poesia

Seis poemas para J.A., de Rafael Viegas

Nascido numa das Gáveas do último Brasil ditatorial, Rafael Viegas (1971-2014) trocou de time diversas vezes antes de retornar ao Botafogo, onde faleceu. Publicou postumamente Estreito de Magalhães, pela Megamini (7Letras, 2017).

* * *

Seis poemas para J.A.

Diante do fogo milenar

Diante do fogo milenar
Foram criados e bem-vindos
Os direitos da tua estadia

Quando jovem, no palácio,
Cruzavas as formas domésticas com as selvagens
E entravas assim no domínio da lei

Com as mãos apressadas e os pés firmes
Também treinavas uma dança mais forte
Que cantavas para baixo e para cima, com a cabeça

Da planície e à tarde, sorrias,
Os elementos, as ruas, o frio e mesmo as pedras
Endureceriam, como sabes, as cidades futuras

De teu metro e do sangue, aliás, de tua família e à noite
Do carvalho da cama e do sonho dos órgãos
Vinham-te as monstruosas formas opacas

Os antepassados reunidos desde ontem
Aninharam na coruja azul imposta à tua pele
O anúncio de sua enésima descendência

§

Flamengo sevilhano

Lá, em teus domínios já secos,
Pastavam em conjunto as botas e os arados
E a casa amarela, de onde pendiam teus sonhos e tuas colunas,
Radiava com os livros penitenciais.

Naquele tempo, ainda não haviam aterrado as árvores centenárias
E os bosques eram coloridos,
As paredes cobertas de carvão e óleo,
E os peixes, aos milhares, escondidos no gelo e nas raízes.

Cada palma de teu terreno foi ganha com elegância, pela chuva.
Cada rocha foi carcomida nos ventos e nas flanelas.
Cada curva, arrendada pelos flancos.
Cada brilho, polido de imediato.

As paisagens azuis
Desceram do céu e desbotaram.
Do centro até a periferia,
Do alto até o subsolo,
As cidades, agora poentes e infundadas,
Fazia séculos que transcorriam na mesma latitude.

Enquanto os tormentos da gravidade
Caíam conquistados pelo teu patinete,
O aluguel dessa parte do mundo triplicara.
Tornara-se tão extorsivo
Que emprestavas, às manhãs em branco,
Àqueles que te visitavam,
Lugares já demarcados na tua diáspora.

§

À sombra do teu quintal

Uma árvore desgarrada do universo veio à tua porta.
Pensávamos que estaria finalmente segura em tua calçada.
Mas era o tempo do descanso, as silhuetas voltaram ao teu quadril.
Soprados pelas folhas, os ventos, magros e secos, te envolveram.
As flores involuíram ao chamado dos novos brotos
E os caules, despidos, fugiram dos tapumes.

§

À noite, quando tuas cores te abandonavam,
A notícia era escrita dentro dos teus cílios.
As pernas, duras, fundidas à paisagem.
Os tijolos, cansados, presos no cimento.
As garrafas, enterradas até os joelhos.
O luar, entregue aos mosquitos.

§

As estações

Foi difícil informar às pedras e às mães
que teus olhos acinzentaram.

Os copos acordaram tarde,
Quando as cidades vermelhas e transparentes
Já haviam passado, como o vidro, pela tua janela.

Voltaste.
Chegaste antes do tempo, afinal.
Pela fuligem, a estação era a púrpura,
E também a estação dos pombos,
Dos ninhos que nunca migraram.

No passado, as florestas importavam pouco
E foram deixadas lá,
Como os mundos que ainda não vimos,
Apenas para secar ao sol.

Mas hoje, em tua homenagem,
As seivas que subiram
Desceram, de fato, em forma de chuva e ferrugem.

Bem-vinda.
Ouve-se o murmúrio da volta em todas as coisas.
As casas da vizinhança pararam de brincar
E retornaram às linhas retas e aos rebocos,
Às varandas vazias e às grades.

Contigo, no entanto, vieram novos segredos.
Quando os dias passados saírem do esquecimento,
Quando os braços que circulam os anos se revoltarem,
Eu gostaria que alguém entendesse
Que é num desses quartos obscuros
Que dormem as paredes de teu bisavô.

Que escondidas nas baladas e nos contos
Nasceram as noites do teu jardim.

E que no compasso em que bates à porta
É lá onde te espero.

§

Retorno ao Sublunar

O pálido globo terrestre
cedeu à tentação.
E te devolveu.

Foi difícil decidir
como te receber,
como, e se, deveria me comportar.
Mas você se adiantou,
veio em prata e carmim,
armada com listras, pedras e amêndoas.
E, de repente, me dei conta
que aquele astro redondo no meio da tarde
era, de fato, o teu umbigo.

Começou contando o que eu já sabia.
Que naquele mundo definitivo,
nas casas das tuas antigas terras,
voltando ao frio passado,
era usual cobrir as pernas
com fósseis e pergaminhos.
E, tal como você,
tal como o que restava da tua família,
lá os peixes também migravam de dentro do inverno.

Depois contou dos pais e dos tios que morriam vivos
em sofás sem pele e sem diálogo,
nos cofres dos lares vazios.
Contou dos cartazes
lidos pelos trens insones e pelas manhãs.
Contou das fantasias
regadas aos lábios e aos cabelos.
Contou das paixões
destinadas ao futuro e às janelas.

E como você reclamava dos perfumes e do turismo,
caríssimos.

Então me lembrei de ter te esperado, em pé, inquieto,
sem música,
e com notícias pobres e esparsas
tiradas dos ventos contrários
que empunhavam os jornais.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s