poesia

Três Poemas Inéditos de Marcus Groza

Marcus Groza é escritor, dramaturgo e encenador. Escreveu e encenou a antiópera Rua Carne Entre as Articulações (2016), trabalha atualmente na criação dos espetáculos Maré Morta e RãCô. É autor dos livros e a lua com órgão principal (Ed. Primata, 2017) e Sossego Abutre (Ed. Patuá, 2015), entre outros. Os poemas aqui apresentados integram o livro inédito A milésima demão nas paredes de estar perdido.

* * *

Rescaldo

diáfano resto de lilás e vermelho
a sua voz é buquê de flores
suando dentro de um saco
hoje na rua me ofereceram a assinatura
de um jornal inexistente
paguei e pedi para entregarem na sua casa
…….uma notícia do que não houve
…….seria mais ou menos imunda
…….do que o silêncio desidratando?

cinzas mornas e telepatias amargas
indícios de um desespero
que ganha corpo cada vez mais
dentro de outros corpos
como vegetais suando numa vitrine
o isopor com a alegria das festas

o que não ardeu pode gerar catástrofes?
a pétala das queloides o vigor cativo das lunações?

posso gritar que todo abrigo é vil
como qualquer resíduo de almíscar
num balde de lodo
posso gritar que as sementes da maça
são projéteis a serem lançados

mas é pouco
é parco azeite besuntado
para tanto atrito
enquanto escorre chorume
da verdade escalavrada
…….vapor e fumaça endurecendo
…….pincel mergulhado
…….num pote de tinta esquecido aberto
…….lava gelada de antigos temascais

o pútrido e as forças cósmicas
numa mesma voz suando frio

§

ʧ

três quintos do que você chama
de inferno

ela se refere como sendo
tristezas orvalhadas

angústia é marca de ferro
ela diz

você pensa no
cosmético antirrugas
que ela comprou e não usa

a etimologia é só uma desculpa nobre
para o fracasso

prataria turva
pela fumaça do cigarro

§

Canção Submersa

o monge disse
o que circula não
transborda
por isso a maré
não enlouquece

não estou tão certo
mas pressinto
maré imprópria
e só desejo a cura
que não supõe
o curso do rio
pelo ciclo das alturas
suporta lagoas
e riquezas mortas
no costado
sem escora

…….o pesadelo a nível do mar
…….é dia
…….deitar a cabeça em reticências

antes encher
os corredores da casa
suportar a água
não como ave sobrevoando
sentir a música em todo corpo
dançar dentro da neblina

…….viver submerso
…….pagar o preço da miopia

 

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