poesia

3 poemas inéditos de Prisca Agustoni (1975-)

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Prisca Agustoni nasceu na Suíça e mora no Brasil desde 2003. Traduz do italiano, do francês e do espanhol, é professora de Literatura Comparada na Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade mineira onde reside atualmente. Ensaísta, prosadora e poeta, integra o comitê científico de vários festivais literários na Suíça e de revistas, além de escrever e publicar sua obra em italiano, francês e português. Recebeu em 2014 a Bolsa do Governo Suíço para a criação, e alguns desses poemas (inéditos no Brasil) resultam de um trabalho que foi publicado na Itália em 2013, pela editora Ladolfi de Novara. Lançou esse ano no Brasil os livros Casa dos ossos, pela editora Macondo, e Animal extremo, pela Patuá. Textos seus inéditos serão debatidos no começo de 2018 no Festival Literário Suíço de tradução, Bieler Gespräche/Rencontres de Bienne, no Instituto Literário de Bienne, na Suíça.

 

sergio maciel

* * *

 

TEMPO PRESENTE

Não sabem que são
anjos os anjos que andam
conosco à noite:
tem olhos de vidro e dedos de cinza,
acostumados a remexer na sombra

e no lixo,

também estão com fome.
Como cãos vadios catam
entre os detritos do dia, latas
ruínas e flores humanas,
cacos de história bolorenta.

Logo tocam de leve o teto de casa,
aqui, no breu, no nicho entre a viga e o céu,
o procuram e, por fim, o espremem
até ele sangrar, o silêncio.

*

Os anjos vagam esquivos
de noite, sentam à mesa junto
aos mortos, servem quentes
os restos colhidos
pela estrada, logo botam fora
aquilo que entulha
a memória
até ela estourar

*

Esquivos, como gatos à espreita
alisam as dobras de um passado
que desbota no presente:

não sabem que são anjos
os anjos que nos perseguem:

também perderam as asas
algures, no lodo, no mangue,
no que sobra após a neve

uma dor quase branca

e não pedem nada
em troca do perdão

*

Cavam corredores de luz
no coração deste século
como quem quer tirar
o caroço do fruto
sem morder na polpa

ou como as bonecas russas
que sem pestanejar
– dura a madeira como dura o tempo –
renascem sete vezes da morte

§

 

Após o sonho em que ela
engoliu a lua,
não foi mais a mesma -diziam:

cada gesto falava de morte,
uma pequena morte
irmã, talvez, apenas da dádiva.

Após a noite em que ela
engoliu a lua
seu peito trincou
feito fina louça.

§

 

aqui não há guerras

a terra é estranha
sem falhas, só vozes
e cruzes que rolam das montanhas
para os vales e dento dos rios

estancam os sonhos

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