poesia

3 poemas inéditos de Prisca Agustoni (1975-)

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Prisca Agustoni nasceu na Suíça e mora no Brasil desde 2003. Traduz do italiano, do francês e do espanhol, é professora de Literatura Comparada na Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade mineira onde reside atualmente. Ensaísta, prosadora e poeta, integra o comitê científico de vários festivais literários na Suíça e de revistas, além de escrever e publicar sua obra em italiano, francês e português. Recebeu em 2014 a Bolsa do Governo Suíço para a criação, e alguns desses poemas (inéditos no Brasil) resultam de um trabalho que foi publicado na Itália em 2013, pela editora Ladolfi de Novara. Lançou esse ano no Brasil os livros Casa dos ossos, pela editora Macondo, e Animal extremo, pela Patuá. Textos seus inéditos serão debatidos no começo de 2018 no Festival Literário Suíço de tradução, Bieler Gespräche/Rencontres de Bienne, no Instituto Literário de Bienne, na Suíça.

 

sergio maciel

* * *

 

TEMPO PRESENTE

Não sabem que são
anjos os anjos que andam
conosco à noite:
tem olhos de vidro e dedos de cinza,
acostumados a remexer na sombra

e no lixo,

também estão com fome.
Como cãos vadios catam
entre os detritos do dia, latas
ruínas e flores humanas,
cacos de história bolorenta.

Logo tocam de leve o teto de casa,
aqui, no breu, no nicho entre a viga e o céu,
o procuram e, por fim, o espremem
até ele sangrar, o silêncio.

*

Os anjos vagam esquivos
de noite, sentam à mesa junto
aos mortos, servem quentes
os restos colhidos
pela estrada, logo botam fora
aquilo que entulha
a memória
até ela estourar

*

Esquivos, como gatos à espreita
alisam as dobras de um passado
que desbota no presente:

não sabem que são anjos
os anjos que nos perseguem:

também perderam as asas
algures, no lodo, no mangue,
no que sobra após a neve

uma dor quase branca

e não pedem nada
em troca do perdão

*

Cavam corredores de luz
no coração deste século
como quem quer tirar
o caroço do fruto
sem morder na polpa

ou como as bonecas russas
que sem pestanejar
– dura a madeira como dura o tempo –
renascem sete vezes da morte

§

 

Após o sonho em que ela
engoliu a lua,
não foi mais a mesma -diziam:

cada gesto falava de morte,
uma pequena morte
irmã, talvez, apenas da dádiva.

Após a noite em que ela
engoliu a lua
seu peito trincou
feito fina louça.

§

 

aqui não há guerras

a terra é estranha
sem falhas, só vozes
e cruzes que rolam das montanhas
para os vales e dento dos rios

estancam os sonhos

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poesia

Poemas de Casé Lontra Marques

Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (Rio de Janeiro). Mora em Vitória (Espírito Santo). Publicou Enquanto perder for habitar com exatidão, entre outros. Reúne o que escreve em caselontramarques.blogspot.com.br.

* * *

Contra o prazer da resignação,
o perigo
que é persistir — maré cítrica —
inventa
(ou reativa) maneiras de
angariar alguma alegria.

::

No bulbo, um baque
— plasmando a amplidão:
múltiplos prismas
(e improváveis paisagens)
emergem
da fragilidade.

::

Pulsações propagam
o corpo — expandindo suas
premências,
experimentando novas
impossibilidades — de um
lapso
a outro: a carne (isso,
a carne) é parte do
sopro.

::

O lugar do alívio
é a perturbação, o mergulho
— venal —
em suas agulhas
mais agudas.

::

A imediatez de um evento
mínimo — mas consistente:
deslumbra
sem dopar (ou fascina
ao ferir),
minuciosamente?

::

Lábios entrelaçados,
assumindo a insolência do prazer
— e seu rigor
responsável: desacelerar (até
depor ou
destituir) o desamparo.

::

Existir deteriora,
porém não mais que propulsiona:
ramo
de muitas rotas — no dorso
(maleável) das ondas.

 

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tradução

Tuti Curani (1990-), por Priscilla Campos

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Tuti Curani nasceu na cidade de Buenos Aires, em 1990. Fotógrafa, estuda desenho de moda e organiza o ciclo de leitura e música Club del Quibre. Descobri os seus poemas por acaso, enquanto visitava pela primeira vez a Feira Plana, evento de publicações independentes que acontece anualmente em São Paulo. Os poemas aqui selecionados fazem parte do livro El futuro ya no es lo que queria, da editora argentina Fadel & Fadel.

 

* * *

 

En el aire hay ruído

Hola corazón
milagro mi hora temprana
acá estoy
despierta en el aplauso
vos cómo estás allá
yo sigo latiendo en otro ritmo
tengo un poco tengo pegado
lo que absorbí anoche
es cierto ahora que en el aire hay ruído
pero igual no importa
yo tampoco entendí esos grafittis
que le hablan al que passa
creo que pierden el mensaje
ayer tiré una bomba y escondí la mano
creo que también te vinculás com eso
no me quiero seguir escapando del sentimento
¿como continua el estalle?
acá me llegó algo
junto las partículas
y te las mando por correo.

No ar há ruído

Olá coração
milagre minha hora antecipada
aqui estou
desperta no aplauso
você como está lá
eu sigo batendo em outro ritmo
tenho pouco mas tenho pego
o que absorvi ontem à noite
é verdade agora que no ar há ruído
mas de todo jeito não importa
eu também não entendi essas pichações
que falam ao que passa
acho que perdem a mensagem
ontem joguei uma bomba e escondi a mão
acho que você também está vinculado a isso
não quero seguir fugindo do sentimento
como a explosão continua?
aqui me chegou algo
junto as partículas
e te mando pelo e-mail.

§

 

El deporte

En el fondo de la oscuridad
hay un toque de cielo.
(Capaz está bien que te cuente mis pesadillas ahora.)
Tengo ganas
de hacer algún truco con mi cuerpo,
como sostenerme en vertical
o praticar la posición bollito.
Apelaría
al deporte de lo seguro.
Era suave ser dos y no estar ahogados
entre tanto estratega del tacto.
De él sí
guardo fotos en papel,
los archivos los borré
la misma noche en que firmamos el pacto
de no hacer eso que hacen todos
cuando extrañan el pasado.

O esporte

No fundo da escuridão
há um pouco de céu.
(Talvez seja bom que te conte meus pesadelos agora)
Tenho vontade
de fazer algum truque com meu corpo
como ficar na vertical
ou treinar a posição da bolinha
Apelaria
ao esporte da segurança.
Era suave ser dois e não estar afogados
entretanto estratega do tato.
Dele sim,
guardo fotos em papel,
os arquivos eu apaguei
na mesma noite em que firmamos o pacto
de não fazer isso que fazem todos
quando sentem saudade do passado.

§

 

Ahora vos

vos a los dieciséis
vos a los dieciocho
vos a los nueve
vos a los cinco viviendo algo horrible
yo a los diez
yo a los veinte
yo el año pasado llenándome la cabeza de sangre
ahora vos y tu abrazo
ahora el bar y tu abrazo
ahora las personas del fondo rellenan la escena
ahora tu abrazo lo mutea todo
ahora tu abrazo me da vergüenza
ahora tu abrazo es un sweater nuevo que emociona
vos a los veintinueve hablando conmigo
yo a los veinticinco hablando con vos
– no pensé que fuera a vivir estos años
no te lo digo –
ahora caminamos por el bar
yo te cuento historias sobre cada una de las personas que rellenan el fondo
los hacemos mierda
nos miran
al final del paseo me robás un beso
a mí me da vergüenza
a mí todo me da vergüenza
pero te lo devuelvo
ahora nos cruzamos com alguien que conocés
nos ecapamos de la conversación
ahora yo te agarro de la mano
nos metemos sin pagar en una fiesta
adonde pasan cumbia y bailamos
alguien te molesta y me pedís un beso
– vos a los veintinueve sacando uma vieja carta
no importa –
ahora bailamos como si conociéramos la banda
ahora nos besamos como si estuviéramos hace um montón en esto

Agora você

você aos dezesseis
você aos dezoito
você aos nove
você aos cinco vivendo algo horrível
eu aos dez
eu aos vinte
eu no ano passado enchendo minha cabeça de sangue
agora você e seu abraço
agora o bar e seu abraço
agora as pessoas do fundo preenchem a cena
agora seu abraço emudece tudo
agora seu abraço me dá vergonha
agora seu abraço é um sweater novo que emociona
você aos vinte e nove falando comigo
eu aos vinte e cinco falando com você
– não pensei que fosse viver esses anos
não te digo –
agora caminhamos pelo bar
e eu te conto histórias sobre cada uma das pessoas que preenchem o fundo
xingamos eles
nos encaram
no fim do passeio você me rouba um beijo
me dá vergonha
tudo me dá vergonha
mas te devolvo
agora nós cruzamos com alguém que você conhece
nós fugimos da conversa
agora eu te puxo pela mão
entramos sem pagar em uma festa
onde toca cumbia e dançamos
alguém te incomoda e você me pede um beijo
– você aos vinte e nove pegando uma velha carta
não importa –
agora dançamos como se conhecêssemos a banda
agora nos beijamos como se estivéssemos nisso faz tempo

§

 

Te banqué la etiqueta

Te banqué la etiqueta
de navegadores de lo contemporáneo
cuando me dijiste que lo posmoderno era negativo
y yo te respondí que peor era neobarroco.
Te banqué la etiqueta
cuando me pediste que no pensara
ni qué era eso que estábamos haciendo
perdendo el tiempo juntos a medias.
Te banqué la etiqueta
cuando las calles del centro se abrieron
y la noche no fue para nada amable
escuchando el sonido de una ideia al romperse.
Te banqué la etiqueta
cuando llorando me decías no sé qué me passa
por qué me persigue esta niebla
o por qué no me sale estar tranquilo.
Te banqué la etiqueta
cuando se habían vaciado todas las botellas
y nuestros amigos ya se habían ido
y el frío que entraba por tres centímetros de una ventana aberta
se llevaba toda posibilidad de palabras.
Te banqué la etiqueta
cuando ya después de tanto años
no hubo maniobra que fuera a salvarnos
de no sentir más nada entre nosostros.

Banquei o seu estereótipo

Banquei o seu estereótipo
de navegadores do contemporâneo
quando você me disse que o pós-moderno era negativo
e eu te respondi o neobarroco era pior.
Banquei o seu estereótipo
quando você me pediu que não pensasse
nem o que era isso que estávamos fazendo
perdendo o tempo juntos de qualquer jeito
Banquei o seu estereótipo
quando as ruas do centro se abriram
e a noite não foi nada amável
escutando o som de uma ideia ao se quebrar
Banquei o seu estereótipo
quando chorando você me dizia não sei o que se passa comigo
por quê essa névoa me persegue
ou por quê não consigo ser tranquilo
Banquei o seu estereótipo
quando haviam esvaziado todas as garrafas
e nossos amigos já tinham ido embora
e o frio que entrava pelos três centímetros de uma janela aberta
levava toda a possibilidade de palavras.
Banquei o seu estereótipo
quando já depois de tantos anos
não houve manobra que fosse nos salvar
de não sentir mais nada entre nós.

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poesia

alberto lins caldas

eu brasília 2016 4

alberto lins caldas publicou os livros de contos Babel (Revan, Rio de Janeiro, 2001), gorgonas (CEP, Recife, 2008); os romances senhor krauze (Revan, Rio de Janeiro, 2009) e Veneza (Penalux, Guaratinguetá, 2016), e os livros de poemas No Interior da Serpente (Pindorama, Recife, 1987), minos (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2011), de corpo presente (Íbis Libris, Rio de Janeiro, 2013), 4×3 – Trílogo in Traduções (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2014) com Tavinho Paes e João José de Melo Franco), a perversa migração das baleias azuis (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2015), a pequena metafisica dos babuinos de gibraltar (Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2016). Escreve no blogue: poemas – alberto lins caldas.

***

       tripalium

  • o trabalho devorou ate eu não ter um nome ●
  • nem cara nem identidade o trabalho fudeu ●
  • minha luta minha familia a mulher e os fetos ●
  • meus meninos minha casa o trabalho comeu ●
  • todas as moedinhas e os miudos o trabalho ●
  • devorou minha calça a camisa a cueca e o gozo ●
  • devorou minha unica sandalia de couro e prego ●
  • o trabalho fudeu devorou e engoliu o cinturão ●
  • furou como cupim meu chapel o trabalho fudeu ●
  • minha altura meu peso a cor dos meus olhos ●
  • a cor dos meus cabelos o trabalho queimou ●
  • os pelos os pentelhos inda mais a minha carne ●
  • minha lingua é so e mal a lingua do trabalho ●
  • a lingua violenta e pura perversa do trabalho ●
  • o trabalho me adoeceu e vomitou remedios ●
  • não sumiram nem as dores nem as doenças ●
  • o trabalho faz meu mijo feder e apodrecer ●
  • como amargo e gorduroso fede o chorume ●
  • q escorre das fabricas e jogam nos rios no mar ●
  • o trabalho fudeu a casa a familia dos meus avos ●
  • fudeu meu pai meus irmãos e minha mãe ●
  • o trabalho me deixou assim faminto o trabalho ●
  • devorou minhas coisas meu pente meu lenço ●
  • destruiu minhas unhas enferrujou meu canivete ●
  • a tesoura a faca cariou e partiu meus dentes ●
  • meu caralho não sobe ha tanto tempo q se subir ●
  • o coração se estraçalha porq caralho e grelo ●
  • molhados so podem subir se o trabalho mandar ●
  • o trabalho devorou meu cão meu gato e o rato ●
  • qeu criava escondido do gato e do cachorro ●
  • o trabalho fudeu arvores flores e abelhas ●
  • o trabalho devorou as mesas as cadeiras ●
  • o trabalho devorou meu pão e a farinha ●
  • bebeu minhas lagrimas depois cuspiu longe ●
  • dentro das latrinas nos esgotos nos vagos ●
  • o trabalho fudeu minha infancia o trabalho ●
  • fudeu minhas fugidas meus tios e primos ●
  • o trabalho fudeu meus amigos e risos ●
  • o trabalho fudeu o canto dos cantadores ●
  • o trabalho fudeu a multidão comeu o povo ●
  • o trabalho fudeu os sonhos e a punheta ●
  • o trabalho devorou estradas e sombras ●
  • o trabalho devorou a terra onde duramos ●
  • comeu devorou e fudeu minha cidade ●
  • o trabalho cagou na agua viva agora morta ●
  • vendeu o mar esmagou tudo q vivia e gostava ●
  • queima favelas toda noite com meus iguais ●
  • em grandes fogueiras na loucura dos barracos ●
  • pra fazer arranhaceus por moedinhas e lascas ●
  • o trabalho fudeu ate o q eu nunca soube dizer ●
  • nem pensar nem desejar nem olhar nem sentir ●
  • o trabalho fudeu o suor o cheiro das mulheres ●
  • os fins de semana a agua ardente transparente ●
  • pra esquecer q o trabalho so faz fuder e devorar
  • ate não se ter o q fazer o q fazer o q fazer ●
  • o trabalho comeu os minutos e a vergonha ●
  • o trabalho so deixou essa madrugada ●
  • esse trem esses passos essa bicicleta velha ●
  • esse onibus aos pedaços esse aperto essa dor ●
  • essa noite pelas ruas entre esterco e buracos ●
  • o trabalho fudeu o sono meu sono meu sono ●
  • o trabalho fudeu a alegria a brincadeira ●
  • fudeu as filhas todas elas agora são putas ●
  • o trabalho fudeu meu deus minhas festas ●
  • meu tempo minhas forças meus jogos ●
  • o trabalho devorou a beleza e a beleza ●
  • a beleza de tudo e de todos a beleza ●
  • o trabalho humilha os q não trabalham ●
  • como se não trabalhar desonrasse respirar ●
  • o trabalho desfibra fibra por fibra o coração ●
  • o trabalho fudeu tudo q se move o trabalho ●
  • não dorme mas sonha e assim cria monstros ●
  • a razão a verdade a lei a policia os manequins ●
  • tudo isso isso ao redor q gargralha sem rir ●
  • o trabalho fudeu tanto q so pode gargralhar ●
  • enquanto todos olham como se vivessem ●
  • mas o trabalho ensinou q nos não existimos ●
  • o trabalho fudeu ate os dias não nascidos ●
  • o trabalho fudeu nessa guerra minha paz ●
  • o trabalho fudeu meus dias com suas trevas ●
  • o trabalho fudeu as estações com o inferno ●
  • o trabalho fudeu e devorou meu silencio ●
  • o trabalho devorou meu medo da morte ●
  • o trabalho ensinou q tudo ja é morte ●
  • ensinou q nessa morte é tudo deles ●
  • tudo saqueado pelos donos do trabalho ●
  • ensinou q esse nada fica sempre cheio ●
  • de tudo q eles fuderam tudo q devoraram ●
  • pra gastar com brexas com inuteis e bufas ●
  • o trabalho é coveiro q so enterra gente viva ●
  • o trabalho ensinou q tudo ja é morte ●

§

isso aqui não é teatro

  • deixa estar é certo e é preciso q vc ●
  • represente o papel da serpente ●
  • ele representara o papel do ovo ●
  • com uma serpente dentro do ovo ●
  • a mesma q morrera sem saber a vida ●
  • devorada ao nascer pela mãe serpente ●
  • porisso é certa sua morte la dentro ●
  • q um engolira o outro ●
  • nenhum de nos podera escapar ●
  • q a carne de um alimentara o outro ●
  • disso não escaparemos sabera o publico ●
  • porisso sejam convincentes ●
  • trabalhem com a verdade e q realmente ●
  • sejam uma serpente q devora seu filhote ●
  • é de se esperar q o publico creia ●
  • q o ovo filhote devorado foi destruido ●
  • q a serpente q se aninhava nela ●
  • foi realmente devorada e morta ●
  • pela serpente mãe pois assim é o publico ●
  • ninguem inda pode esperar q a serpente ●
  • saia la de dentro rasgando a serpente ●
  • nesse momento teremos conquistado ●
  • o publico mas vc tera q morrer ●
  • realmente morrer porq uma serpente ●
  • rasgada não pode continuar viva ●
  • temos todos nos e antes de tudo ●
  • um compromisso com a verdade ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●
  • esse verão terrivel esse deserto ●
  • a loucura escrita por um deus palhaço ●
  • q olha no espelho rindo porq nos ve ●
  • enquanto esse teatro destroçado encena ●
  • com tanta veracidade verdejante o drama ●
  • da verdade q so pode viver mentindo ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●
  • deixa estar porq é preciso ●
  • q a serpente ponha um ovo ●
  • q essa serpente devore a serpente ●
  • q tudo seja claro e lucido e logico ●
  • q essa serpente seja rasgada de dentro ●
  • q surja a serpente de dentro da serpente ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●
  • tudo com musica dança e alegria ●
  • mas isso aqui não é teatro teatro não ●
  • nenhum de nos representa nada ●
  • no entanto somos a bela e viva trupe ●
  • vivemos de piruetas na ponta dos pes ●
  • nos vestimos como serpentes e ovos ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●
  • a corda lassa a corda mole e podre ●
  • o vento a maresia a loucura a doença ●
  • de pele de figado de escrotos e olhos ●
  • deixa estar sim é preciso deixar estar ●
  • se não for assim sera teatro e não vida ●
  • aqui não é teatro aqui a gente se fode ●
  • e a morte sempre faz parte e prevalece ●

*

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poesia, tradução

Ernst Herbeck (1920-1991) por Cristiane G. Bachmann

Ernst Herbeck (Stockerau, 1920-Gugging, 1991) tornou-se poeta de um modo incomum. Depois de oito anos de silêncio e isolamento, numa rotina controlada diariamente por psicotrópicos e choques insulínicos que lhe eram aplicados como tratamento no hospital psiquiátrico de Maria Gugging (Áustria), onde foi internado aos 26 anos, Herbeck foi convidado por Leo Navratil[i] a envolver-se com o entorno por meio da escrita. Navratil, antropólogo e psiquiatra da clínica, sugeriu-lhe um tema: “Der Morgen” [“Manhã”]. A resposta de Herbeck foi um poema. O psiquiatra percebeu o talento literário do paciente. Todos os dias, passou, então, a fornecer-lhe materiais pra escrever e a lhe sugerir temas.

Herbeck produziu intensamente, escrevendo poemas sobre os mais variados assuntos: guerra, vida, morte, amor, liberdade, máquinas, personagens de contos de fadas, cores, objetos, estações do ano, atividades cotidianas e banais (como fumar, por exemplo), entre outros. Há poemas dedicados a Navratil, a outros internos do Gugging, a Goethe, a Rilke, à relação entre paciente e psiquiatra, e muitos deles versam sobre animais.

Desde que seus primeiros poemas foram publicados (em 1966), Herbeck chamou a atenção na cena intelectual. Em 1977, a editora alemã DTV publicou uma extensa antologia de sua obra, que foi recebida num momento em que fervilhavam discussões sobre conceitos de “normalidade” e loucura”. No mesmo ano, Herbeck tornou-se membro da Grazer Autoren Versammlung [Associação de Autores de Graz, na Áustria]. Em 1980, o escritor alemão W. G. Sebald, a quem tanto a obra herbeckiana quanto suas condições de produção causaram forte impressão, publicou o romance Schwindel. Gefühle [“Vertigem”, na tradução de José Marcos Macedo], que insere a figura de Herbeck em uma de suas passagens. No mesmo ano, o poeta austríaco saiu da clínica, após receber alta. Mas retornou em definitivo ao Maria Gugging no ano seguinte.

Herbeck[ii] deixou um espólio de mais de 1.700 manuscritos, entre poemas e textos curtos em prosa, que fazem parte do acervo da Biblioteca Nacional Austríaca, em Viena.

* * *

Canarinho

Os canarinhos nas gaiolas
esperam pelo alvorejar na
manhã absoluta.
E nisso, gaiteiro, ele canta
porque ele canta e se banha
e então recanta.

O canarinho vê e ouve
a mobília. Gigantemente
cândido, ele veste amarela
plumagem.

Ouça, candidamente ouça.

Kanarienvogel

Kanarienvögel sind im Käfig drin,
warten auf das Frühgeschehen am
Morgen ganz und gar.
Insoweit ist er vergnügt und singt,
weil er singt und sich auch badet
und dann wieder singt.

Der Kanarienvogel hört und sieht
sich die Möbel an. Er ist riesig
unverdorben und hat ein gelbes
Gefieder an.

Hören Sie sich, unverdorben, Sie sich das
mal an.

§

Paciente e Poeta

Poeta

Quanto maior a dor
tanto maior o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido.

Paciente

Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
tanto mais Doidos os condenados

Paciente e Poeta

Quanto maior a dor
tanto menor o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido
Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
Tão mais doidos os condenados.

Patient und Dichter

Dichter

Je größer das Leid
desto größer der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn

Patient

Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto Irrsinniger die Verdammten

Patient und Dichter

Je größer das Leid
desto kleiner der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn
Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto irrsinniger die Verdammten.

§

A língua.

b + a cintilam no patuá[iii].
Flores na borda do campo.
A língua. —
a língua é dependente dos animais.
e sonha no a da soada.
o c cicia só assim ao redor e
……….é também num instante sua
…………………………………………arma.

Die Sprache.

a + b leuchten im Klee.
Blumen am Rande des Feldes.
Die Sprache. —
die Sprache ist dem Tier verfallen.
und mutet im a des Lautes.
das c zischt nur so umher und
………..ist auch kurz dann sein
………………………………..Gewehr.

§

A ninfeia.

Nenhum bicho sabe daonde ela[iv]
…………………….vem.
Ainda assim, um sapo venera,
……………………ela a Beira (E)
……………………e a Eira –
A beira de alguma
……………………….flor.

Die Seerose.

Es weis kein Tier von wo sie
……………………Stammt.
Und dennoch, ein Frosch verehrt,
……………………sie den Rand (B)
……………………und den Band –
Den Rand irgendeiner
………………………Blume.

* * *

NOTAS

[i] Navratil tratava seus pacientes aplicando um método que desenvolveu com base no conceito de art brut (formulado por Jean Dubuffet).

[ii] O poeta também participou do documentário Zur Besserung der Person [“Para o aprimoramento da pessoa”], do suíço Heinz Bütler, que retrata o cotidiano de cinco artistas internos do Gugging. [Disponível aqui: https://vimeo.com/18427012]

[iii] Em alemão temos uma rima de “b” com Klee, que significa “trevo”. Em português, não encontrei nenhuma solução correspondente que terminasse com a tônica em “e”. Como “patuá” é um amuleto de sorte, assim como trevo, optei por inverter a soma (de “a + b” pra “b + a”) pra obter a rima e, assim, manter a proximidade semântica.

[iv] Neste verso, weis e von wo são desvios ortográfico e gramatical, respectivamente, típicos de falante de alemão que está aprendendo a escrever ou que não tem domínio da Standardsprache (“língua-padrão”). Herbeck foi consultado por Navratil sobre seu desejo de corrigir os poemas pra publicação. Alguns ele quis corrigir, outros não. Sua vontade foi respeitada por Navratil. Dessa forma, também procurei respeitar isso e busquei traduzir esses desvios. Para von wo, experimento usar “daonde”, porque me parece de natureza semelhante. Mas pra weis (o correto seria weiss) ainda não cheguei a uma solução, pois se trata de um “erro” bem comum e nada grave, como da ordem de uma distração. (Achei que “çabe” ficaria muito forçado…)

Cristiane G. Bachmann desenvolve seu projeto de estudo e tradução de poemas de Ernst Herbeck como mestranda em Estudos Literários na UFPR, na linha de Alteridade, Mobilidade e Tradução. Trabalha como revisora e preparadora de textos e durante vários anos dedicou-se também ao teatro, como atriz.

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poesia

Eliza Caetano (1980 –)

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Nasceu em Belo Horizonte, é jornalista e mãe de duas filhas. Escreve desde sempre. Publicou O caderno das inviabilidades (Ed. Urutau, 2016).

 

sergio maciel

* * *

 

seria preciso um muro inteiro
um muro inteiro que lamentasse
seria preciso um muro que chorasse
um de pedras largas e entre elas pequenos vãos por onde nós pudéssemos tentar ver o outro lado
sem sucesso
seria preciso um muro alto
de pedras largas
seria preciso pés descalços que chegassem até lá.
dois dígitos em horas de vôo
algum dinheiro para a passagem
um outro lado do mundo
seria preciso antes que nós lamentássemos (e lamentamos)
mas que estivéssemos no lugar impróprio
que fosse verão, claro
que estivéssemos em boa companhia
na praia
e que as mãos dadas enchessem nossos olhos
que nos olhássemos cientes do mundo
(e nos olhamos)
que tomássemos mais um picolé
e desejássemos que houvesse um muro alto
de pedras largas
do outro lado do mundo
antigo o bastante para nos manter de pé

§

 

A curva infinita

estou, estivesse esta noite

pronta para receber a água, o sonho, o corpo, o espírito de algo que nasce a partir do meu corpo, receber o parto, o gesto de partilha, o verbo, tenho tido no entanto sonhos de águas que correm entre as minhas pernas e descem pelo ralo, que brotam e criam desertos sobre a cama seca, o frio seco do vento que entra pela janela, a planta que coloquei no canto e que deposita dentro do quarto perguntas sobre o frio que

a lâmpada incandescente não será capaz de responder.

as folhas secas e frias que me fazem sonhar com a água e tensionar músculos – maxilar, ombros, mãos, talvez pés em espasmos que não assisto e para os quais não haverá testemunha, só o silêncio no quarto seco, barulho no sonho úmido, fracasso, barulho da água caindo, fracasso, barulho dos dentes rangendo, dentro e fora do sonho, sempre sobre a matéria da cama, do lençol, do colchão frio, da curva do rio sob a chuva, da curva da planta, do canto do quarto, do arco do voo decidido de

um pássaro fêmea – a curva infinita

do ovo deitado à margem pelo pássaro que ainda dormia, aguardava no sonho algo que pudesse nascer de si, uma forma infinita e curva, o resultado do esperar para nascer de novo a partir da terra, do rio, dos seixos que úmidos no sonho do pássaro fêmea se jogassem ou pudessem ser jogados no ponto mais fundo do rio, um esboço de gesto infinito, impossível para o pássaro fêmea, produzido no instante de nascer ou de dar à luz, dar a vida, entregar à luz do mundo mesmo que seja noite e que chova, mesmo que eu tenha que fazer nascer e abrigar da chuva e chorar a morte dentro do rio ou sobre a cama de dentro do quarto onde terei dado um nome, qualquer um e toda a luz do mundo como se nenhuma luz a menos fosse suficiente. terei dado

a eletricidade de todas as lâmpadas acesas de todas as cidades de todas as hidrelétricas e suas comportas

o fôlego da água incansável move turbinas, cidades, peixes e sinos de igrejas submersas, onde nascer já não importa, onde não se batizam mais crianças e elas permanecem sem nome diante de deus, sem vida porque a vida de qualquer criança será insignificante dentro da igreja submersa das águas profundas de cima da cama onde o pássaro fêmea contorna o sonho e dá à luz um ovo que por dentro ainda está no breu e é possível sentir do interior da forma infinita e curva o risco de não conseguir

produzir a rachadura necessária

para brotar através da dureza de uma casca de ovo. amanhã outro risco – debaixo d’água, sobre a cama, para o pássaro fêmea peixe brotado da igreja das crianças sem nome – de dentro do sonho, um risco maior:

não conseguir dormir.

escrever é então dar palavras a sonhos, nomes a crianças pagãs batizadas em igrejas submersas, gênero a pássaros, dar nomes, tempo, número, dar palavras novamente, ser pássaro fêmea mulher peixe igreja ovo e dentro do ovo outra mulher.

homem é depois rachar, seguir, mover, passar. é verbo e o verbo pode então caminhar longas distâncias

sem se lembrar os nomes das coisas, sem entender os enigmas deixados em cada curva de rio, dentro de cada ovo e em cada seixo fracassado e submergido pela mulher, que ao final observa o homem que enfim se deita e deixa descansar.

§

 

passando rapidamente os fotogramas na tela meus olhos não têm tempo de absorver
as últimas férias o nascimento
………….do filho o tórax oscilando durante o sono

por mais que pense sobre os fotogramas que passam rápido pela tela
vejo apenas
uma criança um sorriso de papel
carros que já passaram
por ruas cujo dia já morreu
um lugar bombardeado

por mais que eu não
queira olhar e passe rapidamente
pelos fotogramas em minha tela como quem passa de carro
rápido porém reduzindo
para um acidente
com vítimas
fatais

Ou que eu não
queira ainda olhando
compreender as imagens que passam
reduzindo a velocidade e
voltando-se
discretamente
para olhar enquanto
preparam uma frase
de desprezo a ser cuspida
da janela sobre aqueles que têm
o mórbido hábito de reduzir
a velocidade ao passar
por corpos caídos:
a frase das ultimas férias a do nascimento do filho a frase proclamada pelo tórax em movimento a bomba no ar

Passando rapidamente os fotogramas não compõem um movimento.

Mesmo que passe rapidamente
sempre olharei de lado
o corpo derramado
sobre o asfalto e é perigoso
dirigir mesmo que eu faça isso todo dia por muito tempo
ainda é perigoso e eu
poderia mesmo morrer ao falar ao celular
ou passando o dia parada neste lugar
veja bem eu podia morrer e podia morrer
ao ver o quanto é normal simples e
corriqueiro que as coisas acabem
e que eu acabe sentada
no banco do motorista com uma ferragem
qualquer atravessada
no peito como uma lança
arremessada com precisão
e muita força
e mesmo que eu merecesse orações não adiantaria nada
nada veja que o asfalto será lavado
na próxima chuva

passando rapidamente os fotogramas
paralisam e paro
de olhar
paro os olhos como peixe
fresco, morto recente
ainda quente no asfalto
paro os fotogramas
à força em voz alta
antes de morrer no asfalto
antes de olhar como peixe
os fotogramas descendo na tela e que eles por favor não façam sentido
não tenham memória
não produzam movimento.

por mais que eu pense sobre
os fotogramas que passam rápido pela tela e veja
apenas: a criança um sorriso que não existe
um campo cujas minas explodiram
carros que já passaram por ruas cujo dia já morreu
um campo cujas minas não explodiram

por mais que não me lembre
dos fotogramas e que os fotogramas
sejam palavras e que as palavras sejam
hoje só uma profusão de
imagens produzidas
por minha cabeça a partir
dos sons emitidos por pessoas que falam
sobre nada nada sem parar
e as palavras de que não me lembro sejam só
uma nuvem densa de estupidez que passa
e passa e passa em branco
sobre a minha testa diante
de um cansaço profundo
não sei se das últimas noites mal
dormidas se das poucas horas
de sono ou se dos meses e meses e meses que insistem
na repetição como 24 fotogramas
que criam um único segundo
afinal o que importa o que importa mesmo será sempre
repetido até criar raízes e asas e levantar voo e segurar a terra e partir-se ao meio.

§

 

O caderno das inviabilidades

Minha vontade irremediável de listar palavras inviáveis.
…………..Inviáveis, sua barba ou cabelos.
O avião, incapaz de remediar minhas convicções inviáveis ou
………………………………………………………………o defeito no lobo da orelha.
Minha perversidade.
O que me ocorre embaixo do chuveiro.

A ereção inviável e o beijo.
Os homens inviáveis.
Os homens, de onde nada nasce.
…………….Onde não há menstruação
…………………………não cabe vida, as mãos injustas e protetoras dos homens.
Os filhos inviáveis dos homens cujo desejo me torna inviável.
Os pés grandes demais, os olhos dos homens que não sabem
……………………………………………………………..chorar, ou nem só falar,
………….os homens que não sabem.
………….Os homens e seus pelos inviáveis, suas mãos sujas,
……………………………………………………………………………………….seu tesão exposto.

O homem que me alimenta, inviável, o caderno de inviabilidades, a quem sorvo diariamente na cama da casa que eu fiz viável para o homem morar.
O homem cuja inviabilidade eu exponho debaixo do lençol a
…………………………………………………………………..cada dia, todos os dias,
na inviabilidade selada com o anel, o olhar pobre ora meu,
ora dele, diante ao mesmo tempo
do dever inviável e do

mero amor,

livre de mim, livre dele,
o amor insone sobre a cama feita ao lado da janela voltada para
……………………………………………o prédio vizinho à revelia de nós dois.

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xanto

XANTO| Do peito seu coração para a noite: Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger, por Gustavo Silveira Ribeiro

Do peito seu coração para a noite

Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger

Le monde brûle, en moi, et je marche.
Edmond Jabès

Para Mônica

[Notas para uma série em três partes]

  1. Pallaksch, Pallaksch[1] (2010): As tiras soltas, as sobras, os retalhos de papel produzidos pelo trabalho de desleitura e apagamento de jornais feito muito frequentemente por Leila Danziger são, talvez, como a língua esfacelada pela experiência da catástrofe: peças partidas nas quais só lateralmente, como que de passagem, é possível reconhecer um significado pleno, algo como um desejo de informação imediato. Desfeitas suas páginas frágeis e vulgares, turvada a forma-jornal, o que resta desse processo é o balbucio do papel, a matéria em destroços: o sentido incompleto e interrompido, troços de letras e imagens desconexos, a forma em fragmentos que anuncia o que – por homologia – na língua é falência e impossibilidade: colapso da comunicação, gagueira das coisas. Os estilhaços de papel cinzento se entrelaçam e acumulam, espalham-se no chão, saltam de uma mesa iluminada, explodem no espaço da exposição, em descontrole. Como outro tristemente célebre amontoado de ruínas, sobre o qual paira um anjo desolado, a impressão que se tem é que poderiam crescer até o céu, infinitamente. Mas não: permanecem como uma erva daninha do mundo industrial, excesso de palavras que se multiplica imperceptível e vai se transformar em língua de Babel, conjunto de sons anterior à articulação da gramática e do sentido. A conexão que mantém, como respostas imagéticas e materiais à poesia de Paul Celan é ambígua e profundamente original. Não querem apenas dar forma concreta às metáforas e jogos mentais do autor (como tantas vezes ocorre nesse tipo de encontro entre literatura e artes visuais): querem fazê-las de novo, repropor a sua estrutura, compreende-las em profundidade para só então devolvê-las, refratadas e distintas, ao leitor/espectador. Ao homem que não pode dizer os horrores de sua época e que, portanto, trata de envenenar a língua em que lhe foi dado sentir, escrever, pensar – é o que faz Celan, se nos recordamos que o veneno, qualquer veneno, é sempre phármakon, índice ao mesmo tempo de morte e cura, destruição e depuração – Leila Danziger não responde com o silêncio ou a simples exposição do impasse, do risco da afasia e da paralisação: seu gesto é sobretudo lírico, uma vez que procura reduzir o mundo (a linguagem, a matéria-jornal, a proliferação de objetos de consumo) ao mínimo necessário, desbastando-o de tudo o que é ruído. O que resta no papel depois do trabalho de desmontagem das engrenagens da comunicação de massas é o essencial, isto é, aquilo que restitui a matéria do mundo (e a própria linguagem) a si mesma: ela (a folha de papel) é de novo superfície escriptível, página clara atravessada por imagens e fragmentos de imagens – letras, desenhos, estilhaços de fotografias – que se integram a esse novo corpo, agora não mais submetido ao excesso da fala instrumentalizada, típica do didatismo tão comum à linguagem da imprensa diária. A forma final da instalação, o monte de sucatas de papel dispostas pela cena armada pela artista, revela mais do que o espectador/leitor pode ver: estão ali, à sua frente, os dejetos do trabalho, partes do processo efetuado, mas no entanto eles ainda guardam, invisível e preservada, a sua contraparte: daquele conjunto de cascas de matéria impressa pôde saltar a folha como que nova, rediviva e despojada, a linguagem como que pacificada, de novo em estado de latência. O mesmo pode ser dito, quem sabe, da língua alemã e da linguagem poética em geral atravessada pela estranheza profunda produzida pela poesia de Paul Celan: ainda que pareçam interromper o fluxo de ideias e afetos pelo hermetismo, pelo ensimesmamento de um idioma próprio, fechado em concha sobre si; ainda que pareçam resistir à comunicação, suas palavras puderam também restituir algum silêncio, guardar certa reserva de segredo num idioma e numa cultura (talvez mesmo numa época inteira) saqueada, instrumentalizada, tornada parte essencial da máquina de ódio e extermínio do Nacional-Socialismo. À fala infinita e sem arestas (isto é, sem qualquer dúvida ou hesitação, performando sempre uma espécie de verdade auto-evidente e, por isso mesmo, incontestável) do Führer, Celan oferece o anteparo da palavra impossível de Hölderlin, “pallaksch” (sim e não ao mesmo tempo, aporia paralisante, obstáculo), tartamudeio angustiante. Contra toda a fluência sibilina, toda a sabida – e terrível – eloquência de Hitler, cujos discursos se alongavam de improviso por horas a fio, a palavra residual de quem já não fala, uma espécie de contra-retórica: Pallaksch, Pallaksch, linguagem que se encaminha para a mudez mas que não silencia: repete, vezes sem conta mas pausadamente (como o poema sugere), a não-palavra, resto e ruído de toda uma época – ao mesmo tempo a época das Luzes excessivas, cegantes, do século XVIII de Hölderlin; do heart of darkness do século XX, a era das catástrofes de Celan, e da fala infinita, zumbido incessante e insuportável da comunicação de massas e da criação de pós-verdades do século XXI, tempo que coube a Leila Danziger e ao seu trabalho, produtor de silêncios. Se Roland Barthes nos lembrou que o fascismo (no plano específico da linguagem) não faz calar e não ordena a mudez, mas faz dizer junto, repetir as mesmas palavras e os mesmos sentidos do poder e da violência, talvez seria possível observar como, na associação que estabelece entre a Shoah e o arcabouço midiático da comunicação moderna, a artista pense a partir do fascismo o excesso agressivo de informações do jornal. A ele, a essa forma-força do mundo do capital e das trocas velozes (e vazias) de mercadorias, só corresponderia plenamente, como contraparte estrutural, o autoritarismo da sociedade de controle e do Estado-total. Daí a violência abafada, mas ainda assim violência, do processo de produção das obras de Leila Danziger; daí também serem os seus procedimentos fundamentais o esvaziamento e a reinscrição, como a encenar o encerramento de um ciclo (a permanência do fascismo, da “vida danificada”) e o início de outro, desconhecido, distinto, ainda pura utopia.

(…)

Viesse
viesse um homem
viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
Patriarcas: ele poderia
se falasse ele deste
tempo, ele
poderia
apenas gaguejar e gaguejar
sempre –, sempre –,
continuamente.
Pallaksch, Pallaksch

[“Tübingen, Janeiro” – Paul Celan – Trad. L. Danziger]

[1] Montada pela primeira vez no Museu de Arte Contemporânea, Niterói, 2010.

Gustavo Silveira Ribeiro

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poesia

6 poemas inéditos de Júlia de Carvalho Hansen

ju

Júlia de Carvalho Hansen (São Paulo, 1984) é poeta, astróloga e uma das editoras da Chão da Feira. Estudou literatura na Universidade de São Paulo e na Universidade Nova de Lisboa. Os poemas abaixo são de seu novo livro, ainda sem título. Já apareceu aqui no escamandro com poemas e entrevista.

***

POSSO

Posso te esperar a tarde inteira
atravessar você — o precipício
ou te chamar de Canyon
e colocar uns pássaros voando nele.

Posso te mostrar a parte de dentro
das coisas, da carne — posso me rechear
inteira de cuidados, lanças e perfumes
e desmontar à tarde todas as coisas.

Posso inventar-nos um desfecho
te chamar de ilha, charco, travessia
esquecer eu não posso — posso
dizer que eu irei me lembrar.

Posso perguntar pelo tempo
e assim conversaremos sobre o breu
normativo & inconstitucional desses dias
e de como não seremos derrotados.

Um pelo outro, talvez, não.

§

AMANSAR

Amansar a ideia de vê-lo
é o tecido dos meus dias
e eu me recubro totalmente

com este selo — esta companhia
podemos nos amar na distância
transcender o espírito largo

é o fosso que nos separa
e contigo estou — sempre — a um passo
do abismo escuto o eco dum graveto

quebrando lá embaixo o clique
pros meus ouvidos tão abertos é tão nítido
quanto o teu desejo de ficar comigo.

§

ROSAS

O amor me esquartejou em seis
continentes incapazes de se conter
o modo que eu morri
foi tão de repente

confesso fui eu que puxei seus dentes
antes e durante o entardecer tem rosas
nítidas e supérfluas sobre a mesa
purificando o meu espírito trôpego

foi-me dado um candeeiro um circo
ateando um chicote no lombo do acidente
eu me antecipo cada vez que vejo um poço
teu vitalício laço de fita nó de corda meu amor

a tua língua vale o que vale
teu ricochete, teus meandros
medos, usuras, os prevenidos
armários das famílias

abertos pelo caos nos guiamos
olhos mais longos que os de Lúcifer
moram nas suas coxas
quando me anteveem

marfim, colchão mole
água na boca
no tronco um portão
noite luz.

§

PARDAIS

Acordei com dois pardais dentro do quarto
se debatiam procurando o que não fosse vidro
radical em ser transparente e firme

eu causava sustos ao me aproximar
abri a janela
é o certo a se fazer com o que não se deixa tocar

no quintal caracóis imensos disputam
os restos de mamão que deitei aos passarinhos
bem cedo enquanto pedia beleza

suplicava por favor eu quero escutar
não é a primeira vez que numa ilha
meus ouvidos entopem

meu bisavô sofria do mesmo
não sei se ele escrevia, se visitava as ilhas
se perdeu como se perdem na terra

os homens têm tal mística com o mar
ser instável na sua regularidade
marulho salsugem saudade

entre as palavras que eu sei lembrar.

§

POÇA D’ÁGUA

Olhando bem pra dentro de você
o quanto você é difícil se espraia
dos seus olhos profundos ao buraco negro
seu íntimo me é tão completamente interditado

às vezes eu me pergunto
se aqueles que conheci antes de ti
não estavam a antecipar a estreia
que foi conhecê-lo naquele entreposto da vida

eu já tinha me estrepado o bastante
pra não pular em qualquer poça d’água
achando que era um abismo
eu naquela época andava numa distância

suficientemente segura dos abismos
tanto que já tinha inclusive esquecido
a capacidade do amor nos levar
aos precipícios, as precipitações ativarem

os respeitos, os conflitos, os desmedidos
impróprios imperfeitos instáveis
improváveis e no entanto sempre
perspicazes pertinentes acasos & motivos

de estarmos para sempre forever and ever
juntos de uma maneira jovem
nosso amor adolescente
se curva numa cambalhota

e nos remonta todos os dias
como quem sela o ânimo
e monta o vivo no invisível
atrela sua espora

como quem voltou a andar
a dizer e a concordar
em todos os tempos
o substantivo cavalo.

§

CÍLIOS

Entre nós a dimensão que importa
é o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
conforme você ri ou se preocupa

eu estudo tanto cada gesto — cada passo
consulto tudo que eu posso
vejo sinais em tanto — colho indícios
contudo espero o instante

em que algo ou tudo pode sair do lugar
alguém quebrar os dois tornozelos
perder o timing do spaghetti
e o macarrão ficar molenga

ou uma abelha zunindo no cabelo
fascinada pelo açúcar no café
num acesso de vertigem
todo eu é ruidoso

porque eu vivo
e você também
e o que é vivo
se descontrola.

*

 

 

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entrevista

Entrevista com Frederico Klumb

frederico

Sofia Coppola em entrevista ao Madame Figaro, canal do jornal Le Figaro | Montagem de Ari Miaciro

para ler as outras entrevistas, clique aqui.

* * *

SM – Qual é a diferença que se impõe entre a escrita de um poema feito pra circular em papel e um vídeo-poema? Porque, me parece, há uma sintaxe toda outra na relação entre essas mídias que parece estar em questão, não?

FK –Antes de tudo, eu preciso dizer que não sou capaz de responder a essa pergunta com tanta exatidão. Acho que a primeira coisa que costuma vir à cabeça é que a diferença mais óbvia reside no instrumental de cada suporte. Contudo, talvez a questão se relacione mais com a pergunta “estamos falando de cinema quando falamos de vídeo-poemas?”. E, se estamos, de que cinema estamos falando? Digo isso, porque as minhas referências para a transposição de um poema-papel para um vídeo-poema, normalmente, são mais identificadas com o cinema. Mas há caminhos audiovisuais muito distintos para amparar o vídeo-poema, a exemplo da vídeo-arte e da fotografia still animada em diversas velocidades, com menos quadros por segundo que o que chamamos de cinema e aliada ao som. Isso implica uma série de gramáticas e sintaxes de vídeo variáveis. Não gosto muito de uma catalogação em gêneros fechados, mas entendo que, por conta de diálogos visíveis com uma arte ou outra, tendamos a classificar o vídeo sob um gênero específico. Talvez o vídeo-poema seja uma espécie de monstro audiovisual nascendo, misturando diversas características de convenção e forma de todos esses gêneros e, ao mesmo tempo, as quebrando.

Dito isso, posso tentar falar do campo em que me insiro com um pouco menos de dificuldade em relação a esses outros. Gosto de pensar o vídeo-poema como um poema e um filme, acreditando que o vídeo é uma escrita possível e que permite alinhamento com algumas correntes mais experimentais do cinema.

Então, tratando do procedimento de maneira mais explícita e no que isso pode implicar para as sintaxes, quando penso a transposição papel-vídeo no meu trabalho, um dos aspectos fundamentais é o sentido da transposição, o que vem primeiro: as diferenças no procedimento variam muito em cada projeto e de acordo com as características próprias do objeto base. Essas qualidades do objeto base acabam guiando o estabelecimento de um conceito de feitura do novo objeto e, por conta disso, cada poema vai pedir a um vídeo uma tradução particular dos seus aspectos de forma, bem como um filme vai pedir a um poema, por meio do seu instrumental, uma tradução.

Normalmente costumo usar,  também, mais de dois canais para apreensão nos vídeo-poemas: imagem, locução e texto (cartela ou legenda); imagem, trilha musical e texto; imagem, trilha musical, locução, ruído em som direto e texto com cartela. Talvez por essa razão, não me interesse tanto em muitos deles um sentido mais encerrado, usualmente fortalecido em um só canal. Acho que isso acaba por criar uma sintaxe um pouco mais elíptica em alguns dos vídeos, de certa forma um pouco gaga e em outras quase silenciosa. Acho que isso deve estar de acordo com meus poemas em papel, porque os sinto do mesmo jeito. No Agharta, que circulou um pouco mais que os outros, há ainda um agravante da confusão que os vários canais ajudam a criar: além dessas trilhas usuais de informação acabou também entrando no filme uma legenda em inglês, que é exigência dos festivais internacionais. Isso fez com que as coisas saíssem das suas bordas e interferissem umas nas outras, dificultando a comunicação. E na verdade foi ótimo porque o poema já falava disso quando estava no papel.

Mas para tocar um pouco mais diretamente as possíveis diferenças (e semelhanças) sintáticas entre um poema-papel e um vídeo-poema, e até entre dois vídeo-poemas, preciso voltar ao que dizia quando colocava a pergunta “de que cinema estamos falando?”.

Tanto a poesia quanto o cinema possuem um histórico de diferentes usos de seus instrumentais. Por vezes são quase convenções e impõem ritmos e sentidos distintos: os movimentos de câmera, por exemplo, podem carregar significados que se relacionam à forma de maneira diversa ao que acontece quando se pensa numa quebra de verso. Mas o uso dos instrumentais pode também se relacionar de maneiras semelhantes. Isso é o que me interessa fundamentalmente. Fico pensando que uma câmera pode muito bem traduzir os cavalgamentos de um poema-papel. A câmera olho de Brakhage talvez seja algo próximo dessa imagem.

É um procedimento semelhante à tradução, embora mais agressivo, e por isso me interessa muito a contaminação e a mesclagem de duas gramáticas e a tentativa de alcançar uma frase de palavras com uma imagem fotográfica, mas de maneira mais analógica e ganhando outros sentidos no caminho.

Particularmente, acredito que a corrente do cinema onde essas duas gramáticas estão mais próximas é o New American Cinema e algumas outras manifestações do cinema experimental pelo mundo. Há cinemas experimentais muito mais pautados na imagem e menos no texto e que acredito estarem muito próximos do encadeamento de sentido de um poema escrito. Me vem à cabeça o Artavazd Peleshian, que um amigo diretor me mostrou há algum tempo atrás, me vem também a Maya Deren, que é uma referência incontornável, me vem a Chantal Akerman e me vem o Leos Carax em alguns momentos. Acho algumas fases do cinema do Godard também muito semelhantes ao engenho de funcionamento de um poema, principalmente pensando na montagem. Pelo tamanho da obra do Godard, isso é quase um capítulo a parte dessa relação. Fico pensando que talvez pelo fato do poema não precisar estar tão preso a um sintagma mais normativo, mais narrativo, a distância entre a sintaxe do vídeo e a sintaxe da palavra possa encurtar nesses casos. E tenho a impressão de que quando penso em vídeo-poemas em relação a um cinema propriamente dito, eles estariam em algum lugar entre essas pessoas. Algum lugar entre Godard e Maya Deren e Leos Carax e Chantal Akerman. E ainda assim, mesmo depois de dizer tudo isso, me encanta muito o cinema mais narrativo de um outro lado e o desafio pra mim tem sido agora pensar no vídeo poema sob a chave de outros cinemas, aparentemente mais distantes e sem que seja preciso necessariamente teatralizar o poema de origem. Talvez a resposta para isso seja o ensaio.

Mas, ainda quanto às diferenças de sintaxe entre um poema-papel e o vídeo-poema em si (das quais minha escrita tenta fugir nessa resposta pela dificuldade que se impõe ao tentar firmar qualquer coisa daqui debaixo, no terreno da minha pouca idade) acho que a discussão desdobra em mais uma porção de coisas, a exemplo da nossa velocidade de apreensão de uma imagem em texto e de uma imagem na tela.

Podemos puxar também a questão dos sujeitos dessas sintaxes. O vídeo parece implicar em certos projetos, ou ao menos incluir com mais facilidade, uma fragmentação do sujeito que por vezes é também quase uma condição fundamental do Cinema, porque precisa se apoiar na corporalidade dos autores, dividir a criação, trabalhar de maneira mais colaborativa. Isso já foi bem discutido pela poesia, me lembro de poemas do Pina, o português, falando sobre isso e de uma enorme fortuna crítica sobre o assunto. De todo jeito, mesmo no poema-papel, a montagem mais explícita parece ser o caminho mais ligado à essa fragmentação. A montagem Godardiana, ou seja lá como quisermos chamar: montar = mostrar.

Por fim, pensando na recepção e em circulação, as escolhas de dicção e de sintaxe do vídeo envolvem riscos muito semelhantes aos presentes na escrita de um poema em papel, mesmo de um poema tornado em performance e isso vai acabar dizendo das possíveis vocações do objeto. Particularmente não acredito que o vídeo deva seguir uma orientação de criação muito atrelada ao contexto geral de suas exibições, o que significa dizer que penso que o poema não paga arrego, como diz um amigo, mas há que se atentar que as dicções de vídeo implicam, por vezes, distanciamentos ou aproximações do espectador. De certa forma, já que não estamos sozinhos, acho que também deve valer a pena pensar, ao menos um pouco, em quem lê, para além das nossas gavetas e pastas no computador.

SM – Você, no arena, dialoga com o belíssimo poema do Celan, Todesfuge. Curioso é que o Gontijo chama esse poema pra jogo no seu último livro, carvão: : capim, e eu também, de certo modo, no ratzara. Acho, inclusive, que daria pra colocar o Domeneck aqui nessa roda. Quais aspectos, portanto, você acredita poderiam estar ligados à retomada desse poema agora?

FK – Celan fala num certo momento, a partir de uma conferência que preparava, de uma obscuridade quase intrínseca ao poema, obscuridade congênita dentro do que eu interpreto como aquele campo gauche do Drummond. E então, de certa forma, voltamos ao ponto da discussão da pergunta anterior que toca a recepção. Para Celan e, menos importante, para mim também, isso normalmente é associado, em alguns casos da recepção, a um aspecto de hermetismo da escrita, uma escrita fechada beirando quase o esoterismo, como se alguns poemas funcionassem como protocolos de sociedades secretas, os textos dos Iluminados da Baviera ou qualquer coisa que o valha e que, quando perguntados, ‘então, são vocês esse grupo de iluminados, são vocês que guardam o segredo?’, sempre responderiam com a negativa. Acho que é a partir daí que começa a impossibilidade de uma subinterpretação, de uma leitura e resposta encerradas. Às vezes a crítica, penso que a crítica mais inocente, trata o poema como uma sala escura que tem de ser desvendada. Como se houvesse uma porta na frente do poema, e dentro da porta apenas um tesouro, apenas uma possibilidade. Para mim não se trata disso. Ironicamente, esse poema – que se lido sem uma contextualização mínima, ou com uma passada rápida de olhos, pode parecer esquivo ou coisa do tipo – é um dos poemas mais claros que já li do Celan. Me interessa muito mais a construção de uma atmosfera, uma mise en scene – ou uma anti-mise en scene, já que remete a algo muito cruel e muito real – que marca com signos bastante próprios, mas também universais, o que estava em questão: a dor, a fuga, a morte. E então digo universais não com a intenção de estabelecer qualquer comparação quantitativa, o que foi menos agressivo, o que gerou mais sofrimento. O holocausto, pelo que se tem notícia, e temos bastante informação disponível já há tempos para julgar por nós mesmos, foi algo horrível e marca a história de maneira inapelável. Mas acho que esse evento não se reduz a ele mesmo. Não estou habilitado a falar do sofrimento de um povo que não é o meu. É possível que eu mesmo tenha uma descendência judaica remota, mas isso não vem ao caso, o que quero dizer é que, apesar de esse não ser um evento que impacta diretamente na minha carne, me interessam algumas coisas que estão nesse poema e em muitos outros do Celan, que me permitem apreender a manutenção dessa máquina de mastigar ainda hoje, em movimentos dos mais sutis até uma escalada muito mais visível para qualquer pessoa. Então esse poema se torna, para mim, importantíssimo hoje. Desde que estou vivo – e isso não configura grande parcela de tempo na história, mas acompanha esse nosso século, um pouco menos de três décadas –, acho que ainda não tinha visto uma escalada tão intensa de afrontas a direitos mínimos e de manutenção desses signos do poema de Celan.

Esse poema representa o avanço do cassetete longo do Estado sobre as minorias que são maioria absoluta. Muitos grupos dos quais eu não faço parte integralmente, mas que representam meus amigos, meus colegas de trabalho, minha família e, em alguns casos, sou eu mesmo ali. Quando fiz essa montagem com o poema do Celan me lembro que, além do refrão fúnebre, me impactaram muito os versos que desenhavam os cabelos: teu cabelo de ouro Margarete / teu cabelo de cinzas Sulamita. Eu tive de ir no Salaviza, o jovem realizador português que havia falado com o cinema dos subúrbios portugueses e da cabeça sem cabelos de Rafael, um menino jovem em meio a dramas próprios ao nosso Estado de Direito, que tinha falado da cidade como uma arena, um lugar hostil, quase terroso como as primeiras arenas devem ter sido. Ironicamente, esses signos eram tão universais, que não importava tanto onde é pior ou menos pior, onde isso acontece de maneira mais cruel.

E dizer isso, é preciso que eu sublinhe ainda outra vez, tampouco quer dizer que estou aliando minha escrita a algum tipo de concepção generalizante, essa quase piada com o termo ‘humanismo’ que circula na internet, de maneira alguma pretendo silenciar as particularidades dos casos e contextos, que no fim das contas fazem as coisas serem o que são em seus próprios engenhos. O Celan com toda certeza integrou uma dessas minorias, não cabe a mim a apropriação desse capítulo da História, mas estou tentando pensar – para examinar a atuação desse mecanismo cruel que Celan expõe, mas nos corpos que alcança por aqui – na escrita que o Silviano Santiago firmou na década de setenta, apoiado em Barthes, Derrida, Foucault e outras grandes cabeças, uma escrita a partir de e depois de um texto.

E não uma escrita subserviente, não uma escrita literal, não a escrita que encena o texto original, e sim uma escrita que adapta o texto original, que o direciona para o contexto próprio em que ela se insere. Esses cabelos para mim são os cabelos de Marcele, uma atendente de uma grande rede de fast-food numa metrópole da América do Sul. E a cabeça sem cabelos do Rafa de Salaviza muito bem pode ser a cabeça sem cabelos de Rafael Braga, aqui do Brasil, vítima da polícia por ser negro, mesmo que originalmente, na minha cabeça, o verso fosse endereçado a outro Rafael, ironicamente também brasileiro e numa situação semelhante. Aí está o centro da coisa. As situações se repetem num padrão bruto e cego.

Dito isso, o contraponto na discussão, é que também não vale tudo. Tenho a impressão de que hoje em dia está muito mais claro que não é possível agir somente sob a vontade. Os textos, os filmes, pertencem ao mundo, mas é preciso que não nos esqueçamos que a democracia que eles guardam, seja com seu próprio autor ou com qualquer outro que os receba, essa possibilidade da obra em se relacionar com o mundo, nunca exclui de fato a origem marcada nos signos que permeiam o objeto. Penso que essa origem, desdobrando o que o Silviano Santiago dizia nos anos setenta, tem demandas e responsabilidades com os grupos diretamente envolvidos. Os grupos puxam para a questão da representatividade que discutimos bastante hoje e eles aumentam e diminuem de tamanho coforme for o que se assume como território.

Acho que hoje tentamos também  jogar com a formação imposta pelo mercado para fazer redes. Para mim esse é um dos aspectos positivos do facebook, por exemplo.   Então, parece que há também hoje algumas pessoas que tentam escutar as minorias de maneira mais justa. Essas últimas são, sem dúvida, quem melhor pode dizer de suas dores e, com isso, estamos aprendendo a entender e respeitar o que dizem essas vozes em texto e prática. Isso me parece bom. É difícil e é bom. Mas é uma construção permanente, porque exige um exame constante.

Acho que dei essa volta toda e agora não sei se me expressei de forma clara, mas o que queria dizer de fato é que, olhando a situação com responsabilidade, esse poema do Celan não está congelado no tempo, ele é bastante atual e pode ser ressignificado numa direção parecida, mas em outro momento, o nosso. Afinal isso é também o que fazem os poemas quando fraturam a linguagem.

Acredito que ele é pertinente para o momento que vivemos, porque ele é não apenas Rafael Braga violentado pela polícia, como é também o prefeito João Dória de São Paulo usando a força contra dependentes químicos em situação de fragilidade, é o avanço dos grupos neonazistas nos Estados Unidos nos últimos anos, o avanço da homofobia e da violência aqui no Brasil apesar de todo o conhecimento, o avanço nas pesquisas para as eleições presidenciais de um candidato que declara abertamente, como se estivesse informando as horas numa esquina, que não respeita os direitos mais básicos da convivência humana, que não é contra a tortura, que não respeita as mulheres, que a homossexualidade é uma doença e deve ser tratada. Não estamos mais no século XIX e, outra vez, ironicamente, esse personagem caricato e quase inacreditável pode vestir as roupas de Trump mais ao norte ou de Bolsonaro aqui no sul, se preferirmos.

Godard disse uma vez numa entrevista que ‘a história está só, está longe do homem’. Talvez seja muito importante e cada vez mais necessário pôr os olhos nessas imagens universais que se repetem num padrão. Temos a Literatura e o Cinema, temos mais uma porção de coisas. Talvez seja essa a única função possível da arte.

SM – Eu entendo que você está considerando esse poema – e a poesia em si, eu diria – como um ato político de resistência que se serviria de certa quantidade de signos, desdobrando-se e retroalimentando-se. Você acha que as pessoas vão pra essas leituras em momentos de crise política? O que há de resistência no ato da leitura?

FK – Eu acho que tendemos a resgatar os pontos de luz na História que nos ajudam a enxergar melhor nas horas mais escuras. Essa me parece uma função bastante nítida da poesia e da arte em geral. Li em algum lugar essa semana uma crítica dizendo que o bom cinema não consegue se esquivar de seu tempo. Acho que o mesmo acontece com a poesia, com a boa poesia. Me parece que estamos sempre tentando criar universos próprios e possibilidades de vida com o que fazemos, mas esses universos dizem de e prestam contas com a vida hoje.

Essa é a leitura barthesiana de que falava algumas linhas acima e não só é um dos engenhos de funcionamento, talvez mesmo uma das definições de inteligência, como é também um mecanismo de exame contínuo. Isso a internet faz o tempo todo com os memes e me parece ser o centro do pensamento poético e do pensamento infantil, na acepção mais literal dessa palavra.

Não consigo decidir com toda a certeza se acho que o quadro que se apresenta à nossa frente está melhorando alguma coisa ou se só caminhamos em direção ao penhasco, se quase não interrompemos esse movimento. Acho que interromper o movimento é uma das formas de resistir, mesmo achando que caminhamos sempre de olhos fechados.

Fico pensando no Pasolini, quando dizia dos vagalumes, e da leitura posterior do Huberman sobre o assunto. De certa forma, parece que o Pasolini se desanimou no final da vida com o quadro que ele via e daí faz todo o sentido esse fim da dialética, da intermitência dos vagalumes na sua obra com um último filme como o Saló.

Acho que numa coisa o Pasolini acertou. E em outro ponto concordo com o Huberman. Em relação ao Pasolini, não sei se quero ficar apenas com a leitura apocalíptica, mas parece claro que os grandes holofotes, as grandes luzes do mercado, tomaram tudo. Isso fica mais difícil de negar porque, apesar de haver mais luz, mais troca, mais janelas, parece que está ainda muito difícil de enxergar. Isso é o que acontece quando uma luz muito forte é apontada na direção dos seus olhos, é como se você estivesse numa escuridão total. Engraçado ele ter pensado nessa imagem, porque me lembra uma faixa do Rincon Sapiência, um rapper paulista, que cria uma mini fratura na linguagem – e me ajuda a dizer o que eu quero – quando diz ‘pra ficar mais claro/ eu escureci’:

Dentro do esquema citacional do Godard e também algo próximo das remissões recíprocas do Umberto Eco, eu gostaria de usar esses versos do Rincon pra reforçar algo que já disse por alto lá em cima. Acho que isso pode ser algo de bom e um quadro de resistência para chamar aqui: acredito que as respostas para novas possibilidades de vida aqui no Brasil estão vindo e devem continuar vindo das minorias, que agora começam a ser mais ouvidas. Isso tem muito a ver com um esforço de articulação desses grupos mas também tem a ver com uma resposta nos mesmos termos.

Nesse sentido, se estamos vivendo numa grande bolha cor de shopping center, que é mais ou menos o que o Pasolini prenunciava, um fascismo mais sutil e mascarado com mais habilidade, o melhor jeito de resistir é ser um bicho contra a vontade que não é a sua, que é imposta por uma máquina dos outros.

Trazendo a leitura especificamente para essa discussão, acho que vai muito além da superfície de um debate alegórico entre papel e tela, entre suporte, novas tecnologias, etc. Às vezes penso em como a literatura pode parecer limitada quando comparada ao vídeo, ao cinema, mas isso é uma besteira. A leitura como a conhecemos, o uso da linguagem escrita e do idioma sofrendo mutações ao longo do tempo e sendo cristalizado na folha, essa é uma tecnologia incrivelmente efetiva, poderosa e livre.

Para completar, tendo a pensar no Huberman quando traz o Benjamin para falar da perda da experiência, o que alinha com esse quadro apocalíptico do Pasolini. O problema está no ritmo, na imposição de um tempo de apreensão. Mas daí temos que aprender a maneira de permitir a experiência no nosso tempo.

A coisa mais bonita da leitura, e mais diretamente da leitura de poesia, é organizar tempo e ritmos próprios fora do cronômetro do mercado. Esse é também, logicamente, o seu muro, por se fechar diversas vezes em si mesma, mas não deixa de ser o seu grande acerto. Não precisar pagar qualquer tipo de arrego, não participar de qualquer acordo escuso, na maior parte das vezes em que ocorre. Isso o cinema não tem tanto quanto a poesia, porque o cinema se tornou uma coisa agigantada, dentro da lógica da mercadoria. Quando um poeta escreve, mesmo quando quase não vai ser lido, ele é um bicho contra a vontade. Isso deve ser um jeito de resistir.

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2 poemas inéditos de Valeska Torres

valeska 2

Fotografia de Fernando Targino

Valeska Torres nasceu no Rio de Janeiro, Marechal Hermes em 1996. Mora em Irajá. Publicou poemas em Do rio ao mar, coletânea de poemas, crônicas e contos, nas revistas Mulheres que Escrevem Mallamargens, finalista do Slam das Minas RJ 2017 e vai publicar um livro em 2018 pela editora Kza1. Já apareceu aqui no escamandro com outros 2 poemas.

***

(Insira uma frase de Eva Perón)

do bico do peito

os que mamam em grandes tetas

o pingo de leite
branco
sobre a hispano américa amedrontada

sobra-nos:
1. os farelos,
2. o chupar de dedos,
3. pedaços de alfajor caídos sob o tapete do vizinho.

aos que não tomam leite
– esses que infestam a cidade com cartazes de desaparecidos –
restam-lhe
o café preto amargo

trepamos sobre essa cama, mas não nos lambemos
tampouco
partilhamos nossas línguas
falta-nos salivas

a cerveja o matte dividimos no poema após um pancho entre Catarmaca y Sarmiento

da goela
o pollo descendo abaixo
até o engasgo
yo soy soy yo
a balsa que atraca no Rio Paraná
a faca que corta o pão massudo
dentro
salsicha temperada de salsa crioulla

§

 

Nós dois cantando Sidney Magal no karaokê da Feira de São Cristóvão
Para o Fernando

Estação da Penha
desemboco perdida na linha de fuga, percebo
– como se percebem os furos de tatuí na areia de Grumari –
o grão de purpurina no fim do carnaval,
são quatro por dois isso que inflama o meu peito.
Não chupo a espinha do peixe,
não como mocotó,
mas ainda sonho em me bronzear sob o sol de Ramos
me banhar no piscinão
ao seu lado
com as mãos entrelaçadas as suas
bebendo itaipava.

Sou mulher de gostos caros, digo a você enquanto
rasga meu sutiã
gasto
por amaciantes.

Picho na murada do prédio
seu nome ❤ o meu
para que você saiba o quão merda eu sou
quando apaixonada.

Meus pais me apontam dedos disseram para não me perder demais
¡perigo águas profundas, correnteza e redemoinho!
É tarde,
depois de meia noite
nossos horários são verões.
É tarde e estou fudida
porque a foda tem o gosto do meu homem
e disso
os meus lábios não cansam.

*

 

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