poesia

Taís Bravo

tb

Taís Bravo é escritora e tradutora em formação. Autora do livro digital Todos os meus (ex) heróis são machistas. É uma das criadoras e editoras de conteúdo da Mulheres que Escrevem.

***

Uma aprendizagem

O que você não sabe
é uma arma
disponível
O objeto vazio tem o privilégio
de transportar questões
até o risco de uma primeira palavra
desordenar o paraíso
A didática é um meio
que você adora desfrutar
inteiramente
você goza quando acredita
que me possui
e eu no ponto em que não sei
onde termino

§

Invenção

eu amo coisas
brutais
você me diz
a verdade
com violência
inequívoca
a linguagem se faz
diariamente
em reparo
e aposta
ainda me delicio
entre os papéis
decoro
eu também
te amo

§

por tão pouco
você não chegou
na hora certa
eu fiquei
por tão pouco
eu fico
tentando medir
a flexibilidade dos contornos
reduzir
as proporções
caçar
esse fio aflito
o que antecede o acontecimento
quando as coisas deixam de ser
por tão pouco
aquela pilha de fliperama
eu fui uma filha amada
sempre consegui meus bichos
sem precisar do horror dos jogos
agora calculo o peso dos dedos
forço a vista para acertar em cheio
o timming das presas
eu treino
diariamente
mas a orelhinha é fraca pra segurar um corpo inteiro
bem na hora de me aproximar escapa
por tão pouco
o jogo acaba
deixando tão mais do que a perda

§

Um conceito de entrega

em inglês
crush
é um verbo e um objeto
você pode possuir e quebrar algo
mas dizer que ele é seu
crush
só é possível na minha língua
onde as mutações são mais intensas
diante do tormento
que se inicia na queda
encaramos a suspensão
dos nomes que não evocamos
por um lugar aberto
na minha língua
crush se personifica
é uma multidão
impõe disputas
entre gestos efêmeros
pegar ou ficar
torna-se dominante
pelo ranger dos dentes
este ponto preciso
quase nada extenso
sussurrando
a irresistível forma
de um abandono

§

esse coração é meu ou seu?
no dia em que soube ir embora
atravessou o solo
alinhada aos mapas
de cada uma das estações
não soube contar quantas
nunca saltou
a proximidade parecia tão ilusória
quanto o movimento
constantemente atrelado a um ponto
o sangue corre mas retoma
tão perto jamais sendo o mesmo
ali às 06 da manhã
era um luxo qualquer centímetro
livre como não seria
naquele instante
atenta a um vão irrevogável
a solidificação da perda
a possibilidade de nunca mais
ter acesso a uma outra pele
ficam então os acenos estranhos
às geometrias já não íntimas
reconhecimento de um rosto que foi mas não é
um borrão colado a toda forma de vontade
as tardes em que desfiar o limite
era um excesso avesso à invasão
diária do que queremos mas não podemos
ocupar era um trecho em que ser tinha outra função
não queria dizer o que sabia
mas sentia muito mais forte os batimentos
e a certeza de que sim
aquela insistência era só sua

*

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