crítica

Trocos, recibos & resenhas. Um 2017 por Sergio Maciel (parte 1)

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como prometido, tentarei dizer algumas coisas – breves, muito breves mesmo: apontamentos – sobre os livros que me foram enviados neste ano. conforme eu mesmo afirmei ao tratar deste post lá no facebook, não há que se esperar nada de hermenêutico, de qualquer coisa absolutamente bem aprofundada sobre cada um dos objetos aqui propostos. estou a trabalhar com a importância de 22 livros, ou seja, piedade rs. ainda que a ideia primeira, contudo, seja a de traçar esboços de interpretações possíveis, questões que o contato com os livros me suscitaram, pretendo fazê-lo da forma mais honesta possível. nessa primeira parte, falo dos sete livros ali na foto.

então, é isso. simbora!

 

* * *

Adelaide Ivánova (O Martelo, Garupa: 2017).: Costumo dizer que O Martelo possui uma poética singular. Pois bem, é chegado o momento de dar porquês. Em primeiro lugar, eu diria que é singular porque a própria existência de uma poética brasileira feminista é um acontecimento recente – e aqui uso as palavras de Constância Lima Duarte, para quem o feminismo “poderia ser compreendido em um sentido amplo, como todo gesto ou ação que resulte em protesto contra a opressão e a discriminação da mulher, ou que exija a ampliação de seus direitos civis e políticos, seja por iniciativa individual, seja de grupo”. Ou seja, ainda que possamos resgatar, historicamente, Francisca Júlia, Júlia da Costa ou Jacinta Passos como figuras de resistência num período tão patriarcal, além da figura de Hilda Hilst, que desafiava o conservadorismo com sua poesia erótica, nenhuma dessas poetas possui o engajamento político que surgirá a partir das obras de Alice Ruiz, Ledusha e Ana C., por exemplo, e culminará nas poéticas mais recentes de Angélica Freitas, Nina Rizzi, Estela Rosa e Adelaide Ivánova, para citarmos apenas alguns nomes. Desse modo, a partir desse resumo grosseiro, considero que dentro desse modus poético O Martelo, por enquanto, não encontra pares. Em Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify, 2013), Angélica Freitas opera, a meu ver, a construção da mulher de que falava Simone de Beauvoir a partir do uso reiterado de versos copulativos que definem subversivamente, com base no uso incessante de verbos de ligação e por meio de constantes asserções, o que é uma mulher, desmontando a ideia formada dentro de uma cultura patriarcal que define qual é o seu papel no seio da sociedade. Adelaide, por sua vez, também trata do poder e da disciplina sobre o corpo feminino, mas a composição pra mim é que difere. Em O Martelo temos uma narrativa, ou a tentativa de construção de uma narrativa, sobre uma situação de catástrofe. Freudianamente, dá pra dizer que se trata de uma narrativa que busca desenvolver a angústia retroativamente, onde esta faltou. Precisamente por isso, a linguagem – que todos sabemos insuficiente – se ergue sobre a ambiguidade (ou dificuldade de definição) do gênero. Cria-se uma poética sobre uma narrativa que pretende, quase jornalisticamente, retratar um acontecimento, ao passo que essa poética constantemente parece sucumbir à apresentação dos fatos – movimento, aliás, que tensiona a mesma busca pela apresentação e aceitação dos fatos na instância jurídica do crime –, como na descrição física, no relato preciso do golpe de um martelo no primeiro poema ou na notícia que é o poema para laura. Há uma tensão constante, como é costume entre poéticas que se queiram políticas, entre aquilo que se pretende poético e aquilo que se pretende factual, quase jornalístico, mas que aqui, me parece, reflete quase que um embate entre o princípio de prazer e o princípio de realidade, ou seja, o adiamento da satisfação – que ocorrerá na segunda parte do livro – através da tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer. Além disso, há que se notar a utilização animal no livro. A questão da animalidade, que remonta pelo menos desde A história dos animais, de Aristóteles, é uma questão muito delicada para ser tratada leviana e rasteiramente aqui, mas eu assinalaria apenas que mais uma vez o poético busca retratar o horror do real – esse é o cerne d’O Martelo, creio, a tentativa de segurar na unha esse real que não cessa. Para Maria Esther Maciel, “todo animal – tomado em sua singularidade, em seu it – sempre escapa às tentativas humanas de apreendê-lo, visto que entre ele e os humanos predomina a ausência de uma linguagem comum, ausência esta que instaura uma distância mútua e uma radical diferença de um em relação ao outro”. Ou seja, não é gratuito que todas as pessoas que atravessem a experiência pós-traumática do acontecimento residam “numa língua que não é mais a das palavras, numa matéria que não é mais a das formas, numa afetibilidade que não é mais a dos sujeitos”, para dizer com Deleuze-Guattari. Tudo no livro colabora para a experiência de um entrave nas relações. Nada aqui flui, nem mesmo quando o eu-lírico encontra e redescobre os corpos, tanto seu quanto alheio. O Martelo, enfim, é um livro-ferramenta de demolição do desprazer neurótico, da submissão do corpo e de uma outra infinidade de repressões.

 

André Capilé (rapace, Texto Território: 2012 | muimbu, Macondo: 2017).: Eu poderia nomear a poética que Capilé desenvolve em muimbu (palavra que dá título ao livro significando ‘música vocal, cantiga, melodia, o que se canta’) como uma poética de tradição, de uma tradição de poéticas que tocam na tradição do candomblé – ainda que aqui valha mencionar a nuance entre tradição e costume apontada por Hobsbawn:

A “tradição” neste sentido deve ser nitidamente diferenciada do “costume”, vigente nas sociedades ditas “tradicionais”. O objetivo e a característica das “tradições”, inclusive das inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que elas se referem impõe práticas fixas (normalmente formalizadas), tais como a repetição. O “costume”, nas sociedades tradicionais, tem a dupla função de motor e volante. Não impede as inovações e pode mudar até certo ponto, embora evidentemente seja tolhido pela exigência de que deve parecer compatível ou idêntico ao precedente. Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção do precedente, continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história.

Dar a sanção do precedente, de continuidade histórica, dentro da poética contemporânea, dando-lhe, ao candomblé afro-brasileiro, ao mesmo tempo, uma dimensão universal, é uma questão muito difícil em termos de poética. Algo como a operação dos Afro Sambas. Não há fetiche aqui. Não há utopia de uma catarse/pureza religiosa. Há, sim, qualquer coisa aqui de uma etnopoesia, i.e., de uma tentativa de relacionar a uma poética sincrônica alguns traços diacrônicos trazidos novamente ao presente e, vistos assim como se pela primeira vez, pra dizer com Eliot, que buscam iluminar alguns caminhos – exemplo disso são os poemas das páginas 18/19, constantes no capítulo ‘NGANA JILA CALIBAN’ (JILA significando nome genérico da todas as faixas de terreno que conduzem de um para outro lugar, caminho, espaço que se percorre, estrada, rota, travessia):

acesso de todas
as portas

sou de todas
as cruzes

a passagem

(p.18)

que importa se
é verdade?

caminho qualquer caminho

(p.19)

 

Como é possível ver nestes poemas citados e no próprio poema muimbu (clique aqui), o importante dessa poética é que as vozes desse canto buscam sempre um ritmo que as conduza, uma marcação de cantiga, seja através dos binários troques&iambos, ou dos ternários anapestos. A preocupação rítmica conduz as operações de vitalidade aqui. Se passarmos ao rapace, por exemplo, fica evidente que o apelo ao vocal, àquilo que há de ritmo no corpo. O jogo melopaico é mais do que eficiente em suas trocas rápidas de verso, assemelhando-se a qualquer coisa de uma tradição oral que se possa remeter tanto ao rap quanto ao repente. A exemplo, vejamos o poema Mind the gap (clique aqui). É claramente uma poesia que se realiza, que se completa na voz performática, no corpo. É “a gambiarra do inútil dizer que se dá melhor fora aos ouvidos”, afinal.

Por fim, deixo aqui recomendado o apanhado da poesia do autor feito pelo Ricardo Domeneck na revista Modo de Usar (clique aqui).

 

Carla Diacov (A menstruação de Valter Hugo Mãe, casa mãe: 2017).: A Carla Diacov é uma coisa, né!? Sempre que eu penso que a poesia é uma subversão da expectativa do dizer, eu meio que penso na Carla, porque nada ali faz sentido dentro do meu usar da sintaxe, das relações lógicas da língua. A Carla costuma corromper todos os signos em mim. Eu, por exemplo, nunca espero por algo como “houve a tentativa por sobre a coisa no chão/ vermelha não tinha o tempo da vida/ aquém/ espera marido que também/ é nome de doce que se serve às/ visitas que esperam saber/ espera marido no chão no urso de usar no chão/ espera marido de arrepiar filhos”.  Mas todo esse encadeamento que nos conduz por sendas que nós não imaginávamos caminhar é feito sob a luz da maior “lucidez na brancura no tato olfativo”. Carla é daquelas poetas que – putaquepariu – desmontam nosso chão pra não colocar nada imediato no lugar. Nós é que nos viremos pra entender as coisas que estão em jogo a cada poema e caminhar novamente.

A questão é que em A menstruação de Valter Hugo Mãe temos duas Carlas. A Carla que assina os poemas e a Carla que vai assinar os desenhos. Isso me leva a pensar que a composição dessa obra mantém uma tensão fundamental com duas questões: 1) as artes plásticas, ou mais especificamente a pintura (ou ainda mais especificamente uma pintura que se proponha primitiva e que remonte quase aos vermelho as pinturas rupestres. Afinal, o vermelho meio que é pra nós, humanidade, uma cor fundadora e primordial) e 2) um funcionamento biológico intrinsecamente feminino que, aqui, se apresenta como realizado num corpo masculino, isto é, no corpo do escritor português Valter Hugo Mãe.

O fato do primeiro poema do livro tratar sobre a Vênus de Willendorf (clique aqui para ler o poema) não é gratuito. Vejamos: a estatueta, que mede 11 centímetros, data de entre 24 000 e 22 000 a.C. e possui uma cor ocre. Muita gente reluta em aceitá-la como a representação de Mãe-Terra, a coisa mais fértil que se pode existir. Outros ainda relutam em aceitar que a estátua seja de fato uma representação de Vênus por conta de suas características de obesidade. De todo modo, a Vênus de Willendorf é talvez uma das representações mais famosas de um conceito de mulher, que se liga à ideia de fertilidade, de bem-estar &c. Que ela tenha sido usada em rituais de fertilidade, em rituais de plantio, em tudo que se pudesse germinar o crescimento de algo, Carla nos dá conta e arremata, no verso final, que “a vênus de willendorf jamais deixou de ser usada”.

i.e., Carla nos apresenta logo de cara uma figura de atrito. A estatueta serve tanto como ideia primordial e primitiva das artes plásticas – o que abrirá o campo para a expensão poética de seus desenhos, que vale salientar é produzido a partir do sangue menstrual da própria autora – quanto ideia primordial e primitiva da mulher, do corpo da mulher, das funções corporais da mulher. A partir disso, portanto, sobretudo daquilo a que se propõe, biologicamente, o corpo feminino, Carla vai operar um desmonte do lugar-comum da menstruação – e claro do corpo feminino, vide o poema da página 15, “havia somente uma cadeira para o casal” (conferir no hiperlink do parágrafo anterior). Tudo aquilo que falei sobre o livro da Angélica Freitas vai se aplicar também, conceitualmente. Trata-se, afinal, de uma narrativa sobre a mulher aqui, sobre a construção diacrônica do conceito de mulher.

Por fim, pra não alongar muito, queria salientar duas coisas. A primeira está relacionada a um isomorfismo: o livro se abre com a fertilidade da Vênus, passa por uma consideração da mulher e da menstruação e termina com um poema sobre um filho. Acho curioso porque, biologicamente, novamente, a menstruação vai significar precisamente a ausência desse rebento (pra muita gente vai significar o alívio, aliás). Mas em Carla sucede o contrário. Os ovos que não vingaram aqui vingam. Veja, é aquilo que eu disse sobre a corrupção de nossas expectativas. A outra coisa é – e vou dizer aqui de modo muito vago e subjetivo – que Carla opta, a cada poema, pelo amor. Trata-se, pra mim, em última instância, de um livro de amor. Um amor por si mesma, pela alteridade, um carinho pelo próprio sangue – ainda que se possa enxergar no próprio sangue o combate. Esse dar o próprio sangue pode ser entendido aqui quase como uma devoção do próprio corpo à resistência na arte. E, assim, gente, eu não concebo resistência sem amor.

 

Casé Lontra Marques (O que se cala não nos cura, Aves de Água: 2017 | o som das coisas se descolando, Aves de Água: 2017).: Desde que eu encontrei alguém com quem eu finalmente pudesse conversar, isto é, uma excelente psicanalista (que obviamente é lacaniana), eu comecei a pensar muito, a partir do trabalho dela, no meu próprio trabalho. Toda essa jogada de se colocar em frente a um discurso, que a princípio pode parecer banal ou soar ininteligível, e buscar ali um sentido, qualquer coisa que dispa de dores esse corpo do discurso e conceda uma nomenclatura, compreensão, às dúvidas e delírios radicalmente pessoais não difere, para mim, em nada daquilo a que se propõe qualquer leitor crítico.

Aproximações psicanalíticas da literatura não são, evidentemente, novas. O surrealismo certamente é o evento mais notável. Ali, se buscarmos nos ater à nomenclatura usual das coisas, pouca coisa se nos revelará. Quando se diz que um cavalo azul corre sobre um piano, por exemplo, a metáfora ali é antes psicanalítica que literária. Outro exemplo dessas aproximações pode ser o romance Grande Sertão: Veredas. Como não ler ao longo das páginas e páginas de discurso de Riobaldo uma sessão lacaniana. Sobretudo quando nós, leitores, cumprimos o papel analítico de atentar a cada ato falho, como MEDO/DEMO, ou enfatizar cada signo, como MIRE e veja. Pode-se falar, portanto, de uma aproximação aos efeitos do funcionamento da linguagem formalizada. O sujeito, assim como o eu-lírico, torna-se uma função que deriva da incidência do real no campo da linguagem. E é precisamente por isso que o discurso não cessa. Nesse sentido, O QUE SE CALA NÃO NOS CURA assinala essa aproximação psicanalítica logo no título. Trata-se, em última instância, de responder ao real, de criar sentido a partir desse dizer a um Outro: de fazer “sol dentro do surto” (p.49).

O longo poema de quase 80 páginas, assim como todo longo poema de quase 80 páginas, não demanda a exegese de cada vírgula. Há pontos de tensão saturados de sentido aos quais é necessário que atentemos, entretanto. A presença do corpo é fundamental, porque, me parece, esse corpo faz parte do próprio discurso psicótico que constitui a narrativa. Vejamos: “E apesar de toda a atrofia: / reencontro este limiar (uma elipse; outra elisão) em que/ o acirramento/ da linguagem/ deixa marcas fecundas no corpo – deixa marcas (ou/ ventosas ou queloides ou asas) fundadoras de um corpo” (p.47). O corpo e toda sua condição/preocupação de carne e sangue e fome encontra-se latente o tempo todo. Esse corpo/discurso busca a todo momento “A fala que falha (que fraqueja. A fala que falha) também fertiliza o fôlego” (p.71). Ao fim e ao cabo, há aqui a busca, através da cura pela fala, da constituição de um sujeito fora da cadeia significante.

Em o som das coisas se descolando, creio, a estética parece deslocar-se quase para uma espécie de haikkai, ao focar na transitoriedade de todas as coisas. Vejamos o seguinte poema da página 38:

Um riso nos irriga –
chiado de chuva
no piso das pupilas.

Claro que depois dos anos 70 qualquer poética que busque esse tipo de concisão haikkaística corre um risco. Casé, todavia, parece se sair muito bem, com raras exceções de maneirismo – que em um livro de quase 200 páginas passam completamente despercebidas.

 

Fábio Weintraub (Treme ainda, Editora 34: 2015).: Trazer “para o registro lírico recursos narrativos e dramáticos” seria, para o autor, aquilo que ele chama de “ambição civil”. Ou seja, “mediar subjetivamente essa ‘captação de dizeres’ sem transformar a ‘cessão de voz’ em imposição falsificadora” (clique aqui). Curioso é que essa “captação de dizeres” vai se dar sobre experiências de choque, de trauma, de desolação (veja só, mais um livro falando sobre trauma, choque e desolação. Estariam mesmo os autores falando disso ou seriam estas as minhas lentes? Divagações…).

Em Treme ainda, cada poema vai criando uma situação de catástrofe seja pelo mote da perda, seja pelas ideias de uma loucura que conduz ao ridículo, da covardia, da podridão dos desejos ou daquilo que nos conferem de podre aos desejos. Toda a atmosfera criada aqui repousa sobre o signo da sujidade, quase ao modo daquilo que se poderia dizer das Flores do Mal. O paradigma é outro, inverte-se. Num corpo doente tudo que é são torna-se desvio. Um corpo em convulsão passa a ser um corpo excelente.

Para mim, o poema talvez mais emblemático do livro talvez seja “PRAZER”. Vejamos:

PRAZER

mesmo deste jeito
deitada de bruços
com a luz apagada
a salvo dos chamados
surda ao telefone
à campainha
insensível aos apelos e desvelos
dos que me cercam e alimentam
mesmo engolindo rápido
sem dentes
a refeição como quem
se livra de um compromisso
mesmo esquecendo
o nome do presidente
o dia da semana, o mês do ano
o nome do lugar
em que você trabalha
da rua onde eu moro
da moça que me ajuda
mesmo me libertando
das poucas obrigações
(esticar as pernas
escovar o cabelo
limpar a merda
que às vezes escapa
por causa do remédio novo
pra não perder a memória)
mesmo cada vez mais distante
da oportunidade
de transmitir um legado
a quem me assiste e sucede
nesta comédia cujo roteiro
é refeito a todo momento
por exigência
do desprezível público
que aplaude sem critério
e ri nos momentos mais pungentes
mesmo agora, aqui
fazendo essa pontinha
aguardando de novo
a minha deixa
mínima
antes que caia o pano
e no programa meu nome
seja corrigido
ainda assim, eu aqui
imóvel no escuro do escuro
com voz consumida
nisso tudo ainda sinto
um grande
enorme
prazer

A condição marginal criada pela poética de Fábio subverte a marginalidade tornando-a o centro do prazer. Veja que é “imóvel no escuro do escuro/ com voz consumida” que a eu-lírica sente prazer. Tudo aquilo que é abjeto passa a figurar como norma. Fábio cristaliza, portanto, o instante catastrófico em cada poema. Reitero: a operação aqui é semelhante à construção de um jardim no qual todas as flores são do mal, à construção de uma lira feita de lixo.

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poesia

4 poemas inéditos de Dirceu Villa (1975—)

Dirceu Villa (1975, São Paulo), autor de 4 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC) , Transformador (antologia, 2014) e 1 inédito, couraça (2017). Tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015). Escreveu ensaios sobre poesia contemporânea e revisão do cânone de poesia de língua portuguesa. Foi o curador da exposição de livros de Ezra Pound, a Ezpo, da biblioteca de Haroldo de Campos, na Casa das Rosas (2008). Organizou antologia de poetas brasileiros contemporâneos para a revista La Otra, do México, em 2009, e escreveu prefácios para obras de Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Christopher Marlowe, além de autores contemporâneos, como Alfredo Fressia, Ricardo Aleixo e Jeanne Callegari. Foi convidado para o PoesieFestival de Berlim em 2012 e em 2015 foi escolhido para residência literária em Norwich e Londres, promovida pelo British Council, a FLIP e o Writers’ Centre Norwich. Tem pós-doutorado em Literatura Brasileira, revisando o cânone de poesia de língua portuguesa. Ensinou literatura na pós lato-sensu da Universidade de São Paulo (USP), na graduação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e é há três anos professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária). É poeta convidado do Festival Internacional de Poesia da Nicarágua, em 2018.

* * *

cristo pantocrator
de aleppo, mestre melquita

o cristo pantocrator escavado a cor na madeira,
olhos bem arregalados, dedos em sinal de
“lhes direi a verdade, não só a dos livros,
a dos lábios”,
esperto: cabelos repartidos,
hidrocéfalo, quase como o pobre poe,
cristo todo cabeça, novo bizantino,
vermelho & azul como um super-herói.

tuas palavras doces ó senhor dóem &
são o ouro dos hipócritas, aleppo, aleppe:
dante, educado belamente, pouco amante
nada amado, velho político
de más escaramuças contra amigos – daí o ser sensível
aos canalhas traidores.
o tempo, cristo, rói a tua madeira
de eternidade, tua carne, tornas só luz
+ dois alados contigo. teu pai não é um mendigo,
ele manda, ó pantocrator, ele dita tua oratória, ele sabe
todas as línguas, ele tem uma conspícua
cauda em ponta, ó melquita.

§

baby berserk

o amor é sempre uma canção solitária
seus cachos sorrisos os olhos brilhantes
dores nervosas maquiagem octogenária
o templo de ódio shirley jane distantes

oh the good ship lollipop na culinária
mulher ouro rosa colar de diamantes
o mundo material não precisa de pária
atriz menina velha voz dessemelhante

a cadeira de rodas em escadas rolantes
unhas mais longas que sua faixa etária
gravata borboleta de homens de estante
é hora de lhes mostrar a arcada dentária

§

phaenomena meteorologica

boreais, as notáveis auroras
sem rumor no horizonte,
como um grande rosto universal,
o grande cosmos com sardas de estrelas,
luas em pó digestivo, luzes curvas: a língua
de einstein lambe o sorvete do átomo,
a eletricidade penteia seus cabelos pro alto,
brancos como as nuvens hirtas de haarp,
e galos costuram a manhã verde
da preguiça inviolável,
selada a vácuo contra os crimes dos astros.

chove agora quando a dança nos dá
tatanka iyotake: que a dança fantasma
engula os brancos
(buffalo bill sobretudo),
que a dança apague incêndios criminosos,
pague as contas de luz, encante vênus, venerável
enamorada, e urano, pênis usado
no mar para espuma
abrindo a champagne da via láctea
— e todos sorrindo com pérolas.
tatanka iyotake, sentado e dançando.

bohr se aborrece,
a bomba estremece o pacífico, os peixes se espremem,
bóreas no topo do mapa, ainda soprando.
ventilador do planeta
antes da umidade relativa, absoluta
(em buffalo, new york),
antes de franklin contra júpiter;
a aurora boreal segue em silêncio, tesla
nunca tentou uma plantação de chapéus
e sua bobina hoje mergulha numa fatia do horizonte,
como numa cabeça humana.

§

eat drink suckcess
[hypnotic charm]

 

o que eles
farão por isso
o que
eles farão

você não sabe
mas eles
farão o que for
preciso por isso

e o que eles
farão por isso
o que
eles farão

quem sabe
o que eles
farão por isso

sabe que eles
farão o que for
preciso por isso

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CARPE DIEM: 28 versões + 2, por Matheus Mavericco

Existem poemas que conseguem a tremenda felicidade de cravarem uma expressão ou uma palavra na cabeça dos leitores. Nem sempre é sinal de qualidade. Veja o caso de “passar pela vida em branca nuvem”, expressão usada por nossos avós e que foi retirada de um poema de Francisco Otaviano, patrono da cadeira de número 13 na Academia Brasileira de Letras e poeta medíocre, autor, quando muito, de um soneto hamletiano vagamente interessante. Exemplo ligeiramente diverso é o de “Depois de um longo e tenebroso inverno”, segundo verso de um soneto até comovente de Luís Guimarães Júnior, onde as assonâncias conseguem pelo menos desempenhar um papel curioso ao espichar a duração do verso. Nem um nem outro, todavia, capazes de rivalizar com o que o poeta mineiro conseguiu com seus “uma pedra no meio do caminho” e “E agora, José?”.

Com carpe diem é igual. Graças ao que o Ensino Médio cobra e ao que o professor Keating sussurra no ouvido dos alunos, mesmo quem não tenha a mínima noção da amplitude poética que a expressão alcançou consegue, ainda que por alto, mensurar sua importância. E no entanto, veja o leitor que quando Horácio escreveu o poema que a imortalizou, o décimo primeiro do primeiro livro de suas Odes, ele na verdade não estava estreando no assunto. Compor um poema que versasse sobre a brevidade da vida e que a partir de determinado ponto exortasse o ouvinte a vivê-la era ideia em voga antes mesmo de Horácio, o que, em absoluto, não deve causar estranheza. Embora hoje sejamos leitores acostumados a apreciar as últimas novidades e tendências da arte, em consumir o que nos vendem como único e feito só pra nós, é preciso entender que a situação era bem diversa na literatura antiga e na literatura clássica, onde o poeta lançava mão de um arcabouço de saberes, assuntos, procedimentos e técnicas comuns a toda a inteligência de seu tempo, e, a partir daí, compunha uma obra que a um só tempo respeitasse as convenções de cada gênero e o vivificasse, não no sentido de separar a obra de tudo o que veio antes e sim no de equiparar-se com os grandes mestres, contribuindo, pelo menos, com mais um espécime ilustre e genuíno para aquele departamento.

Não espanta, portanto, que a ode de Horácio tenha sido aludida inúmeras vezes por poetas variadíssimos. Dentro do lugar-comum antes mencionado, de se falar da brevidade da existência humana e exortar a que mexamos o esqueleto, Horácio foi, como dito por Francisco Achcar, um verdadeiro campeão do gênero, ou seja, ele criou, dentro daquela convenção poética específica, um poema de altíssima qualidade e competência que se tornou ele próprio um baluarte, um monumento.

Falemos do carpe diem. Que tenha sido a expressão que caiu na boca do povo é quase que um mérito esperado, afinal de contas ela guarda toda uma concisão e um garbo que a destacam daqueloutras que, verdade seja dita, também chamam nossa atenção para o mesmo tema (por exemplo spem longam reseces). Os sentidos aplicáveis ao verbo carpere são basicamente quatro. O leitor já deve saber que ele diz respeito a aproveitar o dia, gozá-lo de forma detida ou, pra citar as formulações admiráveis de Péricles Eugênio e de Nelson Ascher, desfrutá-lo, fruí-lo. Todavia, pode dizer também colhê-lo quase como se fosse um fruto. É um sentido preferível e forte, afinal de contas adiciona delicadeza à imagem ao sugerir uma relação metafórica implícita e sutil que trata os dias como flores. Camões, num soneto admirável, fala da Primavera que se traslada para o rosto da amada, ao que, no primeiro terceto, declara que se ela não aceitar o amor oferecido, então sua beleza perderá a graça: “Se agora não quereis que quem vos ama / Possa colher o fruito destas flores”. Estas, ou seja: “boninas, lírios, rosas”, todas encontradas no rosto dela depois que a Primavera para lá se mudou.

No entanto, podemos apontar outros dois sentidos menos óbvios. Celestino Massucco, intelectual italiano que viveu a transição do século XVIII para o XIX, ao comentar o poema menciona que carpere é prender o tempo que foge. “Apanhar”, usado por Nelson Ascher em sua primeira versão, consegue fazer jus a tal sentido e àqueloutro, botânico. Um quarto, por fim, é o que foi estudado por Alfonso Traina num importante ensaio de 1986 onde discute, precisamente, a semântica do carpe diem. Aqui, o ensaísta italiano defende que carpere, saído de um campo semântico que também envolve rapere e sumere, é um processo traumático, é um prender lacerante e progressivo que vai do todo à parte, quase como se desfolhasse uma margarida. Se a parte é o dia, o todo é claramente o tempo, o que torna a conclamação horaciana, pelo fato de que pede para que nos atenhamos no instante, um modo de neutralizar a fuga do tempo invejoso, afinal de contas, como o próprio autor diz, já na enunciação o tempo escapa.

À medida que traduzia o poema e o revisava, o que fiz com muita displicência, busquei dar ênfase a este último sentido, o que o uso do verbo “destacar” deixa bem claro, afinal de contas pode ser tomado tanto no sentido de separar o dia de algo maior (o tempo) ou de lhe dar destaque. Outras opções tradutórias, é claro, demandam mais comentários, por exemplo transformar sapias, no original, em “Te experiência”: aqui eu quis manter a proximidade que saber e sabor possuem no latim, bem o que o Guilherme evidenciou pro leitor na sua segunda versão. No entanto, a partir do momento em que o carpe diem é o grande chamariz da postagem, deixo de lado todas as outras questões pertinentes a este poderosíssimo e compacto poema.

Recompilo todas as versões anteriormente postadas, acrescidas de outras que descobri, por exemplo a feita no século XVI por um anônimo com propósito didático: o autor citava um trecho do poema e fornecia em seguida a tradução literal da passagem, às vezes comentando passagens dignas de nota. (Na reprodução abaixo, cortei os trechos em latim e atualizei a grafia.) Além de recompilá-las, organizei-as cronologicamente e indiquei suas respectivas datas, adicionando, por fim, os dados bibliográficos daquelas que ou não constavam na última postagem ou que não chegaram a ser compiladas e estudadas por Francisco Achcar em seu Lírica e lugar-comum (EdUSP, 2015). Agradeço ao Guilherme Gontijo Flores, que me ajudou com algumas traduções que eu não tinha encontrado.

Matheus Mavericco

* * *

Carmina 1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

§

trad. André Falcão Resende [séc. XVI]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

………….Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
………….Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão de ser, se curtas, se compridas;

………….Se o escuro Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
………….Se neste hórrido inverno,
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

………….Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
………….Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

§

versão literal anônima [séc. XVI]. Adaptado e com grafia atualizada
em: Obras de Horácio, Officina de Ioam da Costa, 1668, p. 14/15. Disponível aqui.

(…) ó amigo Leuconoe (…) vós (…) não esquadrinheis, nem queirais (…) saber, (…) que fim (…) os deuses (…) me derem, ou também (…) que fim (…) vos terão dado ((…) porque é pecado querer saber isso) (…) nem esquadrinheis saber (…) os números matemáticos (porque os babilônios inventaram a matemática) (…) para que (…) tudo o que acontecer seja melhor de sofrer ((…) ou (…) o deus Júpiter (…) vos concedeu (…) este só ano, ou inverno de vida: (…) o qual inverno (…) agora causa [?] (…) o mar Mediterrâneo (…) com as pedras postas diante, em que quebra sua fúria) (…) uma só coisa é bem que saibais[:] (…) tirar, ou beber o vinho mais velho, e delicado, e isso quer dizer derreter o vinho, po[is] que ao vinho velho, e dessecado, chamavam, (…) e com o breve espaço da vida (…) corteis (…) a comprida esperança de viver (…) em quanto falamos, (…) a idade (…) invejada de todos (…) desaparecer deixando-nos velhos (…) aproveitai-vos do dia presente, (…) que de nenhum modo se confia ao de amanhã.

§

trad. Filinto Elísio [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

§

trad. José Agostinho de Macedo [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto,
Dos Vaticínios Babilónios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os acintes da Sorte.

Ou Jove te destine mais Invernos
A cuta Idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas Rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as Taças
De doce vinho, apouca as Esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a Idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no Futuro.

§

trad. Elpino Duriense [1807]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

§

versão de Marquesa de Alorna [1820]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não procures saber, querida Irene,
Se a mim, se a ti, os Deuses concederam
Da vida um tempo próximo ou distante:
……..Não convém tal exame.

Não indagues os cálculos incertos
Que produzem horóscopos confusos;
Melhor será sofrer que descobri-los:
……..O que vier aceita.

Ou nos dê Jove invernos numerosos,
Ou neste, que do Tejo açouta as águas,
Atropos corte o fio a nossos dias,
……..Recear é fraqueza.

Gosta os fructos da Quinta do Descanso:
Para longa esperança o espaço é breve;
A idade foge enquanto discorremos:
……..Aproveita os momentos.

§

versão de Ricardo Reis [séc. XX]
vide Francisco Achcar

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
……..O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
……..É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
……..O dia, porque és ele.

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos [1964]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
……..a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
……..melhor é suportar
……..tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
……..quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
……..cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
……..corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
……..Enquanto conversamos
……..foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

§

trad. Aduíno Bolívar [1964]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não queiras perquirir, Leucônoe, (é vedado)
O fim que a ti ou a mim hajam predestinado
Os deuses. Dos Caldeus nos números obscuros
Não tentes deletrear os eventos futuros,
Quanto é melhor sofrer o que há de vir! Bom prazo
De anos Jove nos dê, ou seja o último, acaso,
Este que nos parcéis da praia o mar tirreno
Quebrante, saibas coar o teu vinho e em pequeno
Espaço confinar o teu ideal grandioso.
Ainda estamos falando, e já o tempo odioso
Terá fugido… E, pois, eia, colhe este dia
Como quem no amanhã de modo algum confia…

§

tradução de Marie Helena da Rocha Pereira [1976]
em: Romana: antologia da cultura latina, 6a. ed., Guimarães, 2010.

Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.

§

versão de Paulo Leminski [1984]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

 

 

§

versão de Augusto de Campos [1985]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

§

trad. Augusto Peterlini [1992]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não buscarás, saber é proibido, ó Leuconôe,
Que fim reservarão a mim, a ti os Deuses;
Nem mesmo os babilônios números perscrutes…
Seja lá o que for, melhor é suportar!
Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos,
Quer venha a conceder apenas este último,
Que agora estilha o mar Tirreno nos penhascos,
Tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança,
De muito longa, faz caber m curta vida.
Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos.
Colhe o ia de hoje e não te fies nunca,
Um momento sequer, no dia e amanhã…

§

trad. Nelson Ascher [1994; 1ª versão]
em: Poesia Alheia, Imago, 1998, p. 62-63.

Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe,
os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo
da babilônia e aceita: o que há de ser, será,
quer nos dê Jove mais invernos, quer só este
que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe
teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos.
Enquanto eu falo, o tempo evade-se invejoso.
Apanha o dia e não confies no amanhã.

§

trad. David Mourão-Ferreira [2003]
em: Revista Colóquio/Letras, n.º 163, Jan. 2003, p. 103.

Não procures, Leucónoe — ímpio será sabê-lo —,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

§

trad. Bento Prado de Almeida Ferraz [2003]
em: Odes e epodos, Martins Fontes, 2003, p.38-39

Indagar, não indagues, Leuconói
qual seja o meu destino, qual o teu;
nem consultes os astros, como sói
o astrólogo caldeu:

não cabe ao homem desvendar arcanos!
Como é melhor sofrer quanto aconteça!
Ou te conceda Jove muitos anos,
ou, agora, os teus últimos enganos,
– prudente, o vinho côa e, mui depressa
a essa longa esperança circunscreve
a tua vida breve.

Só o presente é verdade, os mais, promessa…
O tempo, enquanto discutimos, foge:
Colhe o teu dia, – não no percas! – hoje.

§

trad. Nelson Ascher [2006; 2ª versão]
em: Ilustrada, 04/12/06. Disponível aqui.

Não sondes (é tabu) que fim nos tramam,
Leucônoe, os deuses, nem consultes mapas
astrais caldeus. — O que será, será,
dê Jove outros ou, moendo o mar Tirreno
com rochas, este inverno e só. — Decanta,
lúcida, o vinho a ansiar quanto é cabível.
Mal falo e o tempo foge hostil: frui já
teus dias sem contar nem com o seguinte.

§

trad. Marcio Thamos [2006]
em: Letras clássicas, USP, n. 10, 2006. Disponível aqui.

Não queiras tu, Leucônoe, descobrir
que fim a ti e a mim darão os deuses
(nem é bom que se saibam essas coisas),
esquece a astrologia babilônia:
melhor deixar que seja lá o que for.

Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro este que agora
fatiga o mar Tirreno contra as fragas,
tem prudência: dilui o vinho e ajusta
a esperança – que é longa – ao breve instante.

Foge o tempo invejoso enquanto falo:
— Colhe o dia e não contes que haja outro.

§

trad. de Pedro Braga Falcão [2008]
em: Horácio, Odes, Cotovia, 2008.

Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

§

trad. Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

§

versão de Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

HORÁCIO NO BAIXO

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

§

trad. Leandro Cardoso [2012]
vide postagem anterior

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2012; 1a versão]
vide postagem anterior

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

§

trad. Carlos Mendonça Lopes [2013]:
em: blog vício da poesia.

Não indagues, Leucónoe — sacrílego é sabê-lo — que fim, a mim e a ti,
os deuses destinaram, nem astrológicas(*)
previsões procures. Melhor é suportar o que vier,
quer muitos invernos Júpiter nos dê, quer seja o último,
este, que agora desfaz nas gastas rochas, as ondas do mar Tirreno.
Sê sensata, decanta o vinho, amolda à vida breve
a longa expectativa. Nós falamos, e o invejoso tempo voa:
colhe cada dia, acredita pouco no que amanhã virá.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2015; 2ª versão]

Tu nem vás perguntar (ímpio saber) sobre o que a mim e a ti
que fim deuses darão, Leuconoé, nem babilônios
astros ouses tentar. Antes viver o que vier, sem mais,
quer invernos sem fim ou só mais um ceda-nos Júpiter,
que hoje a se debater rasga o rochaz leito em Tirreno mar.
Saibas saborear, coa este vinho, anda e num curto chão
poda o longo esperar! Nesta conversa, ínvido o tempo já
foge: colhe este dia, ai!, sem pensar nunca nos amanhãs.

*

Gravação Solo:

 

Performance do Pecora Loca:

 

§

trad. Daniel Fernandes da Silva [2017]
em: comentário à antiga postagem

Saber não busques, Leoconoe, que fim
Tenha o Fado prescrito a ti e a mim;
Nem tua sorte ler queiras nas estrelas
Para melhor sofreres-lhe as mazelas;
Quer de invernos te dê Jove um milheiro,
Ou quer então seja este o derradeiro
Que o Mar Tirreno contra as rochas lança,
Vive com sensatez: poda a esperança
Em vida assim tão breve, e o vinho coa;
Enquanto aqui discorro, o Tempo voa:
Faz do instante presente o teu tesouro,
Muito pouco esperando do vindouro.

§

versão de Tarso de Melo [2017]
em: rede social do poeta

Não esquenta, camarada,
tentando adivinhar quanto tempo
os deuses nos darão de vida.
Pouco importa se este é o último
ou só mais um verão batendo
sem dó na sua janela.
Vai, curta o que vier,
pega um copo e já era.
O amanhã não merece
tanto esforço da sua esperança.
Deixa rolar. E aproveita o dia.

§

trad. Matheus “Mavericco” [2017]

Não indagues (sabê-lo é nefasto) o que os deuses
tramam a ti e a mim, Leucônoe, nem recorra
a signos babilônios. Viva o que vier!
Se Júpiter te encher de invernos ou se um último
te der, que acerta e erode as rochas do Tirreno,
te experiencia, coa o vinho e corta em curto
espaço a espera! O tempo invejoso, ao falarmos,
foge: destaca o dia, crendo pouco no após.

§

trad. Ezra Pound
vide postagem anterior

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

*

trad. Adriano Scandolara da trad. de Pound
vide postagem anterior

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

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poesia

Seis poemas para J.A., de Rafael Viegas

Nascido numa das Gáveas do último Brasil ditatorial, Rafael Viegas (1971-2014) trocou de time diversas vezes antes de retornar ao Botafogo, onde faleceu. Publicou postumamente Estreito de Magalhães, pela Megamini (7Letras, 2017).

* * *

Seis poemas para J.A.

Diante do fogo milenar

Diante do fogo milenar
Foram criados e bem-vindos
Os direitos da tua estadia

Quando jovem, no palácio,
Cruzavas as formas domésticas com as selvagens
E entravas assim no domínio da lei

Com as mãos apressadas e os pés firmes
Também treinavas uma dança mais forte
Que cantavas para baixo e para cima, com a cabeça

Da planície e à tarde, sorrias,
Os elementos, as ruas, o frio e mesmo as pedras
Endureceriam, como sabes, as cidades futuras

De teu metro e do sangue, aliás, de tua família e à noite
Do carvalho da cama e do sonho dos órgãos
Vinham-te as monstruosas formas opacas

Os antepassados reunidos desde ontem
Aninharam na coruja azul imposta à tua pele
O anúncio de sua enésima descendência

§

Flamengo sevilhano

Lá, em teus domínios já secos,
Pastavam em conjunto as botas e os arados
E a casa amarela, de onde pendiam teus sonhos e tuas colunas,
Radiava com os livros penitenciais.

Naquele tempo, ainda não haviam aterrado as árvores centenárias
E os bosques eram coloridos,
As paredes cobertas de carvão e óleo,
E os peixes, aos milhares, escondidos no gelo e nas raízes.

Cada palma de teu terreno foi ganha com elegância, pela chuva.
Cada rocha foi carcomida nos ventos e nas flanelas.
Cada curva, arrendada pelos flancos.
Cada brilho, polido de imediato.

As paisagens azuis
Desceram do céu e desbotaram.
Do centro até a periferia,
Do alto até o subsolo,
As cidades, agora poentes e infundadas,
Fazia séculos que transcorriam na mesma latitude.

Enquanto os tormentos da gravidade
Caíam conquistados pelo teu patinete,
O aluguel dessa parte do mundo triplicara.
Tornara-se tão extorsivo
Que emprestavas, às manhãs em branco,
Àqueles que te visitavam,
Lugares já demarcados na tua diáspora.

§

À sombra do teu quintal

Uma árvore desgarrada do universo veio à tua porta.
Pensávamos que estaria finalmente segura em tua calçada.
Mas era o tempo do descanso, as silhuetas voltaram ao teu quadril.
Soprados pelas folhas, os ventos, magros e secos, te envolveram.
As flores involuíram ao chamado dos novos brotos
E os caules, despidos, fugiram dos tapumes.

§

À noite, quando tuas cores te abandonavam,
A notícia era escrita dentro dos teus cílios.
As pernas, duras, fundidas à paisagem.
Os tijolos, cansados, presos no cimento.
As garrafas, enterradas até os joelhos.
O luar, entregue aos mosquitos.

§

As estações

Foi difícil informar às pedras e às mães
que teus olhos acinzentaram.

Os copos acordaram tarde,
Quando as cidades vermelhas e transparentes
Já haviam passado, como o vidro, pela tua janela.

Voltaste.
Chegaste antes do tempo, afinal.
Pela fuligem, a estação era a púrpura,
E também a estação dos pombos,
Dos ninhos que nunca migraram.

No passado, as florestas importavam pouco
E foram deixadas lá,
Como os mundos que ainda não vimos,
Apenas para secar ao sol.

Mas hoje, em tua homenagem,
As seivas que subiram
Desceram, de fato, em forma de chuva e ferrugem.

Bem-vinda.
Ouve-se o murmúrio da volta em todas as coisas.
As casas da vizinhança pararam de brincar
E retornaram às linhas retas e aos rebocos,
Às varandas vazias e às grades.

Contigo, no entanto, vieram novos segredos.
Quando os dias passados saírem do esquecimento,
Quando os braços que circulam os anos se revoltarem,
Eu gostaria que alguém entendesse
Que é num desses quartos obscuros
Que dormem as paredes de teu bisavô.

Que escondidas nas baladas e nos contos
Nasceram as noites do teu jardim.

E que no compasso em que bates à porta
É lá onde te espero.

§

Retorno ao Sublunar

O pálido globo terrestre
cedeu à tentação.
E te devolveu.

Foi difícil decidir
como te receber,
como, e se, deveria me comportar.
Mas você se adiantou,
veio em prata e carmim,
armada com listras, pedras e amêndoas.
E, de repente, me dei conta
que aquele astro redondo no meio da tarde
era, de fato, o teu umbigo.

Começou contando o que eu já sabia.
Que naquele mundo definitivo,
nas casas das tuas antigas terras,
voltando ao frio passado,
era usual cobrir as pernas
com fósseis e pergaminhos.
E, tal como você,
tal como o que restava da tua família,
lá os peixes também migravam de dentro do inverno.

Depois contou dos pais e dos tios que morriam vivos
em sofás sem pele e sem diálogo,
nos cofres dos lares vazios.
Contou dos cartazes
lidos pelos trens insones e pelas manhãs.
Contou das fantasias
regadas aos lábios e aos cabelos.
Contou das paixões
destinadas ao futuro e às janelas.

E como você reclamava dos perfumes e do turismo,
caríssimos.

Então me lembrei de ter te esperado, em pé, inquieto,
sem música,
e com notícias pobres e esparsas
tiradas dos ventos contrários
que empunhavam os jornais.

Padrão
poesia

Fábio Pessanha

Fábio Pessanha, poeta, nascido em São Gonçalo (RJ), cursa doutorado em Teoria Literária na UFRJ e se entorta cada vez mais ao pesquisar o sentido poético da palavra a partir de Manoel de Barros e Paulo Leminski. É autor de A hermenêutica do mar – um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Ed. Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador de Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento (Ed. Tempo Brasileiro, 2011).

* * *

 

corpo abraça infinito
se descobre ínfimo
em tudo que é nele

em tudo que há nele
é ele de dentro a dentro:
íntimo de nascenças

§

ossos

o andor ungido a ossos
compõe procissões de joelhos ao chão
donde marcas deixadas se erguem
pelos poros pele afora

a curvatura
sina do que ante a reta se impõe
destina nos seios o desejo de bocas
retira dos becos o realejo dos sonhos
para ornar em textura óssea
os dentes da primogênita mordida

Padrão
poesia, tradução

Experiência Butoh, de Daniela Camacho, por Jorge Melícias

Daniela Camacho nasceu no México, em 1980. Publicou: En la punta de la lengua, Plegarias para insomnes, [imperia], o livro de palíndromos Aire sería e o livro-objeto Pasaporte [em edição trilingue, juntamente com Natalia Litvinova e Beatriz Paz]. Em colaboração com o criador audiovisual Christian Becerra, publicou Carcinoma e Híkuri, e com artista Gabriel Viñals, publicou Lantana. Nos últimos anos residiu em Tóquio, Lausanne e Cairo, tendo recentemente regressado ao México. Estes poemas pertencem ao seu último livro, Experiência Butoh (Cosmorama Edições, Porto, 2017 e Amargord Ediciones, España, 2017).

Jorge Melícias nasceu em Coimbra, em 1970. Como tradutor, verteu para o português Saint-John Perse, Lautréamont, Baudelaire, Leopoldo María Panero, María Negroni, entre outros, e é autor de 7 livros de poesia própria: Aqueles que incendeiam os telhados, Iniciação ao remorso, A luz nos pulmõesO dom circunscrito, Incubus, A longa blasfemiaFelonia/Agma, além da coletânea de poesia reunida, Disrupção.

* * *

LO QUE ESCUCHÉ DECIR A HIJIKATA SOBRE LA EXPERIENCIA DE VER A TRAVÉS DE UN CRISTAL

Estás intentando ver a través de un cristal. Mira bien dentro de tu propio cráneo. Repite esto dos veces. Mientras lo haces, eres capturado por algo. Tu rostro se ha transformado en el de alguien que ha sido secuestrado. La frente del rehén se descompone de fiebre y una planta se arrastra por sus sienes. La cara se torna borrosa. Las caras se convierten en la cara de un joven samurái decapitado de nombre Kotaro, un personaje de Bunraku, el teatro de marionetas. El rostro, lentamente, se vuelve transparente. Antes de desaparecer, sin embargo, se ha transformado en el trozo original de cristal. Tu aliento es succionado por jeringas, las imágenes han sido fijadas como si alguien las hubiera soldado, porque tú has sido apresado dentro del cristal. Ahora estás recogiendo pequeñas flores hechas de nervios. Con un látigo pequeño entre los dedos, das un chasquido. Las puntas de tus dedos se llenan de polen. Luego azotas otro pequeño látigo, pero esta vez en tus ojos. Miras fijamente los dedos que fustigan el látigo. Estás mirando, otra vez, dentro de tu propio cráneo. Rastreas con precisión el movimiento de tus dedos dentro del cráneo; trazas con la misma precisión los movimientos de la mano dentro del cráneo. Ahora el cuerpo es azotado y, de repente, comienzas a alejarte. Pero ¿a dónde vas?

O QUE OUVI HIJIKATA DIZER SOBRE A EXPERIÊNCIA DE VER ATRAVÉS DE UM ESPELHO

Estás a tentar ver através de um espelho. Olha bem dentro do teu próprio crânio. Repete isto duas vezes. Enquanto o fazes, és capturado por algo. O teu rosto transformou-se no de alguém que foi sequestrado. A fronte do refém descompõe-se de febre e uma planta arrasta-se pelas suas têmporas. A cara torna-se difusa. As caras convertem-se na cara de um jovem samurai decapitado de nome Kotaro, um personagem de Bunraku19, o teatro de marionetas. O rosto, lentamente, torna-se transparente. Antes de desaparecer, contudo, transformou-se no fragmento original do espelho. O teu alento é sugado por seringas, as imagens foram fixadas como se alguém as tivesse soldado, porque tu foste aprisionado dentro do espelho. Agora estás a recolher pequenas flores feitas de nervos. Com um látego pequeno entre os dedos, dás um estalido. As pontas dos teus dedos enchem-se de pólen. Depois açoitas com outro pequeno látego, mas desta vez os teus olhos. Olhas fixamente os dedos que fustigam com o látego. Estás, outra vez, a olhar para dentro do teu próprio crânio. Rastreias com precisão o movimento dos teus dedos dentro do crânio; traças com a mesma precisão os movimentos da mão dentro do crânio. Agora o corpo é açoitado e, de repente, começas a distanciar-te. Mas aonde é que vais?

§

PRIMER MOVIMIENTO: cierra los ojos

en el kimono vacío (madre)
tu ausencia es ahora
un estado de gracia
y estás en mi cuerpo,
y eres el hijo

 

SEGUNDO: toca el aire

en la mente del recién nacido
hay semillas de concreto
que florecen sin ser vistas

 

MOVIMIENTO FINAL: márchate y nunca regreses

(escenario sin luz)

a) un hombre alimenta a un caballo mojado que lo maldice
b) el único ojo del caballo es un segundo corazón
c) una fruta madura palpita en el monte

PRIMEIRO MOVIMENTO: fecha os olhos

no quimono vazio (mãe)
a tua ausência é agora
um estado de graça
e estás no meu corpo,
e és o filho

SEGUNDO: toca o ar

na mente do recém nascido
há sementes de betão
que florescem sem ser vistas

MOVIMENTO FINAL: vai-te e não regresses nunca

(palco sem luz)

a) um homem alimenta um cavalo molhado que o amaldiçoa
b) o único olho do cavalo é um segundo coração
c) um fruto maduro palpita no monte

§

DANCE EXPERIENCE

Unidos a su semental, los prostitutos de Ueno Kurumazaka.
Cabello enmarañado, rubor en las mejillas, helándose a muerte en un baño público:
espuma masculina como herramienta para crear una danza.

Se retuercen, se encajan.
La sangre que corre de las carnicerías se está coagulando bajo sus pies.
Una flor de papel blanco les crece en la cara.
Para ellos, los días comenzaron sin miembros, sin ojos por donde llorar.

Son iracundos.

Han cruzado la rara experiencia de matar(se).
Han sido mirados
restregados
lamidos
tumbados.

DANCE EXPERIENCE

Unidos ao seu semental, os prostitutos de Ueno Kurumazaka.
Cabelo emaranhado, rubor na face, morrendo de frio numa casa de banho pública:
espuma masculina como ferramenta para criar una dança.

Retorcem-se, encaixam-se.
O sangue que corre dos açougues está a coagular-se sob os seus pés.
Uma flor de papel branco cresce-lhes na cara.
Para eles, os dias começaram sem membros, sem olhos por onde chorar.

São iracundos.

Cruzaram a rara experiência de matarem(-se).
Foram observados
esfregados
lambidos
derrubados.

(Daniela Camacho, tradução de Jorge Melícias)

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poesia

Priscila Merizzio

Priscila Merizzio é curitibana. Escreveu dois livros de poemas: Minimoabismo (ed. Patuá, 2014), semifinalista no Prêmio Oceanos 2015 e Ardiduras (ed. 7Letras, 2016). É idealizadora e coordenadora do projeto Pulmões Versos. Faz mestrado em Letras na Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

* * *

ter filhos é apostar no cassino
são âncoras irreversíveis
toda mãe lida com eles
ad infinitum

§

o verão cheira a eucalipto e desvario
moro nos poemas de Sylvia
brinco com fogo, atávica

§

Meu coração, se fosse mulher seria
Daquelas que giram as bolsas nas vielas e têm o rosto
Cheio de vincos, os dentes desgastados de cigarro
Um mau hálito de tanto sorrir sentindo a úlcera pinçar

§

Careço arrefecer melindres. Dar erva-mate ao potro que trota abechudo no pampa do meu peito do pé. Nos sonhos, persigo pântanos. A milonga arrochada dos grilos puiu o punhal da bruxa velha

§

Quero destituir o medo
Esqueço que ele é uma farinha
Ladeando as artérias
Borrando os olhos, criando
Sombras e pontos-cegos
Está na água que bebo
No chilrear das aves de domingo
Está intrínseco em tudo
Exceto nas florestas.
O medo tem medo das florestas,
Pois nas copas das árvores
Está a mão de Deus

§

O sol rói como rato os bebês etiópicos
As mães choram sob seus
Corpinhos sem vida, limpam o
Suor escorrendo de suas têmporas
Dehna hunu – adeus!
Ele aquece também beduínos viris
Afiando facões, montando camelos
E prevaricando odaliscas
(Mil e uma noites polvilhadas d’oiro)
Sol que aduba o solo das necrópoles
Aquece os espíritos mergulhando nas
Covas, misturando-se como
Líquido de placenta entre a terra
E os outros mundos

§

O deleite de suas tardes chuvosas escutando músicas clássicas, envolvida com os poemas de Hilda Hilst, foi retesado quando ele, num gesto de autoconsagração de autoridade, passou a vigiar suas leituras, exigindo a ela o retorno da oralidade dos tempos medievais. Tal qual um arcebispo sádico, verdugo, ele passou a lanhar suas pernas com fio elétrico toda vez que interpretava teor impróprio saindo da boca da imunda. Por se tratar de um homem insipiente, considerava tudo sexual, pejorativo, mundano. Ela nunca mais pôde usar saias: as coxas flamejadas de cicatrizes-lâmpadas.

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