poesia

Pornô-poética, de Ana Kiffer

Ana Kiffer é escritora, professora de literatura da PUC-Rio, colunista da Revista Pessoa, Editora da Revista DR, publicou pela Editora Garupa Tiráspola e Desaparecimentos em 2016. E pela Coleção Megamíni – Ed. 7Letras A Punhalada (2016). Alfabetizou-se com uma das suas vistas tampadas. Dizem que lia e escrevia tocando. Buscando garantir que as letras estavam ali. Nunca mais parou. De escrever como quem toca. Ou tenta tocar. Talvez por isso suas pesquisas versem sobre as relações entre os corpos e a escrita. Foi assim que foi pesquisar o Antonin Artaud, sobre quem já falou, escreveu e deu a ler muito por aí – Antonin Artaud (EDUERJ, 2016); A Perda de Si – Cartas de A. Artaud (Rocco, 2017). Hoje a Ana gostaria de escrever como quem vai para o mundo. Gostaria que as pessoas trocassem seus cadernos. Não para revelarem seus segredos. Mas quiçá para multiplicarem suas magias. Hoje a Ana acha que tem duas coisas que importam muito ao Brasil discutir sem parar: o racismo e o machismo que vive entre nós. E cada letra posta nisso vale sim alguma forma de vida.

Esse poema inédito que a Escamandro publica está aí também: foi escrito para integrar uma Antologia de Poesia Pornográfica que sairá em 2018. Mas acabou abrindo na Ana esse “método” pornopoético que agora se desenrola num livro que ela ainda está escrevendo [aviso aos editores interessados!!].

* * *

pornô-poética
-da vulva-externar

maintenant je le sais, je n’ai plus les mots pour le dire
M.D.

Araki

a cada vulva aberta ingressava
no oriente
o tremor cósmico
flexionava
os confins do meu corpo
um abrigo antiaéreo
e partia de novo
rumo ao sul de mim
vê-la ali
nas extremidades
nos pontos
do toque
aonde vivem como se
não fosse possível dizer
essa estranha relação
entre os dedos
as mulheres e
o escrever
tudo na vulva é
exterior
como a língua que se fala
no Japão
entre os vãos de mim
vive o extremo de tudo
como uma bomba no mundo
mon amour
a sua vulva na minha
é a ultra-percepção
fina
do toque
feito
de pontas e dobras
alheias
de um infinito aberto
ao mínimo
e o eu
depois de você
é só o fato das nossas dolores
compressivas
dos dias posteriores
em que cada impacto
feito do hiato
do nosso nó
desata
a corda que agarra
a destemida-farra
a saia plissada
na dobra da calcinha
sou o teu arranca
imoral
de fera
sem língua
nas escadas da analista
sem vista
sou a menina
vendada no divã
as 15hs e 20 minutos
sou o nosso abrupto

porque mulher, quando fode,
é crueldade

contra toda a fraude
que inventaram
que sexo
é côncavo e convexo
não

porque mulher, quando fode,
é crueldade

na minha filosofia
pornô-poética
o sexo
é só
fresta e dobra
toque e aresta
infinitamente minúscula
contração submersa
sob a sua superfície

porque mulher, quando fode,
é crueldade

tal um dia
na esquina
mais tênue
da vida
onde te entreguei

toma

a profusão pornô-poética
da vulva-externar
esse novo conceito
teórico-prático
insuflando pib’s
sem bem-estar

porque mulher, quando fode,
é crueldade

e a pornô-poética não veio
para
um lugar
ao sol queima no escuro
das ruínas sem museu
e nada
em seu beco tem eu
um lírico corrupto
mina
a sua crina modular
a vulva-externar
não é a expressão de um dentro

porque mulher, quando fode,
é crueldade

ali mesmo
nesse buraco
onde sempre viveu
sabe que nada interior
delimita
é contra o seísmo
de quem mima
a mímesis
que a vulva-externar projeta
o denso fora
sem forma
feita dessa matéria aérea
voa
sopra
veloz
a vulva
obra das mais intensas
lentidões
ritmos sem compasso
escritas a-geométricas
desmedida
a pornô-poesia
invade
abre
fende
fode
e repete
feliz

porque mulher, quando fode,
é crueldade

e quem
toma
dela
da pornô-poética
in-festa
sem fim.

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