poesia, tradução

Poesia nórdica| Cinco poemas de amor e desamor de Geir Gulliksen, por Luciano Dutra

Geir Gulliksen (n. 31 de outubro de 1963 em Kongsberg, Noruega) é escritor e editor. Desde sua estreia em 1986, publicou livros de poemas, ensaios, peças, romances e literatura infantil. Foi indicado ao prêmio Ibsen de 2013 por sua peça En kropp (Um corpo) e ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico de 2016 pelo romance Historie om et ekteskap (História de um casamento), sua obra mais conhecida, publicada em 2015. Foi o editor na Forlaget Oktober de Min kamp (Minha luta), romance autoficcional em seis volumes de Karl-Ove Knausgård publicado entre 2009 e 2011, sucesso de crítica e público traduzido em mais de trinta idiomas e que só na Noruega vendeu mais de meio milhão de exemplares. O poema ”Alt dette skal begynne en gang til” (”Tudo isso há de começar mais uma vez”), traduzido ao final dessa remessa, foi escolhido pelos ouvintes da estação de rádio pública NRK P2 e por um juri especializado como o melhor poema da Noruega em 2005.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

* * *

UM POEMA SOBRE AQUELA QUE ELE JAMAIS ENCONTROU

tens a possibilidade de fazer algo
mas então não o fazes
não sabes por que
não o fazes
apenas deixas de fazer
e bem o sabes
que assim vai ser a tua vida
tua apenas em parte
por tudo que deixou de acontecer
e isso é tão triste
e não apenas para ti
pensas nos bons momentos
e ficas ainda mais triste

ET DIKT OM HENNE HAN ANDRI MØTTE

du kan gjøre noe
og så gjør du det ikke
du vet ikke hvorfor
du ikke gjør det
du gjør det bare ikke
og du vet det selv
slik blir livet ditt
bare delvis ditt
så mye som ikke skjer
og det er trist
og ikke bare for deg
tenker du i lyse stunder
og blir enda tristere

§

O amor não existe
ou é invisível e precisa de seres

vivos como tu e eu
para se deixar enxergar

ou: o amor é práxis
música acanhada que nem sempre se pode ouvir

Kjærlighet finnes ikke
eller er usynlig og trenger levende

vesener som deg og meg
for å komme til syne

eller: kjærlighet er en praksis
en sky musikk den kan ikke alltid høres

§

eu só queria te dizer

que ele chega, que ele existe
que ele chega pra todos, ao menos uma única vez
que ele estava aqui na sala
enquanto as cortinas tremulavam na janela aberta
e enquanto eu procurava um lápis
e que ele desapareceu tão safo
quanto o grande amor que tivemos

ele estava aqui, e como determinado cheiro
de determinado cabelo e determinado vestido
que ficou pendurado lá fora num determinado clima bastante úmido
já não estava mais aqui
quando me sentei para escrever

jeg ville bare si deg

at det kommer, at det finnes
at det kommer til alle, i de minste én enkelt gang
at det var her i rommet
mens gardinene blafret i det åpne vinduet
og mens jeg lette etter blyanten
og at det forsvant like glatt
som den ene store kjærlighet vi har hatt

det var her, og som en bestemt lukt
av et bestemt hår og en bestemt kjole
som hadde hengt ute i et helt bestemt fuktig vær
var det ikke lenger her
da jag satt meg ned for å skrive

§

Eis-nos aqui. É noite.
Chegamos aqui e desaparecemos de novo,
e feito os amantes nos deixamos

todos vamos nos deixar, todos
como o mundo com certeza também vai nos deixar.
Ou seja lá como é que era mesmo.

A geladeira treme amedrontada na cozinha.
As crianças dormem nas suas camas quentes. Os cérebros ardem
como as metrópoles cada qual debaixo de sua abóbada escura.

Her er vi. Det er natt.
Vi kommer hit og forsvinner igjen,
og slik de elskende forlater hverandre

skal vi forlate hverandre alle sammen,
slik verden sikkert også forlater oss til slutt.
Eller hvordan det nå var igjen.

Kjøleskapet dirrer engstelig på kjøkkenet.
Ungene sover i varme senger. Hjernene gløder
som millionbyer under hver sin mørke hvelving.

§

TUDO ISSO HÁ DE COMEÇAR MAIS UMA VEZ

Tudo isso há de começar mais uma vez
o livro que eu levava pra todo lado e lia
vai ser lido por outro alguém. Alguém há de aprender
a contar até dez pela primeira vez, depois até cem
e alguém há de aprender os dias da semana e assim há de saber
que a sexta-feira é o melhor e que o domingo é o pior dia da semana
porque domingo é o dia em que só fazemos esperar pela segunda-feira
e com a segunda-feira até a quinta-feira é impossível contar
se a gente trabalha o dia inteiro e fica sentado numa cadeira de noite
Porém, mesmo assim tudo isso há de começar mais um vez:
alguém há de sentar na escadaria sob essa luz sarapintada
tentando escrever um poeminha num pedaço de papel
e alguém há de aprender a pedalar,
e alguém há de ler que o universo encontra-se em expansão
e sobre sóis que só sabem seguir explodindo
e alguém há de estudar hebraico antigo e ornitologia
e passear à noitinha com as mãos no bolso do casaco
sabendo que há de morrer, mas não já já
antes outro alguém hão de se apaixonar por ele, tomara,
e depois alguém há de deixá-lo, mas não já já
pois tudo isso há de começar mais uma vez: alguém há de ler
Pablo Neruda pela primeira vez, e Osip Mandelstam
e Bertholt Brecht, alguém há de ler Wisława Szymborska
e alguém há de descobrir quantos somos nós todos que vivemos nesse mundo
e de repente há de entender que cada um de nós é um indivíduo
mesmo que não haja individualismo suficiente para todos
e mesmo que não seja verdade que todas as pessoas
têm o mesmo valor, alguém há de aprender isso e crer nisso
até que não seja mais possível seguir crendo nisso
pois isso não parece ser verdade
pois isso não parece possível de se realizar
mesmo que não seja possível crer em mais nada além do fato
de a escuridão escalar os vários andares
e de a escuridão um dia chegar aos teus pés
e de tu um dia vadear nela e de ela chegar até as tuas mãos
e gritar na escuridão e beber a escuridão, não por que tens sede
mas porque não há mais nada senão ela, e porque aquela velha
luz sarapintada que não havia era suficiente para todos
não é mesmo? mas tudo isso há de ser repetido por outro alguém
e a luz dispara sem parar cruzando a escuridão
de 300.000 quilômetros e leva menos tempo para te achar do que um gato esquelético
enquanto estás ali parado tentando achar as chaves no bolso do casaco
e tudo o que te acontece acontece creias ou não creias que seja verdade

ALLT DETTE SKAL BEGYNNE EN GANG TIL

Alt dette skal begynne en gang til
den boken jeg gikk rundt med og leste i
skal bli lest av en annen. For første gang
skal noen lære å telle til ti, og så til hundre
og noen skal lære seg dagene og dermed lære seg at
fredag er den beste dagen og søndag den verste
fordi søndagen er den dagen du bare venter på mandag
og mandag til torsdag kan ingen regne ordentlig med
som jobber hele dagen og sitter i en stol om kvelden
Men alt dette skal likevel begynne på nytt:
noen skal sitte på trappa i det skvetne lyset
og prøve å skrive et lite dikt på en lapp
og noen skal lære seg å sykle,
og noen skal lese at universet utvider seg
og om soler som bare fortsetter å eksplodere
og noen skal lese gammelhebraisk og ornitologi
og gå ute om kveldene med hendene i jakkelomma
og vite at de skal dø, men ikke ennå
først skal en annen bli forelsket i dem, forhåpentligvis,
og så skal noen gå fra dem, men ikke ennå
fordi alt dette skal begynne en gang til: noen skal lese
Pablo Neruda for første gang, og Osip Mandelstam
og Bertholt Brecht, noen skal lese Wisława Szymborska
og noen skal oppdage hvor mange vi er som lever i verden
og plutselig vite at hver eneste av oss er et individ
selv om det ikke er individualisme nok til alle
og selv om det ikke er sant at alle mennesker
er like mye verdt skal noen lære det og tro på det
helt til det ikke er mulig å tro på det lenger
fordi det ikke ser ut til å være sant
fordi det ikke ser ut til å la seg gjøre
selv om ingenting annet er mulig å tro uten at mørket
strømmer oppover i etasjene
og at mørket en dag når opp til føttene dine
og at du en dag vasser i det og får det på hendene
og brøler i mørke og drikker mørke, ikke fordi du er tørst
men fordi det ikke finnes noe annet, og fordi det gamle
flekkete lyset som fantes ikke var tilstrekkelig til alle
var det ikke sånn? men alt dette skal bli gjentatt av en annen
og lyset skyter uopphørlig gjennom 300.000 kilometers
mørke og bruker kortere tid enn en mager katt på å finne deg
der du står og prøver å finne nøklene i lommene på jakka
og alt som skjer deg skjer enten du tror det er sant eller ikke

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