poesia

4 poemas inéditos de Francesca Cricelli

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Fotografia de Erica Viggiani Bicudo

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP. Leciona intecção literária na Casa Guilherme de Almeida e foi professora do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas. Já apareceu aqui no escamandro com diversas traduções e poemas próprios.

Os poemas abaixo foram escritos a partir de exercícios ministrados aos alunos do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas, Cricelli nos conta que “no processo desnudei meus próprios mecanismos de escrita, as tramas das minhas referências e leituras por trás destes textos”; provavelmente vão integrar seu novo livro, Inventário de Ébano.

***

À MINHA CAIXA TORÁCICA

What will endure here the longest
must be thoughtfully provided for
[Zbigniew Herbert, To my bones]
Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
[Vasko Popa, Osso a Osso]

 

Expande no meu sono quando respiro
sob a pele selada pela noite
e oculta os cortes invisíveis da carne
o que nesta cavidade permanece desenraiza o quarto
duas caixas torácicas em paralelo, algo incompleto

se o peito é pródigo
mas cala a fala e seca lágrimas
o que perdura é esta moldura
gaiola de ar e batimento

esta ossada não estará
no Museu Nacional, não,
estes ossos nossos não serão encontrados por arqueólogos
não foram feitos para vitrines
porque quando vivos abrigaram o pássaro

à esquerda de cada um no desencontro do abraço frontal
um canto da serra do mar, um canto de outro lugar

debaixo da terra ou sob o sol dos nossos nada sabemos
só existem aqui no agora e no silêncio os ossos
esta caixa que tudo cinge no escuro
tudo que hoje arde e descompassa
já contém os vermes da terra
contém o pedaço da vértebra de nascença
passado e futuro

nem entalar a garganta dos cães
nem ser o hiato dos séculos

enquanto há seiva e sangue
estar eretos
roçar as costelas celestes
já que nada mais sei.

§


MURMÚRIO DO BRANCO
[sobre um desenho da cidade de Krumau de Egon Schiele]

Chove sobre as cores,
é um auto-retrato
o amaranhado do ocre e do laranja
uma lança que perfura o olho divino a falta.
Colore a densidade populacional nos mapas, o ocre,
mas as casas andam vazias
e no interior das coisas cantamos nus como Sophia.

Está no murmúrio do branco
o caminho do carvão
e eu o persigo pelas linhas, com os dedos
firmes sobre as janelas e as tuas costelas
as casas andam desabitadas de ti
da desordem vital
que confere têmpera à luz oblíqua da tarde.

Não há sismo
e os jardins são todos internos
os desertos todos interiores e anteriores,
eles resistem ao regar das horas
resistem
ao esmiuçar com os dedos os pastéis a óleo sobre a folha de papel.

Arden las pérdidas
como na praia as labaredas vulcânicas sob a lua cheia de Reykjavík
e aporta
aporta
aporta também o esquecimento
esta casa velha.

§

 

PRELÚDIO

Entro nos teus olhos como num bosque/ cheio de sol
[Nazim Hikmet]

É na ausência do pássaro
que se compõe o canto,

ou na recusa da fruta
de vir à rama quando não estás?

A orquídea do quarto
represa em suas raízes
toda a água para varar a noite;
eu caminho deslocando ponteiros.

Não há hora que falte
nem tempo de sobra;
o silêncio é a tua medida
e mantém-me o passo.

O resto é voo.

§

 

ENSEADA

Afora/ o teu olhar/ nenhuma lâmina me atrai com seu brilho
[Vladimir Maiakovski, Lílitchka!]

Trovoa ao longe
e um lampejo filtra o pano violáceo do céu
iluminando o quarto.

É um prenúncio,
sussurro de gotas sobre as costelas de Adão.

Na pele e na rua
deslizam os carros
deslizam teus dedos
deslizam sanguíneos
nas úmidas superfícies e cavidades —
n’algum lugar em mim e na cidade
chove torrencialmente;

mas para além
do recosto oblíquo dos olhos
para além da rotação dos planetas
no ponto em que não se vê e está
há a música
regência cósmica das esferas
ali por trás da curva do globo.

Ir ao fim do mundo
para apanhar a concha da vida,
e colocá-la aqui
no arco infinito dos teus lábios.

Na enseada da Costa da Morte
a vida quebra mais viva.

*

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