poesia, tradução

Enrique Lihn (1929-1988), por Gilberto Neto

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Enrique Lihn (Santiago, 1929-1988) foi um dos maiores poetas chilenos do século passado. Além de escritor, foi também desenhista e artista gráfico, modalidade através da qual pôde colaborar com o poeta Nicanor Parra e com o cineasta Alejandro Jodorowsky na publicação da collage histórica Quebrantahuesos (1952), que marcou a vida artística chilena à época. Embora seja uma figura de considerável importância para as letras latinoamericanas, não há ainda nenhuma obra do autor traduzida para o português.

Diario de muerte, livro póstumo, foi publicado em 1989 por Pedro Lastra e Adriana Valdés. Vítima de câncer, Lihn escreveu o livro em seus últimos meses de vida, observando atentamente os sinais que a experiência limítrofe da espera pela morte lhe oferecia, da condição de moribundo, de cujo sentido foi capaz de extrair tanto a amargura quanto o humor.

No caso de alguns poemas que não continham indicação de título, os editores optaram por identificá-los por suas palavras iniciais e entre colchetes.

Sobre o tradutor: Gilberto Clementino Neto (Olinda, 1988) é poeta e doutorando em Teoria da Literatura pela UFPE.

* * *

 

Buenas noches, Aquiles

Ahora sí que te dimos en el talón
La muerte de la que huyas
Correrá acompasadamente a tu lado

Buenas noches, Aquiles

Boa noite, Aquiles

Agora sim que te acertamos o calcanhar
A morte de que fujas
Correrá compassadamente ao teu lado

Boa noite, Aquiles

§

 

Hay sólo dos países

Hay sólo dos países: el de los sanos y el de los enfermos
por un tiempo se puede gozar de doble nacionalidad
pero, a la larga, eso no tiene sentido
Duele separarse, poco a poco, de los sanos a quienes
seguiremos unidos, hasta la muerte
separadamente unidos
Con los enfermos cabe una creciente complicidad
que en nada se parece a la amistad o el amor
(esas mitologías que dan sus últimos frutos
a unos pasos del hacha)
Empezamos a enviar y recibir mensajes de nuestros verdaderos
                                                                                         /conciudadanos
una palabra de aliento
un folleto sobre el cáncer

Há somente dois países

Há somente dois países: o dos sãos e o dos enfermos
por um tempo se pode gozar de dupla nacionalidade
mas, a longo prazo, isso não tem sentido
Dói separar-se, pouco a pouco, dos sãos a quem
seguiremos unidos, até a morte
separadamente unidos
Com os doentes cabe uma crescente cumplicidade
que em nada se parece à amizade ou ao amor
(essas mitologias que dão seus últimos frutos
a uns passos do machado)
Começamos a enviar e receber mensagens de nossos verdadeiros
/concidadãos
uma palavra de alento
um folheto sobre o câncer

§

 

[Únicamente los muertos no piensan…]

Únicamente los muertos no piensan que trabajan
ni piensan que no piensan ni antitrabajan
llegan a ese nirvana
a través del azar o con el error
de los iniciados
en las antípodas de la sabiduría
Su último destino es, en cualquier caso, el mismo

[Unicamente os mortos não pensam…]

Unicamente os mortos não pensam que trabalham
nem pensam que não pensam nem antitrabalham
chegam a esse nirvana
através do azar ou com o erro
dos iniciados
nas antípodas da sabedoria
Seu último destino é, em qualquer caso, o mesmo

§

 

La mano artificial

Es una mano artificial la que trajo
papel y lápiz en el bolso del desahuciado
No va a escribir Contra la muerte, ni El arte de morir
¡felices escrituras! No va a firmar un decreto
de excepción que lo devuelva a la vida.
Mueve su mano ortopédica como un imbécil que jugara
con una piedra o un pedazo de palo
y el papel se llena de signos como un hueso de hormigas

A mão artificial

É uma mão artificial a que trouxe
papel e lápis na bolsa do despejado
Não vai escrever Contra a morte, nem A arte de morrer
felizes escrituras! Não vai firmar um decreto
de exceção que o devolva à vida.
Move sua mão ortopédica como um imbecil que brincasse
com uma pedra ou um pedaço de pau
e o papel se enche de signos como um osso de formigas

§

 

[Estoy tratando de creer…]

Estoy tratando de creer que creo
no es el mejor punto de partida
pero al menos dudo de mi escepticismo
como de una racionalidad sin antecedentes
no ha sido para mí, en su larga trayectoria
un particular motivo de orgullo

Creer pero lo más lejos posible
de la Iglesia católica y romana
a años luz del superpapa

[Estou tratando de crer…]

Estou tratando de crer que creio
não é o melhor ponto de partida
mas ao menos duvido do meu ceticismo
como de uma racionalidade sem antecedentes
não tem sido para mim, em sua longa trajetória
um motivo particular de orgulho

Crer mas o mais longe possível
da Igreja católica e romana
a anos luz do superpapa

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