poesia

3 poemas inéditos de Prisca Agustoni (1975-)

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Prisca Agustoni nasceu na Suíça e mora no Brasil desde 2003. Traduz do italiano, do francês e do espanhol, é professora de Literatura Comparada na Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade mineira onde reside atualmente. Ensaísta, prosadora e poeta, integra o comitê científico de vários festivais literários na Suíça e de revistas, além de escrever e publicar sua obra em italiano, francês e português. Recebeu em 2014 a Bolsa do Governo Suíço para a criação, e alguns desses poemas (inéditos no Brasil) resultam de um trabalho que foi publicado na Itália em 2013, pela editora Ladolfi de Novara. Lançou esse ano no Brasil os livros Casa dos ossos, pela editora Macondo, e Animal extremo, pela Patuá. Textos seus inéditos serão debatidos no começo de 2018 no Festival Literário Suíço de tradução, Bieler Gespräche/Rencontres de Bienne, no Instituto Literário de Bienne, na Suíça.

 

sergio maciel

* * *

 

TEMPO PRESENTE

Não sabem que são
anjos os anjos que andam
conosco à noite:
tem olhos de vidro e dedos de cinza,
acostumados a remexer na sombra

e no lixo,

também estão com fome.
Como cãos vadios catam
entre os detritos do dia, latas
ruínas e flores humanas,
cacos de história bolorenta.

Logo tocam de leve o teto de casa,
aqui, no breu, no nicho entre a viga e o céu,
o procuram e, por fim, o espremem
até ele sangrar, o silêncio.

*

Os anjos vagam esquivos
de noite, sentam à mesa junto
aos mortos, servem quentes
os restos colhidos
pela estrada, logo botam fora
aquilo que entulha
a memória
até ela estourar

*

Esquivos, como gatos à espreita
alisam as dobras de um passado
que desbota no presente:

não sabem que são anjos
os anjos que nos perseguem:

também perderam as asas
algures, no lodo, no mangue,
no que sobra após a neve

uma dor quase branca

e não pedem nada
em troca do perdão

*

Cavam corredores de luz
no coração deste século
como quem quer tirar
o caroço do fruto
sem morder na polpa

ou como as bonecas russas
que sem pestanejar
– dura a madeira como dura o tempo –
renascem sete vezes da morte

§

 

Após o sonho em que ela
engoliu a lua,
não foi mais a mesma -diziam:

cada gesto falava de morte,
uma pequena morte
irmã, talvez, apenas da dádiva.

Após a noite em que ela
engoliu a lua
seu peito trincou
feito fina louça.

§

 

aqui não há guerras

a terra é estranha
sem falhas, só vozes
e cruzes que rolam das montanhas
para os vales e dento dos rios

estancam os sonhos

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poesia

Poemas de Casé Lontra Marques

Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (Rio de Janeiro). Mora em Vitória (Espírito Santo). Publicou Enquanto perder for habitar com exatidão, entre outros. Reúne o que escreve em caselontramarques.blogspot.com.br.

* * *

Contra o prazer da resignação,
o perigo
que é persistir — maré cítrica —
inventa
(ou reativa) maneiras de
angariar alguma alegria.

::

No bulbo, um baque
— plasmando a amplidão:
múltiplos prismas
(e improváveis paisagens)
emergem
da fragilidade.

::

Pulsações propagam
o corpo — expandindo suas
premências,
experimentando novas
impossibilidades — de um
lapso
a outro: a carne (isso,
a carne) é parte do
sopro.

::

O lugar do alívio
é a perturbação, o mergulho
— venal —
em suas agulhas
mais agudas.

::

A imediatez de um evento
mínimo — mas consistente:
deslumbra
sem dopar (ou fascina
ao ferir),
minuciosamente?

::

Lábios entrelaçados,
assumindo a insolência do prazer
— e seu rigor
responsável: desacelerar (até
depor ou
destituir) o desamparo.

::

Existir deteriora,
porém não mais que propulsiona:
ramo
de muitas rotas — no dorso
(maleável) das ondas.

 

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tradução

Tuti Curani (1990-), por Priscilla Campos

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Tuti Curani nasceu na cidade de Buenos Aires, em 1990. Fotógrafa, estuda desenho de moda e organiza o ciclo de leitura e música Club del Quibre. Descobri os seus poemas por acaso, enquanto visitava pela primeira vez a Feira Plana, evento de publicações independentes que acontece anualmente em São Paulo. Os poemas aqui selecionados fazem parte do livro El futuro ya no es lo que queria, da editora argentina Fadel & Fadel.

 

* * *

 

En el aire hay ruído

Hola corazón
milagro mi hora temprana
acá estoy
despierta en el aplauso
vos cómo estás allá
yo sigo latiendo en otro ritmo
tengo un poco tengo pegado
lo que absorbí anoche
es cierto ahora que en el aire hay ruído
pero igual no importa
yo tampoco entendí esos grafittis
que le hablan al que passa
creo que pierden el mensaje
ayer tiré una bomba y escondí la mano
creo que también te vinculás com eso
no me quiero seguir escapando del sentimento
¿como continua el estalle?
acá me llegó algo
junto las partículas
y te las mando por correo.

No ar há ruído

Olá coração
milagre minha hora antecipada
aqui estou
desperta no aplauso
você como está lá
eu sigo batendo em outro ritmo
tenho pouco mas tenho pego
o que absorvi ontem à noite
é verdade agora que no ar há ruído
mas de todo jeito não importa
eu também não entendi essas pichações
que falam ao que passa
acho que perdem a mensagem
ontem joguei uma bomba e escondi a mão
acho que você também está vinculado a isso
não quero seguir fugindo do sentimento
como a explosão continua?
aqui me chegou algo
junto as partículas
e te mando pelo e-mail.

§

 

El deporte

En el fondo de la oscuridad
hay un toque de cielo.
(Capaz está bien que te cuente mis pesadillas ahora.)
Tengo ganas
de hacer algún truco con mi cuerpo,
como sostenerme en vertical
o praticar la posición bollito.
Apelaría
al deporte de lo seguro.
Era suave ser dos y no estar ahogados
entre tanto estratega del tacto.
De él sí
guardo fotos en papel,
los archivos los borré
la misma noche en que firmamos el pacto
de no hacer eso que hacen todos
cuando extrañan el pasado.

O esporte

No fundo da escuridão
há um pouco de céu.
(Talvez seja bom que te conte meus pesadelos agora)
Tenho vontade
de fazer algum truque com meu corpo
como ficar na vertical
ou treinar a posição da bolinha
Apelaria
ao esporte da segurança.
Era suave ser dois e não estar afogados
entretanto estratega do tato.
Dele sim,
guardo fotos em papel,
os arquivos eu apaguei
na mesma noite em que firmamos o pacto
de não fazer isso que fazem todos
quando sentem saudade do passado.

§

 

Ahora vos

vos a los dieciséis
vos a los dieciocho
vos a los nueve
vos a los cinco viviendo algo horrible
yo a los diez
yo a los veinte
yo el año pasado llenándome la cabeza de sangre
ahora vos y tu abrazo
ahora el bar y tu abrazo
ahora las personas del fondo rellenan la escena
ahora tu abrazo lo mutea todo
ahora tu abrazo me da vergüenza
ahora tu abrazo es un sweater nuevo que emociona
vos a los veintinueve hablando conmigo
yo a los veinticinco hablando con vos
– no pensé que fuera a vivir estos años
no te lo digo –
ahora caminamos por el bar
yo te cuento historias sobre cada una de las personas que rellenan el fondo
los hacemos mierda
nos miran
al final del paseo me robás un beso
a mí me da vergüenza
a mí todo me da vergüenza
pero te lo devuelvo
ahora nos cruzamos com alguien que conocés
nos ecapamos de la conversación
ahora yo te agarro de la mano
nos metemos sin pagar en una fiesta
adonde pasan cumbia y bailamos
alguien te molesta y me pedís un beso
– vos a los veintinueve sacando uma vieja carta
no importa –
ahora bailamos como si conociéramos la banda
ahora nos besamos como si estuviéramos hace um montón en esto

Agora você

você aos dezesseis
você aos dezoito
você aos nove
você aos cinco vivendo algo horrível
eu aos dez
eu aos vinte
eu no ano passado enchendo minha cabeça de sangue
agora você e seu abraço
agora o bar e seu abraço
agora as pessoas do fundo preenchem a cena
agora seu abraço emudece tudo
agora seu abraço me dá vergonha
agora seu abraço é um sweater novo que emociona
você aos vinte e nove falando comigo
eu aos vinte e cinco falando com você
– não pensei que fosse viver esses anos
não te digo –
agora caminhamos pelo bar
e eu te conto histórias sobre cada uma das pessoas que preenchem o fundo
xingamos eles
nos encaram
no fim do passeio você me rouba um beijo
me dá vergonha
tudo me dá vergonha
mas te devolvo
agora nós cruzamos com alguém que você conhece
nós fugimos da conversa
agora eu te puxo pela mão
entramos sem pagar em uma festa
onde toca cumbia e dançamos
alguém te incomoda e você me pede um beijo
– você aos vinte e nove pegando uma velha carta
não importa –
agora dançamos como se conhecêssemos a banda
agora nos beijamos como se estivéssemos nisso faz tempo

§

 

Te banqué la etiqueta

Te banqué la etiqueta
de navegadores de lo contemporáneo
cuando me dijiste que lo posmoderno era negativo
y yo te respondí que peor era neobarroco.
Te banqué la etiqueta
cuando me pediste que no pensara
ni qué era eso que estábamos haciendo
perdendo el tiempo juntos a medias.
Te banqué la etiqueta
cuando las calles del centro se abrieron
y la noche no fue para nada amable
escuchando el sonido de una ideia al romperse.
Te banqué la etiqueta
cuando llorando me decías no sé qué me passa
por qué me persigue esta niebla
o por qué no me sale estar tranquilo.
Te banqué la etiqueta
cuando se habían vaciado todas las botellas
y nuestros amigos ya se habían ido
y el frío que entraba por tres centímetros de una ventana aberta
se llevaba toda posibilidad de palabras.
Te banqué la etiqueta
cuando ya después de tanto años
no hubo maniobra que fuera a salvarnos
de no sentir más nada entre nosostros.

Banquei o seu estereótipo

Banquei o seu estereótipo
de navegadores do contemporâneo
quando você me disse que o pós-moderno era negativo
e eu te respondi o neobarroco era pior.
Banquei o seu estereótipo
quando você me pediu que não pensasse
nem o que era isso que estávamos fazendo
perdendo o tempo juntos de qualquer jeito
Banquei o seu estereótipo
quando as ruas do centro se abriram
e a noite não foi nada amável
escutando o som de uma ideia ao se quebrar
Banquei o seu estereótipo
quando chorando você me dizia não sei o que se passa comigo
por quê essa névoa me persegue
ou por quê não consigo ser tranquilo
Banquei o seu estereótipo
quando haviam esvaziado todas as garrafas
e nossos amigos já tinham ido embora
e o frio que entrava pelos três centímetros de uma janela aberta
levava toda a possibilidade de palavras.
Banquei o seu estereótipo
quando já depois de tantos anos
não houve manobra que fosse nos salvar
de não sentir mais nada entre nós.

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poesia

alberto lins caldas

eu brasília 2016 4

alberto lins caldas publicou os livros de contos Babel (Revan, Rio de Janeiro, 2001), gorgonas (CEP, Recife, 2008); os romances senhor krauze (Revan, Rio de Janeiro, 2009) e Veneza (Penalux, Guaratinguetá, 2016), e os livros de poemas No Interior da Serpente (Pindorama, Recife, 1987), minos (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2011), de corpo presente (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2013), 4×3 – Trílogo in Traduções (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2014) com Tavinho Paes e João José de Melo Franco), a perversa migração das baleias azuis (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2015), a pequena metafisica dos babuinos de gibraltar (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2016). Escreve no blogue: poemas – alberto lins caldas.

***

       tripalium

  • o trabalho devorou ate eu não ter um nome ●
  • nem cara nem identidade o trabalho fudeu ●
  • minha luta minha familia a mulher e os fetos ●
  • meus meninos minha casa o trabalho comeu ●
  • todas as moedinhas e os miudos o trabalho ●
  • devorou minha calça a camisa a cueca e o gozo ●
  • devorou minha unica sandalia de couro e prego ●
  • o trabalho fudeu devorou e engoliu o cinturão ●
  • furou como cupim meu chapel o trabalho fudeu ●
  • minha altura meu peso a cor dos meus olhos ●
  • a cor dos meus cabelos o trabalho queimou ●
  • os pelos os pentelhos inda mais a minha carne ●
  • minha lingua é so e mal a lingua do trabalho ●
  • a lingua violenta e pura perversa do trabalho ●
  • o trabalho me adoeceu e vomitou remedios ●
  • não sumiram nem as dores nem as doenças ●
  • o trabalho faz meu mijo feder e apodrecer ●
  • como amargo e gorduroso fede o chorume ●
  • q escorre das fabricas e jogam nos rios no mar ●
  • o trabalho fudeu a casa a familia dos meus avos ●
  • fudeu meu pai meus irmãos e minha mãe ●
  • o trabalho me deixou assim faminto o trabalho ●
  • devorou minhas coisas meu pente meu lenço ●
  • destruiu minhas unhas enferrujou meu canivete ●
  • a tesoura a faca cariou e partiu meus dentes ●
  • meu caralho não sobe ha tanto tempo q se subir ●
  • o coração se estraçalha porq caralho e grelo ●
  • molhados so podem subir se o trabalho mandar ●
  • o trabalho devorou meu cão meu gato e o rato ●
  • qeu criava escondido do gato e do cachorro ●
  • o trabalho fudeu arvores flores e abelhas ●
  • o trabalho devorou as mesas as cadeiras ●
  • o trabalho devorou meu pão e a farinha ●
  • bebeu minhas lagrimas depois cuspiu longe ●
  • dentro das latrinas nos esgotos nos vagos ●
  • o trabalho fudeu minha infancia o trabalho ●
  • fudeu minhas fugidas meus tios e primos ●
  • o trabalho fudeu meus amigos e risos ●
  • o trabalho fudeu o canto dos cantadores ●
  • o trabalho fudeu a multidão comeu o povo ●
  • o trabalho fudeu os sonhos e a punheta ●
  • o trabalho devorou estradas e sombras ●
  • o trabalho devorou a terra onde duramos ●
  • comeu devorou e fudeu minha cidade ●
  • o trabalho cagou na agua viva agora morta ●
  • vendeu o mar esmagou tudo q vivia e gostava ●
  • queima favelas toda noite com meus iguais ●
  • em grandes fogueiras na loucura dos barracos ●
  • pra fazer arranhaceus por moedinhas e lascas ●
  • o trabalho fudeu ate o q eu nunca soube dizer ●
  • nem pensar nem desejar nem olhar nem sentir ●
  • o trabalho fudeu o suor o cheiro das mulheres ●
  • os fins de semana a agua ardente transparente ●
  • pra esquecer q o trabalho so faz fuder e devorar
  • ate não se ter o q fazer o q fazer o q fazer ●
  • o trabalho comeu os minutos e a vergonha ●
  • o trabalho so deixou essa madrugada ●
  • esse trem esses passos essa bicicleta velha ●
  • esse onibus aos pedaços esse aperto essa dor ●
  • essa noite pelas ruas entre esterco e buracos ●
  • o trabalho fudeu o sono meu sono meu sono ●
  • o trabalho fudeu a alegria a brincadeira ●
  • fudeu as filhas todas elas agora são putas ●
  • o trabalho fudeu meu deus minhas festas ●
  • meu tempo minhas forças meus jogos ●
  • o trabalho devorou a beleza e a beleza ●
  • a beleza de tudo e de todos a beleza ●
  • o trabalho humilha os q não trabalham ●
  • como se não trabalhar desonrasse respirar ●
  • o trabalho desfibra fibra por fibra o coração ●
  • o trabalho fudeu tudo q se move o trabalho ●
  • não dorme mas sonha e assim cria monstros ●
  • a razão a verdade a lei a policia os manequins ●
  • tudo isso isso ao redor q gargralha sem rir ●
  • o trabalho fudeu tanto q so pode gargralhar ●
  • enquanto todos olham como se vivessem ●
  • mas o trabalho ensinou q nos não existimos ●
  • o trabalho fudeu ate os dias não nascidos ●
  • o trabalho fudeu nessa guerra minha paz ●
  • o trabalho fudeu meus dias com suas trevas ●
  • o trabalho fudeu as estações com o inferno ●
  • o trabalho fudeu e devorou meu silencio ●
  • o trabalho devorou meu medo da morte ●
  • o trabalho ensinou q tudo ja é morte ●
  • ensinou q nessa morte é tudo deles ●
  • tudo saqueado pelos donos do trabalho ●
  • ensinou q esse nada fica sempre cheio ●
  • de tudo q eles fuderam tudo q devoraram ●
  • pra gastar com brexas com inuteis e bufas ●
  • o trabalho é coveiro q so enterra gente viva ●
  • o trabalho ensinou q tudo ja é morte ●

§

isso aqui não é teatro

  • deixa estar é certo e é preciso q vc ●
  • represente o papel da serpente ●
  • ele representara o papel do ovo ●
  • com uma serpente dentro do ovo ●
  • a mesma q morrera sem saber a vida ●
  • devorada ao nascer pela mãe serpente ●
  • porisso é certa sua morte la dentro ●
  • q um engolira o outro ●
  • nenhum de nos podera escapar ●
  • q a carne de um alimentara o outro ●
  • disso não escaparemos sabera o publico ●
  • porisso sejam convincentes ●
  • trabalhem com a verdade e q realmente ●
  • sejam uma serpente q devora seu filhote ●
  • é de se esperar q o publico creia ●
  • q o ovo filhote devorado foi destruido ●
  • q a serpente q se aninhava nela ●
  • foi realmente devorada e morta ●
  • pela serpente mãe pois assim é o publico ●
  • ninguem inda pode esperar q a serpente ●
  • saia la de dentro rasgando a serpente ●
  • nesse momento teremos conquistado ●
  • o publico mas vc tera q morrer ●
  • realmente morrer porq uma serpente ●
  • rasgada não pode continuar viva ●
  • temos todos nos e antes de tudo ●
  • um compromisso com a verdade ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●
  • esse verão terrivel esse deserto ●
  • a loucura escrita por um deus palhaço ●
  • q olha no espelho rindo porq nos ve ●
  • enquanto esse teatro destroçado encena ●
  • com tanta veracidade verdejante o drama ●
  • da verdade q so pode viver mentindo ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●
  • deixa estar porq é preciso ●
  • q a serpente ponha um ovo ●
  • q essa serpente devore a serpente ●
  • q tudo seja claro e lucido e logico ●
  • q essa serpente seja rasgada de dentro ●
  • q surja a serpente de dentro da serpente ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●
  • tudo com musica dança e alegria ●
  • mas isso aqui não é teatro teatro não ●
  • nenhum de nos representa nada ●
  • no entanto somos a bela e viva trupe ●
  • vivemos de piruetas na ponta dos pes ●
  • nos vestimos como serpentes e ovos ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●
  • a corda lassa a corda mole e podre ●
  • o vento a maresia a loucura a doença ●
  • de pele de figado de escrotos e olhos ●
  • deixa estar sim é preciso deixar estar ●
  • se não for assim sera teatro e não vida ●
  • aqui não é teatro aqui a gente se fode ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●

*

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poesia, tradução

Ernst Herbeck (1920-1991) por Cristiane G. Bachmann

Ernst Herbeck (Stockerau, 1920-Gugging, 1991) tornou-se poeta de um modo incomum. Depois de oito anos de silêncio e isolamento, numa rotina controlada diariamente por psicotrópicos e choques insulínicos que lhe eram aplicados como tratamento no hospital psiquiátrico de Maria Gugging (Áustria), onde foi internado aos 26 anos, Herbeck foi convidado por Leo Navratil[i] a envolver-se com o entorno por meio da escrita. Navratil, antropólogo e psiquiatra da clínica, sugeriu-lhe um tema: “Der Morgen” [“Manhã”]. A resposta de Herbeck foi um poema. O psiquiatra percebeu o talento literário do paciente. Todos os dias, passou, então, a fornecer-lhe materiais pra escrever e a lhe sugerir temas.

Herbeck produziu intensamente, escrevendo poemas sobre os mais variados assuntos: guerra, vida, morte, amor, liberdade, máquinas, personagens de contos de fadas, cores, objetos, estações do ano, atividades cotidianas e banais (como fumar, por exemplo), entre outros. Há poemas dedicados a Navratil, a outros internos do Gugging, a Goethe, a Rilke, à relação entre paciente e psiquiatra, e muitos deles versam sobre animais.

Desde que seus primeiros poemas foram publicados (em 1966), Herbeck chamou a atenção na cena intelectual. Em 1977, a editora alemã DTV publicou uma extensa antologia de sua obra, que foi recebida num momento em que fervilhavam discussões sobre conceitos de “normalidade” e loucura”. No mesmo ano, Herbeck tornou-se membro da Grazer Autoren Versammlung [Associação de Autores de Graz, na Áustria]. Em 1980, o escritor alemão W. G. Sebald, a quem tanto a obra herbeckiana quanto suas condições de produção causaram forte impressão, publicou o romance Schwindel. Gefühle [“Vertigem”, na tradução de José Marcos Macedo], que insere a figura de Herbeck em uma de suas passagens. No mesmo ano, o poeta austríaco saiu da clínica, após receber alta. Mas retornou em definitivo ao Maria Gugging no ano seguinte.

Herbeck[ii] deixou um espólio de mais de 1.700 manuscritos, entre poemas e textos curtos em prosa, que fazem parte do acervo da Biblioteca Nacional Austríaca, em Viena.

* * *

Canarinho

Os canarinhos nas gaiolas
esperam pelo alvorejar na
manhã absoluta.
E nisso, gaiteiro, ele canta
porque ele canta e se banha
e então recanta.

O canarinho vê e ouve
a mobília. Gigantemente
cândido, ele veste amarela
plumagem.

Ouça, candidamente ouça.

Kanarienvogel

Kanarienvögel sind im Käfig drin,
warten auf das Frühgeschehen am
Morgen ganz und gar.
Insoweit ist er vergnügt und singt,
weil er singt und sich auch badet
und dann wieder singt.

Der Kanarienvogel hört und sieht
sich die Möbel an. Er ist riesig
unverdorben und hat ein gelbes
Gefieder an.

Hören Sie sich, unverdorben, Sie sich das
mal an.

§

Paciente e Poeta

Poeta

Quanto maior a dor
tanto maior o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido.

Paciente

Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
tanto mais Doidos os condenados

Paciente e Poeta

Quanto maior a dor
tanto menor o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido
Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
Tão mais doidos os condenados.

Patient und Dichter

Dichter

Je größer das Leid
desto größer der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn

Patient

Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto Irrsinniger die Verdammten

Patient und Dichter

Je größer das Leid
desto kleiner der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn
Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto irrsinniger die Verdammten.

§

A língua.

b + a cintilam no patuá[iii].
Flores na borda do campo.
A língua. —
a língua é dependente dos animais.
e sonha no a da soada.
o c cicia só assim ao redor e
……….é também num instante sua
…………………………………………arma.

Die Sprache.

a + b leuchten im Klee.
Blumen am Rande des Feldes.
Die Sprache. —
die Sprache ist dem Tier verfallen.
und mutet im a des Lautes.
das c zischt nur so umher und
………..ist auch kurz dann sein
………………………………..Gewehr.

§

A ninfeia.

Nenhum bicho sabe daonde ela[iv]
…………………….vem.
Ainda assim, um sapo venera,
……………………ela a Beira (E)
……………………e a Eira –
A beira de alguma
……………………….flor.

Die Seerose.

Es weis kein Tier von wo sie
……………………Stammt.
Und dennoch, ein Frosch verehrt,
……………………sie den Rand (B)
……………………und den Band –
Den Rand irgendeiner
………………………Blume.

* * *

NOTAS

[i] Navratil tratava seus pacientes aplicando um método que desenvolveu com base no conceito de art brut (formulado por Jean Dubuffet).

[ii] O poeta também participou do documentário Zur Besserung der Person [“Para o aprimoramento da pessoa”], do suíço Heinz Bütler, que retrata o cotidiano de cinco artistas internos do Gugging. [Disponível aqui: https://vimeo.com/18427012]

[iii] Em alemão temos uma rima de “b” com Klee, que significa “trevo”. Em português, não encontrei nenhuma solução correspondente que terminasse com a tônica em “e”. Como “patuá” é um amuleto de sorte, assim como trevo, optei por inverter a soma (de “a + b” pra “b + a”) pra obter a rima e, assim, manter a proximidade semântica.

[iv] Neste verso, weis e von wo são desvios ortográfico e gramatical, respectivamente, típicos de falante de alemão que está aprendendo a escrever ou que não tem domínio da Standardsprache (“língua-padrão”). Herbeck foi consultado por Navratil sobre seu desejo de corrigir os poemas pra publicação. Alguns ele quis corrigir, outros não. Sua vontade foi respeitada por Navratil. Dessa forma, também procurei respeitar isso e busquei traduzir esses desvios. Para von wo, experimento usar “daonde”, porque me parece de natureza semelhante. Mas pra weis (o correto seria weiss) ainda não cheguei a uma solução, pois se trata de um “erro” bem comum e nada grave, como da ordem de uma distração. (Achei que “çabe” ficaria muito forçado…)

Cristiane G. Bachmann desenvolve seu projeto de estudo e tradução de poemas de Ernst Herbeck como mestranda em Estudos Literários na UFPR, na linha de Alteridade, Mobilidade e Tradução. Trabalha como revisora e preparadora de textos e durante vários anos dedicou-se também ao teatro, como atriz.

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poesia

Eliza Caetano (1980 –)

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Nasceu em Belo Horizonte, é jornalista e mãe de duas filhas. Escreve desde sempre. Publicou O caderno das inviabilidades (Ed. Urutau, 2016).

 

sergio maciel

* * *

 

seria preciso um muro inteiro
um muro inteiro que lamentasse
seria preciso um muro que chorasse
um de pedras largas e entre elas pequenos vãos por onde nós pudéssemos tentar ver o outro lado
sem sucesso
seria preciso um muro alto
de pedras largas
seria preciso pés descalços que chegassem até lá.
dois dígitos em horas de vôo
algum dinheiro para a passagem
um outro lado do mundo
seria preciso antes que nós lamentássemos (e lamentamos)
mas que estivéssemos no lugar impróprio
que fosse verão, claro
que estivéssemos em boa companhia
na praia
e que as mãos dadas enchessem nossos olhos
que nos olhássemos cientes do mundo
(e nos olhamos)
que tomássemos mais um picolé
e desejássemos que houvesse um muro alto
de pedras largas
do outro lado do mundo
antigo o bastante para nos manter de pé

§

 

A curva infinita

estou, estivesse esta noite

pronta para receber a água, o sonho, o corpo, o espírito de algo que nasce a partir do meu corpo, receber o parto, o gesto de partilha, o verbo, tenho tido no entanto sonhos de águas que correm entre as minhas pernas e descem pelo ralo, que brotam e criam desertos sobre a cama seca, o frio seco do vento que entra pela janela, a planta que coloquei no canto e que deposita dentro do quarto perguntas sobre o frio que

a lâmpada incandescente não será capaz de responder.

as folhas secas e frias que me fazem sonhar com a água e tensionar músculos – maxilar, ombros, mãos, talvez pés em espasmos que não assisto e para os quais não haverá testemunha, só o silêncio no quarto seco, barulho no sonho úmido, fracasso, barulho da água caindo, fracasso, barulho dos dentes rangendo, dentro e fora do sonho, sempre sobre a matéria da cama, do lençol, do colchão frio, da curva do rio sob a chuva, da curva da planta, do canto do quarto, do arco do voo decidido de

um pássaro fêmea – a curva infinita

do ovo deitado à margem pelo pássaro que ainda dormia, aguardava no sonho algo que pudesse nascer de si, uma forma infinita e curva, o resultado do esperar para nascer de novo a partir da terra, do rio, dos seixos que úmidos no sonho do pássaro fêmea se jogassem ou pudessem ser jogados no ponto mais fundo do rio, um esboço de gesto infinito, impossível para o pássaro fêmea, produzido no instante de nascer ou de dar à luz, dar a vida, entregar à luz do mundo mesmo que seja noite e que chova, mesmo que eu tenha que fazer nascer e abrigar da chuva e chorar a morte dentro do rio ou sobre a cama de dentro do quarto onde terei dado um nome, qualquer um e toda a luz do mundo como se nenhuma luz a menos fosse suficiente. terei dado

a eletricidade de todas as lâmpadas acesas de todas as cidades de todas as hidrelétricas e suas comportas

o fôlego da água incansável move turbinas, cidades, peixes e sinos de igrejas submersas, onde nascer já não importa, onde não se batizam mais crianças e elas permanecem sem nome diante de deus, sem vida porque a vida de qualquer criança será insignificante dentro da igreja submersa das águas profundas de cima da cama onde o pássaro fêmea contorna o sonho e dá à luz um ovo que por dentro ainda está no breu e é possível sentir do interior da forma infinita e curva o risco de não conseguir

produzir a rachadura necessária

para brotar através da dureza de uma casca de ovo. amanhã outro risco – debaixo d’água, sobre a cama, para o pássaro fêmea peixe brotado da igreja das crianças sem nome – de dentro do sonho, um risco maior:

não conseguir dormir.

escrever é então dar palavras a sonhos, nomes a crianças pagãs batizadas em igrejas submersas, gênero a pássaros, dar nomes, tempo, número, dar palavras novamente, ser pássaro fêmea mulher peixe igreja ovo e dentro do ovo outra mulher.

homem é depois rachar, seguir, mover, passar. é verbo e o verbo pode então caminhar longas distâncias

sem se lembrar os nomes das coisas, sem entender os enigmas deixados em cada curva de rio, dentro de cada ovo e em cada seixo fracassado e submergido pela mulher, que ao final observa o homem que enfim se deita e deixa descansar.

§

 

passando rapidamente os fotogramas na tela meus olhos não têm tempo de absorver
as últimas férias o nascimento
………….do filho o tórax oscilando durante o sono

por mais que pense sobre os fotogramas que passam rápido pela tela
vejo apenas
uma criança um sorriso de papel
carros que já passaram
por ruas cujo dia já morreu
um lugar bombardeado

por mais que eu não
queira olhar e passe rapidamente
pelos fotogramas em minha tela como quem passa de carro
rápido porém reduzindo
para um acidente
com vítimas
fatais

Ou que eu não
queira ainda olhando
compreender as imagens que passam
reduzindo a velocidade e
voltando-se
discretamente
para olhar enquanto
preparam uma frase
de desprezo a ser cuspida
da janela sobre aqueles que têm
o mórbido hábito de reduzir
a velocidade ao passar
por corpos caídos:
a frase das ultimas férias a do nascimento do filho a frase proclamada pelo tórax em movimento a bomba no ar

Passando rapidamente os fotogramas não compõem um movimento.

Mesmo que passe rapidamente
sempre olharei de lado
o corpo derramado
sobre o asfalto e é perigoso
dirigir mesmo que eu faça isso todo dia por muito tempo
ainda é perigoso e eu
poderia mesmo morrer ao falar ao celular
ou passando o dia parada neste lugar
veja bem eu podia morrer e podia morrer
ao ver o quanto é normal simples e
corriqueiro que as coisas acabem
e que eu acabe sentada
no banco do motorista com uma ferragem
qualquer atravessada
no peito como uma lança
arremessada com precisão
e muita força
e mesmo que eu merecesse orações não adiantaria nada
nada veja que o asfalto será lavado
na próxima chuva

passando rapidamente os fotogramas
paralisam e paro
de olhar
paro os olhos como peixe
fresco, morto recente
ainda quente no asfalto
paro os fotogramas
à força em voz alta
antes de morrer no asfalto
antes de olhar como peixe
os fotogramas descendo na tela e que eles por favor não façam sentido
não tenham memória
não produzam movimento.

por mais que eu pense sobre
os fotogramas que passam rápido pela tela e veja
apenas: a criança um sorriso que não existe
um campo cujas minas explodiram
carros que já passaram por ruas cujo dia já morreu
um campo cujas minas não explodiram

por mais que não me lembre
dos fotogramas e que os fotogramas
sejam palavras e que as palavras sejam
hoje só uma profusão de
imagens produzidas
por minha cabeça a partir
dos sons emitidos por pessoas que falam
sobre nada nada sem parar
e as palavras de que não me lembro sejam só
uma nuvem densa de estupidez que passa
e passa e passa em branco
sobre a minha testa diante
de um cansaço profundo
não sei se das últimas noites mal
dormidas se das poucas horas
de sono ou se dos meses e meses e meses que insistem
na repetição como 24 fotogramas
que criam um único segundo
afinal o que importa o que importa mesmo será sempre
repetido até criar raízes e asas e levantar voo e segurar a terra e partir-se ao meio.

§

 

O caderno das inviabilidades

Minha vontade irremediável de listar palavras inviáveis.
…………..Inviáveis, sua barba ou cabelos.
O avião, incapaz de remediar minhas convicções inviáveis ou
………………………………………………………………o defeito no lobo da orelha.
Minha perversidade.
O que me ocorre embaixo do chuveiro.

A ereção inviável e o beijo.
Os homens inviáveis.
Os homens, de onde nada nasce.
…………….Onde não há menstruação
…………………………não cabe vida, as mãos injustas e protetoras dos homens.
Os filhos inviáveis dos homens cujo desejo me torna inviável.
Os pés grandes demais, os olhos dos homens que não sabem
……………………………………………………………..chorar, ou nem só falar,
………….os homens que não sabem.
………….Os homens e seus pelos inviáveis, suas mãos sujas,
……………………………………………………………………………………….seu tesão exposto.

O homem que me alimenta, inviável, o caderno de inviabilidades, a quem sorvo diariamente na cama da casa que eu fiz viável para o homem morar.
O homem cuja inviabilidade eu exponho debaixo do lençol a
…………………………………………………………………..cada dia, todos os dias,
na inviabilidade selada com o anel, o olhar pobre ora meu,
ora dele, diante ao mesmo tempo
do dever inviável e do

mero amor,

livre de mim, livre dele,
o amor insone sobre a cama feita ao lado da janela voltada para
……………………………………………o prédio vizinho à revelia de nós dois.

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xanto

XANTO| Do peito seu coração para a noite: Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger, por Gustavo Silveira Ribeiro

Do peito seu coração para a noite

Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger

Le monde brûle, en moi, et je marche.
Edmond Jabès

Para Mônica

[Notas para uma série em três partes]

  1. Pallaksch, Pallaksch[1] (2010): As tiras soltas, as sobras, os retalhos de papel produzidos pelo trabalho de desleitura e apagamento de jornais feito muito frequentemente por Leila Danziger são, talvez, como a língua esfacelada pela experiência da catástrofe: peças partidas nas quais só lateralmente, como que de passagem, é possível reconhecer um significado pleno, algo como um desejo de informação imediato. Desfeitas suas páginas frágeis e vulgares, turvada a forma-jornal, o que resta desse processo é o balbucio do papel, a matéria em destroços: o sentido incompleto e interrompido, troços de letras e imagens desconexos, a forma em fragmentos que anuncia o que – por homologia – na língua é falência e impossibilidade: colapso da comunicação, gagueira das coisas. Os estilhaços de papel cinzento se entrelaçam e acumulam, espalham-se no chão, saltam de uma mesa iluminada, explodem no espaço da exposição, em descontrole. Como outro tristemente célebre amontoado de ruínas, sobre o qual paira um anjo desolado, a impressão que se tem é que poderiam crescer até o céu, infinitamente. Mas não: permanecem como uma erva daninha do mundo industrial, excesso de palavras que se multiplica imperceptível e vai se transformar em língua de Babel, conjunto de sons anterior à articulação da gramática e do sentido. A conexão que mantém, como respostas imagéticas e materiais à poesia de Paul Celan é ambígua e profundamente original. Não querem apenas dar forma concreta às metáforas e jogos mentais do autor (como tantas vezes ocorre nesse tipo de encontro entre literatura e artes visuais): querem fazê-las de novo, repropor a sua estrutura, compreende-las em profundidade para só então devolvê-las, refratadas e distintas, ao leitor/espectador. Ao homem que não pode dizer os horrores de sua época e que, portanto, trata de envenenar a língua em que lhe foi dado sentir, escrever, pensar – é o que faz Celan, se nos recordamos que o veneno, qualquer veneno, é sempre phármakon, índice ao mesmo tempo de morte e cura, destruição e depuração – Leila Danziger não responde com o silêncio ou a simples exposição do impasse, do risco da afasia e da paralisação: seu gesto é sobretudo lírico, uma vez que procura reduzir o mundo (a linguagem, a matéria-jornal, a proliferação de objetos de consumo) ao mínimo necessário, desbastando-o de tudo o que é ruído. O que resta no papel depois do trabalho de desmontagem das engrenagens da comunicação de massas é o essencial, isto é, aquilo que restitui a matéria do mundo (e a própria linguagem) a si mesma: ela (a folha de papel) é de novo superfície escriptível, página clara atravessada por imagens e fragmentos de imagens – letras, desenhos, estilhaços de fotografias – que se integram a esse novo corpo, agora não mais submetido ao excesso da fala instrumentalizada, típica do didatismo tão comum à linguagem da imprensa diária. A forma final da instalação, o monte de sucatas de papel dispostas pela cena armada pela artista, revela mais do que o espectador/leitor pode ver: estão ali, à sua frente, os dejetos do trabalho, partes do processo efetuado, mas no entanto eles ainda guardam, invisível e preservada, a sua contraparte: daquele conjunto de cascas de matéria impressa pôde saltar a folha como que nova, rediviva e despojada, a linguagem como que pacificada, de novo em estado de latência. O mesmo pode ser dito, quem sabe, da língua alemã e da linguagem poética em geral atravessada pela estranheza profunda produzida pela poesia de Paul Celan: ainda que pareçam interromper o fluxo de ideias e afetos pelo hermetismo, pelo ensimesmamento de um idioma próprio, fechado em concha sobre si; ainda que pareçam resistir à comunicação, suas palavras puderam também restituir algum silêncio, guardar certa reserva de segredo num idioma e numa cultura (talvez mesmo numa época inteira) saqueada, instrumentalizada, tornada parte essencial da máquina de ódio e extermínio do Nacional-Socialismo. À fala infinita e sem arestas (isto é, sem qualquer dúvida ou hesitação, performando sempre uma espécie de verdade auto-evidente e, por isso mesmo, incontestável) do Führer, Celan oferece o anteparo da palavra impossível de Hölderlin, “pallaksch” (sim e não ao mesmo tempo, aporia paralisante, obstáculo), tartamudeio angustiante. Contra toda a fluência sibilina, toda a sabida – e terrível – eloquência de Hitler, cujos discursos se alongavam de improviso por horas a fio, a palavra residual de quem já não fala, uma espécie de contra-retórica: Pallaksch, Pallaksch, linguagem que se encaminha para a mudez mas que não silencia: repete, vezes sem conta mas pausadamente (como o poema sugere), a não-palavra, resto e ruído de toda uma época – ao mesmo tempo a época das Luzes excessivas, cegantes, do século XVIII de Hölderlin; do heart of darkness do século XX, a era das catástrofes de Celan, e da fala infinita, zumbido incessante e insuportável da comunicação de massas e da criação de pós-verdades do século XXI, tempo que coube a Leila Danziger e ao seu trabalho, produtor de silêncios. Se Roland Barthes nos lembrou que o fascismo (no plano específico da linguagem) não faz calar e não ordena a mudez, mas faz dizer junto, repetir as mesmas palavras e os mesmos sentidos do poder e da violência, talvez seria possível observar como, na associação que estabelece entre a Shoah e o arcabouço midiático da comunicação moderna, a artista pense a partir do fascismo o excesso agressivo de informações do jornal. A ele, a essa forma-força do mundo do capital e das trocas velozes (e vazias) de mercadorias, só corresponderia plenamente, como contraparte estrutural, o autoritarismo da sociedade de controle e do Estado-total. Daí a violência abafada, mas ainda assim violência, do processo de produção das obras de Leila Danziger; daí também serem os seus procedimentos fundamentais o esvaziamento e a reinscrição, como a encenar o encerramento de um ciclo (a permanência do fascismo, da “vida danificada”) e o início de outro, desconhecido, distinto, ainda pura utopia.

(…)

Viesse
viesse um homem
viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
Patriarcas: ele poderia
se falasse ele deste
tempo, ele
poderia
apenas gaguejar e gaguejar
sempre –, sempre –,
continuamente.
Pallaksch, Pallaksch

[“Tübingen, Janeiro” – Paul Celan – Trad. L. Danziger]

[1] Montada pela primeira vez no Museu de Arte Contemporânea, Niterói, 2010.

Gustavo Silveira Ribeiro

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