poesia

Ana Estaregui

por marina wang2

Fotografia de Marina Wang

Ana Estaregui nasceu em Sorocaba e vive em São Paulo desde 2005. Formada em artes visuais, publicou seu primeiro livro de poemas, Chá de Jasmim (Editora Patuá) em 2014, com um projeto selecionado pelo ProaC de Poesia. Em 2015, publicou o livro digital Buracos (Editora E-Galáxia) pelo projeto Selo Jota. No mesmo ano foi contemplada em primeiro lugar no concurso de contos OFF FLIP de Literatura com o conto Seis canivetes para abrir uma baleiaCoração de boi (7Letras, 2016), é seu segundo livro de poesia contemplado no ProaC de poesia e finalista do Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional.
***

I.

o coração do boi sobre a pia
vai esfriando à medida
em que o músculo absorve
a friúra do granito e lança nele
seus desejos de sempre, meio vis
quentes, como tudo o que nele era
pastos, pelos, as tetas esplêndidas
das vacas de leite
e em pouco tempo tudo dele se cala
se equipara ao grau da pedra
as artérias e veias
os espaços entre os átrios, o feno, tudo

 

II.

a palavra ocupou a sala toda
calou as janelas, o radinho de pilhas
e os porta retratos
arrancou os livros da estante
produzindo tsunamis com as persianas
abafou nossas vozes ao grau zero
e ficamos todos espremidos entre ela
e a parede, ela e o teto
ela e as ripas de madeira do piso
no curto vão de oxigênio livre
a palavra grudou no sótão
e agora passamos nossos dias presos
olhando pra ela, uma estrela

 

III.

bati a clavícula na quinta feira
enquanto abria o armário
o osso me dói desde então
acordei na sexta com torcicolo
e os tendões da mão esquerda inflamados
sábado, lavando louça, quebrei dois copos
bati na pia um outro pires que lascou
ontem, foi uma taça
e ainda arranquei sangue de duas cutículas
enquanto fazia as unhas do pé
na mesma noite deixei cair no chão
uma vasilha com sopa
que espatifou
e deixei o pão passar do ponto
hoje estou de folga, sozinha,
e até o momento só queimei a ponta língua
bebendo café

 

IV.

um cavalo pode mudar o curso
de um poema
é preciso não temê-lo
os saltos, os espaços vazios
de como se arranjam entre si
de como, sem atrito, produzem luz
disse
deixe o seu corpo boiar
pra que as letras pairem diante dos olhos
é preciso que o dia nos encubra
com alguma névoa pálida
e a fumaça dos automóveis forme
entre nós e as coisas
uma espécie de anteparo vertical
quase transparente
e nos faça avistar de longe os músculos rijos
de um bando de animais que trotam
por entre os carros

 

V.

o que aconteceria aos poemas
se neles acrescentássemos matéria sólida
se, como nas canções,
onde há som voz cordas de metal
depositássemos
alguma seiva e um pouco de ar?
se lançássemos sobre eles
um punhado de sementes
e então nos sentássemos para esperar
por muito tempo
algum movimento sutil
alguma oscilação inaudível
uma dobra só que fosse
sobre a página um pequeno rumor
de qualquer tipo, capaz de levantar
do chão branco alguma voz
o que aconteceria aos poemas
se pudéssemos esperar um pouco mais

 

VI.

se nunca tivesse havido
as metáforas
ainda poderíamos trocar
um punhado de cerejas
pelo encosto ainda quente
no banco de trás do carro
um calhamaço de papel sulfite
por dois ou três versos livres
por dois dentes do siso
por quatro incisivos
pelo voo circular e ininterrupto
de um urubu
por um pacote de carvão mineral
por um livro sem capa
por uma imagem fosca de um submarino japonês
por uma magnólia branca
ainda poderíamos trocar
um pedido de desculpas
por um sorvete de avelã
se nunca tivesse havido as metáforas
ainda poderíamos trocar o silêncio
por um copo de leite

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