poesia, tradução

Um poema de Victor Hugo por Erick Monteiro Moraes

No post sobre a poesia de Victor Hugo no Brasil (ou sua espantosa escassez), o Guilherme Gontijo Flores levanta a questão dos poetas canônicos descanonizados, isto é, aqueles que todos conhecem, mas ninguém lê. Dentre os autores citados por ele, Goethe e Bilac são os nomes que mais me chamam atenção. O primeiro é o autor de “Kennst du das Land?”, que constitui a epígrafe (quase sempre omitida) da “canção do exílio”, o mais famoso e parodiado poema de nosso Romantismo e, talvez, de toda a nossa literatura. O segundo é vítima da aversão ao parnasianismo que se arraigou na sensibilidade modernista. Bilac, contudo, é autor de poemas memoráveis, dentre os quais “Profissão de fé”, parodiado por Manuel Bandeira em “Os Sapos” (haveria reconhecimento maior?). Curiosamente, esse poema de Bilac tem como epígrafe versos de “A M. Froment Meurice”, de Victor Hugo. Ou seja, as epígrafes de dois dos poemas mais representativos de nossa literatura são versos de poetas europeus que ninguém mais lê por aqui. Realizei, portanto, esta tradução porque acredito que esse poema de Hugo seja tão valioso para Bilac e nosso parnasianismo quanto “Kennst du das Land?” é para Gonçalves Dias e nosso Romantismo. O poema “A M. Froment Meurice” está em Les contemplations.

Erick Monteiro Moraes

* * *

A M. FROMENT MEURICE

Nous sommes frères: la fleur
Paur deux arts peut être faite.
Le poëte est ciseleur;
Le ciseleur est poëte.

Poëtes ou ciseleurs,
Par nous l’esprit se révèle.
Nous rendons les bons meilleurs,
Tu rends la beauté plus belle.

Sur son bras ou sur son cou,
Tu fais de tes rêveries,
Statuaire du bijou,
Des palais de pierreries!

Ne dis pas: «Mon art n’est rien…»
Sors de la route traceé,
Ouvrier magicien,
Et mêle a l’or la pensée!

Tous le penseurs, sans chercher
Qui finit ou qui commence,
Sculptent le même rocher:
Ce rocher, c’est l’art immense.

Michel-Ange, grand viellard,
En larges blocs qu’il nous jettes,
Le fait jaillir au hasard,
Benvenuto nous l’émiette.

Et, devant l’art infini,
Dont jamais la loi ne change,
La miette de Cellini
Vaut le bloc de Michel-Ange.

Tout est grand; sombre ou vermeil,
Tout feu qui brille est un âme.
L’étoile vaut le soleil;
L’étincelle vaut la flamme.

Paris, octobre 1841.

A M. FROMENT MEURICE

Nós somos irmãos: a flor
No papel como na pedra.
O poeta é escultor;
O escultor é poeta.

Poetas ou escultores,
A musa a nós se revela.
Tornamos os bons melhores,
Tu, a beleza mais bela.

Sobre o braço ou o pescoço,
Crias tuas fantasias,
Cristal preciso e precioso,
De paços de pedrarias!

Não digas “Minha arte é nada…”,
Artesão do encantamento,
Foge da rota traçada,
Funde ao ouro o pensamento.

Sem buscar nem o que brota
Nem o que finda, quem pensa
Sempre esculpe a mesma rocha.
Essa rocha é a arte imensa.

Michelangelo, arguto,
Faz jorrar em grandes blocos
A arte que Benvenuto
Talha em minúsculos flocos.

E, ante a arte infinita,
Cuja lei não vê mudança,
Vale a gema de Cellini
O bloco de Michelangelo.

Tudo é grande; rubra ou negra,
Toda alma engendra um drama.
O sol equivale à estrela;
O cintilar vale a chama.

Paris, outubro 1841.

(Victor Hugo, Les Contemplations. Paris: 1858. Tradução: Erick Monteiro Moraes)

* * *

Erick Monteiro Moraes (Rio de Janeiro, 1993) é poeta e tradutor. Formou-se em Letras pela PUC-Rio e atualmente cursa o mestrado na mesma instituição.

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