poesia, tradução

Experiência Butoh, de Daniela Camacho, por Jorge Melícias

Daniela Camacho nasceu no México, em 1980. Publicou: En la punta de la lengua, Plegarias para insomnes, [imperia], o livro de palíndromos Aire sería e o livro-objeto Pasaporte [em edição trilingue, juntamente com Natalia Litvinova e Beatriz Paz]. Em colaboração com o criador audiovisual Christian Becerra, publicou Carcinoma e Híkuri, e com artista Gabriel Viñals, publicou Lantana. Nos últimos anos residiu em Tóquio, Lausanne e Cairo, tendo recentemente regressado ao México. Estes poemas pertencem ao seu último livro, Experiência Butoh (Cosmorama Edições, Porto, 2017 e Amargord Ediciones, España, 2017).

Jorge Melícias nasceu em Coimbra, em 1970. Como tradutor, verteu para o português Saint-John Perse, Lautréamont, Baudelaire, Leopoldo María Panero, María Negroni, entre outros, e é autor de 7 livros de poesia própria: Aqueles que incendeiam os telhados, Iniciação ao remorso, A luz nos pulmõesO dom circunscrito, Incubus, A longa blasfemiaFelonia/Agma, além da coletânea de poesia reunida, Disrupção.

* * *

LO QUE ESCUCHÉ DECIR A HIJIKATA SOBRE LA EXPERIENCIA DE VER A TRAVÉS DE UN CRISTAL

Estás intentando ver a través de un cristal. Mira bien dentro de tu propio cráneo. Repite esto dos veces. Mientras lo haces, eres capturado por algo. Tu rostro se ha transformado en el de alguien que ha sido secuestrado. La frente del rehén se descompone de fiebre y una planta se arrastra por sus sienes. La cara se torna borrosa. Las caras se convierten en la cara de un joven samurái decapitado de nombre Kotaro, un personaje de Bunraku, el teatro de marionetas. El rostro, lentamente, se vuelve transparente. Antes de desaparecer, sin embargo, se ha transformado en el trozo original de cristal. Tu aliento es succionado por jeringas, las imágenes han sido fijadas como si alguien las hubiera soldado, porque tú has sido apresado dentro del cristal. Ahora estás recogiendo pequeñas flores hechas de nervios. Con un látigo pequeño entre los dedos, das un chasquido. Las puntas de tus dedos se llenan de polen. Luego azotas otro pequeño látigo, pero esta vez en tus ojos. Miras fijamente los dedos que fustigan el látigo. Estás mirando, otra vez, dentro de tu propio cráneo. Rastreas con precisión el movimiento de tus dedos dentro del cráneo; trazas con la misma precisión los movimientos de la mano dentro del cráneo. Ahora el cuerpo es azotado y, de repente, comienzas a alejarte. Pero ¿a dónde vas?

O QUE OUVI HIJIKATA DIZER SOBRE A EXPERIÊNCIA DE VER ATRAVÉS DE UM ESPELHO

Estás a tentar ver através de um espelho. Olha bem dentro do teu próprio crânio. Repete isto duas vezes. Enquanto o fazes, és capturado por algo. O teu rosto transformou-se no de alguém que foi sequestrado. A fronte do refém descompõe-se de febre e uma planta arrasta-se pelas suas têmporas. A cara torna-se difusa. As caras convertem-se na cara de um jovem samurai decapitado de nome Kotaro, um personagem de Bunraku19, o teatro de marionetas. O rosto, lentamente, torna-se transparente. Antes de desaparecer, contudo, transformou-se no fragmento original do espelho. O teu alento é sugado por seringas, as imagens foram fixadas como se alguém as tivesse soldado, porque tu foste aprisionado dentro do espelho. Agora estás a recolher pequenas flores feitas de nervos. Com um látego pequeno entre os dedos, dás um estalido. As pontas dos teus dedos enchem-se de pólen. Depois açoitas com outro pequeno látego, mas desta vez os teus olhos. Olhas fixamente os dedos que fustigam com o látego. Estás, outra vez, a olhar para dentro do teu próprio crânio. Rastreias com precisão o movimento dos teus dedos dentro do crânio; traças com a mesma precisão os movimentos da mão dentro do crânio. Agora o corpo é açoitado e, de repente, começas a distanciar-te. Mas aonde é que vais?

§

PRIMER MOVIMIENTO: cierra los ojos

en el kimono vacío (madre)
tu ausencia es ahora
un estado de gracia
y estás en mi cuerpo,
y eres el hijo

 

SEGUNDO: toca el aire

en la mente del recién nacido
hay semillas de concreto
que florecen sin ser vistas

 

MOVIMIENTO FINAL: márchate y nunca regreses

(escenario sin luz)

a) un hombre alimenta a un caballo mojado que lo maldice
b) el único ojo del caballo es un segundo corazón
c) una fruta madura palpita en el monte

PRIMEIRO MOVIMENTO: fecha os olhos

no quimono vazio (mãe)
a tua ausência é agora
um estado de graça
e estás no meu corpo,
e és o filho

SEGUNDO: toca o ar

na mente do recém nascido
há sementes de betão
que florescem sem ser vistas

MOVIMENTO FINAL: vai-te e não regresses nunca

(palco sem luz)

a) um homem alimenta um cavalo molhado que o amaldiçoa
b) o único olho do cavalo é um segundo coração
c) um fruto maduro palpita no monte

§

DANCE EXPERIENCE

Unidos a su semental, los prostitutos de Ueno Kurumazaka.
Cabello enmarañado, rubor en las mejillas, helándose a muerte en un baño público:
espuma masculina como herramienta para crear una danza.

Se retuercen, se encajan.
La sangre que corre de las carnicerías se está coagulando bajo sus pies.
Una flor de papel blanco les crece en la cara.
Para ellos, los días comenzaron sin miembros, sin ojos por donde llorar.

Son iracundos.

Han cruzado la rara experiencia de matar(se).
Han sido mirados
restregados
lamidos
tumbados.

DANCE EXPERIENCE

Unidos ao seu semental, os prostitutos de Ueno Kurumazaka.
Cabelo emaranhado, rubor na face, morrendo de frio numa casa de banho pública:
espuma masculina como ferramenta para criar una dança.

Retorcem-se, encaixam-se.
O sangue que corre dos açougues está a coagular-se sob os seus pés.
Uma flor de papel branco cresce-lhes na cara.
Para eles, os dias começaram sem membros, sem olhos por onde chorar.

São iracundos.

Cruzaram a rara experiência de matarem(-se).
Foram observados
esfregados
lambidos
derrubados.

(Daniela Camacho, tradução de Jorge Melícias)

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