tradução

Gravuras japonesas, de John Gould Fletcher (1886-1950), por Anderson Lucarezi e Lucas Zaparolli de Agustini

img100

John Gould Fletcher (1886 – 1950) nasceu em Little Rock, Arkansas, no seio de uma família abastada, o que lhe possibilitou estudar em Harvard. Com a morte do pai, em 1906, deixou a universidade para viver de herança e empreendeu uma longa viagem para a Europa, acabando por estabelecer-se em Londres, onde publicou, em 1913, cinco livros às próprias custas. Nessa época, tendo conhecido Ezra Pound, tornou-se difusor da corrente estética do Imagismo, que visava afastar-se do sentimentalismo corrente na poesia de então e propunha alguns princípios para a produção poética: o tratamento direto do assunto, a economia verbal e a elaboração de um ritmo que se pautasse pela frase musical em detrimento da batida do “metrônomo”.

Em 1915, Flecther alcançou notoriedade entre os poetas americanos com a publicação de Irradiations: Sand and Spray. No mesmo ano, após ter visto uma exposição de pintura japonesa em Boston, no Museum of Fine Arts, passou a refletir a respeito de uma forma de mesclar a tradição oriental com a ocidental. A respeito dessa tentativa, vale lembrar Edna B. Stephens, que afirma que o intuito do poeta era “fundir o entendimento intuitivo do Oriente com as energias explosivas da América” .

Dessa exposição inspiradora surgem os “quase” haicais aqui traduzidos, que compõem o livro Japanese Prints, de 1918. Vale pontuar que mesmo antes de compor essas Gravuras Japonesas, Fletcher já demonstrava interesse pelo Oriente. Em Goblins and Pagodas (1916), por exemplo, aparecem referências ao Budismo, ao Taoísmo e ao Zen. Este interesse pelo pensamento oriental continuou em seus trabalhos posteriores, geralmente aliado ao misticismo, também recorrente em sua obra. Em Parables (1925), dialoga com o Hinduísmo. Já em South Star (1941), apresenta uma atitude anti-industrialista e uma defesa do primitivismo, da quietude taoísta e da doutrina confucionista do homem superior, elementos que serão fundidos poeticamente na figura do estado do Arkansas da época dos pioneiros do oeste.

Nas Gravuras Japonesas, que se dividem em quatro partes compostas por poemas geralmente curtos, Fletcher buscou produzir em língua inglesa os chamados hokkus (transliteração da palavra japonesa, que em português adquiriu a grafia haikai e, após a queda do K na reforma ortográfica de 1943, haicai ).

Os haicais tradicionais adotam um esquema de três versos com 5 – 7 – 5 sílabas, respectivamente, e possuem ao menos uma palavra que aluda a uma estação do ano. No caso de Fletcher, a forma japonesa foi flexibilizada, assim como ocorreu no Brasil com o trabalho de Paulo Leminski e Alice Ruiz.

O autor, no entanto, diz na introdução ao livro que “não se pode escrever bons haicais em inglês. O que temos de seguir não é a forma, mas o espírito”. Espírito, esse, que os demais poemas, de forma geral, parecem conseguir recriar para a língua inglesa.

É importante destacar que o interesse de Fletcher pela poesia e pela cultura do Oriente não é um fato isolado. Três anos antes da publicação de Japanese Prints, Ezra Pound (1885 – 1972) lançava Cathay, livro que recriou para a modernidade a poesia chinesa antiga ao apresentar “quase-traduções” baseadas nos manuscritos do sinólogo Ernest Fenollosa. Em 1916, Pound trouxe a público Lustra, em que explorava a brevidade do haicai. No mesmo ano, e. e. cummings (1894 – 1962) publicava um poema chamado Hokku no periódico The Harvard Monthly. Em 1921, Amy Lowell (1874 – 1925) publicava suas próprias experiências com haicais. Wallace Stevens (1979 – 1955), em 1923, apresentava Harmonium, em que constam alguns poemas imbuídos da brevidade e da atmosfera do haicai, como é o caso de Thirteen Ways of Looking at a Blackbird.

Vê-se, então, certa vontade de revitalização da prática poética ocidental através do contato com elementos orientais. Esse interesse das primeiras décadas do século XX, no entanto, não foi pioneiro, já que a incorporação de elementos orientais pelo Ocidente remonta pelo menos ao século XVI, com o advento das grandes descobertas marítimas (na verdade, tem havido intercâmbio desde a Antiguidade). Houve diálogo com a arte africana e asiática durante todos os séculos subsequentes, mas, no caso do extremo Oriente – do Japão, em especial – o diálogo avivou-se mais a partir da segunda metáde do século XIX, quando o governo japonês retomou contato com o mundo externo, já que tinha ficado por mais de duzentos anos sob um regime de fechamento às relações internacionais.

Com a abertura japonesa, a partir de de meados da década de 1850, e com as exposições internacionais da segunda metade do século, que ajudaram divulgar a cultura oriental no Ocidente, chegaram à Europa e a outras partes do mundo um grande fluxo de elementos nipônicos, como cerâmicas e as próprias Ukiyo-ê, gravuras nipônicas famosas por conta dos trabalhos de artistas como Hokusai (1760 – 1849) e Hiroshige (1797 – 1858), o que engendrou uma tendência intitulada Japonismo. Sob este pano de fundo, surgiram, no campo das letras, várias manifestações que dialogaram com o Extremo Oriente, sendo que alguns exemplos relevantes são em língua portuguesa: Antonio Feijó (1859 – 1917), autor de Cancioneiro Chinês (1890), Camilo Pessanha (1867 – 1926), que deixou sua poesia se imbuir das referências da China, além de ter sido tradutor de elegias chinesas, e Wenceslau de Morais (1854 – 1929), que escreveu relatos sobre o Japão e, já no século XX, traduziu haicais para o português. No campo das letras em língua inglesa, destacam-se os trabalhos referentes a língua, literatura e história chinesas e japonesas escritos por Herbert Allen Giles (1845 – 1935) e Ernest Fenollosa (1854 – 1908). No âmbito das artes plásticas, houve a incorporação de elementos das Ukiyo-ê pelo americano James Abbott McNeill Whistler (1834 – 1903) e pelos pintores impressionistas e pós-impressionistas europeus, sendo que dois deles são Vincent van Gogh (1853 – 1890), que tinha sua própria coleção de gravuras, e Paul Gauguin (1848 – 1903), não por acaso biografado por Fletcher.

O gosto pelo Oriente não foi, tampouco, um interesse que acabou no começo do século XX. Uma das vanguardas poéticas dos anos de 1950, a Poesia Concreta brasileira desenvolveu um intenso estudo da mentalidade oriental, principalmente do ideograma, cuja lógica foi incorporada à prática escritural dos poetas pertencentes ao movimento. Em Portugal, autores como Herberto Helder (1930 – 2015) e Ana Hatherly (1929 – 2015) dialogaram com o Japão através da caligrafia e da recriação do koan, gênero textual tradicional. No mundo anglófono, vale citar o britânico Reginald Horace Blyth (1898 – 1964), tradutor de haicais, e os norte-americanos Jack Kerouac (1922 – 1969), autor de vários haicais copilados após sua morte, e Jerome Rothenberg (1931), que publicou traduções do chinês e do japonês, além de ter escrito pelo menos um livro de poemas que dialoga diretamente com o Japão, The Seven Hells of Jigoku Zoshi (1962).

Ficam, então, alguns poemas do livro, que foi traduzido integralmente para o português e será lançado pela Editora Benfazeja no segundo semestre deste ano.

 

Anderson Lucarezi e Lucas Zaparolli de Agustini

* * *

 

COURT LADY STANDING UNDER A PLUM TREE

Autumn winds roll through the dry leaves
On her garments;
Autumn birds shiver
Athwart star-hung skies.
Under the blossoming plum-tree,
She expresses the pilgrimage
Of grey souls passing,
Athwart love’s scarlet maples
To the ash-strewn summit of death.

CORTESÃ SOB UMA AMEIXEIRA

Ventos de outono vão pelas folhas secas
Às vestes dela;
Aves outonais tremem
Através do céu pego de estrelas.
Sob a ameixeira em flor,
Ela expressa a peregrinação
De almas cinzentas que passam,
Através dos bordos escarlates do amor
Até o pico da morte palmilhado por cinzas.

§

AN OIRAN AND HER KAMUSO

Gilded hummingbirds are whizzing
Through the palace garden,
Deceived by the jade petals
Of the Emperor’s jewel-trees.

UMA OIRAN E SEU KAMUSO

Colibris dourados estão zunindo
Através do jardim do palácio,
Iludidos pelas pétalas de jade
Dos pés-de-joias do Imperador.

§

 

MEMORY AND FORGETTING

I have forgotten how many times he kissed me,
But I cannot forget
A swaying branch—a leaf that fell
To earth.

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

Esqueci quantas vezes ele me beijou,
Mas não posso esquecer
Um galho bambo — uma folha que foi
Ao chão.

§

 

THE HEAVENLY POETESS

In their bark of bamboo reeds
The heavenly poetesses
Float across the sky.
Poems are falling from them
Swift as the wind that shakes the lance-like bamboo leaves;
The stars close around like bubbles
Stirred by the silver oars of poems passing.

AS POETAS CELESTIAIS

Em sua barca de canas de bambu
As poetas celestiais
Flutuam através do céu.
Poemas estão caindo delas
Velozes como o vento que balança as lâminas das folhas de bambu;
As estrelas se fecham como bolhas
Movidas pelos remos de prata de poemas que passam.

§

 

CHANGING LOVE

My love for her at first was like the smoke that drifts
Across the marshes
From burning woods.

But, after she had gone,
It was like the lotus that lifts up
Its heart shaped buds from the dim waters.

AMOR QUE MUDA

No começo, meu amor por ela foi como a fumaça que paira
Através dos brejos
Vinda de madeiras queimando.

Mas depois que ela partiu,
Foi como o lótus que ergue das águas turvas
Seus botões em forma de coração.

§

 

THE LONELY GRAVE

Pilgrims will ascend the road in early summer,
Passing my tombstone
Mossy, long forgotten.

Girls will laugh and scatter cherry petals,
Sometimes they will rest in the twisted pine-trees’ shade.

If one presses her warm lips to this tablet
The dust of my body will feel a thrill, deep down in the silent earth.

O TÚMULO SOLITÁRIO

Peregrinos vão ascender à estrada no começo do verão,
Passando por minha lápide
sob limo, há muito esquecida.

Garotas vão rir e espalhar pétalas de cerejeira,
Algumas vezes vão descansar à sombra retorcida do pinheiro.

Se uma delas pressionar seus lábios quentes contra essa placa
O pó do meu corpo vai sentir um arrepio, bem fundo na terra silente.

§

MOODS

A poet’s moods:
Fluttering butterflies in the rain.

HUMORES

Humores de um poeta:
Borboletas esvoaçando na chuva.

§

 

THE STARS

There is a goddess who walks shrouded by day:
At night she throws her blue veil over the earth.
Men only see her naked glory through the little holes in the veil.

AS ESTRELAS

Há uma deusa que caminha envolvida pelo dia:
À noite ela joga seu véu azul sobre a terra.
Os homens só veem sua glória nua pelos buraquinhos no véu.

 

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s