poesia

Pterodátilo, de Mariano Marovatto (1982-)

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Foto de Ismar Tirelli Neto.

Mariano Marovatto nasceu no Rio de Janeiro e vive em Lisboa. Escreveu livros como Casa (7Letras, 2015) e Vinte e cinco poemas com Chico Alvim (Luna Parque, 2015), e gravou alguns discos, entre eles: Praia (Maravillha 8, 2013) e Selvagem (Embolacha, 2016). Como pesquisador e arquivista literário, foi responsável, entre outros trabalhos, pela organização do acervo do escritor e compositor Cacaso e pela pesquisa de inéditos e estabelecimento de texto da Poética de Ana Cristina Cesar. Doutor em literatura brasileira pela PUC-Rio, Mariano foi também apresentador e roteirista do programa musical Segue o som na TV Brasil entre 2009 e 2016. Toda a sua produção está disponível em http://www.marovatto.org.

Sobre a circunstância da publicação original dos poemas em Portugal:

Depois de passado um ano dedicado à música, o “Pterodátilo” foi minha única produção poética de fôlego em terras portuguesas. O conjunto de poemas foi feito sob encomenda para o ciclo de performances “Do Liminar” – que ocorre mensalmente na galeria Zaratan, em Lisboa – a partir do trabalho das artistas Guida Marques (e sua extensa pesquisa dedicada à arquitetura e à ruína) e Ana Corrêa (e sua performance “Blow”, na qual a artista dá cambalhotas abraçada a um dinossauro inflável). Eis o ponto de partida para o estabelecimento dos cinco poemas deste “Pterodátilo” estrangeiro, ancestral e, por isso, inviável.

* * *

 

O PTERODÁTILO

 

1. O OBJETO

Aqui um objeto mitológico
de narrativa truncada
por sucessivas traduções.

Este objeto é a excrecência do mito.

(a serpente que dá forma ao rio
navega sem tradução necessária)

Este objeto não possui deveres. Pleno,
capaz, interessante, mesmo truncado.

Este objeto é reativo ao acessos.

Escrutinar — o inverso
de confundir — é seu exercício.

Conciliar o objeto com a violência:
lograr-lhe um animal conveniente
com suas dimensões minerais.
2. O PTERODÁTILO

O pterodátilo estende-se ao fundo
do ocidente para lançar-se pássaro,
borboleta, pégaso e também serpente.

O pterodátilo faz elipses enquanto
aspira a extravagância do pouso.
Resposta ao assalto permanente.

Desleal dobradura
é inédito e problemático
o pterodátilo no chão.

Assoma destrancado
na vastidão. Ora o mundo
cabe, ora o mundo engole.

Contrai-se parte do mapa:
lasso, ferino e humano.
origami, guia e cobaia.
3. O MAPA

Recorrer ao mapa transgride
o objeto. Pedir ao mapa por
pedir à história. O propósito
do mapa: criar o mundo que nos espera.

Diário e maldição. Explorador e guia. Dono e cobaia.

O poema, que é objeto, não aposta em futurologia.
O poema, que é objeto, o relato seguro e morto da ruína.
O poema, que é objeto, um ditado de fantasmas.

Toda nota é contemplação. Seja assombração, seja alucinação.

Toda nota toma o tempo que inexiste
cartograficamente. A vontade de mergulho,
de aproximação, de violência, de teste, o poema pode
ser também a serpente que sai do rio e perfura o desconhecido
das superfícies secas. Dar à ciência o reino das descrições. Borrá-lo
depois com a coragem das mãos antes dos olhos. A serpente é
mais braço do que olho. Há imensos prazeres por onde fugir.

A revisão permanece como paragem inútil
para o invisível. Rever é trocar o guia
pelo analista e corrigir as rotas do mapa.

Ver somente aquilo que existe: eu vejo
o pterodátilo e teimo com todas as possibilidades de ruína.

Não enxergo a casa anterior. Repito
o que foi dito mas ela desapareceu.
4. O EMBRECHADO

Abrir a casa anterior em busca do objeto recém-chegado.
O anseio demanda qualquer coisa xucra e surpreende-se
com o mito ausente. A casa anterior, vulnerável, soa bastante
como língua tola. Permaneço severo e não lhe enxergo a asa.
Anterior à casa, sim, havia o sítio sem cautelas posto abaixo
pelos embrechados. Não traz nada consigo, o embrechado
não repousa pois não tem origem. Não desdobra os dedos,
não tem palmas para incentivar o voo. Invade mas não se move.
5. O DESLUMBRE

Na página restante o deslumbre
ao encontrar um mapa asteca,

bastante lírico, desprovido de matemática.

O olho esforça-se
nos detalhes: o desenho das pegadas
nas estradas de terra, a reprodução cúbica
das casas que não atenta para a quantidade exata,
embora de fácil contabilidade, que nos mostra a ideia de muitos.

O uso das cores, a escolha dos cactos, a terra, o vazio incolor, o pântano.

Isto não é um mapa, é a realidade possível.
Isto não é um abrigo, é a realidade possível.

A realidade possível, não um poema.
A beleza da prática à prova dos descritores.

A página restante possui a fímbria do pterodátilo
e omitiu ruínas inteiras de informação.

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