poesia

Três Saques, de Pedro Marques (1977-)

Pedro Marques (1977-). Poeta, compositor, ensaísta. Professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Editor do site Poesia à Mão. Livros: Antologia da Poesia Romântica Brasileira (crítica e organização, 2007), Antologia da Poesia Parnasiana Brasileira (crítica e organização, 2007), Manuel Bandeira e a Música (ensaio, 2008), Clusters (poesia, 2010), Olegário Mariano – Série Essencial da ABL (crítica e organização, 2012) e Cena Absurdo (Poesia, 2016).

* * *

TRÊS SAQUES

Corpo místico

José de Anchieta, carta Ao Padre Geral, de São Vicente, ao último de maio de 1560

Que direi das aranhas?
De sua multidão
ninguém dá conta,
de sua mordedura

Umas tantas ruivas,
outras quantas loiras,
muitas cor da terra,
umas bem aradas,
outras vêm pintadas,
todas cabeludas
As baitas de corpo,
carne, caranguejas,
só de ver venenam:
horríveis na vista,
mais lindas no beijo
Algumas mau cheiram:
frias por feitio,
tacadas em casa

Que direi dos tataranas?
De sua multidão
ninguém dá conta,
de sua queimadura

Semelham centopeias,
pelos de toda cor,
de compridos e pretos,
leves ou fornidos,
de cabeço vermelho
Libido-peçonhentos,
se tocam nalgum corpo
a dor que dura horas,
incham-se de tal modo
que são feios de ver
Perseguem tataranhas,
encarniçadamente,
carregam a seus cafofos
onde as comem, à farta

§

Engenho

Ambrósio Fernandes Brandão, “Diálogo Terceiro”, Diálogos das Grandezas do Brasil (1618)

Muitos moem feito boi, trapaças,
moem a palavra por certa invenção de rodas
de citação e colagem, para todo efeito
açúcar

Alguns moem feito água, represas,
moem a língua nos eixos de cor e cabeça ,
espremem o bagaço na caldeira de cobre
onde se alimpa, coze e apura
à força de fogo

Poucos moem feito motor, cilindradas,
moem a poesia em três rolos de aço
– engenho, agudeza, samba ’n roll –,
refundem a velha máquina,
o quê de bois e de águas,
o cristal cachaça

§

Anal à inglesa

Vicente do Salvador, “Capítulo XIX – De três naus inglesas que neste tempo vieram à Bahia”, Livro IV, História do Brasil (1627)

Os ingleses não se atreveram entrar na cidade,
contentaram de barlaventear na baía larguíssima e funda,
mandaram as lanchas à pilhagem

O Bispo detinha os homens e deixava sair as mulheres,
muitos vazaram entre elas em manto mulheril,
uma moçoila a cavalo, com lança e adarga, ia repreendendo
os frouxos que fugiam

Cristóvão Barros, de volta do recôncavo, ordenou o contra-ataque
com uma armada de cinco barcas
Combateram e houve mortos e feridos de parte a parte

António Caapara e demais portugueses com muito gentio
os fizeram embarcar com morte
No mar tomaram um batel
com quatro ingleses remando e mataram três

Visto o pouco ganho que tinham, levantaram âncora
para fazer aguarda
Mas Caapara nem isso deixou e matou oito
e trouxe as cabeças aos governadores

E assim deram de ré os ingleses a sua ilhota

 

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