poesia

Karine Kelly Pereira

Karine Kelly Pereira publicou Anotações sobre o azul (Editora Patuá, 2016).

* * *

PARA OUVIR E CANTAR COM NINA SIMONE

Voltei a fumar.

Voltei a fumar desde o cigarro morando na tua boca, a noite insone sobre os nossos ossos, o terraço insuportavelmente cheio no centro da cidade.
“Quem aquece as mãos, aquece o coração”, dizem os tailandeses.
Por isso passado e futuro se encontram aqui-agora, fogo plantado nas falanges.
Voltei a fumar e voltei a ouvir a canção do Fausto que já ninguém em Portugal conhece.
Meu coração, brasileiro de memória e corpo, quer esquecer todas as canções já feitas, mas desvenda naquela canção indígena (que lhe fora arrancada sem saber) todo o seu gozo nela.

Em frente à praça com nome de santa fumo três cigarros, maldigo o teu nome.
Desaprendi
todas as línguas,
morri ao avesso…
morri ao avesso e todas as minhas encarnações sabem teu nome.
Todos os espelhos sentem falta do nosso reflexo juntos,
feito corpo repatriado.

Feito os cigarros, feito microfone nos dedos, os olhos se misturam à voz de Nina,
sem entender.
Impossível
traduzir, transcrever coração
na boca do gesto
saber se é benção, maldição, coragem ou voragem.
Não começa, não termina, tampouco existe aqui-agora.

Fio. Fissura. Fonte.

You put a spell on me.

QUIERO HACER EL AMOR

Eu pensei ter visto você

Pensei ter visto você me olhando do outro lado do espelho
Pensei ter visto você no voyeur da casa vizinha
Pensei ter visto você me procurando na internet, recombinando o alfabeto pra desvendar o meu nome, procurar nas redes sociais, nos sites de busca
Pensei ter visto você inventando um número pra ligar no meu celular

Pensei ter visto você na cidade da minha infância, na cidade do meu coração, na cidade do seu coração
Pensei ter visto você a me procurar nas ruas de São Paulo, indo e vindo nas estações do metrô, na areia da praia do Rio de Janeiro, pichando meu nome nos muros, lambendo o asfalto em busca do meu beijo, o teu sexo dançando com os muros, o gozo

Pensei ter visto você olhando o retrato que fez de mim nesse entre do seu abrir e fechar os olhos, com a própria retina, menina dos olhos
Pensei ter visto você surgindo de dentro dos meus livros, do café da manhã, da água caindo no chuveiro quente, do chão do meu quarto, da raíz das árvores,
da minha própria pele

Juro ter sentido a tua mão, o teu vento, agorinha
acariciando
mais uma página desse meu livro-corpo.

Eu sabia que você existia.

*Quiero hacer el amor é performance criada por Carolina Bianchi, uma experiência da aproximação íntima da mulher com os edifícios emblemáticos das cidades.

**Eu sabia que você existia é texto de Felipe Morozini, parte do seu trabalho como artista visual em constante troca e relação com a cidade de São Paulo.

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