você precisaria ficar à beira de mil abismos
pra entender que nossos abismos são os mais profundos e quase inatingíveis

você precisaria ouvir  as canções mais viscerais
e saber que um poema pode mudar sua cabeça previsível

você precisaria saber que quando estamos com  amigos de verdade
podem aparecer estrelas cadentes nos olhos

cara, mas você não sabe nada
não sabe nada

§

talvez o último poema ou o velho buk tinha razão
para nina rizzi 

não eu não respiro poesia nem vivo por ela
não me sinto poeta nem outra coisa que o valha
vivo na rotina dos dias incansáveis
e às vezes fecho a janela para não ver a manhã
sou como tantas
talvez um pouco mais triste
e quando menos espero
sinto que as palavras vêm
e tenho que escrevê-las

mas isso não é poesia nem ser poeta
é tirar do café que tomo um gosto diferente
é olhar os carros na rua e pensar em poentes

e quando li nina hoje
me deu a sensação de que as palavras não viriam nunca mais
e olhar uma aranha na parede vai ser olhar uma aranha na parede
e nada mais

talvez esse não seja meu último poema
mas o velho buk sabia:

“se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída- portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

(escrito a partir da leitura de nina rizzi in: ellenismos)

§


estranho silêncio

estranho silêncio que me acompanha
quando não quero ouvir as vozes do mundo
nem saber o que nele acontece

estranho silêncio que me atormenta na noite
e me deixa navegar desgovernada desvalida
sem âncoras ou vendavais

enquanto percorro esses caminhos tristes e equivocados
alguns homens tomam cerveja no bar da esquina
e eu queria estar lá

*

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