poesia, tradução

Epigramas de Marcial, por Rodrigo Garcia Lopes

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Evoé! Evoé!

Está saindo fresquinha, em edição de colecionador pela Ateliê Editorial, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes. 
A seleção traz epigramas cômicos, pornográficos e injuriosos, que fizeram a fama de Marcial. Mas o tradutor também incluiu poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes e epigramas metapoéticos, em que o poeta reflete sobre sua própria condição de autor.
A edição bilíngue é composta por 12 pequenos cadernos, feitos artesanalmente a partir do projeto gráfico do artista plástico Gustavo Piqueira, que reúnem 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C. O livro traz notas explicativas e um posfácio que inclui dados biográficos do autor contextualizados com sua obra na Roma Antiga, além de conter informações sobre questões estéticas de sua poesia.

Nas palavras do tradutor:

Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva tornou-se popular com a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso). 
     Talvez o tema principal dos Epigramas seja a cidade em que vivia o poeta. “Se há alguma musa na poesia de Marcial, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século 1 em todas as suas contradições.  Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantâneas, da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às celebridades, fama instantânea e reality shows.

Rodrigo Garcia Lopes

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***    

I, XXVIII

Quem acha que Acerra fede a vinho de ontem,
erra: Acerra bebe até amanhecer.

Hesterno fetere mero qui credit Acerram,
fallitur: in lucem semper Acerra bibit.

XI, LXIII

Espia a gente no banho, Filomuso,
e fica perguntando por que meus escravos
tem caralhos tão grandiosos.
Vou te dar uma resposta simples:
Eles comem o cu dos curiosos.

Spectas nos, Philomuse, cum lavamur,
et quare mihi tam mutuniati
sint leves pueri subinde quaeris.
dicam simpliciter tibi roganti:
pedicant, Philomuse, curiosos.

XII, LXI

Tem medo que eu faça, Ligurra,
um poema falando mal de você
e quer parecer digno do medo.
Seu medo é vão, e vão o seu desejo.
Leões líbios rugem para os touros,
não fazem mal às borboletas.
Se quer ter seu nome mencionado
procure num puteiro um poeta bebum
que escreva com giz ou carvão
enquanto caga um tolete.
Sua testa não merece meu ferrete.

Versus et breve vividumque carmen
in te ne faciam times, Ligurra,
et dignus cupis hoc metu videri.
sed frustra metuis cupisque frustra.
in tauros Libyci ruunt leones,
non sunt papilionibus molesti.
quaeras censeo, si legi laboras,
nigri fornicis ebrium poetam,
qui carbone rudi putrique creta
scribit carmina quae legunt cacantes.
frons haec stigmate non meo notanda est.

 

XII, LVI

Fica doente dez vezes por ano, ou mais,
e no fim, Policarmo, nós é que sofremos,
pois, pra ficar bom, pede presentes.
Faz o seguinte: fique doente só uma vez.

Aegrotas uno decies aut saepius anno,
nec tibi sed nobis hoc, Polycharme, nocet:
nam quotiens surgis, soteria poscis amicos.
sit pudor: aegrota iam, Polycharme, semel. 

*

 Rodrigo Garcia Lopes é um poeta, compositor, cantor e tradutor brasileiro (Londrina, PR). É autor dos livros de poemas Solarium (1994), Visibilia (1996), Polivox (2001),Nômada (2004) e Estúdio Realidade (2013). Como tradutor, publicou Sylvia Plath: Poemas (Iluminuras, 1990) e Iluminuras: Gravuras Coloridas, de Arthur Rimbaud (Iluminuras, 1994), ambos em parceria com Maurício Arruda Mendonça. Em 2004 traduziu e organizou os livros Mindscapes: Poemas de Laura Riding (Iluminuras, 2004), O Navegante (The Seafarer, do anônimo anglo-saxão, Lamparina, 2004). Em 2005 publicou Leaves of Grass / Folhas de Relva, de Walt Whitman (Iluminuras) e, em 2007, Ariel, de Sylvia Plath (Verus Editora, em parceria com Cristina Macedo). Desde 1982 tem publicado traduções e introduções de poetas norte-americanos e europeus em muitas publicações brasileiras. Em 1997 lançou Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje (Iluminuras), com 19 entrevistas com personalidades da cultura e literatura norte-americana como John Cage, Allen Ginsberg, Marjorie Perloff, Charles Bernstein, Laurie Anderson, Amiri Baraka, John Ashbery, Nam June Paik e William Burroughs, entre outros. Já apareceu aqui na escamandro com traduções diversas além de poemas próprios. Mantém o site: http://rgarcialopes.wix.com/site#!bio

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