poesia, tradução

Wallace Stevens (1879-1955), por Alessandro Funari

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É notável como Wallace Stevens (1879 – 1955) imprime na materialidade de seus poemas o assunto abordado por eles. Usando como exemplo alguns poemas aqui trabalhados, vemos como em The Load of Sugar-Cane, não só o correr das águas do rio em questão carrega consigo versos inteiros (como se pode notar nas repetições, em estrofes diferentes, de ‘like water flowing’ e ‘under the rainbows’), mas leva também fonemas, como o g de ‘going’, que percorre o ‘glade-boat’, atravessa a estrofe e continua a caminhar pela ‘green saw-grass’. O mesmo ocorre com o w de ‘While the wind still whistles’ e, porque não, com o som de ‘Load’, no título, que adentra o poema e termina o primeiro verso com ‘boat’ (que tentei manter com ‘Açúcar’ e ‘sulcar’).

Em Anecdote of the Jar, temos o ritmo nos dizendo o que está semanticamente explicitado. Os jambos caminham regulares até o surgimento da palavra ‘slovenly’, no terceiro verso: ‘desalinhado’, ‘em desordem’, e é exatamente assim que o ritmo se comporta. O que estava em ordem agora está revolto.

Outro exemplo é a sexta parte de Thirteen Ways of Looking at a Blackbird, que traz ainda outro aspecto, desta vez tocando a materialidade das próprias letras. Ao desenhar uma cena de inverno, temos ‘Icicles filled the long window / With barbaric glass.’ Com o uso de letras de tipografia alongada (I, i, l, f, ll, t, h, l, d) ou que se afunilam (os w de ‘window’ e de ‘With’), é possível ver os próprios sincelos dependurados do batente da janela. Outra indicação do frio é a repetição do som ‘brrr’ em ‘barbaric’, uma exclamação dicionarizada pelo Oxford English Dictionary.

 

Alessandro Funari

* * *

 

Treze Maneiras de Olhar para um Melro

I
Em vinte montanhas nevadas,
Só o que se movia
Era o olho do melro.

II
Eu estava dividido em três,
Como os trevos
Entre os quais estão três melros.

III
O melro rodopiou nos ventos de outono.
Era uma pequena parte da pantomima.

 

IV
Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.

V
Não sei o que prefiro,
Se a beleza das inflexões
Ou a beleza das insinuações,
Se o assovio do melro
Ou o logo depois.

VI
Sincelos atulham a longa janela
Com vidro barbárico.
A sombra do melro
A cruzou diversas vezes.
A aura
Traçou na sombra
Uma causa indecifrável.

VII
Ó homens magros de Haddam,
Porque imaginais aves doiradas?
Não vedes como o melro
Caminha por entre os pés
Das damas à vossa volta?

VIII
Sei de acentos nobres
E de ritmos lúcidos, inescapáveis;
Mas sei, também,
Que o melro está envolvido
No que sei.

IX
Quando o melro voou para longe,
Demarcou a margem
De um dentre muitos círculos.

X
Ao avistar os melros
Voando à luz verde,
Até pécoras da eufonia
Gritariam estrídulas.

XI
Ele cruzou Connecticut
Em um coche de vidro.
Certa vez, tomou-lhe um medo,
Pois equivocou
A sombra de sua bagagem
Por um melro.

XII
O rio está se movendo.
O melro deve estar voando.

XIII
Era noite a tarde inteira.
Estava nevando
E iria nevar.
O melro pousado
Nos galhos do cedro.

Thirteen Ways of Looking at a Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds,
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.

§

 

Anedota do Jarro

No Tennessee pousei um jarro;
Arredondado, sobre um monte.
E fez a selva revolta
Cercar o monte.

A selva se elevou em seu entorno,
E se espalhou, não mais selvagem.
O jarro era redondo sobre o campo
Era alto e de um porto em ar.

Dominou todo o lugar.
O jarro era cinza e vulgar.
Não dava ave ou árvore.
Como nada mais no Tennessee.

Anecdote of the Jar

I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.

The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.

It took dominion everywhere.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.

§

 

Infanta Marina

Seu terraço era a areia
E as palmeiras e o poente.

Fez dos meneios de sua mão
Gestos grandiosos
Do seu pensar.

O plissar das plumas
Desta criatura da noite
Veio a ser devaneio de velas
Sobre o mar.

E assim andava
Nas andanças de seu leque,

Partilhando do mar,
Partilhando da noite,
Enquanto fluíam em derredor,
E emitiam seu ruído derradeiro.

Infanta Marina

Her terrace was the sand
And the palms and the twilight.

She made of the motions of her wrist
The grandiose gestures
Of her thought.

The rumpling of the plumes
Of this creature of the evening
Came to be sleights of sails
Over the sea.

And thus she roamed
In the roamings of her fan,

Partaking of the sea,
And of the evening,
As they flowed around
And uttered their subsiding sound.

§

 

O Homem de Neve

É preciso uma mente de inverno
Para ver a geada e os galhos
Dos pinheiros cobertos de neve;

E ter-se há tempos no frio
Para olhar o cedro escarpado em gelo,
E abetos brutos no brilho distante

Do Sol de janeiro; e não pensar
Em toda a desgraça no ruído do vento,
No ruído de algumas folhas,

Que é o próprio ruído da terra
Cheia do mesmo vento,
Que sopra no mesmo ponto nu

Para o ouvinte, que ouve na neve,
E, ele nada, contempla
Nada que não está lá e o nada que está.

The Snow Man

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

§

 

A Carga de Cana-de-Açúcar

O sulcar da jangada
É como água corrente;

Como água corrente
Pelos juncos de jade
Sob os arco-íris;

Sob os arco-íris
Que são como aves,
Revoando, ataviadas,

Sempre que silvam sopros,
Como as saracuras,

Quando se alçam
Ao turbante vermelho
Do barqueiro.

The Load Of Sugar-Cane

The going of the glade-boat
Is like water flowing;

Like water flowing
Through the green saw-grass
Under the rainbows;

Under the rainbows
That are like birds,
Turning, bedizened,

While the wind still whistles
As kildeer do,

When they rise
At the red turban
Of the boatman.

§

 

Hibisco nas praias soníferas

Te digo, Hernando, que naquele dia
A mente flanava como as falenas
Por entre as flores além da areia aberta;

Que qualquer ruído que uma onda fazia
Sobre as algas e nas cobertas penhas
Não perturbava nem o mais vão ouvido.

E eis que aquela infernal falena,
Há pouco recolhida contra o azul
E o corado púrpura do mar vadio,

Que cochilara pelas praias ósseas,
Alheia ao grulhar do mover das águas,
Soergueu-se aspersa perseguindo o rubro-flama

Com amarelo pólen – rubro tão rubro
Quanto o emblema sobre o velho café –
E por lá flanou toda a tarde estúpida.

Hibiscus on the Sleeping Shores

I say now, Fernando, that on that day
The mind roamed as a moth roams,
Among the blooms beyond the open sand;

And that whatever noise the motion of the waves
Made on the sea-weeds and the covered stones
Disturbed not even the most idle ear.

Then it was that that monstered moth
Which had lain folded against the blue
And the colored purple of the lazy sea,

And which had drowsed along the bony shores,
Shut to the blather that the water made,
Rose up besprent and sought the flaming red

Dabbled with yellow pollen – red as red
As the flag above the old cafe –
And roamed there all the stupid afternoon.

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Padrão
poesia

Um poema inédito de André Nogueira (1987-)

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André Nogueira: nascido em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Vive atualmente na cidade de Campinas (SP). Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Tradutor, poeta, ensaísta. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão
Cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e “O Manifesto Lenitivo” (Ed. Urutau, 2015, Bragança Paulista, 2015).

 

sergio maciel

* * *

 

DÊ-LHES O TROCO
ou “Não desça na via

1.

– O homem quebra o trem?
Ou é o trem
que quebra o homem!?

Sem braços, brandia o cotoco –

Quem?
Um mendigo, talvez?
Palhaço ou louco?
Ou seria esse homem
um profeta de muletas?

A impecável lucidez
destas palavras que falou-me
reproduzo ao pé da letra.

2.

Amigos, quem veio primeiro?
O ovo, a galinha?
Pois eu digo: o galinheiro.
Todo dia nesta lata de sardinha
entrar e sair e de novo rolar
pela escada rolante…
Começou o quebra-quebra.
Porém nada veio antes?
existem dois gumes
no corte de verba.
No horário de pico
é que chega ao cume
o lucro dos ricos.
Mas um dia eles recebem
o troco
da plebe
e fogo
no circo.

3.

Do outro lado do vagão um homem grita:

– Se o ovo ou a galinha ou se os dois,
o importante é rechear minha marmita!

Arroz com feijão, feijão com arroz…
Das batatas as pepitas
que se guardam em isopores.
De mistura? A porção magra
de umas carnes no alumínio:
pelo trem no moedor
os esqueletos dos senhores,
uma vez que emagreceu salário mínimo.
Cabem dois no acento vago,
mais de cem uns sobre os outros.
Que achou do shoping-trem?
Aqui encontram-se biscoitos
e olha a água, geladinha e mineral:
a menininha não tem oito,
e carregando esse isopor pelo vagão
grita: “Era três,
levou agora é um real!”
Assim as filhas de vocês
a crise pagam
do patrão,
as gordas malas que alimentam
algum “boom” do capital.

4.

Quebrem os lacres e acionem
o botão de segurança!
Pois o povo que não come
mata a fome de vingança.
É tão certo
quanto a justa matemática,
a lei irrevogável da ação e reação.
E tão decerto nos liberta
dessa lástima metálica
um brinde de explosão…
Façam tim-tim os coquetéis.
Eles não crêem?
À nação proclamaremos
a razão do teorema
em abundantes decibéis.

5.

“Não desça na via”, diz o cartaz.
O amor pelo trem é tão grande…
existe quem morra beijando esse trilho.
A maioria, como faz?
Não há lugar onde se ande
sem auxílio
de uma surra
e no calor do empurra-empurra
o biscoito de polvilho
no pacote se desfaz.

6.

As cloacas do comboio
se contraem como nunca.
Um por vez pare a catraca:
o vendilhão de pururuca,
o pastor com sua bíblia,
paletó sujo de graxa…
Meus irmãos, quem é que lucra
com a vossa via sacra?
Arregala-se o olho da cara,
olha a câmera do caixa.
A passagem, quanto custa?
No estômago um soco.
Pois nada mais justo!
Dê-lhes o troco!
Justo o pé que chuta a placa.
Justa a mão que o cesto entorna.
Justamente a massa em fúria não se aplaca
enquanto o fogo não arder na plataforma.

Na alta esfera o escândalo é a norma.
O pacote de maldades já transborda?
Dão-lhe o nome de “reforma”.
Todos a bordo!
Pois em breve irá o povo
a bomba esférica do ovo
arremessar em certos homens,
com os garfos desfiar seus finos ternos
de mordomos.
O acerto de contas exige.
A porção última do inferno
lá na ponta da pirâmide encontra
sua origem.

7.

Tudo bem chutar uns cones.
No entanto, eu pergunto.
Quando esse troco
dará nosso povo
na cara do porco
capitalista?
Quando do assunto
tratará com esses homens
infelizes e sinistros?
Quando encontrará o justo soco
a rota certa dos narizes
de prefeitos e ministros?
Bons motivos, temos vários.
De escândalo em escândalo
e vocês neste calvário
são os vândalos, acaso?
Baderneiros, vagabundos, meliantes?
Que panela veio antes
que deixou seus pratos rasos?
Cada noite eles descansam
no macio dos travesseiros,
todo dia se depena mais um ganso
e se abarrota nova mala com dinheiro.
O itinerário da barbárie segue o mesmo.
Mudam só os restaurantes
onde acertam seus negócios.
O isopor dos ambulantes,
a tortura
do alumínio
que tritura
nossos corpos.
Vocês podem completar o raciocínio?
Um só almoço
de um desses salafrários
quanto custa? Vinte vezes
o valor de seus salários.
Troco justo para esses, qual seria?
Esse desprezado osso
ao pé da mesa de iguarias,
asperezas de sapato
vocês lambem e engraxam.
Que desçam ao nível
das vias de fato
e empurrem dessa laia desprezível
extintores goela abaixo.

(~A~), dezembro 2017 – janeiro 2018

Padrão
poesia

Guilherme Conde Moura

Guilherme Conde Moura tem 22 anos, é cariocapixaba e colecionador de bonecas. É pesquisador e multiartista, escreve sobre literatura, artes, esportes e histórias em quadrinho. Publicou Caderno de Segunda Mãe (coletivo garupa, 2015) e mas passo esta matéria perigosa (la bodeguita, 2016). Os poemas aqui selecionados integram seu novo livro de poemas, ainda por vir.
* * *

apoiar-se nos palitos
de dente
,
ao se ver o noticiário,
e lembrar dos
pequenos mutilados
porque
pode ser que um dia
infelizmente

§

explore seu momento

a cidade cresce entre
duas camadas de pele (o mais
profundo)
e abriga mais
coisas do que
imagina                        nossa vã cirurgia

então,
Horácio,
fique a                          espreita
porque até nas entrelinhas
a
história passa
e arrasta

§

bilhetes da viagem à China

[一 ]

quando derramaram
nanquim sobre
o Yangtze

ensinaram a melhor
forma de segurar
a própria cabeça
para não perceber
ela
indo embora

uma baioneta, uma bala
não se sabe onde está
o fio

[二 ]

numa faixa
de pedestres
distraído é
possível morrer,
………….não é questão de
fatalismo, é só de
força
de tempo
e de gesto

diante do verde ou vermelho,
esticar-se e exclamar
:
ah, a paz celestial

§

Elis/zabeth espera
(com algumas coisas de Adília Lopes com algumas coisas de Anne Sexton)

Elis/zabeth espera, já com as digitais gastas
de mercúrio, os pés para dentro,
os braços abraçando um acordeon

sentada em um banco na
cinelândia
ouvindo o quase-canto
de pombos, Elis/zabeth espera
que o pequod surja pela
rio branco

Elis/zabeth espera o
seguro desemprego, um
espaço no caixão, depois
de ter tirado do forno
tantas cabeças
e nunca hesitaria
– se precisasse – em
tirar mais uma

Elis/zabeth espera
o dia de ler Barthes
de descobrir que o dedo
da masturbação é
qualquer um
desde que não o dela

com o dia
entre os olhos, a maçã
meio comida,
Elis/zabeth espera
descobrir que no vôlei
moderno
……………o saque é
uma poderosa arma
porque não pode ser barrado
pela muralha
do bloqueio

a água
e sua
pele

em um
processo natural de
erosão
Elis/zabeth
espera a poeirenta
revelação de
seus cortes de
castrato

o sino da
bicicleta,
um quase-
revoar
de
pombos, o
termômetro e Elis/
zabeth
espera
pela medida
fatal
de viver
em paz

§

agora já não te perco; inevitável cinema

não é impossível
se masturbar
sem ter braços
nem escrever
mas a carta
ainda foi enviada pela metade,
contava a história
de uma professora que lhe
disse de um antigo aluno
que morreu
simplesmente por se barbear
se barbear demais, talvez

fechou o casaco
sentada de frente para o
rio lamacento, onde uma carcaça de
cão boiava
tranquila
a outra, segunda, na ponta dos pés
traçando um arco no ar

[plano detalhe;
a carcaça do cão morto
boiando
]

“podemos tudo”
“podemos algo?”
“me salva”
“não”

a lâmina
o sangue, a carta
pela metade

“eu queria saber” soltou o corpo do ar, as
solas dos pés descalços bateram na terra, largou
os braços “por que o garoto morreu”
“porque se barbeou demais” afundou mais
dentro do casaco
“mas e o cão, por que morreu?”
“alguém matou”
“me salva”

[close-up
na primeira;
o nariz avermelhado de frio]

“e se eu lhe arrancasse os braços?”
“doeria”
“então, posso lhe furar os olhos?”
“você pode tudo, podemos tudo, já disse” voltou a se erguer na
ponta dos dedos

usou a mão esquerda para
tapar o sol, proteger
os olhos
“o cão já sumiu”
“ele não sumiu, ainda está no rio,
só não mais aqui”
“o rio não vai para lugar nenhum”

[corte]

a mão da primeira a
percorrer o rosto da segunda
as respirações
se misturavam em fumaça e frio
abriu com a ponta dos dedos
o olho direito
olhou fundo na pupila, viu seu reflexo, com o casaco
totalmente fechado
“me salva”
“sim”
passou a lâmina de barbear pelo olho gelatinoso que escorreu em uma mistura
de branco e vermelho, pela bochecha

ela sorriu
foi até o olho esquerdo
abriu também, delicadamente
com as pontas dos dedos,
se aproximou encostando a língua
na matéria gelatinosa,
sentiu fome, uma fome de cão

[corte;
a nuca da segunda que está virada para o rio]

“o que vês?”
“a segunda metade da carta”
“nós podemos tudo”
“sim, podemos tudo”

§

Os Sertões; fronteiras

sob
esta cabana de Zinco
(é ferrugem)
tão pequena, menor que teu quarto, que a roda
tanto amedronta,
atrás de uma vitrine, uma
história mal-contada,
construiu uma ponte
que caiu
mas na persistência
de quem sempre coloca pedra sobre pedra
e atira pau contra bala
construiu outra
que ainda está lá, pode ser que caia, talvez Euclides
da Cunha fosse um péssimo engenheiro
mas para além disso
aqui, que é tão
mais frio que o Sertão,
que é também algum Sertão,
em algum lugar de São Paulo a Minas,
onde se pode perder alguma guerra,
abriu-se tempo com sede pura
deu a ver do homem a terra a luta
ou qualquer coisa que se chame
mundo

§

ghost in the shell

esboços do rosto tropical. Mistério,
a argentina se calava no
canto da sala, com
agulhas entre os dentes
e uma concentração digna
de tempos sem volta

era a época das conversas
sobre Artaud
de outras leituras de Hamlet
de um dia fino
confundido entre sábado e
sexta-feira
quando anjos
abriam as linhas do céu anunciando a volta
de todos
mal-entendidos

o ônibus precisava terminar
a viagem; a fronteira
do teu braço

as garotas da escola
esticadas sobre a mureta,
a tensão dos
joelhos, uma
fenda daquela
fome

tão quentes são
as noites em Santos, enquanto
soam os passos

§

Tel-Aviv

a sala de
una história de Ulises
Lima, el risinho amolado
no rincón da luz
do velho abajour belga

“tem certeza que só
…………há um caderno possível?”

os dois ojos que
desenham um arco em
uno cielo cromado

nuestro destaque sci-fi
a última lição de casa
:
Diderot, tão inocentes os carneiros

imagine
as roupas no varal

§

Rembrandt, Pollock

são as
tuas camadas
…………………….o percurso de qualquer retrato invisível

essa sala repleta de
coisas, a mínima esperança de
que haja um fundo,

teu mundo,
horizonte borrado de verde &
roxo, a morte em pleno
verão,
…….um blefe

é tinta que escorre pelo teu pulso, de uma mordida – talvez de leão –
e
desenha essa cidade

Padrão
poesia

Diego Pansani

Diego_sorrindo

Fotografia de Thais de Araujo Jorge

Diego Pansani é de Campinas. Publicou em algumas revistas eletrônicas e seu primeiro livro sairá esse ano pela editora Urutau. Foi selecionado para participar do Programa CLIPE – Curso Livre de Preparação do Escritor – da Casa das Rosas, São Paulo. Você pode encontrá-lo no facebook, no bar de vidro ou na praça da paz.
Os poemas abaixo são todos inéditos.

*

Os olhos, você pode ver que tá fresco pelos olhos

Apertei seu corpo com meu dedo na esperança sincera de que sua vida pudesse renascer e te fizesse salto da gôndola e espanto e estranhas formas de narrar o ocorrido para os parentes que não acreditariam mas recontariam a história nos bares, nos grupos de oração, nos ônibus, no intervalo do curso de excel avançado, e talvez impediria, assim, ou ao menos protelaria, se pá, essa infestação de tatuagens de carpa.

§

 

Definições atualizadas acerca do fio dental

1. Há uma espécie de perversidade na natureza de sua cor uma vez que o roçar entre as vielas do Cáucaso modifica seu tom cadavérico e o róseo característicos das gengivites arranca beleza ao genocídio dos Tártaros auxiliado pela incompetência dos Mongóis, evidentemente.

2. Os restos de ontens calcificados em claustros, os fósseis de beijos dados e os jamais dados grafitados na arcada são geralmente alavancados ainda mais fundo com o serpentear de sua lâmina ordinariamente imaculada. Uma vez ou outra consegue anexar pedaços generosos de porcos.

3. É patológico o seu minimalismo auditivo ainda mais se comparado aos outros histéricos que lhe auxiliam na tortura diária da assepsia contemporânea. Oculta os gritos dos bacilos como um militar na boca. Seu fardo também é paranoico e, óbvio, desfia-se magnânimo.

4. Traveste-se de anel de indicadores indiferente à oleosidade de falanges alheias: repete feito um serrote que o coeficiente de atrito já estava contido na teoria da relatividade.

5. Sonha chegar ao céu, mesmo sabendo que não teria nada pra fazer ali.

§

 

Penas, bicos e unhas

Exceto um cego açougueiro que ainda fareja
os coágulos fervendo no molho pardo
da infância é dado a poucos a epifania
dança canibalística entre a suposição e os nervos.

§

 

Caso

“O contato contínuo do pano e da epiderme produz escaras”
Nathalie Quintane

Caso não existisse o mar, caso
Não existissem ondas, a praia
O barulho das ondas, a praia,
Caso não existissem moscas,
A praia, os cigarros e as tesouras
Não existiriam cabelos,
Portanto, nem o cheiro do amor.

§

 

Segunda aula sobre a anatomia dos moluscos

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria
Fernando Pessoa

Treinadas a cuspirem madrepérolas
diante de invasões – o professor olhou pro teto
enquanto fazia força para abrir o tempo endurecido da ostra
e um dos estudantes se apaixonava
pelo cheiro que um outro exalava
e rapidamente os dois estavam numa praia
molhados, na areia, exaustos, rindo
com muita vontade de comer chocolate.

*

Padrão
poesia, tradução

malintzin. malinche. malinalli. marina. mulher,

antonio ruiz, the dream of malinche

‘El sueño de la Malinche’, Antonio Ruíz

uma leitura possível
e repetidamente lida.
como toda leitura,
uma tradução.
traiçoeira?

no méxico e países vizinhos a expressão “¡la malinche!” é equivalente àquela latina: “traduttore, traditore”; a sabida história da tradução que serve de ponte entre dois ou mais grupos culturais e linguísticos, e a figura que traduz pode ou deve ser tida como inimiga e traidora de uma das partes – um conceito clássico da confusão da mensagem com o mensageiro. eis la malinche, princesa asteca: a traidora que ao traduzir y etcéteras passou para o lado espanhol, sendo conhecida como a princesa de hernán cortés, com quem teve um filho – casado este, passou-a para um seu oficial, don juan xamarillo, com quem casou e também teve filhos.

como toda leitura que é uma tradução, abrem-se outras possibilidades tantas de uma visão do paraíso. antes de mim, depois de Rosário Castellanos, escreveu Tzvetan Todorov em A Conquista da América: a questão do outro (com tradução de Beatriz Perrone Moisés):

“A Malinche glorifica a mistura em detrimento da pureza (asteca ou espanhola) e o papel de intermediário. Ela não se submete simplesmente ao outro […], adota a ideologia do outro e a utiliza para compreender melhor sua própria cultura, o que é comprovado pela eficácia de seu comportamento […].”

são tantos documentos, tratados, mitos
e histórias e livros e canções e enfins
esta dona é toda dona do meu coração.

como não amar essa mulher? como não traí-la em sua tradução?
como não amar rosário castellanos que desconstrói seu mito e me entrega somente ela y sua outra: mulher?

sim, quanto a mim, rasuro… 

Grace Barraza-Vega, malinche

‘Malinche’, Grace Barraza-Vega

… em lugar de apresentação

uma mulher bela e inteligente sempre é traiçoeira
dona nina ouço a saber que de dona só um corpo hoje
doña marina não ontem como se dona de um mundo

desmiolado das gentias gentes que não resistem – olha!
selvagens cãezinhos com os rabos entre as pernas –
como se entre a cruz e a espada fosse

foice é mulher do paraíso às ruínas deu ao branco
deu deu tão cortês deu até os nossos deuses – puta puta
mãe de bastardinho ‘inda cabra dum don juan!

eis a mulher toda mulher como se péssima mãe
seus filhos seu homem seu dono seus pares seus ímpares
traíra nahuatl suas duas mil línguas joga o povo à rua

pocahontas
iracema
eva

escuto seus batimentos sua pulsação sua lágrima
na lâmina e digo não sabem desgraçados
mais vil é sim o beijo que a espada quando machado

mulher – te beijo te lambo te línguo até que seja
malintzin – entre parole e la langue, ¡la malinche!
a tradução que te desenterra

nina rizzi

*

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‘Malinche’, Diego Rivera


MALINCHE

Desde el sillón del mando mi madre dijo: “Ha muerto”.

Y se dejó caer, como abatida,

en los brazos del otro, usurpador, padrastro
que la sostuvo no con el respeto
que el siervo da a la majestad de reina
sino con ese abajamiento mutuo
en que se humillan ambos, los amantes, los cómplices.

Desde la Plaza de los Intercambios
mi madre anunció: “Ha muerto”.

La balanza
se sostuvo un instante sin moverse
y el grano de cacao quedó quieto en el arca
y el sol permanecía en la mitad del cielo
como aguardando un signo
que fue, cuando partió como una flecha,
el ay agudo de las plañideras.

“Se deshojó la flor de muchos pétalos,
se evaporó el perfume,
se consumió la llama de la antorcha.

Una niña regresa, escarbando, al lugar
en el que la partera depositó su ombligo.

Regresa al Sitio de los que Vivieron.

Reconoce a su padre asesinado,
ay, ay, ay, con veneno, con puñal,
con trampa ante sus pies, con lazo de horca.

Se toman de la mano y caminan, caminan
perdiéndose en la niebla.”

Tal era el llanto y las lamentaciones
sobre algún cuerpo anónimo; un cadáver
que no era el mío porque yo, vendida
a mercaderes, iba como esclava,
como nadie, al destierro.

Arrojada, expulsada
del reino, del palacio y de la entraña tibia
de la que me dio a luz en tálamo legítimo
y que me aborreció porque yo era su igual
en figura y rango
y se contempló en mí y odió su imagen
y destrozó el espejo contra el suelo.

Yo avanzo hacia el destino entre cadenas
y dejo atrás lo que todavía escucho:
los fúnebres rumores con los que se me entierra.

Y la voz de mi madre con lágrimas ¡con lágrimas!
que decreta mi muerte.

– Rosário Castellanos (para ouvir esta poema na voz da autora clique aqui!)

 

MALINCHE

Do seu trono de mando minha mãe disse: “Morreu”.

E se deixou cair, como abatida,

nos braços do outro, usurpador, padrasto
que a sustentou não com o respeito
que o servo dá à majestade da rainha
mas com esse rebaixamento mútuo
em que se humilham ambos, os amantes, os cúmplices.

Da Praça dos Intercâmbios
minha mãe anunciou: “Morreu”.

A balança
se sustentou um instante sem se mover
e o grão de cacau caiu quieto na arca
e o sol permanecia na metade do céu
como aguardando um signo
que foi, quando partiu como uma flecha,
o ai agudo das carpideiras.

“Desfolhou-se a flor de muitas pétalas,
evaporou-se o perfume,
consumiu-se a chama da tocha.

Uma menina regressa, cavando, ao lugar
em que a parteira enterrou seu umbigo.

Regressa ao Lugar dos que Viveram.

Reconhece seu pai assassinado,
ai, ai, ai, com veneno, com punhal,
com armadilha em seus pés, com laço de forca.

Dão as mãos e caminham, caminham
perdendo-se na névoa.”

Tal era o pranto e as lamentações
sobre algum corpo anônimo; um cadáver
que não era o meu porque eu, vendida
a mercadores, ia como escrava,
como ninguém, ao desterro.

Jogada, expulsa
do reino, do palácio e da entranha morna
da que me deu a luz em leito conjugal legitimo
e que me abominou porque eu era sua igual
em figura e posição
e se contemplou em mim e odiou sua imagem
e destruiu o espelho contra o chão.

Eu avanço até o destino entre correntes
e deixo para trás o que ainda escuto:
os fúnebres rumores com que me enterram.

E a voz da minha mãe com lágrimas, com lágrimas!
que decreta minha morte.

– tradução de nina rizzi

*

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poesia

Marcos Visnadi (1984-)

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Foto de Júlia de Carvalho Hansen

Marcos Visnadi nasceu em Jundiaí em 1984. Vive e escreve em São Paulo. Mantém o blog rabo de macacoo (clique aqui).

* * *

 

Cilada

No inexato habitam
as cracas do espírito.

Que bom, corpo,
em nódoas e metástases

cálculos catarros e merda endurecida
mas livre das porqueiras.

Depois de morto se dissolve
e Deus me manda pro Inferno.

Você não soube
ele diz
o tempo todo

nada
se pode
contra

o Correto.

§

 

Hóspede

que
apertada
e folgada
calada
na lava
da lábia
e molhada
só sim
sem não
aberta
colada
na calefação
da parede
macia
que espasma
essa boca
te sirva
de casa

§

 

Vocação do vacilo

o ânimo
de fazer um tríptico
épico
de longínquas distâncias
cadê

o nome
no mármore
estátua atacada por moleques
queda
de braço da barbárie
bem

o nada
entrave das estrelas
reatores nucleares no infinito
matéria imprevisível
do tempo e do sonho e do
affe

cadê
o ânimo o nome o nada

na trave
dos trinta anos do ultraje
trabalhar um tríptico épico
que transforme tudo

em estátua
atacada
por moleques

§

 

Retrato

com a coluna esticada em equilíbrio e alegria
e o focinho à procura de aventuras
o cachorro vive sua vida
atormentado só pelas pulgas

dez palmos de língua pra fora da boca
um acaso que não desiste
o cachorro cumpre sua missão
de mijar em tudo que existe

§

 

A foda é uma entrada no antropoceno

Posso pensar átomos tocados pela língua
e rotações desta Rocha imaginária

em torno do próprio eixo, posso pensar
suas pernas abertas uma porta, entrar por elas
na casa exposta às tempestades do Tempo

nossos sonhos destelhando e nos deixam
sem o abrigo do látex e da potência

uma guerra entre vírus e Gulliver
amarrado entre tochas e tempero de churrasco

nós dois separados e entre nós outros átomos
por acaso não formaram essa língua que eu passo
nos dentes trincados na gengiva que sangra

Big Bang
Misterioso Acaso
Deus Criador
Começo Inalcançável
Múltiplos Fins
Imaginados

os físicos vos perscrutam nas frestas do conhecimento

e enchem minha cabeça de mitos
que remetem a mim mesmo

a língua áspera e as hemorroidas insistem cuidados médicos

a Morte sussurra à porta sem pressa testando as chaves

encontrar uma pista de pouso entre as cordilheiras fechadas do Dia

suas pernas abertas
sem átomos
ou medo
ou movimentos planetários

eu rezo pra que feridas nunca nasçam na sua pele que tem cheiro de gente viva

essa batalha
essa dança
só termina
na Saída

§

 

Com fúria fúnebre

tudo o que se escreve
o que se canta o que se dança
não adianta

onze mil pessoas
marcharam em toronto
três milhões e meio
pelas ruas de são paulo

se somos
dez por cento
de sete bilhões
no planeta
faça as contas:
não tem
regra de três
que te traga de volta

nem pronome
oblíquo átono
que sustente
tanto nome à revelia
em certidão de óbito

textos de luto
poemas fúnebres
foda-se

gritar
não esqueceremos
de vela na mão
nós esquecemos

pesquisadoras da mesma universidade em que você foi morto
encontraram oitenta e seis bilhões de neurônios no cérebro humano

bem menos
que os cem bilhões
que acreditávamos ter

tivéssemos
trilhões ou mais, talvez
soubéssemos dos assassinos
até a preferência
do almoço da família um dia antes
de abaixar as suas calças, de te dar
de bruços, de graça, pra noite, pra sempre

mães de todos os continentes choram filhos mortos
saturno mastiga a gente antes do futebol de sábado
no sábado encontrarei amigos e seu nome passará

entre uma mordida e outra
a língua desvia dos dentes
ninguém te soletra
no entretempo

estatísticas tecem a rede que prende
o anjo que olha as ruínas do foda-se
outras letras com seus nomes vão morrendo
que nem os neurônios

com o tempo
eles não se regeneram

temporada de caça sempre aberta

no escuro os viados se encontram nos campos
pululam a última da lady gaga
e quando se tocam a luz que sai do corpo
deixa a gente exposta acende várias lâmpadas

o nome disso tudo não tem nome:
chama sinapse fluorescência
diego vieira machado
etc.

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poesia

Marcos Nascimento (1986-)

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Marcos Nascimento nasceu numa terça-feira do dia 3 de junho do ano de 1986. Vive nos subúrbios do Rio de Janeiro. Realizou atividades de oficinas literárias junto ao coletivo Oficina Experimental de Poesia. Os poemas aqui apresentados são integrantes do seu primeiro livro, O filho estrangeiro, que será publicado no primeiro semestre de 2018 pela editora Multifoco e com ilustrações do artista gráfico Felipe Nunes. No momento traduz poetas punks que viveram em Nova York entre fins dos anos 70 e início de 80.

* * *

 

Exílio circular

três meses sem ver tua cara
ando paranoico uma metade na rua e a outra
no canto do quarto
o apartamento cresceu de tamanho, agora a sala tem 40 metros e dois pés de altura
flutuo entre um cômodo busco caminhos
nas barricadas que fiz no corredor
se ela visse como o banheiro está – teria um troço ou nadaríamos até as paredes ruírem
caindo no outro lado do lado que teima não abrir

três meses e sonho com dentes no lóbulo
faço arabescos na parede do meu estômago, ele inda assim não para de doer
sabe que minha caligrafia é ruim para escrever em linha reta
perdoa se escrevo teu nome
torto em um coração de bic vermelha
mas se não fosse desse jeito eu não te abrigaria com esse rude afeto

o frio que anda sentindo nessas estradas me cobre todas as noites
beber teu perfume não foi uma boa ideia
me abdiquei da carne, mas ando mordendo tuas fotografias
tocar-te a distância
o sol é indiferente às coisas que ilumina
: rastejar …….suaviza a serpente …………..uma pele para trás esquece ………….outro deserto :
não cai uma gota de chuva desde que você levou minhas nuvens em sua bolsa peruana
a brisa sopra o que sou, fecho as janelas e os vidros batem a fim de serem quebrados
guardo um dos cacos pra ver em mim a tua imagem
vozes ao longe
: não estou
cada estrela tem a duração do querosene.

§

 

Pongo en tus manos abiertas…

para Víctor Jara
“his hands were gentle, his hands were strong”

acho tuas mãos de terra e sedimentos
enterradas (obtusas e
ósseas) em um palmo de deserto
onde os brutos corroeram tua boca até calarem teu ferrão
resgato a mão esquerda – ainda conserva as unhas
penduradas a fio leve junto à carne
mordiscada algumas vezes – deixada para trás
por uma família de vermes
bichos desses que servem para comer herois
sobras do jantar de domingo antes do futebol

colho a mão direita de dentro de um fundo buraco
em estado decomposto, teus dedos
já nada possuem de tua vida – não poderiam dedilhar nenhum instrumento
que não seja seu próprio tendão exposto –
a canção de teu desaparecimento enquanto homem
em sonho ouviremos
de tua boca nostalgias e rancheiras:
Víctor teus filhos procuram teu paradeiro e eu só tenho
tuas mãos para redimi-los
dez dedos que não podem escrever poemas – dez
dedos que não podem acariciar o rosto de quem amas – dez
dedos na brancura do osso – dez
dedos e a escuridão do corte que separa a comunicação entre tato e corpo –
dez dedos que já não podem com o mundo

“essa noite lá pelas bandas de San Ignacio – um homem foi visto andando à procura de duas mãos que lhe foram arrancadas há quarenta anos.”

terá um indivíduo assim mutilado o direito
de voltar depois de morto?
um viés de vingança e soldo, revogar o que lhe foi tirado
vivo Víctor você estará ou estarei eu com as mãos de outro?
Víctor sem mãos para pedir aos céus
sem mãos para apertar o pescoço – de quem –
mas por baixo da camada morte – tua retidão –
tuas mãos agora inúteis ainda fariam miséria
a qualquer tocador de viola ¬
quem poderá desfazer tuas notas – diapasão inquebrantável –
outrora poderíamos cantar em coro o que só a capela fará
em teu isolamento – figura etérea das noites chilenas –
mesmo que teu fantasma andarilho por aí se perca
a ninguém assombra antes ilumina.

§

 

Estrada do Engenho

Eu fui criado no colo de um preto velho
E suas pernas me embalavam ora
Na harmonia de um acalanto
Ora no cavalgar de mar bravo
Seu sorriso me guardava sob os ombros
Por vezes eu me agarrava em seu pescoço
E olhava seus dentes brancos me servindo de patuá

E assim eu ia
Me escorando em seus braços pensava montes distantes
E voltávamos à África flutuando em seus olhos perdidos
Descobrimos a América no rumorejar do seu canto
Antes que eu aprendesse a falar, ele me ensinou a linguagem dos mitos
Sem abrir um único livro que não fosse seu peito
Nunca faltaram capítulos em suas palavras

E não me lembro de seu nome
Me recordo de como costumava chamá-lo,
Vô, o vô preto dum moleque branco
Com ele fui aos tumbeiros e visitei areias da Bahia
E quando o sol cansava de nos iluminar
Minha mãe chamava lá da porta
– Vô, dá ele aqui! Num deixe ele te incomodar!
– Deixa ele comigo, tá quietinho aqui…
Só ele mais eu sabia
Pensamento é sonho
E gente também

Eu fui criado no colo de um preto velho
E agora que todo passado é pó e ruína
A memória sofre ao voltar
Sinto que protegendo minhas costas ele foi meu orixá
E eu, o seu cavalo
Mas era ele que me levava para ver as coisas do mundo
E esse banzo faz a palavra doer
-Me deixa aqui vô, eu fico quietinho
Eu canto pra ele ouvir.

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