poesia

Um poema inédito de Ricardo Domeneck (1977-)

ricardo

Foto de Reiss Joshua Madden.

para ler mais poemas de Ricardo Domeneck publicados na escamandro clique aqui.

* * *

 

O planeta do mundo

De longe todo azul, de muito perto
terá outra cor, mas não a esmo. Reações
de átomos, essas coisas pequenas.
É a certa meia-distância (mas entre
o que e o quê?) que as cores
multiplicam-se. O palco
que está dentro do teatro sem o ser.
Quem me dera ver o mundo a partir
da Lua, ver o planeta de dentro
da estação de metrô da Consolação.
Na Muralha da China ver a Estação
Espacial Internacional e desta,
a Muralha da China. É que já não sei
distinguir entre as árvores
que morreram para doar a madeira
ao palco dos atores e às cadeiras
da plateia. Todos corpos, as árvores
dos assentos e as do tablado, das vigas
que suportam o teto sobre a gente
da performance e do público.
Esses corpos a esmo. Que escolhem
onde sentar-se para melhor
ver o espetáculo ou para estar ao lado
de um corpo que foi eleito a melhor festa
da cidade. Colisões. Coalizões.
Que não seja uma guerra, é só
o que pedimos. Interagir sem interferir.
A equidistância ideal e por ideal jamais
com sua própria estação ferroviária.
Sinto falta é dos lanterninhas dos cinemas.
Do sinal de ternura dos cães-guia.
De ler uma história para que durma
o ainda-não-alfabetizado. Avante, infante!
Façamos dinheiro então para hospitais
e rodas-gigantes se há o necessário
e há o imprescindível, ninguém
quer escolher entre o pão e o circo.
Nada é causa e tudo é consequência,
e acontece o que acontece quando acontece:
o pôr-do-sol na Praça do Pôr-Do-Sol
e os cânceres no Instituto do Câncer.
Até as células enlouquecem sozinhas,
decidem desviar-se de seu manual de instruções.
Por que não eu que as chamo de minhas?
Não foi a erros de cópia que devemos
esses pássaros de cores loucas,
esses mamíferos d’água como se peixes,
esses primatas pelados que amamos na cama
a cada cama, acarinhando seus pelos
restantes e finos? Somos tão peludos
quanto chimpanzés e bonobos,
essa primaiada toda, querido, são
apenas menores e mais frágeis as fibras
dessa roupa nossa nascida e dada
à qual acrescentamos o necessário, o imprescindível.
O mundo no planeta e o planeta fora do mundo,
mas não acaba a peça
se queima até o chão o teatro?
Não se ilumina por diligência as saídas de emergência?
Quantas mortes não ocorrem em cena.
Todas. Nenhuma. Esse mundo, que mundo,
que planeta ocorrível e aconteçoso,
esse vulcão que não se extingue até que se extinga,
esse mar que martela a praia constante,
mais abaixo, mais acima, como quem apalpa
o que dói, para dizer: ‘Aqui dói. Dói aqui.’
Dizer ah! e oh!, como uma criança
dizer a alguém que é protetor e progenitor:
‘óia eu! óia eu!’, essas vogais da descoberta
de si e do outro, a alegria
de que alguns de nós já nasçam
sem os dentes do ciso, sem marfim
já nasçam elefantes. Tudo é causa
e nada é consequência, e pede-se apenas
que se assista ao circo e que se assista o pão.
Que se ilumine o corredor
para os que chegam agora ao filme
que é trailer do trailer do curta-metragem
sobre um pôr-do-sol e um câncer.
Agasalhe-se, é por vezes inclemente o clima.
Acordou, querido? Acorde, querido.
Está com sede o cão-guia.

 

§

Ricardo Domeneck, fevereiro de 2018.

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poesia, tradução

Poesia nórdica | Edith Södergran (1892—1923), por Luciano Dutra

Edith Södergran (n. 4 de abril de 1892 em São Petersburgo na Rússia czarista, f. 24 de junho de 1923 em Raivola, na época pertencente à Finlândia e atualmente parte do território da Rússia), foi uma poeta finlandesa de expressão sueca. Publicou em vida apenas quatro poemários: Dikter (”Poemas”, 1916), Septemberlyran (”A lira de setembro”, 1918), Rosenaltaret (”O altar das rosas”, 1919) e Framtidens skugga (”A sombra do futuro”, 1920). Sua obra poética é completada pelo volume póstumo Landet som icke är (”O país que não existe”, 1925). Ceifada pela tuberculose precocemente (com apenas 31 anos), a poeta que bebeu do simbolismo francês, do expressionismo alemão e do futurismo russo, que misturava Nietzche e Rudolf Steiner, foi uma das primeiras a aplicar o modernismo à poesia de expressão sueca, mas não teve tempo de gozar do reconhecimento e do renome que sua poesia angariou mundo afora. Certamente contribuiu para a fama post mortem da poeta a escassez de informações biográficas e a mitificação da persona Edith Södergran promovida pela amiga Hagar Olsson e pelo primeiro biógrafo, Gunnar Tideström. A poesia de Edith influenciou a imagética, o ritmo e o estilo de livre associação presentes na poesia moderna e também na música popular em língua sueca de ambos os lados da fronteira (Finlândia e Suécia).

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

PRIMAVERA NÓRDICA

Todos os meus castelos de ar derreteram feito neve,
todos os meus sonhos escorreram feito água,
de tudo o que amei resta-me apenas
um céu azul e um punhado de estrelas pálidas.
O vento se move lentamente entre as árvores.
O vazio repousa. A água cala.
O velho abeto segue acordado e pensando
na nuvem alva que beijou num sonho.

NORDISK VÅR

Alla mina luftslott ha smultit som snö,
alla mina drömmar ha runnit som vatten,
av allt vad jag älskat har jag endast kvar
en blå himmel och några bleka stjärnor.
Vinden rör sig sakta mellan träden.
Tomheten vilar. Vattnet är tyst.
Den gamla granen står vaken och tänker
på det vita molnet, han i drömmen kysst.

§

TRÊS IRMÃS

A primeira irmã amava os doces morangos-silvestres,
a segunda irmã amava as rubras rosas,
a terceira irmã amava as coroas de flores dos mortos.

A primeira irmã se casou:
dizem que se tornou feliz.

A segunda irmã amou com toda a sua alma,
dizem que se tornou infeliz.

A terceira irmã se converteu em santa,
dizem que há de ganhar a coroa eterna da vida.

TRE SYSTRAR

Den ena systern älskade de söta smultronen,
den andra systern älskade de röda rosorna,
den tredje systern älskade de dödas kransar.

Den första systern blev gift:
man säger, att hon är lycklig.

Den andra systern älskade av hela sin själ,
man säger att hon blev olycklig.

Den tredje systern blev ett helgon,
man säger, att hon skall vinna det eviga livets krona.

§

BELEZA

O que é a beleza? — perguntam-se todas as almas —
a beleza é cada excesso, cada brasa, cada saturação e cada enorme infortúnio;
a beleza é ser fiel ao verão e continuar nu até o outono;
a beleza é o atavio de penas do papagaio ou o pôr do sol que prenuncia a borrasca;
a beleza é um traço forte e uma entonação própria: sou eu,
a beleza é um dano enorme e uma procissão silenciosa de tristezas,
a beleza é abano suave do leque que põe em movimento à roda do destino;
a beleza é ser sensual como a rosa ou tudo perdoar só porque o sol brilha;
a beleza é a cruz preferida do monge ou o colar de pérolas que a dama ganhou do seu amante,
a beleza não é a sopa rala de que os poetas se servem,
a beleza é travar a guerra e buscar a felicidade,
a beleza é servir a poderes maiores.

SKÖNHET

Vad är skönhet? Fråga alla själar —
skönhet är varje överflöd, varje glöd, varje överfyllnad och varje stort armod;
skönhet är att vara sommaren trogen och naken intill hösten;
skönhet är papegojans fjäderskrud eller solnedgången som bebådar storm;
skönhet är ett skarpt drag och ett eget tonfall: det är jag,
skönhet är en stor förlust och ett tigande sorgetåg,
skönhet är solfjäderns lätta slag som väcker ödets fläkt;
skönhet är att vara vällustig som rosen eller att förlåta allting för att solen skiner;
skönhet är korset munken valt eller pärlbandet damen får av sin älskare,
skönhet är icke den tunna såsen i vilken diktare servera sig själva,
skönhet är att föra krig och söka lycka,
skönhet är att tjäna högre makter.

§

O INFERNO

Ah como é aprazível o inferno!
No inferno ninguém fala da morte.
O inferno está emparedado nas entranha da terra
e é adornado de flores incandescentes…
No inferno ninguém diz palavras ao léu…
No inferno ninguém bebeu nem ninguém dormiu,
ninguém descansa nem ninguém se senta quieto.
No inferno ninguém fala, mas todos gritam,
lá as lágrimas não são lágrimas e todas as tristezas são inertes.
No inferno ninguém fica doente nem ninguém fica cansado.
O inferno é imutável e eterno.

HELVETET

O vad helvetet är härligt!
I helvetet talar ingen om döden.
Helvetet är murat i jordens innandöme
och smyckat med glödande blommor…
I helvetet säger ingen ett tomt ord…
I helvetet har ingen druckit och ingen har sovit
och ingen vilar och ingen sitter stilla.
I helvetet talar ingen, men alla skrika,
där äro tårar icke tårar och alla sorger äro utan kraft.
I helvetet blir ingen sjuk och ingen tröttnar.
Helvetet är oföränderligt och evigt.

§

A ALMA QUE ESPERA

Estou só em meio às árvores à beira de um lago,
vivo em harmonia com os velhos abetos do litoral
e em secreto pacto com todas as jovens tramazeiras.
Sozinha permaneço deitada e aguardo,
não vi ninguém andar por aqui de passagem.
Flores enormes me espiam do alto de seus pedúnculos,
lianas amargas se aninham no meu colo,
só tenho um nome para isso, e esse nome é amor.

DEN VÄNTANDE SJÄLEN

Jag är allena bland träden vid sjön,
jag lever i vänskap med strandens gamla granar
och i hemligt samförstånd med alla unga rönnar.
Allena ligger jag och väntar,
ingen människa har jag sett gå förbi.
Stora blommor blicka ned på mig från höga stjälkar,
bittra slingerväxter krypa i min famn,
jag har ett enda

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tradução

23 traduções para um poema de Emily Dickinson (1830-1886), por Matheus Mavericco

dickinson_16anos

Com Emily Dickinson as coisas não funcionavam bem no sentido de sentar pra, digamos, escrever um livro de poemas ou entupir um com o que se tem à mão. Para quem publicou em vida só sete dos mais de dois mil que escreveu, é possível que a graça estivesse noutra coisa que não o amontoado retangular de celulose.

Tomemos o caso daquele que começa com “A word is dead”. Curiosamente, sua primeira aparição foi em prosa, na parte final de uma carta enviada em 1872 para Louisa e Fannie Norcross, duas parentes da autora:

Thank you for the passage. How long to live the truth is! A word is dead when it is said, some say. I say it just begins to live that day.

Thomas H. Johnson, um dos primeiros a tentar publicar Emily Dickinson mantendo a radicalidade de sua escrita, diz não saber ao certo se o trecho seria uma espécie de pós-escrito à carta ou se excerto de alguma outra. Dúvida que talvez explique o motivo do poema ter sido estampado em prosa quando era prática comum da autora transcrever poemas seus no corpo das cartas.

Uma segunda explicação reside, conforme informado por Adalberto Müller (nota abaixo), no fato de que o manuscrito da carta não existe. É quando entra uma segunda, escrita de Frances Norcross a Mabel Todd, onde a primeira transcreve o poema dispondo-o em quatro versos, exatamente como Adalberto traduz. Ora: se nossa amiga Frances o tratou como poema, e se ela era conhecida de Dickinson, então maravilha, tratemo-lo como tal.

O que ele tem a nos dizer? Sua simplicidade e concisão são admiráveis. Se por um lado tendemos a dizer que a palavra cai morta assim que sai da boca, quase como se a descartássemos, como se a expelíssemos, por outro, seguindo o argumento do poema, é precisamente quando ela é dita que ela passa a viver. Mas que vida é essa a que Dickinson se refere? Todas as palavras do meu texto são assimiladas pela inteligência do leitor, passando, agora, a fazer parte de seu repertório. Ou seja: a partir do momento em que a palavra alcança o outro, a partir do momento em que ela é dita, ela passa a viver em outras pessoas. Não é o que acontece quando, numa briga de casal, um dos lados retira das cinzas uma única expressão ou um simples tom de voz de semanas atrás?

Segundo Richard Sewall, um dos seus melhores biógrafos, o método dickinsoniano consistia n“a intensificação, ou concentração, de significados nas palavras até que reluzissem ‘como nenhuma outra safira’ – ou seja, até que se tornassem, em mútuo suporte e combinação, a Palavra, um poema que pudesse ‘morar em nós’, vivo, uma fusão corpórea entre o significado e (como na vida humana) o mistério”. O autor compara o método a quando Emerson, no ensaio The Poet, diz que “Não há necessidade que um poema seja longo. Toda palavra já foi um poema.”

Realmente. A vida que Dickinson menciona no último verso é muito mais potente do que a vida social da palavra expressa. Vai além do que ela menciona noutro poema admirável, de que o Livro é uma Fragata que nos transporta a Terras longínquas. Quando Dickinson fala da palavra, ela fala do que é experimentado de um modo intenso a ponto de palpável e quase místico, por exemplo quando, ao comentar a passagem bíblica do Verbo fazendo-se Carne, ela retifica e diz que se fez Carne e passou a morar em nós.

E faz sentido que seja. Sewall comenta que quando Dickinson lia literatura, ela comumente o fazia buscando palavras que reluzissem de forma única. Ora: não foi exatamente isso o que fizemos ao destacarmos, de uma singela carta entre familiares, a imensa força encantatória e poética de duas frases, quase como se a repuséssemos em seu ecossistema original? É na poesia que a palavra adquire sua potência máxima e, se quisermos evocar um contemporâneo de Dickinson que certamente gostaria de ouvir o que a poetisa tinha a dizer sobre a Palavra, passa a dar um sentido mais puro às palavras da tribo.

As traduções abaixo agradam a gregos e baianos. Observe como, na de Nelson Ascher e na de Pedro Mohallem, se buscou recriar o fato de que as duas metades do poema, se juntas, compõem um dístico heróico perfeito (a minha consegue algo parecido, só que traduzindo para um verso de doze sílabas). Ou, naquela de Rubens Enderle, veja a importância que o eco bíblico recebe quando revelado para o leitor. Se mantive as várias versões que um único tradutor fez para o mesmo texto, é com o intuito de mostrar as dificuldades do próprio original, a maneira como cada cabeça opera a seu jeito e, em última instância, para que o leitor contemple a exuberância que a tradução representa, muito além da precariedade que muitos ainda insistem em apontar.

Embora a postagem seja essencialmente montada com o intuito de dar espaço àquelas traduções inéditas, várias já foram publicadas, saídas da lavra de tradutores ilustres como Aíla de Oliveira Gomes, José Lira ou Augusto de Campos. Infelizmente não tive acesso a todas, mas, caso o leitor queira saber pelo menos onde procurá-las, pode ficar com o excelente trabalho de pesquisa levado a cabo pelo Departamento de Letras Modernas da UNESP (clique aqui).

Por fim, agradeço a Adalberto Müller por gentilmente ceder sua tradução, que comporá um volume com a poesia completa da autora traduzida. A nota crítica que acompanha a tradução é publicada logo abaixo de seu texto.

 

Matheus Mavericco

* * *

 

A word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.

F278B / J1212

§

 

Uma palavra morre
Quando é dita –
Dir-se-ia –
Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia

(Trad. Aíla de Olveira Gomes)

§

 

Uma palavra morre
Quando falada
Alguém dizia.
Eu digo que ela nasce
Exatamente
Nesse dia.

(Trad. Idelma Ribeiro Faria)

§

 

Palavra é morta
Quando está dita,
Dizem uns.
Digo: inicia
A só viver
Em tal dia.

(Trad. José Lino Grünewald)

§

 

Morre a palavra
quando é falada,
dirão.

Digo: – Só então
ela começa a
viver.

(Trad. Abgar Renault)

§

 

Uma palavra morre
ao ser pronunciada
é o que se diz

(flor que se cumpre
sem pergunta)

Digo que é nesse
………….exato dia
que ela começa
………….a viver

(versão de José Lira)

§

 

A palavra morre
Quando ocorre,
Se dizia.
Eu digo que ela
Se revela
Nesse dia.

(Trad. Augusto de Campos)

§

 

Palavra expressa
Extingue e cessa,
Se dizia.
Mas se ela dá-se,
Digo que nasce
Em tal dia.

(Trad. Matheus Mavericco)

§

 

Quanto se expresse
— Dizem — perece
Depressa.
Eu — discordando —
Digo — isso é quando
Começa.

(Trad. Nelson Ascher, 1a versão)

§

 

Palavra expressa
dizem que cessa
sem vida.
Dela, porém,
digo: é recém-
-nascida.

(Trad. Nelson Ascher, 2a versão)

§

 

Palavra expressa,
dizem que cessa
depressa.
Eu, discordando,
digo que é quando
começa.

(Trad. Nelson Ascher, 3a versão)

§

 

DAS PALAVRAS

“Morrem após
calar-se a voz”,
ouvi.
Penso, porém,
que nascem bem
ali.

(Trad. Pedro Mohallem, 1a versão)

§

 

DA PALAVRA

“Perece após
calar-se a voz”,
dizeis.
Digo, porém,
que viva enfim
se fez.

(Trad. Pedro Mohallem, 2a versão)

§

 

Palavra morre
Se lhe ocorre
Ser dita.
Eu não concordo,
Se desse modo
Se agita.

(Trad. Emmanuel Santiago, 1a versão)

§

 

Palavra morre
Se, diz-se, ocorre
Ser dita.
Eu já diria
Que nesse dia
Se agita.

(Trad. Emmanuel Santiago, 2a versão)

§

Palavra morre
Se dita, alguém
Dizia.
Mas, para mim,
Só ganha vida
Tal dia.

(Trad. Emmanuel Santiago, 3a versão)

§

 

Palavra jaz
se dita, já se
dizia.
Mas dela digo
que ganha vida
tal dia.

(Trad. Emmanuel Santiago, 4a versão)

§

 

Morta é a palavra
se pronunciada,
decoram.
Eu digo apenas
que ela nascera
nesta hora.

(Trad. Wagner Schadeck)

§

 

“morre a palavra”
– ouvi –
“se dita”

Me ocorre, porém,
que ali
palpita

(Trad. Pedro Almeida)

§

 

O verbo falado,
segundo o ditado,
morreu.

Que digo? Que ele
ainda hoje
nasceu.

(Trad. Rubens Enderle, 1a versão)

§

 

Palavras ditas,
estão prescritas,
disseram.

Que digo? Que elas,
naquele dia,
nasceram.

(Trad. Rubens Enderle, 2a versão)

§

 

Morre a palavra
Quando alguém fala,
Uns contam.

Digo, no entanto,
Que é o dia em que ela
Desponta.

(Trad. Kleiton Muniz)

§

 

Morre a palavra
Quando falada,
Alguém disse.
Digo, porém,
Daí por diante
Que ela vive.

(Trad. Ivan Eugênio da Cunha)

§

 

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(Trad. André Vallias)

§

 

Um mundo fina
se o definem,
dizem.

Digo que só
começa a vida
assim.

(Trad. Guilherme Gontijo Flores)

§

 

A palavra morre, ao ser dita
Diz o povo –
Eu digo que é aí que ela vive
De novo

(Trad. Adalberto Müller)

*

Nota de Adalberto Müller: O manuscrito desse poema enviado a Louise e Frances Norcross, numa carta, no início de 1862, não existe. O poema foi transcrito por Frances Norcross e enviado a Mabel Todd, dessa forma (4 versos). Na carta de Emily às irmãs Norcross, o poema vinha antecedido da seguinte linha: “Obrigado por essa passagem. Quanto demora a vida da verdade!”. Todas as traduções brasileiras seguem um arranjo de versos feito deliberadamente por Thomas H. Johnson (1956, J), corrigido posteriormente por R.W. Franklin (1998, F) e por Cristanne Miller (2016).

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poesia

Pterodátilo, de Mariano Marovatto (1982-)

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Foto de Ismar Tirelli Neto.

Mariano Marovatto nasceu no Rio de Janeiro e vive em Lisboa. Escreveu livros como Casa (7Letras, 2015) e Vinte e cinco poemas com Chico Alvim (Luna Parque, 2015), e gravou alguns discos, entre eles: Praia (Maravillha 8, 2013) e Selvagem (Embolacha, 2016). Como pesquisador e arquivista literário, foi responsável, entre outros trabalhos, pela organização do acervo do escritor e compositor Cacaso e pela pesquisa de inéditos e estabelecimento de texto da Poética de Ana Cristina Cesar. Doutor em literatura brasileira pela PUC-Rio, Mariano foi também apresentador e roteirista do programa musical Segue o som na TV Brasil entre 2009 e 2016. Toda a sua produção está disponível em http://www.marovatto.org.

Sobre a circunstância da publicação original dos poemas em Portugal:

Depois de passado um ano dedicado à música, o “Pterodátilo” foi minha única produção poética de fôlego em terras portuguesas. O conjunto de poemas foi feito sob encomenda para o ciclo de performances “Do Liminar” – que ocorre mensalmente na galeria Zaratan, em Lisboa – a partir do trabalho das artistas Guida Marques (e sua extensa pesquisa dedicada à arquitetura e à ruína) e Ana Corrêa (e sua performance “Blow”, na qual a artista dá cambalhotas abraçada a um dinossauro inflável). Eis o ponto de partida para o estabelecimento dos cinco poemas deste “Pterodátilo” estrangeiro, ancestral e, por isso, inviável.

* * *

 

O PTERODÁTILO

 

1. O OBJETO

Aqui um objeto mitológico
de narrativa truncada
por sucessivas traduções.

Este objeto é a excrecência do mito.

(a serpente que dá forma ao rio
navega sem tradução necessária)

Este objeto não possui deveres. Pleno,
capaz, interessante, mesmo truncado.

Este objeto é reativo ao acessos.

Escrutinar — o inverso
de confundir — é seu exercício.

Conciliar o objeto com a violência:
lograr-lhe um animal conveniente
com suas dimensões minerais.
2. O PTERODÁTILO

O pterodátilo estende-se ao fundo
do ocidente para lançar-se pássaro,
borboleta, pégaso e também serpente.

O pterodátilo faz elipses enquanto
aspira a extravagância do pouso.
Resposta ao assalto permanente.

Desleal dobradura
é inédito e problemático
o pterodátilo no chão.

Assoma destrancado
na vastidão. Ora o mundo
cabe, ora o mundo engole.

Contrai-se parte do mapa:
lasso, ferino e humano.
origami, guia e cobaia.
3. O MAPA

Recorrer ao mapa transgride
o objeto. Pedir ao mapa por
pedir à história. O propósito
do mapa: criar o mundo que nos espera.

Diário e maldição. Explorador e guia. Dono e cobaia.

O poema, que é objeto, não aposta em futurologia.
O poema, que é objeto, o relato seguro e morto da ruína.
O poema, que é objeto, um ditado de fantasmas.

Toda nota é contemplação. Seja assombração, seja alucinação.

Toda nota toma o tempo que inexiste
cartograficamente. A vontade de mergulho,
de aproximação, de violência, de teste, o poema pode
ser também a serpente que sai do rio e perfura o desconhecido
das superfícies secas. Dar à ciência o reino das descrições. Borrá-lo
depois com a coragem das mãos antes dos olhos. A serpente é
mais braço do que olho. Há imensos prazeres por onde fugir.

A revisão permanece como paragem inútil
para o invisível. Rever é trocar o guia
pelo analista e corrigir as rotas do mapa.

Ver somente aquilo que existe: eu vejo
o pterodátilo e teimo com todas as possibilidades de ruína.

Não enxergo a casa anterior. Repito
o que foi dito mas ela desapareceu.
4. O EMBRECHADO

Abrir a casa anterior em busca do objeto recém-chegado.
O anseio demanda qualquer coisa xucra e surpreende-se
com o mito ausente. A casa anterior, vulnerável, soa bastante
como língua tola. Permaneço severo e não lhe enxergo a asa.
Anterior à casa, sim, havia o sítio sem cautelas posto abaixo
pelos embrechados. Não traz nada consigo, o embrechado
não repousa pois não tem origem. Não desdobra os dedos,
não tem palmas para incentivar o voo. Invade mas não se move.
5. O DESLUMBRE

Na página restante o deslumbre
ao encontrar um mapa asteca,

bastante lírico, desprovido de matemática.

O olho esforça-se
nos detalhes: o desenho das pegadas
nas estradas de terra, a reprodução cúbica
das casas que não atenta para a quantidade exata,
embora de fácil contabilidade, que nos mostra a ideia de muitos.

O uso das cores, a escolha dos cactos, a terra, o vazio incolor, o pântano.

Isto não é um mapa, é a realidade possível.
Isto não é um abrigo, é a realidade possível.

A realidade possível, não um poema.
A beleza da prática à prova dos descritores.

A página restante possui a fímbria do pterodátilo
e omitiu ruínas inteiras de informação.

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Lucas Rolim (1995-)

Lucas Rolim é poeta, editor independente e fez algumas traduções. Como poeta, lançou os livrinhos artesanais No Panorama do Tempo o Menino se Alarga (2015), Os Cantos de Eleanor (Selo Kizumba, 2017) e Terrário (Selo Kizumba, 2017). É colaborador do projeto Roda de Poesia Tensão, Tesão & Criação, participando ativamente do circuito artístico da cidade. Teve poemas e traduções publicados em revistas, jornais, sites e antologias. Nasceu em Teresina, onde habita e é habitado.. Os poemas “dois amantes & a metamorfose” e “pelas cercanias” pertencem ao livro O Mirábolo (ed. Moinhos, 2017). O poema “vejo melhor de olhos fechados” é inédito.

* * *

dois amantes
& a metamorfose

I
dois amantes marcham de muito longe
dentro da madrugada que os desafia

deixam suas terras danças e músicas
para se encontrarem no silêncio do deserto

um vem do ocidente que lhe diz
morrerás antes que o sol te acolha

outro desponta do oriente que o alerta
do deserto vieste e teu espírito é areia

a trilha que seguiram madrugada a fio
pertence agora ao Vento Leste – suas pegadas
foram extintas com a visita da noite que sopra.

II
frente a frente no seio das dunas
os amantes sabem que não há miragem
— que de carne e toque é feito o momento

para que a palavra do primeiro acenda
como fogo vivo nas orelhas do segundo

é preciso que se ergam defronte de si

mirando a esfinge que no outro habita
& volvendo ao que o sonho tornou real

desnudando o enigma & virando peixe
no mar que engole o deserto em sua
vertigem & mudez.

§

pelas cercanias

desiludidos,

cruzavam a espera
levando um mapa de ausências,
uma distância inquieta.

ruínas
e compulsões revisitadas.
desertos povoados novamente.

(as trilhas guiavam
a antigos hedonismos)

eles herdavam o sigilo
de seus quartos e recordavam
conversas aflitas.

em seus corpos
ardia a inscrição da noite:
os piores dos cegos. os piores dos cegos.

era tempo de saber
o paradeiro da angústia
e abrigar-se no conforto das conchas.

tempo de habitar
silêncios.

§

vejo melhor
de olhos fechados

quando o labirinto amansa
o caminho se revela com passos de água.

há uma nudez própria
a todas as coisas

e um nome ao qual tudo atende:

a ternura das árvores,
o ritual das rochas,
o calor do tempo batendo nos dias.

um nome rápido, que tudo diga:

a face iluminada das abelhas,
a lição de força dos pequenos insetos,
os seres em sua mais tenra forma.

quando o labirinto amansa
finalmente entendo:

não há dor na trajetória do sol.
a noite que aporta é violenta, mas gentil,
e abriga as coisas que também
se encontram na claridade cega.

o olho atento é seu hóspede inquieto.

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poesia, tradução

Olga Sánchez Guevara

Olga Sánchez Guevara é escritora e tradutora. Licenciada em Língua Alemã pela Universidade da Havana, estudou português na União Latina de Cuba. É autora dos livros Conversación con ángeles (Editorial Ácana, Camagüey, 2005); Ítaca (Fundación Sinsonte, Zamora, España, 2007); Óleo de mujer junto al mar (Ediciones Unión, La Habana, 2007), entre outros. Tem vários ensaios e artigos em publicações periódicas e sítios web de Cuba. “Cartas de la nostalgia”; outros  textos traduzidos ao alemão foram incluídos na antologia Mosaik aus dem Innersten, em Salzburgo, Áustria. Traduziu, entre outros, Else Lasker-Schüler, Friederike Mayröcker, Marie-Thérèse Kerschbaumer, Cecília Meireles y Eugénio de Andrade. Como tradutora recebeu prêmios em Cuba e na Áustria. Foi editora e fez a tradução e o prólogo de Frau in der Landschaft/Mujer ante el paisaje, antologia poética bilingüe (Edition Art Science, St. Wolfgang, Austria, 2014).

Os poemas abaixo são do livro Ítaca, de 2007.

guilherme gontijo flores

* * *

Da série VISIONES/VISÕES

1

no hay tiempo de dormir en camagüey

desperté muy temprano; me he levantado a oscuras

es grato amanecer en esta casa donde todo está siempre como siempre

no temo a sus fantasmas; ellos, que aquí se amaron, velan, son eternos

el perro de pelaje negro está a mis pies: me reconoce cuando vuelvo al cabo de un año

los papeles se cambian, soy penélope y viajo; camagüey es también mi ítaca, y en ítaca no hay tiempo de dormir

me desperté soñando con mi madre y sentí miedo de morirme, y ahora debo enfrentarlo de una vez: me aterra convertirme en una ausencia

quiero tiempo, Dios mío: la eternidad la tengo ya

el sueño con las aguas, dice freud, revela el temor a la muerte; soñaba con mi madre y nos bañábamos en una playa tibia

me he levantado a oscuras, y en esta casa no hay fantasmas: velan, los eternos amantes          

pronto amanecerá

para vivian

1

não há tempo pra dormir em camagüey

acordei muito cedo; levantei no escuro

que bom amanhecer nesta casa onde tudo está sempre como sempre

não temo seus fantasmas; eles, que aqui se amaram, velam, são eternos

o cão de pelo negro está junto a meus pés: me reconhece quando volto ao fim de um ano

o papéis se trocam, sou penélope e viajo; camagüey é também minha ítaca, e em ítaca não há tempo para dormir

eu acordei sonhando com minha mãe e senti medo de morrer, e agora tenho de enfrentá-lo pra valer: tenho pavor de converter-me numa ausência

quero tempo, meu Deus: a eternidade eu já tenho

o sonho com as águas, disse freud, revela o temor da morte; eu sonhava com minha mãe nos nos banhávamos numa praia morna

levantei no escuro, e nesta casa não há fantasmas: velam, os eternos amantes

logo amanhecerá

para vivian

§

8

cada regreso, un renascer; cada partida, un nuevo desarraigo

aquí es la infancia, el infinito parque de juego y maravilla, sueños de adolescencia

una inflexión distinta en el hablar, una cadencia inconfundible

lejos, es la palabra

siempre lejos de algo: ítaca fragmentada en los adioses

para aquellos que parten una y otra vez

8

cada regresso, um renascer; cada partida, um novo desraizamento

aqui é a infância, o infinito parque de diversões e maravilha, sonhos de adolescência

uma entonação diferente na fala, uma cadência inconfundível

longe, eis a palavra

sempre longe de algo: ítaca fragmentada nos adeuses

para aqueles que partem vez por outra

§

Da série SALZBURGO/SALZBURGO

2

La sala iluminada; afuera hay frío, y en el jardín la escarcha marchitó las rosas

Por la ventana, el monte coronado de nieve: al otro lado es Alemania, dicen mis amigos

Yo, criatura de isla, trato de comprender la lógica de las fronteras

2

A sala iluminada; lá fora, o frio; e no jardim a geada ressecou as rosas

Pela janela, o monte coroado de neve: do outro lado é a Alemanha, dizem meus amigos

Eu, criatura de ilha, trato de compreender a lógica das fronteiras

§

Da série ÍTACA/ÍTACA

7

en el planisferio una franja apenas visible cuya exigüidad misma suscita la duda: algunas veces me pregunto si nos hemos pasado siglos, toda la vida, inventando un país inexistente, fabricando esta isla de nostalgias que se fundó desde el exilio y del exilio sigue recibiendo parte de su sustento

pero, ¿y nosotros, los que nos quedamos? ¿somos sombras acaso, o también somos el sostén de un edificio espiritual cuyo alcance está fuera de nuestras medidas?

7

no planisfério, uma parte quase visível, cuja própria existência provoca dúvidas: às vezes me pergunto se passamos séculos, toda a vida, inventando um país inexistente, fabricando esta ilha de nostalgias que se fundou pelo exílio e do exílio continua recebendo parte do seu sustento

mas, e quanto a nós, que ficamos? somos sombras por acaso, ou também somos a base de um edifício espiritual cujo alcance está além de nossas medidas?

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poesia

Fernanda Marra (1981-)

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fernanda marra é mestre em letras e linguística pela ufg e doutoranda em teoria literária pela unb. manteve o blog marés e ressacas, dedicado à publicação de seus poemas, de 2009 a 2015. o livro que reunirá os poemas do blog e a produção mais recente da autora tem previsão para 2018, pela martelo casa editoral.

 

* * *

escápulas

no bolso posterior embutido
repousam despojos
dunas encruadas
e rangentes em inadiáveis
deslizamentos anunciam
o parto superior inexequível
placas calcificadas de dejetos anorgânicos impalpáveis imprecisos
abrem-se para a passagem
de uma gestação tectônica inter-
rompida

§

 

maulla

ter um método
e me ater a ele
mesmo sabendo que se intro-
mete
na vida diária
tem isso de ver crescer os pelos
arrancá-los
fazer comida lavar os pés
abastecer as tripas
esperar um raio
isso de ver o pelo cair
de depilar o ralo
de descascar os livros
contornar a cama toda santa madrugada
(as insantas também)
transigir
com as aderidas roupas do alho
ter método
– um sonho antigo
de me ter sem barulho
abafados rangidos
no marulho de crânios dentro do aquário
eu sei o mar
tem gemido exclusivo
que aprendi a ouvir sem noite
mesmo morando no seco
mergulhando os sentidos
na água suja do vaso

§

 

sigilo

entrando sem bater
especulando a maçaneta
esbarrando na culpa

de portas trancadas
as letras truncadas
nem sempre retrucam

à mesa, só o silêncio revém
do rosto cerrado em copas
o segredo das portas sem zíper

a mesma lei de madeira das tumbas

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