poesia

José Miguel Gómez Acosta (1975—), por Francesca Cricelli e Luciano Dutra

José Miguel Gómez Acosta (Almería, Espanha, 1975–), é poeta, arquiteto, tradutor e pintor. Vive atualmente em Granada onde dirige a revista Márgenes Arquitectura. Como escritor, começou publicando contos e poemas no jornal La Voz de Almería a partir de 1997, além de ensaios sobre arquitetura e construção. Conquistou com o seu terceiro livro Reescritura (2016) o IV Prêmio de Poesia Experimental Francisco Pino, da Fundação Jorge Guillén, na Espanha. Também recebeu o prêmio Federico García Lorca em 1997 pelo conto “El pabellón de los elefantes”. Seu segundo poemário, El Gran Norte, publicado originalmente em Granada em 2015, foi recentemente lançado em edição bilíngue castelhano-islandês em Reykjavík numa cooperação entre as duas Cidades da Literatura da Unesco, Granada e Reykjavík, em tradução islandesa de Elías Knörr e Guðrún H. Tulinius. É dessa edição que foram selecionados pelo próprio autor os poemas de tema islandês aqui traduzidos.

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP.

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr).

* * *

4 poemas islandeses do ciclo El gran norte

ETERNIDADE ANTERIOR

A eternidade anterior se acaba.
Não há ninguém que se lembre, nem resenha nem sorte nem letras nem calor.
Eternidade anterior, prados cor de cinza.

ETERNIDAD ANTERIOR

La eternidad anterior se acaba.
Nada hay que la recuerde, ni reseña ni suerte ni letras ni calor.
Eternidad anterior, prados color ceniza.

§

VIAGEM AO CENTRO DA TERRA

No fundo do homem mais afável dormem os assassinos olho vivo alerta.
No fundo repousa uma tumba de grama nunca pisada, ocidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos da fumaça que brota da terra, teus olhos desenhadores mestres da palavra.
No fundo do homem, em suas costas longínquas, sonolento intranquilo o estratega
um plano para hospedar os escondidos.
No fundo do homem uma entrada assinala o início descida queda voo ao centro
da terra.

VIAJE AL CENTRO DE LA TIERRA

En el fondo del hombre más apacible duermen los asesinos ojo alerta.
En el fondo reposa una tumba de hierba nunca hollada, occidente crepúsculo derrota.
Cartógrafos del humo que brota de la tierra, tus ojos dibujantes maestros de la palabra.
En el fondo del hombre, en sus costas lejanas, duermevela intranquilo el estratega
un plan para albergar los escondidos.
En el fondo del hombre una entrada señala el inicio descenso caída vuelo al centro
de la tierra.

§

PRIMEIRA CARTA DOS APÓSTOLOS

Difundindo a palavra chegamos à costa dos gelos
Vivem nove pessoas e todas elas cantam pelas tardes
Águas negras abrigam os defuntos que agarram com suas mãos as alturas
E todos cegos mudos dançam ao redor das fogueiras
Cada dia leva o nome de um ataque mortal e as cimeiras são portas
Há uma deusa
Recordamo-nos muito de ti mas já não lembramos se vives ou não
Com imensa tristeza o favorito em sonho manda-te um abraço
Todos nossos navios reduziram-se a escombros e concreto esgarçado
Lascas que alimentam as fogueiras nevasca temporal anticiclone tormenta
Ameaça de chuva vivem nove pessoas nove casas
À noite lemos os nossos livros e eles ainda nos batizam mil vezes menos uma
E páginas escritas com teu sangue tornaram-se finos troncos vegetais
As mulheres regam-nos a cada noite com seus cabelos e sua chuva água clara dor
O riso se apodera de nós
Tu que nunca riste
Todas as tuas fotografias estão emolduradas mas a umidade erode as rugas
Voltaste a ser um garoto
Na terra do tremor trovão das entranhas lagoa da cor da tua palavra
Lhes contamos ontem a última coisa que disseste ao te despedir
Entre vapores e rugidos

PRIMERA CARTA DE LOS APÓSTOLOS

Difundiendo la palabra llegamos a la costa de los hielos
Viven nueve personas y todas ellas cantan por las tardes
Aguas de color negro cobijan los difuntos que agarran con sus manos las alturas
Y todos ciegos mudos bailan alrededor de las hogueras
Cada día lleva el nombre de un ataque mortal y las cumbres son puertas
Hay una diosa
Nos acordamos mucho de ti pero no recordamos si ya vives o no
Con inmensa tristeza el favorito en sueños te envía un abrazo
Todos nuestros navíos quedaron reducidos a escombros y hormigón deshilachado
Astillas que alimentan las hogueras ventisca temporal anticiclón borrasca
Amenaza de lluvia viven nueve personas nueve casas
Por las noches leemos nuestros libros y ellos aún nos bautizan mil veces menos una
Y páginas escritas con tu sangre se han vuelto finos troncos vegetales
Las mujeres los riegan cada noche con su pelo y su lluvia agua clara dolor
La risa se apodera de nosotros
Tú que nunca reíste
Todas tus fotografías se encuentran enmarcadas pero la humedad erosiona las arrugas
Has vuelto a ser un niño
En la tierra temblor trueno de las entrañas laguna del color de tu palabra
Les contamos ayer lo último que dijiste al despedirte
En medio de vapores y rugidos

§

AQUI ONDE ESTOU NINGUÉM NUNCA ESTEVE

Onde o mapa termina é ali onde começa.
E para chegar não há sequer um trem, apenas uma rodovia, alguns carros.
O clima é bastante frio; pelas manhãs neva sob o dossel das casas.
A luz só se vê de tarde em tarde partindo as janelas em cruzes amarelas por um instante.
Há duchas nas ruas, água quente e garotos nus que nunca te cumprimentam.
Um pequeno Yago prodigioso presenteia a cidade com centenas de aves.
No Café Paris descendo o sótão um mapa nos recorda que a Europa existe.
A catedral católica é o castelo sujo das crianças.
Neva pela manhã e a neve esgueira-se sob a terra negra das ruas levemente empinadas.
Às vezes chega um barco e todos desabotoam suas camisas sinal de alegria.
Às vezes toca a hora na torre vigia tremendamente antiga erguida há dez anos.
Às vezes as montanhas não tão altas conseguem aparecer por trás das estátuas.
São doces as estátuas, uma para cada mês, são todas pretas.
O clima é bastante frio; neva pelas manhãs e pelas tardes chove, o guarda-chuva não faz falta.
Acendem-se pela tarde as luzes das ruas, passam alguns carros.

AQUÍ DONDE YO ESTOY NO HA ESTADO NADIE NUNCA

Donde termina el mapa es allí donde empieza.
Y no hay para llegar ni un solo tren, sólo una carretera, algunos coches.
Es un clima muy frío; por las mañanas nieva bajo los alerones de las casas.
La luz sólo se ve de tarde en tarde partiendo las ventanas en cruces amarillas un instante.
Hay duchas en las calles, agua caliente y muchachos desnudos que nunca te saludan.
Un Iago pequeño y prodigioso regala a la ciudad cientos de aves.
En el café París al bajar a los sótanos un mapa nos recuerda la existencia de Europa.
La catedral católica es el castillo sucio de los niños.
Nieva por la mañana y la nieve se cuela bajo la tierra negra de las calles levemente
empinadas.
A veces llega un barco y todos desabrochan sus camisas en señal de alegría.
A veces suena el tiempo en la torre vigía inmensamente antigua construida hace
diez años.
A veces las montañas no muy altas logran aparecer detrás de las estatuas.
Son doce las estatuas, una por cada mes, todas son negras.
Es un clima muy frío; nieva por las mañanas y por la tarde llueve, no hace falta
paraguas.
Se encienden por las tardes las luces de las calles, pasan algunos coches.

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