poesia

4 poemas inéditos de Dirceu Villa (1975—)

Dirceu Villa (1975, São Paulo), autor de 4 livros publicados de poesia, MCMXCVIII (1998), Descort (2003, prêmio Nascente), Icterofagia (2008, ProAC) , Transformador (antologia, 2014) e 1 inédito, couraça (2017). Tradutor de Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (2009), Lustra, de Ezra Pound (2011) e Famosa na sua cabeça, de Mairéad Byrne (2015). Escreveu ensaios sobre poesia contemporânea e revisão do cânone de poesia de língua portuguesa. Foi o curador da exposição de livros de Ezra Pound, a Ezpo, da biblioteca de Haroldo de Campos, na Casa das Rosas (2008). Organizou antologia de poetas brasileiros contemporâneos para a revista La Otra, do México, em 2009, e escreveu prefácios para obras de Stéphane Mallarmé, Charles Baudelaire, Christopher Marlowe, além de autores contemporâneos, como Alfredo Fressia, Ricardo Aleixo e Jeanne Callegari. Foi convidado para o PoesieFestival de Berlim em 2012 e em 2015 foi escolhido para residência literária em Norwich e Londres, promovida pelo British Council, a FLIP e o Writers’ Centre Norwich. Tem pós-doutorado em Literatura Brasileira, revisando o cânone de poesia de língua portuguesa. Ensinou literatura na pós lato-sensu da Universidade de São Paulo (USP), na graduação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e é há três anos professor da Oficina de Tradução Poética da Casa Guilherme de Almeida (Centro de Estudos de Tradução Literária). É poeta convidado do Festival Internacional de Poesia da Nicarágua, em 2018.

* * *

cristo pantocrator
de aleppo, mestre melquita

o cristo pantocrator escavado a cor na madeira,
olhos bem arregalados, dedos em sinal de
“lhes direi a verdade, não só a dos livros,
a dos lábios”,
esperto: cabelos repartidos,
hidrocéfalo, quase como o pobre poe,
cristo todo cabeça, novo bizantino,
vermelho & azul como um super-herói.

tuas palavras doces ó senhor dóem &
são o ouro dos hipócritas, aleppo, aleppe:
dante, educado belamente, pouco amante
nada amado, velho político
de más escaramuças contra amigos – daí o ser sensível
aos canalhas traidores.
o tempo, cristo, rói a tua madeira
de eternidade, tua carne, tornas só luz
+ dois alados contigo. teu pai não é um mendigo,
ele manda, ó pantocrator, ele dita tua oratória, ele sabe
todas as línguas, ele tem uma conspícua
cauda em ponta, ó melquita.

§

baby berserk

o amor é sempre uma canção solitária
seus cachos sorrisos os olhos brilhantes
dores nervosas maquiagem octogenária
o templo de ódio shirley jane distantes

oh the good ship lollipop na culinária
mulher ouro rosa colar de diamantes
o mundo material não precisa de pária
atriz menina velha voz dessemelhante

a cadeira de rodas em escadas rolantes
unhas mais longas que sua faixa etária
gravata borboleta de homens de estante
é hora de lhes mostrar a arcada dentária

§

phaenomena meteorologica

boreais, as notáveis auroras
sem rumor no horizonte,
como um grande rosto universal,
o grande cosmos com sardas de estrelas,
luas em pó digestivo, luzes curvas: a língua
de einstein lambe o sorvete do átomo,
a eletricidade penteia seus cabelos pro alto,
brancos como as nuvens hirtas de haarp,
e galos costuram a manhã verde
da preguiça inviolável,
selada a vácuo contra os crimes dos astros.

chove agora quando a dança nos dá
tatanka iyotake: que a dança fantasma
engula os brancos
(buffalo bill sobretudo),
que a dança apague incêndios criminosos,
pague as contas de luz, encante vênus, venerável
enamorada, e urano, pênis usado
no mar para espuma
abrindo a champagne da via láctea
— e todos sorrindo com pérolas.
tatanka iyotake, sentado e dançando.

bohr se aborrece,
a bomba estremece o pacífico, os peixes se espremem,
bóreas no topo do mapa, ainda soprando.
ventilador do planeta
antes da umidade relativa, absoluta
(em buffalo, new york),
antes de franklin contra júpiter;
a aurora boreal segue em silêncio, tesla
nunca tentou uma plantação de chapéus
e sua bobina hoje mergulha numa fatia do horizonte,
como numa cabeça humana.

§

eat drink suckcess
[hypnotic charm]

 

o que eles
farão por isso
o que
eles farão

você não sabe
mas eles
farão o que for
preciso por isso

e o que eles
farão por isso
o que
eles farão

quem sabe
o que eles
farão por isso

sabe que eles
farão o que for
preciso por isso

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Um comentário sobre “4 poemas inéditos de Dirceu Villa (1975—)

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