crítica, poesia, tradução

Arrimos, tegúrios & efúgios neste 2017 – e para as próximas borrascas

Menton 1936 Robert Doisneau

Robert Doisneau, Menton. 1936

nesse 2017 que vai acabando, pra nascer um 2018 de copadomundo-eleição-&dedonocu&gritaria, eu tava lendo a lista dos melhores lançamentos e relançamentos do ano feita pelo suplemento pernambuco (clique aqui) e quis fazer algo parecido.

(abre parêntese) o ano termina e nasce outra vez. simone repete isso todo dezembro. simone repete isso porque o fim de um ano é um mo(vi)mento de renovação, tanto de crenças quanto de esperanças. é o tempo no qual nos devotamos, teleologicamente, a cultivar a aceitação de que as coisas, os eventos, os seres, tudo, inevitavelmente, morre. mas também a cultivar a ideia de retorno, ressurreição, ciclo daquilo que tendo ido ao profundo da terra agora retorna à superfície. a experiência humana parece buscar nos ciclos da vida, morte e renascimento, algo que nos assegure uma relação desdobrável ao infinito com o mundo, com nós próprios, tentando fundar na ingenuidade do calendário qualquer coisa de diferença, de fuga. no fundo, ansiamos pela remissão que esses ciclos temporalizados nos oferecem.

de qualquer modo, a ideia é sempre espantar o desespero, escapar do niilismo ao qual a irreversibilidade consciente dos acontecimentos conduz. evitar, a todo custo e como for, essa pororoca (às vezes, chamamos vida) que flui rumo a esse não-sei-o-quê (às vezes, chamamos morte).

essa coisa, portanto, a que chamamos ‘final de ano’ serve para instaurar (ou lançar, se quisermos dizer com caetano) um novo mundo no nosso mundo. esperamos que essas trocas numerais nos salvem. ou seja, podemos esperar, dessa forma, que qualquer outra coisa – e esse é o poder das crenças – nos salve: um céu aberto ou um monte de letras num livro. (fecha parêntese)

foi por isso que pedi a alguns poetas e críticos e tradutores a indicação de alguns livros que os salvaram neste ano – e que de algum modo também possa nos salvar a todos. qualquer leitura (de poesia, tradução, crítica, frentes que trabalhamos aqui na revista) que tenha tocado na vida, sem mistificação. a proposta era criar uma lista absolutamente subjetiva mesmo. algo como uma troca de favores, uma voz que responda além do eco. sei lá. algo que motive a leitura, que nos motive.

 

sergio maciel

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Rodrigo Tadeu Gonçalves

Começando com poesia, num ano em que foi muito difícil escolher, de tanta coisa boa que apareceu, fico com o que mais me impressionou: O Martelo, de Adelaide Ivánova (Garupa, 2017), que é simplesmente incrível e avassalador. O livro de ensaio/crítica que me marcou muito neste ano foi o Palimpsesto Selvagem, de Beatriz Azevedo, pela leveza e alegria antropofágicas com que celebra o Manifesto de Oswald (a edição é de 2016, da Cosac Naify, mas tenho quase certeza que li em 2017). Na categoria tradução, minha escolha, aparentemente heterodoxa, já que muitos hão dizer que não se trata de uma tradução, é o Mata Teu Pai, de Grace Passô (Ed. Cobogó, 2017), que é, na verdade, sua Medeia, e uma das mais potentes e inovadoras no quesito tradução/transcriação/recepção dos clássicos. Além disso, ninguém me perguntou, mas meu livro de contos favorito que li neste ano também é mais antigo, Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues (V. de Moura Mendonça Livros – Selo Edith, 2014), que ganhou o Jabuti e o Prêmio Biblioteca Nacional em 2015 mas que só fui conhecer depois da Flip de 2017. Que livro, camaradas, que livro. Meio sem querer, são todos livros de mulheres, porque, convenhamos, elas estão mandando bem demais. Menção mais que honrosa para minha conterrânea Hilda Hilst, cujo Da Poesia (Companhia das Letras, 2017) paira acima de tudo e todos e não sai da minha cabeceira.

 

Chris Daniels

quero acreditar que a literatura pode salvar uma vida, qualquer vida, minha, tua, nossa – mas pra mim é impossível essa crença… acredito que só a gente pode salvar a vida da gente numa constante lembrança da nossa humanidade comum, em solidariedade e integridade, amor e respeito, e a literatura pode nos lembrar que convivemos no mundo natural, que somos simples bichos e que todos animais plantas pedras etc. merecem uma vida digna e decente. três livros (entre outros, claro!) que me salvaram o coração no ano de 2017:  em poesia, Da poesia, de Hilda Hilst (Cia das Letras); em traduçãoTener, de  Robin Meyers. Tradução de Ezequiel Zaidenzwerg (Audisea); em críticaWitchcraft and the gay counterculture, de Arthur Evans (Fag Rag Books).

 

Prisca Agustoni

poesia.: Da poesia, de Hilda Hilst (Cia das Letras);
tradução.: A mulher de pés descalços, de Scholastique Mukasonga. Tradução de Marília Garcia (Editora Nós);
crítica.: Entre Orfe(x)u e Exunouveau, de Edimilson de Almeida Pereira (Azougue).

 

Casé Lontra Marques

poesia.: Íntimo desabrigo, de Tarso de Melo (Dobra Editorial e Alpharrabio Edições);
tradução.: Jamais o fogo nunca, de Diamela Eltit. Tradução de Julián Fucks (Relicário Edições);
crítica.: Literatura e exclusão, organizado por Laeticia Jensen Eble e Regina Dalcastagnè (Editora Zouk).

 

Juliana Bratfisch

Penso na seleção desses textos como quem prepara uma mala compacta para uma longa viagem ou como quem lança numa uma garrafa no mar para talvez recebê-la, sendo outra, muito tempo depois de atravessar o oceano (assim, se esta garrafa resolver ter outro destino, outro, outra destinatária, tanto melhor). Coloco três ervas como se prepara um banho, três graças para tecer os fios do futuro, “pois se agora foge virá em breve | se presentes nega dará em breve | se desama agora amará na hora | mesmo que negue”. Em poesia, o porto, de Leda Cartum (Iluminuras). Em tradução, Fragmentos completos, de Safo. Tradução de Guilherme Gontijo Flores (Editora 34). Em crítica, Caça às bruxas, passado e presente e o medo do poder das mulheres, de Silvia Federici (publicado pela Chão da Feira, sendo o 63º Caderno de Leituras, disponível aqui).

 

Leonardo Antunes

poesia.: Subir ao mural, de Ronald Augusto (Editora Caseira);
tradução.: Romeu e Julieta, de William Shakespeare. Tradução de José Francisco Botelho (Cia das Letras);
crítica.: Algo Infiel – corpo performance tradução, de Guilherme Gontijo Flores & Rodrigo Tadeu Gonçalves. Fotografias de Rafael Dabul (n-1 edições/ Editora Cultura e Barbárie).

 

André Capilé

poesia.: Animal Extremo, de Prisca Agustoni (Patuá);
tradução.: meu coração está no bolso, de Frank O’Hara. Tradução de Beatriz Bastos & Paulo Henriques Britto (Luna Parque);
crítica.: Algo Infiel – corpo performance tradução, de Guilherme Gontijo Flores & Rodrigo Tadeu Gonçalves. Fotografias de Rafael Dabul (n-1 edições/ Editora Cultura e Barbárie).

 

Carla Diacov

poesia.: Pirueta, de Regina Azevedo (Jovens Escribas);
tradução.: indico um blogue e não um livro. no blogue (clique aqui), André Nogueira, Mari Alter e Tomaz Amorim Izabel (entre outros) apresentam suas ótimas traduções de poesias, ensaios, contos e curiosidades, como o “obituário do Dr. Franz Kafka”, de Milena Jesenská;
crítica.: Cristãos de vanguarda, diálogo maravilhoso entre Valter Hugo Mãe e João Gesta (cadernos casa mãe).

 

Rafael Mantovani

poesia.: Fe ciega, de Irene X (Harpo Libros);
tradução.: Um amor feliz, de Wislawa Zymborska. Tradução de Regina Przybycien (Cia das Letras);
crítica.: Calma é apenas um pouco tarde – resistência na poesia portuguesa contemporânea, de Maria Leonor C. Figueiredo (Deriva).

 

Rita Isadora Pessoa

poesia.: O livro de estreia da Priscilla Menezes, Erro Tácito (Patuá) e o Mugido, da Marília Flôor Kosby (Garupa);
tradução.: Moby-Dick, da Editora Cosac Naify. Tradução de Irene Hirsch, especialista nas obras de Melville (mestrado na USP sobre traduções de Moby Dick (1851) no Brasil; tradutora de Bartleby, O Escrivão) e o incrível trabalho de pesquisa de vocabulário náutico por parte do tradutor Alexandre Barbosa de Souza;
crítica.: A mulher escrita, de Lucia Castello Branco e Ruth Silviano Brandão (Lamparina).

 

Tarso de Melo

poesia.: Antiboi, de Ricardo Aleixo (Crisálida);
tradução.: Esta vida: poemas escolhidos, de Raymond Carver. Tradução de Cide Piquet (Editora 34);
crítica.: Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI, de Pierre Dardot e Christian Laval (Boitempo).

 

Rob Packer

Foi um ano difícil para todos nós, tanto no Brasil, quanto no mundo. Em 2017, comecei a sentir cada vez mais como a leitura pode nos oferecer algumas saídas: uma primeira rota de fuga ou, ainda, uma saída no sentido de imaginar soluções. Por acaso, estava lendo Medeia Vozes, de Christa Wolf e tradução João Barrento (Cotovia) na semana em que Trump tomou posse e o que via no noticiário – notícias falsificadas, governos machistas, nasty women, campos de refugiados – estava já refletido no livro que Wolf escreveu em 1996. Quer dizer, tudo isso já estava entre nós. A minha leitura ao longo do ano se concentrou, como sempre, na poesia. Os livros que me surpreenderam foram muitos, mas destaco três: Edimilson de Almeida Pereira, que, em qvasi (Editora 34), explora lugares, falas ou pontos de vista esquecidos ou suprimidos; Caroline Bergvall que pensa, em Drift (Nightboat), a sensação de estar perdido em alto-mar – como viking, como refugiado – através de poemas, tradução, ensaio lírico, arte; e Adelaide Ivánova que, em O Martelo (Garupa), abriu novos caminhos para a poesia e também deu voz para tantas mulheres. Além destes livros, houve outros que expandiram os horizontes. Em On Elizabeth Bishop (Princeton University Press), Colm Toíbín responde à poesia desta poeta que teve casa em e, à sua vez, examinou todo lugar e em lugar nenhum. Em In altre parole (Guanda), Jhumpa Lahiri nos dá uma saída para se reinventar nesse primeiro livro dela escrito em italiano. E, por último, li a Ética (Hackett Classics), de Baruch Espinosa, que me possibilitou examinar, nem sempre concordando, como vemos a natureza e as decisões – sobretudo em um ano em que está ficando cada vez mais escancarado como as mídias sociais estão usurpando até mesmo a nossa capacidade de pensar.

 

Leila Guenther

poesia.: Diário da vertigem, de Marilia Kubota (Patuá);
tradução.: Salmo: romance-meditação sobre os quatro flagelos do senhor, de Friedrich Gorenstein. Tradução de Irineu Perpétuo e Moissei Mountian (Kalinka/ Hedra);
crítica.: A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética: artigos, atas panfletos, ensaios. Organização de Graziela Schneider (Boitempo).

 

Adelaide Ivánova

poesia.: Mugido, de Maria Floôr Kosby (Garupa) & Brand New Ancients, de Kate Tempest (Bloomsbury USA);
tradução.: MPPF #4: especial tradução;
crítica.: Kommunismus – Kleine geschichte, wie es endlich anders wird, de Bini Adamczak (Unrast; Auflage: 5. tamo tentando arrumar editora pra traduzir, é demais esse livrin!) & The Madwoman’s Underclothes: Essays and Occasional Writings, de Germaine Greer (Atlantic Monthly Press).

 

Luiz Guilherme Barbosa

poesia.: Breve história da ciência, de Bruno Domingues Machado (Megamíni);
tradução.: Os elétrons (não) são todos iguais e outros poemas, de Rosmarie Waldrop. Tradução de Marcelo F. Lotufo (Edições Jabuticaba);
crítica.: O gênio não original, de Marjorie Perloff. Tradução de Adriano Scandolara (EdUFMG).

 

Rafael Zacca

poesia.: Três semblantes, de Lucas Matos (7Letras);
tradução.: O método Albertine, de Anne Carson. Tradução de Vilma Arêas (Edições Jabuticaba);
crítica.: Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina, de Ferreira Gullar, in: Augusto dos Anjos – Toda poesia (José Olympio).

 

Matheus Mavericco

poesia.: Inventário, de Heleno Godoy (Editora Martelo);
tradução.: O cânone americano, de Harold Bloom. Tradução de Denise Bottman (Cia das Letras);
crítica.: Seven types of ambiguity, de William Empson (New Directions).

 

Luciano Ramos Mendes

poesia.: Suite de pièces que l’on peut jouer seul, de Manuel de Freitas (Corsário-Satã);
tradução.: Eu construía a barricada, de Anna Swirszczynska. Tradução de Piotr Kilanowski (Dybbuk);
crítica.: Algo Infiel – corpo performance tradução, de Guilherme Gontijo Flores & Rodrigo Tadeu Gonçalves. Fotografias de Rafael Dabul (n-1 edições/ Editora Cultura e Barbárie).

 

Marcelo Ariel

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Tatiana Faia

Livros do Ano em 2017 (não necessariamente de) – Poesia e Ensaio
N.B. Não é o meu objectivo nomear aqui os melhores livros do ano, até porque a maior parte desses livros não são novidades de 2017. O meu objectivo é apenas destacar, por um motivo ou por outro, alguns livros que me foram particularmente caros em dados momentos do ano. A lista não é necessariamente a mais inclusiva e omite alguns autores publicados pela Enfermaria 6 que me importam bastante (não tendo pretensões à mínima objectividade a esse respeito, sempre me pareceu, no entanto, pretensioso advogar em causa própria).

Ensaio
Late Essays. 2006-2017, de J. M. Coetzee (Harvill Secker);
Aftermath: On Marriage and Separation, de Rachel Cusk (Faber & Faber);
Pompeii, de Mary Beard (Profile Books);
The Birth of Politics: Eight Greek and Roman Political Ideas, de Melissa Lane (Princeton University Press);
Uma admiração pastoril pelo diabo, de António Feijó (Leya);
Venice, An interior, de Javier Marías (Hamish Hamilton);
The Other Paris, de Luc Sante (Farrar, Straus and Giroux).

Poesia
Poems (1945-1971), de Miltos Sachtouris. Tradução inglesa de Karen Emmerich (Archipelago Books);
Incêndios, de João Miguel Henriques (Não Edições);
Terror, de Toby Martinez de las Rivas (Faber & Faber);
Field Work, de Seamus Heaney (Faber & Faber);
Selected Poems, de Jamie McKendrick (Faber & Faber);
Óxido, de Gastão Cruz (Assírio & Alvim);
Falling Awake, de Alice Oswald (Jonathan Cape);
Burning in Water, Drowning in Flame: Selected Poems 1955-1973, de Charles Bukowski (Ecco);
Four Quartets, de T.S. Eliot (Faber & Faber);
The trouble with poetry and other poems, de Billy Collins (Picador).

Estreias
Cuaderno de Campo, de Maria Mercromina (La Bella Varsovia);
Ratzara, de Sergio Maciel (Dybbuk);
The Promised Land, de André Naffis-Sahely (Penguin);
Night Sky with Exit Wounds, de Ocean Vuong (Copper Canyon Press).

 

Mariana Basílio

poesia.: Ou o poema contínuo, de Herberto Helder (Assírio & Alvim). Indicar somente um livro de poesia é tarefa árdua para mim, leitora compulsiva do gênero. Recorto para este instante uma obra o que li e reli em diferentes oportunidades: Ou o poema contínuo. Se trata de um volume que traz a poesia reunida do poeta português Herberto Helder, um dos meus autores de predileção, homenageado em meu último livro de poesia, Sombras & Luzes (Penalux). O volume se adequa em todos os casos: quem teve pouco contato, ou quase nada conhece, não conhece, ou ainda, pretende se aprofundar mais no trabalho de Herberto. Obra essencial da poesia portuguesa e um alvo lento aos horizontais silêncios: “Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. / Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, / com os livros atrás a arder para toda a eternidade”.

tradução.: Paraíso perdido, de John Milton. Tradução de Daniel Jonas (Editora 34). Li e conheci excelentes traduções nos últimos anos, a maioria delas bilíngues, como prefiro. Recordo agora de algumas, como Ilíada, de Homero – tradução de Odorico Mendes (Ateliê, 2010), Fastos, de Públio Ovídio Nasão – tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior (Autêntica, 2015), e atualmente, Gilgámesh, de Sin-léqi-unnínni – tradução de Jacyntho Lins Brandão (Autêntica, 2017). Mas para concluir a trilogia, sigo minhas preferências subjetivas e indico o livro Paraíso perdido, de John Milton. Brilhantemente traduzido pelo poeta português Daniel Jonas, que versifica e musicaliza similarmente no português um dos maiores poemas épicos da literatura ocidental, originalmente publicado em 1667, na Inglaterra. A edição da 34 também está primorosa: completam o volume notas e posfácio de Jonas, além de uma adorável apresentação feita pelo crítico americano Harold Bloom. O livro também acompanha ilustrações de Gustave Doré, feitas em 1866.

crítica.: O arco e a lira, de Octavio Paz (Cosac Naify). Ao pensar numa primeira indicação de livro que una conteúdos essenciais para qualquer leitor (a) e/ou escritor (a), cito na ponta da língua O Arco e a lira. Obra que se define em diferentes teias, de crítica, ensaio, teoria literária – um exercício de Paz para compreensão da experiência poética e da poesia, no passado e na atualidade. Relato ousado e definitivo sobre a temática, alcançando os primórdios e as sucessões da linguagem e da imaginação. Tudo detalhadamente bem traçado pelo autor, com inúmeras argumentações e exemplos. Concluo com um dos meus trechos prediletos: “Todas as concepções cosmológicas do homem surgem da intuição de um ritmo original. No fundo de toda cultura se encontra uma atitude fundamental diante da vida que, antes de se expressar em criações religiosas, estéticas ou filosóficas, se manifesta como ritmo”. Obs.: Mais especificamente, sinto que preciso quebrar o protocolo e indicar também a Antologia do Pensamento Crítico Russo (1802 – 1901) – organização de Bruno Barretto Gomide (editora 34, 2013). Se trata de um volume de vinte e dois ensaios traduzidos diretamente do original, analisando a produção crítica como fator essencial para compreensão da cultura.

 

Beatriz Regina Guimarães Barboza

poesia.: Coral, de Sophia de Mello Breyner Andresen (Assirio & Alvim);
tradução.: No Bosque da Noite, de Djuna Barnes. Tradução de Caetano Waldrigues Galindo (Códex);
crítica.: Crítica e Tradução, de Ana Cristina Cesar (Cia das Letras).

 

Estela Rosa

poesia.: Quase todas as noites, de Simone Brantes (7 Letras);
tradução.: Revista Puñado, da Editora Incompleta, que publica contos de autoras Latinoamericanas na raça;
crítica.: Fala, poesia, de Tamara Kamenszain (Editora Circuito em parceria com a Azougue).

 

Bruna Mitrano

poesia.: A menstruação de Valter Hugo Mãe, de Carla Diacov (Casa Mãe);
tradução.: Árbol de Diana, de Alejandra Pizarnik. Tradução de Nina Rizzi (Edições Ellenismos);
crítica.: Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, de Silvia Federici. Tradução de Coletivo Sycora (Ed. Elefante).

 

Thiago Ponce de Moraes

poesia.: The Poems of Emily Dickinson, de Emily Dickinson (Belknap Press);
tradução.: Sete Rosas Mais tarde, de Paul Celan. Tradução de João Barrento e Y.K. Centeno (Cotovia);
crítica.: Pensar em não ver – escritos sobre as artes do visível (1979-2004), de Jacques Derrida. Tradução de Marcelo Jacques de Moraes (EDUFSC).

 

Gustavo Silveira Ribeiro

poesia.: Ainda: em viagem, de Age de Carvalho (Ed.UFPA). Mais recente livro de poemas do escritor paraense radicado na Áustria, Ainda: em viagem é talvez a síntese de seu percurso, expressão da técnica muito particular e das obsessões de um poeta que tem na experiência do exílio e da vivência entre línguas um dos campos de atração de seu trabalho. A visualidade e o cuidado extremo com o lugar e o valor de cada elemento do poema, sinal gráfico, espaçamento, letras e palavras meticulosamente distribuídos no corpo do texto fazem da sua obra uma poética da precisão, em chave ao mesmo tempo cabralina e pós-cabralina (se pensamos aqui no rigor da construção), no entanto aberta às coisas do mundo, aos afetos e ao dado espiritual, tudo de mistura numa contínua meditação (diria mesmo perscrutação) das origens: da linguagem, do poema, do sujeito, dos arranjos sociais e da própria materialidade que nos constitui a todos (pó, ossos, minerais, seivas e sangues). Um novo livro de inéditos (De estar – entrestrelas) já se anuncia, o que faz querer voltar a esse volume de 2015, fazendo da sua leitura ao mesmo tempo memória do que foi e antecipação do que pode vir a ser.

tradução.: Meninas que vestiam preto, várias autoras. Tradução de Vanderley Mendonça (Selo Demônio Negro). Primeira tradução no Brasil de uma antologia das poetas, ainda muito pouco lidas No Brasil, que pertenceram à geração beat. Destaque para Diane di Prima e Denise Levertov, que mereceriam coletâneas individuais, esforços de tradução e divulgação mais sistemáticos.

crítica.: Poesia e fotografia: afinidades eletivas, de Adolfo Montejo Navas (Ubu). Tentativa sistemática de pensar a poesia num campo expandido, na mesma direção – apesar da ênfase aqui recair nos aspectos visual e conceitual – de Algo infiel, que discute os limites e também as potencialidades do poema fora-de-si, feito pelo corpo e em relação com outras mídias e outros constrangimentos formais. Muito do que se faz de melhor na poesia brasileira hoje tem relação com esse movimento, essa força expansiva e desreguladora, ao mesmo tempo nova (experimental) e de retorno, passo em direção às origens supostas do gênero: Ricardo Aleixo, Josely Vianna Baptista, Guilherme Gontijo Flores, Reuben da Rocha, Leila Danziger, Carla Diacov, Rodrigo Lobo, o próprio Pecora Loca, entre outros. & A ascensão de Atlas. Glosas sobre Aby Warburg, de Fabián Ludueña Romandini (Cultura & Barbárie). Ensaio experimental, entre a erudição acadêmica e o impulso criativo da escrita livre, sobre o legado de Aby Warburg, teórico da arte e historiador da primeira metade do século XX. Entre outros méritos, o texto consegue passear por zonas menos conhecidas da obra de Warburg, dando destaque ao seu método de trabalho e às consequências da esquizofrenia sobre as pesquisas que empreendeu. Além disso, o ensaísta argentino procura ler o autor alemão para além das sendas abertas (muito poderosas mas, como sempre ocorre nesses casos, algo constritoras) por Georges Didi Huberman, o que confere frescor adicional a sua mirada crítica.

 

Francesca Cricelli

poesia.: O túnel e o acordeom, de Júlia de Carvalho Hansen (Edição de autor). Um texto inscreve-se no leitor com o passar do tempo e talvez inscreva-se em si mesmo enquanto decanta. Em 2017 é lançado no Brasil O túnel e o acordeom, novela poética lançada em 2013 em Portugal após a exposição e encontro entre a autora e Mayana Redin. Este diário fóssil encontrado após a explosão percorre o caminho que se alcança ao perfurar a terra, ao mergulhar-se no gesto da escavação. Leio-o e lembro-me dos primeiros versos de Pranto da escavadeira de Pasolini: “só o amar só o conhecer vale/ não ter amado, conhecido/ dá angústia viver de um amor consumido/ a alma já não cresce mais”, é deste presente e desta presença que narra a autora: “EU QUERO falar de um lugar honesto”. Cavar o risco de ser sua própria terra “I’m my own land”, é para quem empunha a lama que se fez Simone Weil, citada na epígrafe. Minha leitura de poesia deste ano, entre tantas leituras é esta viagem, talvez porque “O TEMPO está me transformando. É tanta síntese que pareço um coração em diástole (…) Mas fazer o quê? Uma pessoa tem que aprender a lidar com ambos os lados de uma situação (…) percebo os sismos como grandes batimentos cardíacos e me lembro do coração dos passarinhos batendo miúdo. Estou só no centro da terra e, se são eles que me acompanham, começo a sentir certa ternura pelos terremotos.” [p.16]

tradução.: Nona manhã (herbário poético), de Carl Jóhan Jensen. Tradução de Luciano Dutra (Editoria Moinhos & Sagarana Forlag). “Assim como Ódinn pendeu por nove noites no freixo da vida” e Luciano Dutra pendeu por nove dias e nove noites no verão ensolarado da Islândia para traduzir o poeta feroês Carl Jóhan Jensen, pendemos nós, os leitores, dos lábios e dedos de ambos: estamos diante do descortinamento de um mundo novo. É a abertura para o extremo norte do outro hemisfério. Há neste herbário a presença das mãos, do dorso da mão, das palmas, das costelas, dos olhos, das narinas, dos flancos, do peito, do coração que roçam e habitam a página com o arbusto, a pradaria, as conchas e sua aspereza, a bétula, a neve e a terra, as algas, a água a luz e a sombra. A poética de Jensen parece recordar o leitor da dificuldade de suportar “a diferença imensa entre o chão/ e o voo” (p. 47) ou de que “num clique, o calor toma o coração de súbito, com força,” (p. 51) e há sempre algo de sagrado que permeia os versos. É a primeira vez que um poeta feroês é vertido para o português; e como adverte o tradutor “territórios de fronteira buscam uns aos outros”. Não tendo acesso ao idioma de partida, mas sendo poeta e tradutora de poesia, posso ingerir todo este herbário de Carl Jóhan Jensen confiando em sua transmutação assinada por Luciano Dutra. Confio e sinto despertar em mim a curiosidade por algo que antes me era uma ilha fora do meu mapa de leitura. Sigam também a página de traduções diárias de Luciano Dutra: https://www.facebook.com/nordrsudr/

crítica.: Algo Infiel – corpo performance tradução, de Guilherme Gontijo Flores, Rodrigo Tadeu Gonçalves. Fotografias Rafael Dabul (n-1 edições/Cultura e Barbárie). Talvez seja este o livro que tenha me tocado de forma mais íntima em 2017 e por isso seja difícil escrever algo a respeito: eu ainda não pude digerir este rico compêndio de ideias em aberto. É um livro necessário para qualquer pessoa que trabalhe com tradução mas também para quem escreve poesia. É um livro necessário para quem se ocupa de crítica a partir de uma visão sanguínea do mundo. Este “algo infiel” eu não pude atravessar plenamente numa primeira leitura é um território a ser desbravado. O livro requer um trabalho ativo do leitor que precisa colocar em jogo seu próprio corpo para chegar a cabo da experiência de intelecção. O metro do próprio território que nos contém e nos limita e nos abre acesso ao ilimitado se revela logo de início: “é o cadáver e o espelho que nos ensinam que temos um corpo”, sim, lá onde não estamos: nem na imagem do espelho nem no corpo morto e desabitado. Há um movimento tradutório tanto na leitura quanto na escrita e é o caminho do demasiado humano que os autores percorrem em sua escrita e nas excelentes imagens de Rafael Dabul: “é só aí que se traduz”, dizem “tarefa angélica, mefistofáustica, traduzir contra a dicotomia do corpo e da alma, da forma e do conteúdo”. Gontijo Flores e Tadeu Gonçalves abrem uma fresta a la Leonard Cohen “there’s a crack in everything, that’s how the light gets in”.

 

Nina Rizzi

poesia.: Poemas completos, de Alejandra Pizarnik (Editorial Lumen). Poderia escolher inúmeras outras poetas e poetos que admiro e leio, mas a verdade é que nunca passei tanto tempo lendo, pensando, querendo e fazendo um tudo com uma outra poeta/ poesia, como com ela/esta. Então só pode ser ela.
tradução.: Poesia Soviética, tradução de Lauro Machado Coelho (Argol) Costumo brincar que só os russos entvendem minha alma, que Tarkóvsky é meu verdadeiro pai. Talvez porque a forma como talham a linguagem possua uma verdade – não espiritual, mística ou do signo/ significante, mas essa verdade muito própria da poesia. Neste livro, Lauro Machado Coelho nos revela vinte e quatro poetas, até a publicação do livro, pouco conhecidos no Brasil, do período soviético. Além dos poemas, o ensaio/ prefácio é incrível.
crítica.: La venue à l’écriture, de Hélène Cixous (Éditions des femmes). O livro que me abriu à ideia luminosa de que a crítica é uma atividade tão criativa quanto a poesia; o ensaio é praticamente uma carta de amor à escritura e ao fazer a escritura (poética ou não, sempre poética), sem deixar de ser rasgante e revelador das estruturas de poder da língua, da linguagem, do machismo, da pátria, etc.

 

Guilherme Gontijo Flores

poesia [Empate técnico].: Muimbu, de André Capilé (Macondo). Foi o primeiro livro dele que eu li, fiquei muito espantado com a capacidade de recuperar uma poética do candomblé num registro da poesia contemporânea, sem fazer concessões, sem cair nos clichês mais esperados. É vigor e tradição viva. & ratzara, de Sergio Maciel (Dybbuk). É o livro de estreia de um parceiro de blog, mas eu posso ser sincero, é um grande livro de estreia, que eu tive a sorte de acompanhar desde o início. Nele, vemos recortes, manipulações, colagens, citações, quase-pastiches entremeados com uma força de vida que extrapola o livresco, num jogo mesmo de desejo e aflição.

tradução.: Ele que o abismo viu, de Sin-Léqi-Unínni. Tradução de Jacyntho Lins Brandão (Autêntica). Jacyntho Lins Brandão simplesmente fez a primeira tradução do acádio ao português da primeira epopeia escrita e registrada da humanidade. Precisa mais? Sim, ele fez uma longa introdução e recheou a tradução com inúmeras notas de ordem cultural, literária e tradutória.

crítica.: Araweté. Um Povo Tupi da Amazônia, de Eduardo Viveiros de Castro, Camila de Caux e Guilherme Orlandini Heurich (Editora SESC/SP). É uma espécie de reedição/adaptação do livro clássico de Viveiros de Castro, mas para além disso ele tem os trabalhos de Camila de Caux e de Guilherme Orlandini Heurich, que ampliam bastante o escopo original, inclusive tratando mais da poética vocal dos Araweté.

Além disso, quero também pelo menos mencionar a coleção Tembetá, que começou a sair este ano pela Azougue, com vários nomes importantes do movimento indígena nacional.

 

Sergio Maciel

vou botar bem mais que apenas três livros nessa lista pois 1) eu mando nesse post heheh e 2) teve gente que também fez isso.

poesia.: Escarpas, de Gastão Cruz (Móbile Editorial), foi um livro que falou muito de perto comigo e de um modo muito intenso. A questão de uma poética do luto me era muito cara no momento da leitura. Por motivos muito próximos aos do poeta português, o livro Treme ainda, de Fábio Weintraub (Editora 34) me atingiu como raio. É um livro também poderosíssimo por conta das imagens de desolação. Trata-se da “autoridade/ de quem tudo perdeu”, afinal, em ambos os casos. Além disso, acho que não há como passar ao largo de O Martelo, de Adelaide Ivánova (Garupa). É um livro de poética singularíssima, que ocupa, até agora, uma posição singularíssima no cenário poético brasileiro. Nele, ao tratar do poder e da disciplina sobre o corpo feminino, Adelaide lida muito com os conceitos de vida e as ideias de pulsões freudianas, acredito. A pulsão de vida que busca satisfazer a todo custo, numa sociedade de hiperconsumo, seu desejo ao passo que sua libido, parece, se concretiza através do instinto desorganizado. Enfim, devaneios. rapace, de André Capilé (Texto Território), realiza, poeticamente, um trabalho melopaico impressionante ao buscar uma concisão formal também impressionante. Os Ilhados, de Ismar Tirelli Neto (7Letras), é para mim o melhor livro desse lirismo sobre o cotidiano desde os livros de Bandeira. Terceiro livro do poeta carioca, Os Ilhados consegue desenvolver e aprofundar toda aquela ideia de um spleen. É um puta dum livro, apenas. carvão :: capim, de Guilherme Gontijo Flores (Artefacto), é seu melhor livro até aqui. Primeira publicação fora da tetralogia Todos os nomes que talvez tivéssemos, é onde talvez o poeta melhor consiga afinar as relações entre os mundos: clássicos, sempre vários pra Gontijo, e essa atualidade sempre vária pra todos nós. & last not least, Nox, de Anne Carson (New Directions). Carson, tenho repetido há tempos e não me cansarei, é a melhor poeta viva a produzir, para mim. Ninguém no mundo me impressiona mais que ela. Em Nox, Carson cria um livro elegíaco para seu irmão a partir de um poema de Catulo. Acho a composição toda um absurdo, algo que ultrapassa a mera ideia de bonito. Carson é foda, apenas.

tradução.: o trabalho primoroso de Ricardo Portugal & Tan Xiao na tradução da Poesia de completa da poeta chinesa Yu Xuanji (UNESP). O trabalho também primoroso de Leonardo Antunes na tradução do Édipo tirano, de Sófocles (ainda sem editora). Além de, claro, a tradução dos Fragmentos completos, de Safo, por Guilherme Gontijo Flores (Editora 34). Safo, esse patrimônio da humanidade.

crítica.: Algo Infiel – corpo performance tradução, de Guilherme Gontijo Flores & Rodrigo Tadeu Gonçalves. Fotografias de Rafael Dabul (n-1 edições/ Editora Cultura & Barbárie). Um livro fundamental pra se pensar uma série de questões que a tradução impõe ao corpo e que o corpo impõe à tradução. Além disso, o – possivelmente – livro mais importante da minha vida: Aristóteles ou o vampiro do teatro ocidental, de Florence Dupont (no prelo pela Cultura & Barbárie, a sair no começo do ano que vem). Dupont, esse ser iluminado por todos os deuses, revê o problemão que foi a Poética de Aristóteles na nossa tradição e como ela prejudicou muito nosso entendimento sobre teatro, sobre poética e sobre os funcionamentos das sociedades clássicas.

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