poesia

Livia Piccolo (1985-)

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Livia Piccolo formou-se em Artes Cênicas na ECA/USP e na mesma instituição desenvolveu sua pesquisa de mestrado, cruzando performance vocal, teatro e música contemporânea. Como atriz e performer participou de diferentes trabalhos, destacando-se as peças E Agora, Nora?! da Cia. Temporária de Investigação Cênica, Ana não está, com direção de Gilberto Gawronski e as performances sonoras Vozes em trânsito e Sobre lábios e línguas, com o coletivo L.I.V.E. (Laboratório de Investigação Vocal e Experimentação). Atualmente é preparadora vocal e professora de voz nas escolas Carpintaria do Ator e Senac Santana, em São Paulo, onde cada vez mais entrelaça sua pesquisa pedagógica com sua prática como artista. Também se dedica à literatura e tem textos publicados nas revistas Ensaia, Parênteses e Vigília. A palavra escrita e oral e seu entendimento expandido em diferentes linguagens e campos do saber é seu principal tema de pesquisa no momento. Tem se dedicado também ao seu primeiro livro de contos.

* * *

 

Andar para trás

Torcendo palavras escrevi um roteiro cheio de movimento.
Posso fazê-lo durante a semana ou a um só
golpe.

Como uma atriz sem espectador.

As ações são numeradas e o nome do filme
é o mesmo do texto:
Desandar.

Fora das juntas.

Aqui é o lugar onde as
rotações deselegantes da negação sedimentaram

em algum
ponto final.

1.Destemperar-se
Com os dedos pego o sal, a cúrcuma, o curry, o alho e a hortelã fresca. Abocanho um por vez, experimentando com a língua essa partitura pausada de sabores. Pelos caminhos do nervo gustativo vou enfrentar o estreitamento do mundo. Masco pimenta. De canudinho verde e rosa dou alguns goles no esmalte “Atração Fatal”. Engulo pequi e travo nos dentes tudo que dentro e fora dele pode me deixar ressentida.

2.Descascar-se
Quero me desfazer dos revestimentos. Hoje procuro me abreviar. Tiro a calça jeans, a camiseta com a banana de Andy Warhol, a bota de couro, a calcinha com o elástico gasto. Puxo para fora da garganta a frase sem sentido: “Minha polpa é muda.”

3.Desequilibrar-se
Moro nessa cidade e meu equilíbrio é instável. A cabeça flutua acima dos prédios e todas as manhãs sinto ondas de inquietação pelo corpo. Para não perder a direção escolho uma via movimentada e começo a percorrê-la a pé com um copo de água na cabeça. Não posso derrubar o copo de vidro porque essa é minha regra de trânsito. Não estou autorizada a me entregar à vacilação.

4.Desdomesticar-se
Quero investigar os objetos da casa. Aquilo que acomodei no ambiente doméstico. O pano de prato com estampa xadrez, a panela de pressão herdada da tia avó, o vasinho de cerâmica com o cacto melancólico, os livros de Elena Ferrante. Deito na tábua de passar roupa. O que passa por mim? Vejo Letícia Parente e sua empregada doméstica invertendo os papéis. Nos cabides penduro o desgosto. Hoje o dia está quente, o feijão queimou e no espelho encontrei rugas.

5.Descontar-se
Conto meus anos de vida em voz alta. Não com números, mas com histórias. Começo com minha idade de hoje e avanço até a infância. Alternadamente conto fatos vividos e inventados, até que me perca nos territórios mentais das lembranças e desande a narrativa de minha vida.

Posso desalinhar praticamente tudo o que faço.

Recusar a normopatia do corpo da palavra da casa da rua no papel.

Basta um prefixo,
tão virtual e inofensivo.

Há tanta demanda
por terremotos sigilosos

quanto verbos no dicionário?

§

 

Poltrona

E tantas vezes
nas madrugadas frias
me vi
assaltada:
o corpo perfeito luminoso do bebê
me chamando
e meus ossos cansados,
quase saltando
da cara.

Rouquidão no caroço do centro nervoso, desarranjo na semente dos pensamentos

mas

o corpo resiste.

Tenho o filho no colo
e o peito cheio de leite e inveja

do descanso do vizinho
do rouxinol no poema
do desaparecimento do rio
no mar
de tudo que no insensato agora

é cálido

é ar.

Quis fazer uma foto
do pescoço para baixo
encenando na minha fratura
a harmonia impossível da maternidade.
Mas num acesso de fúria matinal
martelei a torradeira
com mil vezes a força que
Hemingway martelou a Corona 3,
sua primeira máquina de escrever.

E me envergonhei disso tudo.

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2 comentários sobre “Livia Piccolo (1985-)

  1. Sheila Hafez disse:

    A poesia na vida, na cozinha, na poltrona, no cabide, no bebê, no pensar o cansaço, sentir o tempo e querer expressar-se por inteiro, lindo e intenso!

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