poesia, tradução

um poema de Margaret Atwood, por Lidia Rogatto

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Margaret Eleanor Atwood (Ottawa, 1939-) é poeta, romancista, crítica literária e ensaísta, uma das personalidades mais atuantes da cultura canadense atualmente. Foi agraciada com os prêmios Arthur C. Clarke e Príncipe das Astúrias pelo conjunto de sua obra, bem como pelo Governor General’s Award em duas ocasiões. Suas obras já foram traduzidas e publicadas em livros, coletâneas e revistas de poesia por todo o mundo, além de transformadas em minisséries para a televisão (“The Handmaid’s Tale” e “Alias Grace”). Atwood já escreveu mais de quarenta volumes de poesia, ficção, literatura infantil e não-ficção. Sua obra poética não trata do indizível, mas da audácia de dizer com uma limpidez e candura, por horas com deslumbramento e êxtase, por outras com incômodo e lamento.

Pouco comentada pela crítica, a poesia de Atwood não tem rima, nem métrica regular – é a voz que dá continuidade aos versos (ou, antes, o seu controle). Em grande parte, o desafio de traduzir a voz individual de Atwood é inerente ao próprio processo tradutório de poesia quando as línguas de chegada (L2, português) e de partida (L1, inglês) se mostram particularmente distintas quanto à estrutura rítmica e tonal. Soma-se a isso a multiplicidade de interpretações que o mesmo “Poema Noturno” pode oferecer, e torna-se um pré-requisito indiscutível realizar sua análise estilística. Em particular, como tradutora feminista, meu trabalho é considerar a linguagem como uma pista para o funcionamento da agência de gênero. Traduzir a voz extremamente precisa de Atwood e fazer reverberar seu tom irreverentemente seguro é congruente à urgência da tradução como produção, e não reprodução.

Lidia Rogatto

***

Poema Noturno

Não há nada a temer,
É apenas o vento
Movendo para o leste, é apenas
Teu pai o trovão
Tua mãe a chuva

Neste país aquático
Com sua lua parda e úmida feito cogumelo,
Seus tocos submersos e enormes aves
Que nadam, aonde o musgo cresce
Por todos os lados das árvores
E tua sombra não é tua sombra,
Mas teu reflexo,

Teus verdadeiros pais desaparecem
Quando as cortinas cobrem tua porta.
Nós somos os outros,
Os do fundo do lago
Silentes estamos ao pé de tua cama,
Com nossas cabeças de escuridão.
Viemos para cobrir-te
Com lã vermelha,
Com nossas lágrimas e sussurros distantes.

Tu balanças nos braços da chuva
A fria arca do teu sono,
Enquanto esperamos, teus noturnos
Pai e mãe
Com nossas mãos frias e lanternas mortas,
Sabendo que somos somente
As oscilantes sombras lançadas
Por uma vela, neste eco
Que ouvirás vinte anos mais tarde.

 

NIGHT POEM

There is nothing to be afraid of,
it is only the wind
changing to the east, it is only
your father the thunder
your mother the rain

In this country of water
with its beige moon damp as a mushroom,
its drowned stumps and long birds
that swim, where the moss grows
on all sides of the trees
and your shadow is not your shadow
but your reflection,

your true parents disappear
when the curtain covers your door.
We are the others,
the ones from under the lake
who stand silently beside your bed
with our heads of darkness.
We have come to cover you
with red wool,
with our tears and distant whispers.

You rock in the rain’s arms,
the chilly ark of your sleep,
while we wait, your night
father and mother,
with our cold hands and dead flashlight,
knowing we are only
the wavering shadows thrown
by one candle, in this echo
you will hear twenty years later.

[In: Selected Poems II: Poems Selected & New 1976-1986. © Houghton Mifflin Co., 1987.]

*

Lidia Rogatto (Londrina, 1989) é bacharel em Comunicação Social (2011), especialista em Inglês (2013) e em Tradução (2017). Além da literatura em língua inglesa, traduz obras poéticas em francês, especialmente na variante québécois. Suas últimas traduções podem ser vistas na revista Arcana, Pontes Outras, e Liberoamérica. É fundadora e tradutora no Ateliê da Tradução (www.ateliedatraducao.com).

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